Isto foi assim, uma história como outras, invariáveis outras, os quatro encontram-se e decidem formar uma banda, viviam-se os anos de ferro de Thatcher, a idade do reencontro no tempo do desencanto, e já se sabe, Manchester é uma cidade cinzenta, negra de tão cinzenta, imagino assim que os quatro se juntam e se divertem a tocar, e Stephen Patrick Morrissey, descendente directo, como sabemos, de Oscar Wilde, julga que o palco a que Wilde não teve direito estará definitivamente ao seu alcance. Nem tudo é perfeito. A persona que se passeia pela cidade exibindo em doses iguais tristeza e cinismo estará mais protegida do que os seus companheiros, pensam, mas não, talvez devaneie, amigos, afirmou o outro génio que calhou em sorte a Mike Joyce e Andy Rourke - em favor dos dois, elogie-se aqui a competência acima da média no acompanhamento dos dois fora-da-lei humana residentes - e dizia que Marr continua a reafirmar a amizade que unia a banda durante os anos de percurso em conjunto, Morrissey durante muito tempo renegou o legado, mas, enfim, alguém achará que a carreira dele a solo alguma vez se aproximou sequer do brilho dos Smiths? Dizia que era assim, por exemplo podia acontecer, numa noite Marr à guitarra compor duas ou três músicas, entregar a cassete a Morrissey e no dia seguinte este ter prontas as letras, repito, dois dias, não vale a pena insistir no espanto, corro o risco de me repetir. Quem ache que o êxito depende dos tais 99% de transpiração depressa devia ter uma conversinha com os seus deuses. Isto é, alguém duvidará da desprendimento de Marr e Morrissey escrevendo para as estrelas? Não o sabiam, no máximo desconfiavam, um bom músico é, antes de mais, um bom ouvinte. Wilde intuía qualquer coisa, mas a dúvida nunca se dissipou completamente, talvez tivesse estado muito perto (Cemetry Gates é uma daquelas músicas... vibra tão fundo que quase se aproxima do silêncio puro) quando finalmente morreu de despeito em Paris, a fama de que se vira privado de um dia para o outro era um sinal para o futuro, depois do seu desaparecimento. Kafka, e este nem sei porque é chamado à contenda, passou pela vida achando que o fracasso era uma segunda pele que teria de carregar até morrer, não poderia saber o que veio depois. Mas de que falo? Dos criadores, quando deveria falar da obra? Pois se é apenas ela que sobrevive, apenas ela que pode aspirar à ilusão de eternidade? (The Boy With the Thorn..., guitarra tão clara desbravando o caminho de sombra que as palavras de Morrissey semeam.) Talvez quem não tenha passado por aquela época não devesse ter o direito de se emocionar de forma tão patética como eu o faço, o choradinho da pop é chão que deu uvas, mas o que o tempo tem instigado na minha coluna vertebral é a clara noção de belo nas sua múltiplas manifestações. Os amigos alguns anos depois zangaram-se. Como deve ser, quando se trata de música pop. A brevidade da beleza é o seu mais decisivo atributo. Para o resto já temos aí a vida.
O melhor filme em meses, fazendo esquecer a sucessão de desilusões oscarizáveis a que assisti nos últimos tempos. Elegância e romantismo na evocação de um tempo e espaço fascinantes, Shangai pouco antes da invasão japonesa, em 1937. Juntando a isto um argumento de Kazuo Ishiguro, o escritor da discrição e da subtileza emocional, e temos o melhor filme de James Ivory desde "Os Despojos do Dia". A sequência que evoca os primórdios do cinema, quando a filha da condessa espreita por um cinematógrafo rudimentar, é comovente."Nascido em comunhão com a terra, os meus conhecimentos da natureza são práticos. Diferencio um carvalho dum castanheiro, um macho dum cavalo; sei que a rama da batata não cresce alta como a do tomate; que o voo da pomba é silencioso e o da perdiz barulhento. Mas de vez em quando tenho inveja dos que sabem o nome e os detalhes das plantas, das flores, das árvores; dos que distinguem pelo pio ou pela pena a espécie dos pássaros.
O meu receio, porém, é de que, pelo menos nesse particular, a um aumento do saber corresponda uma diminuição do sentimento. Eu não sei se se continua a olhar com alegria ingénua para a giesta em flor quando se lhe chama Genista lydia, se lhe conhece a genealogia e se estudou a composição química do solo em que ela melhor se desenvolve."
