28/09/09

Em frente é o caminho

Vamos lá fingir que isto é a sério; houve uma eleição, o povo votou (60% dele, 60) e deu mais algum tempo ao político com o discurso mais vazio da política portuguesa. Sócrates não sabe o que é ideologia, não tem uma estratégia a longo prazo, vive para ser amado. Mas o povo gosta de McDonalds e de Sócrates e de Santana Lopes, e sempre gostou de Portas, quando ele andava pelas feiras ou a comprar submarinos, mais agora que decidiu eleger como principal bandeira do CDS o combate ao rendimento social de inserção. O povo gosta dele porque o povo não é parvo? Não, o povo é preconceituoso, diz mal do cigano que recebe do estado e do vizinho que está há um ano em casa; o povo tem pouco e quer que os outros tenham ainda menos. Por isso, votou Portas. A onda será breve, acredito, porque o centrão não gosta do populismo, venha ele de onde vier. Durará o tempo que durar o governo de coligação com Sócrates. Escrevo Sócrates porque o PS neste momento é Sócrates - Alegre espera que o apoiem na missão presidencial e vai-se calar bem caladinho se a coligação for para a frente. Seguindo em frente então, que Cavaco amanhã dirá se foi ou não escutado, e decidirá se há governo ou não, e de certeza que Sócrates já tem preparada a pele de cordeiro que irá usar durante os próximos tempos; não quatro anos, nunca, até às próximas eleições e ao regresso de um Messias qualquer que salve o PSD da obsolescência.
Mas se não fosse a sério, pensaríamos: coisa estranha que aconteceu aos líderes dos partidos no momento do discurso da vitória; eles, que se apressam sempre a lamentar os números da abstenção e o desinteresse geral dos portugueses, esqueceram-se de referir a ausência de 4 milhões. Ausência ou presença absoluta? O regime que nos tem governado faz por esquecer estes descontentes, mas, mais tarde ou mais cedo, o seu peso será insustentável.

24/09/09

Tarantinesco (2)


O pathos, obrigatória conclusão de qualquer grande tragédia, em Sacanas sem Lei, aparece numa cena cómica, e isso diz tudo acerca das intenções de Tarantino. Existe um esvaziar de tensão na cena da conversa entre Landa e os basterds americanos, e o cómico da situação (há muito que não me ria tanto num filme) vem não tanto da piada em si - a total falta de aptidão dos americanos para as línguas estrangeiras é um tema abundantemente glosado - mas do modo como Tarantino gere a tensão interna da obra: no momento em que o plano pode ser descoberto, e tudo tem de funcionar na perfeição, percebemos como não há a mínima hipótese de o grupo de sabotadores conseguir ter êxito.
Ora, é evidente que, ao longo de toda a obra de Tarantino, as imagens nascem das palavras; são os diálogos que sustentam a narrativa e a punchline certa é o maná que o realizador procura a cada momento. Como numa comédia, mesmo que exista uma forçada necessidade de gravidade, talvez porque a crítica não se tem cansado de repetir, desde Cães Danados, que o génio de Tarantino precisa de um filme sério para se tornar imortal (como se, por exemplo, Some Like it Hot não fosse um filme sério).
O que resta, então? Algumas sequências que emulam os clássicos, discretamente dissimuladas por entre camadas de auto-ironia e diálogos delirantes: a cena, em Jackie Brown, da execução por Samuel L. Jackson do traficante (Chris Tucker) é uma homenagem ao Orson Welles da abertura de Touch of Evil, e em Basterds há a tal porta aberta para o horizonte que sinaliza a aproximação a John Ford, um pastiche quase vergonhoso (como se fosse um spoof) ao mestre do western.
Entre esta pressão de gravidade que alguma crítica impõe e o assumir do cómico como género preferencial, o indesmentível génio de Tarantino vai-se emaranhando. Talvez ele nem se importe com isto -mas parece que ficou aborrecido por não ter recebido a segunda Palma de Ouro. O primeiro prémio em Cannes, recebido por Pulp Fiction, é sinal da alguma coisa: o maníaco descontrolo metaficcional e xunga é o território onde o cineasta se sente mais à vontade. Chega de querer fazer uma obra-prima. O mais provável é já ter conseguido o feito.

