Um país de sombra
[Sérgio Lavos]
Etiquetas: Mentalidades, Política
Etiquetas: Mentalidades, Política
Etiquetas: Mentalidades, Política
Não me parece ser difícil chegar a uma conclusão: que mais vale viver mal em liberdade do que bem em ditadura. Bem sei que haverá quem não concorde, quem sonhe com um passado em que privilégios e direitos se confundiam, um passado longínquo no qual a manutenção de um estatuto era a única razão para a mudança. Quem suspira pelas criadinhas, o choffeur, a porta aberta e as flores no aniversário, quem lamenta o fim do pudor e o princípio de uma liberdade sexual que conquistou tudo o que havia para conquistar, quem entretém o seu tempo perdendo-se num passado de salões brilhantes e políticos que eram pais da nação, ah, todos estes que foram esmagados pela roda da História, poderia ter pena deles, porque lhes compreendo os sentimentos - a velhice é um cortejo de desilusões, medo e memórias - mas a verdade é que exulto porque são os últimos representantes de um mundo extinto. Nenhuma língua poderá descrever com precisão a sensação de viver em liberdade; esta língua que agora se aproxima apenas se pode usar porque houve uns quantos que se importaram, que recusaram a desistência, que quiseram a mudança, por boas ou más razões, as correctas. Não há derrota que se possa obter que não passe por uma vitória; reclamar contra o 25 de Abril é a principal herança da Revolução. Dizer, falar, escrever. O que somos.Etiquetas: Mentalidades, Política
Etiquetas: Citações
Etiquetas: Migalhas
Não há apenas uma porta de entrada em Uma Segunda Juventude, de Coppola, mas corremos o risco de entrar pela porta errada. A imperfeição do filme poderá ser um obstáculo difícil de transpor, mas mais difícil do que isso será a exigência de um regresso em grande do melhor realizador americano da sua geração.Etiquetas: Cinema

Francis Ford Copolla a brincar aos clássicos. Um filme em estado de suspensão. Da descrença. E, sobretudo, do tempo.Etiquetas: Cinema
Etiquetas: Diário, Literatura
Etiquetas: Música, videografias
Etiquetas: Música, videografias
Quando Fernando Pessoa escreveu “a minha pátria é a língua portuguesa”, já tinha havido uma tentativa séria de estabelecer uma norma linguística, com o consequente controlo, por parte do estado português, dessa norma. Depois desta frase, muitas tentativas foram feitas para que essa norma existisse. Em 1992, foi estabelecido o Acordo Ortográfico para os países de língua portuguesa. Agora, enquanto escrevo este texto, desrespeito o acordo que, em princípio, deveria estabelecer a norma a partir de 2008.
Contudo, não desrespeito a língua. Escrevo em português, e ao escrever produzo uma língua diferente da que falo. Fernando Pessoa, quando escreveu essa frase, que tão bem tem servido os interesses de uma pátria que quase nunca respeita a herança deixada pelos grandes escritores do passado, não teria com certeza em mente esta irreprimível vontade de regular essa coisa volúvel (e como esta palavra se aproxima de volúpia) que é a língua. A pátria de Fernando Pessoa era o instrumento que ele usou para deixar a sua marca no mundo. Criar uma nova língua dentro da língua que antes havia. E se outra prova não houvesse, bastaria o facto de esta, e outras frases, do poeta continuarem a ser repetidas mais de setenta anos depois da sua morte.
Duvido que os belos bastardos da língua portuguesa se interessem minimamente pelo Acordo Ortográfico, com a sua regra e a sua excepção, com as suas supostas vantagens comerciais (onde já chegámos?) desta normalização forçada. Não precisam, usam a língua portuguesa como pátria, e isso é suficiente. Mia Couto, Luandino Vieira, Ondjaki, Rubem Fonseca, tudo o que eles escrevem é prova dura para superar pelos académicos bafientos que querem impor regras gramaticais e ortográficas ao resto do mundo. José Saramago e seu desengonçado flamenco prova que nada é tão rígido que não possa ser dobrado pelos anos de contacto com outra língua – ninguém poderá recusar o enriquecimento estilístico que as derivações cervantinas dos romances mais recentes de Saramago têm trazido. Por mim, escrever tendo em mente a música de outra língua abre o leque, balança o swing das mãos sobre as teclas. Há quem ouça música de negros para escrever; talvez eu precise apenas de derrogar por momentos a autoridade do meu português num longínquo gingar brasileiro para que todo meu pensamento se mova, se contorça, brilhe.
A questão é simples: queremos uma língua pura ou uma língua mestiça? A resposta é um pouco mais complexa do que poderia aparentar. O Acordo visa normalizar a mestiçagem da língua. E isso, parece-me bem claro, é um paradoxo. Nenhuma norma poderá obrigar um português a escrever como um brasileiro ou um angolano, e vice-versa. A mestiçagem é um fenómeno livre, o cruzamento de influências um fluxo libertário que não deve ser constrangido. Ao defender isto, não colocamos em causa a existência de uma gramática. Ela existe, é verdade, e deverá existir, sobretudo para não ser respeitada. A tradição literária contemporânea vive disto mesmo. O uso de coloquialismos, calão, gíria de bandidos, é traço comum em muitos autores brasileiros actuais e começa a ser também em alguma literatura portuguesa. A inovação passa por aqui; e mesmo que continuemos a admirar o divino português do Padre António Vieira, as duas coisas não são incompatíveis: basta pensar nos diálogos nos filmes de João César Monteiro para se perceber isto.
A única posição esteticamente correcta nesta questão é esta: promover uma gramática comum a todos os países de língua portuguesa na esperança de que esta seja continuamente desrespeitada por quem escreve e fala, contribuindo deste modo para que a língua portuguesa seja uma coisa viva, em permanente evolução, como qualquer língua deve ser. Se esta posição for a que vingar, não se duvide de que será o único modo de combater o predomínio da língua inglesa no actual mundo globalizado.
[Sérgio Lavos]
Etiquetas: Literatura
Quando, a determinada altura, o entrevistador pergunta a Luiz Pacheco se valeu a pena, ele responde:Etiquetas: Literatura
Descontando os eventuais méritos políticos de Nicholas Sarkozy, anda por aí gente entusiasmada por ele ter, sejamos claros e javardos, engatado uma gaja irrepreensivelmente boa, a Bruni, de primeiro nome Carla. Faz-me pena ver a inveja desta gente, e faz-me pena também ver o político que atiçou meio país com uma afirmação de calculada piromania (a "rocaille") fotografado em tudo quanto é jornal e revista cor-de-rosa e jornal e revista menos cor-de-rosa (no Libération, é semana sim, semana também), acompanhando de uma mulher que, claramente, não é do seu campeonato.Etiquetas: Política
Etiquetas: Literatura