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Há quem passe uma vida inteira tentando perceber a razão do esquecimento de Deus, matutando no génio a que não consegue aceder, aplicando fervorosamente as regras a que são sujeitos os outros mortais, aqueles onde não habita já a cinza da centelha original. Os esforçados, os laboriosos, os funcionários aplicados nas suas tarefas corriqueiras sonhando obter algum dia o reconhecimento dos que com eles suportam o fardo da injustiça divina. E depois, há os outros. Os que ostentam o génio que um bastardo qualquer decidiu distribuir de forma aleatória, esquecendo a maioria invejosa e frustrada que apenas existe como carne para canhão, massa de indivíduos banais que serve como balanço dos extraordinários, ou simplesmente como turba adoradora que se limita a assinalar o génio dos escolhidos. E estes, quase sempre, estão a leste de tudo, ignoram olimpicamente a genialidade e passam pela vida naquele limite perigoso entre razão e loucura, a fronteira entre a iluminação e a alienação. E depois, há os outros. Os que, além de terem caído nas boas-graças da Providência Divina, ainda gozam com o resto de nós, gritando ao mundo a puta da injustiça de que fomos alvo recorrendo aquilo a que o comum mortal chama arrogância mas a que se deveria chamar simplesmente de assentimento, um reconhecimento do fardo a que o génio está sujeito. E enquanto escrevo isto, é um acaso que esteja a ouvir os Stone Roses, incluindo "I wanna be adored", perfeita geometria musical onde tudo parece ter sido forjado de maneira a imitar um qualquer arquétipo inacessível, com a ressalva da cópia ser ainda mais perfeita do que o original. Aplicando uma expressão prosaica a esta canção, tudo parece existir no espaço e tempo exactos. Aquele início com uma reverberação sónica em crescendo, o baixo de Mani a entrar, a primeira guitarra, a segunda, como água assomando, a bateria de Reni primeiro discreta e reassumindo um protagonismo quando a guitarra de John Squire o decide acompanhar, até que entra a voz de Ian Brown, o ritmo muda, recua, acelera, varia, o baixo contínuo com a bateria saltando de variação em variação, o refrão, guitarras em uníssono, solo, Ian Brown calado - um achado, o refrão ser apenas instrumental - o recuo da vaga, o regresso aos tons mais baixos, a repetição de Brown "I wanna be adored" até que o solo de Squire volta e de repente pára. Tudo no sítio. É isto.Etiquetas: Música
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A festa na aldeia de Hollywood terá lugar hoje à noite, e apetece-me falar de cinema. A festa em Hollywood é hoje à noite e, uma vez mais, não vi mais de metade dos candidatos ao óscar. Não irei assistir à cerimónia pela TVI por duas razões, uma verdadeira e a outra pura invenção: arrepia-me a perspectiva de ver Jon Stewart com um comentador português papagueando por cima das suas tiradas, e amanhã, como qualquer bom suburbano, levanto-me cedo. Houve um tempo em que podia atravessar a noite colado ao televisor, mas nem nessa altura o fiz mais do que duas ou três vezes. Se há coisa de que não abdico é o tempo que passo a dormir. Vou perder alguma coisa importante? Nem se coloca a questão. O que posso ver depois, no compacto do dia seguinte, compensa eventuais perdas. Não ver Jon Stewart em directo, por exemplo (e repito-me). O filme sobre pastores gays irá ganhar? Não me pronuncio. Não vi. O que me suscita alguma preocupação é a insistência da imprensa no epíteto de "filme de cowboys gay" colado à obra. Annie Proulx já explicou numa entrevista, eles apascentam ovelhas. Não vacas. Mas esta moderna invenção, o maravilhoso marketing, dispensa estes pormenores. Há quem queira vender sabonetes, presidentes, outros guerras sob falsos pretextos, e outros ainda querem convencer meio mundo de que o filme é transgressor. Repare-se, a transgressão é vendida bem enfeitada com o slogan da história de amor intemporal. A estratégia não é assim tão discreta. Agrada-se num passo os críticos e contribui-se noutro para o hype, chamando às salas público que de outro modo fugiria a sete pés do filme "gay". A marginalidade entra na corrente de modo imparável. (Os 56 milhões de espectadores provam-no.) Seja como for, Ang Lee é um cineasta estimulante - o filme "A Tempestade de Gelo" foi marcante - e espero ver a fita. Mas o resto pouco tem a ver com cinema. Os filmes que conheço, "Munique" e "Capote" são dois excelentes exemplos de obras oscarizáveis. Ambos esforçados, ambos muito longe do que se pode considerar uma obra-prima. Para acabar de vez com os óscares: em 1958, ano de "A Sede do Mal", "Vertigo" e "Quanto Mais Quente Melhor", três obras que obrigatoriamente farão parte de qualquer lista dos melhores filmes de sempre, ganhou o musical "Gigi", com um recorde de 11 estatuetas. É preciso dizer mais?Etiquetas: Cinema
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