18/09/09

Tarantinesco

Se algum defeito se pode encontrar nos filmes de Tarantino é o de padecerem de um défice de emoção. Desde Cães Danados que o realizador vem fabricando perfeitos exercícios formais, ensaios pós-modernos, bulímicos e auto-irónicos, festins virtuosos e exibicionistas para cinéfilos mais ou menos reticentes. A verdade é que, ao sucesso crítico mais ou menos unânime, Tarantino tem juntado a aclamação do grande público. Todos os ingredientes que agradam ao gosto geral estão lá: a violência gráfica caricatural, as citações pop, a recuperação de actores que foram de alguma maneira ícones xunga recentes. À superfície, os filmes de Tarantino são bombons comerciais para serem degustados por toda a gente - e têm-no sido, com a surpreendente excepção de À Prova de Morte, que talvez não tenha tido o mesmo êxito por ter um sabor ainda mais exótico do que as restantes obras; mas as segundas e terceiras leituras que os filmes podem ter levam a que o resto do público (aquele que tem, ou julga ter, as armas certas para a descodificação de um cinema mais exigente) se renda. É claro que o snobismo destes cinéfilos desconfia da popularidade do realizador; mas a frieza cerebral, o modo como Tarantino gere as remissões para outras obras e a destreza técnica insuperável que demonstra em cada plano de cada filme (no fundo, ele é comprovadamente um génio), acaba por desarmar as eventuais perplexidades críticas deste grupo. E o pleno é quase conseguido. Mas... a verdade é que tanto fogo-de-artifício, tanta exuberância formal, acaba por esvaziar os filmes daquilo que, julgo, é a essência do cinema: a emoção. Como Brian de Palma e Copolla, Sergio Leone e John Ford, Tarantino acaba por perder o combate com o outro grande realizador da actualidade, David Lynch. E porquê?

(continua)

11/09/09

Sinédoque, Nova Iorque (2)

Tanta ambição de Charlie Kaufman acaba por ser submetida ao espartilho da sua inexperiência. E o principal problema do filme é mesmo o facto de Kaufman não ter sabido encontrar um imaginário visual que espelhasse na perfeição o delírio do argumento. A ideia de um teatro onde é encenada uma vida (ou várias), não sendo nova, poderia sempre ser desenvolvida de um modo original (parece-me); mas os caminhos que o argumento segue - são sempre as palavras a escolher as imagens e não o contrário - perdem-se num horizonte confuso e estéril. O cenário gigantesco escolhido pelo encenador para pôr em andamento a representação do tempo da sua existência (a substituição do todo pela parte, a sinédoque do título), comparado por exemplo com aquele montado num filme com algumas parecenças com este, The Truman Show, é de uma eficácia reduzida. Os espelhos que se multiplicam - como num quadro de Magritte - vão perdendo o brilho e a capacidade de reflectir a realidade; à medida que o filme vai avançando - e o tempo vai passando, no ecrã e cá fora - vamos perdendo de vista as personagens. E seria este o objectivo de Kaufman. Mas o esforço intelectual do realizador deixa de parte algum risco, instinto. A loucura é controlada, e não chega a ser dado o salto, o golpe de asa, para que o filme seja grande. Talvez o objectivo de Kaufman seja reproduzir em filme a sensação de opacidade baça que cobre o quotidiano, a passagem dos dias. O problema é que o cinema depende do movimento, da mudança, do drama. Caso contrário, é apenas um longo e culpado bocejo.

08/09/09

Poppy

O Pedro Mexia também serve para estas coisas: lembrar as melhores linhas do filme mais subvalorizado do ano passado. Obrigado pelo regresso.

HELEN: But you want a baby, though, don’t you, Poppy? (…)
POPPY: Maybe. Who knows?
HELEN: At thirty-five, you’re considered a high-risk mum.
POPPY: Oh, give me a chance - I’ve just turned thirty!
HELEN: It’s only five years away. You’ve got to make plans.
POPPY: What, Five-Year Plan? Like Stalin?

(Se fosse preciso escolher o nome mais adequado a uma personagem da história do cinema, Poppy levaria sempre o meu voto.)

03/09/09

Sinédoque, Nova Iorque

Os argumentos de Charlie Kaufman e a sua ostensiva genialidade têm tido, até agora, justas transposições para o grande ecrã, com maior ou menor originalidade. À simplicidade visual de Spike Jonze, quase naturalista, opôs-se o delírio cromático de Michel Gondry. Mas a eficácia destes dois realizadores tem sido notória. E é verdade que Gondry sem as palavras de Kaufman é vazio e desarticulado: basta comparar a energia romântica que anima Eternal Sunshine of the Spotless Mind com as peças soltas de que é feito A Ciência dos Sonhos; há uma ausência notória de continuidade no fio narrativo.
Sinédoque, Nova Iorque consegue mostrar de que modo se articula a relação entre palavras e imagens nos filmes idealizados por Kaufman. A sua primeira realização mostra todas as virtudes que lhe conhecíamos: a estilização de um quotidiano delirante, a criação de personagens bizarras presas numa normalidade sufocante, o labor certeiro na criação de um mundo que é apenas uma consequência da vontade das personagens, a representação de uma ideia. O exterior é o cenário de um sonho: a cabeça de John Malkovich, a esquizofrenia de Kaufman, ele próprio, em Inadaptado, a memória perdida e reencontrada de Joel e Clementine em Eternal Sunshine. Sinédoque, Nova Iorque vai mais longe na fórmula: a realidade sonhada não é apenas alternativa à realidade real, torna-se ela própria realidade: a peça encenada por Caden (Philipp Seymour Hoffman estranhamente adormecido) vai tomando conta da vida até ser a própria vida, como é escrito por Shakespeare, em As You Like It:

All the world's a stage,
And all the men and women merely players;
They have their exits and their entrances;
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages. At first the infant,
Mewling and puking in the nurse's arms;
And then the whining school-boy, with his satchel
And shining morning face, creeping like snail
Unwillingly to school. And then the lover,
Sighing like furnace, with a woeful ballad
Made to his mistress' brow. Then a soldier,
Full of strange oaths, and bearded like the pard,
Jealous in honour, sudden and quick in quarrel,
Seeking the bubble reputation
Even in the cannon's mouth. And then the justice,
In fair round belly with good capon lin'd,
With eyes severe and beard of formal cut,
Full of wise saws and modern instances;
And so he plays his part. The sixth age shifts
Into the lean and slipper'd pantaloon,
With spectacles on nose and pouch on side;
His youthful hose, well sav'd, a world too wide
For his shrunk shank; and his big manly voice,
Turning again toward childish treble, pipes
And whistles in his sound. Last scene of all,
That ends this strange eventful history,
Is second childishness and mere oblivion;
Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything.

(continua)

02/09/09

Jean

Andei de rua em rua, à procura. Tinha decorado os lugares no mapa, mas acabo por nunca decorar realmente nada. No cemitério de Montparnasse, mais um dia de turismo necrológico - Paris parece servir também para isso. Sartre muito bem composto ao lado de Simone, alguns (poucos) papéis com dedicatórias e beijos, Gainsbourg deitado em eterno repouso, campa coberta de flores, cigarros, alguns charros, poemas amarrotados e lábios de batôn desenhados no mármore frio, Gainsbourg destacando-se dos restantes mortos.
Por acaso, deparo no mapa com um nome, primeiro: Paul Belmondo. Paul Belmondo? Não, não, o actor está bem vivo, é o pai, escultor. Certo. E Jean Seberg, a americana exilada, a americana em Paris que tem feito sonhar gerações de cinéfilos. A americana paranóica, descobri numa notícia recente, que acreditava ser perseguida pela CIA. A mulher de Romain Gary, a Joana d'Arc esquecida de Preminger. Apesar de ter trabalhado com Godard apenas em O Acossado, ela é, mais do que Anna Karina, o rosto da Nouvelle Vague. A estudante americana que vende jornais nos Champs-Élysées, naquela rua. Passei pelo número indicado e não a vi, avancei, retrocedi e, absolutamente discreta, lá estava ela. Pedra nua, despojada, sem oferendas ou cartas de amor. Nem flores; algumas pedrinhas apenas sublinhavam um qualquer legado transcendente para quem não soubesse quem foi Jean Seberg.
Morreu a 30 de Agosto de 1979, em Paris.
Mas eu não a encontrei lá.