31/10/08

Em boa companhia




Não sou sentimental e muito menos americano, mas senti uma pontinha de emoção ao ver a lista de apoiantes públicos de Barack Obama. De atentar em várias coisas: a lista é incomparavelmente mais extensa do que a de McCain; a ausência de grandes nomes em todas as áreas artísticas do lado de McCain, contrastando com a esmagadora presença de actores e escritores apoiantes de Obama; a quase inexistência de desportistas que apoiem McCain, mostrando duas coisas - a origem social desta classe e, sobretudo, a componente étnica da candidatura de Obama - quase todos os grandes do desporto são afro-americanos. E, último mas não menos importante, a quantidade de mulheres bonitas que dele gostam (em oposição aos true american men destacados por Ricardo Gross, no campo de McCain): Jessica Alba, Halle Berry, Jennifer Aniston, Patricia Arquette, Kirsten Dunst, Heather Graham, Anne Hathaway, etc., etc., etc., e Angelina Jolie e, por último, Scarlett Johansson.
Temos homem? Habemos...

[Sérgio Lavos]

Os dedos

Os dedos são de Lady Chatterley, longe do seu amante, tocando uma pele que ela espera que ainda possa ser tão bela como era antes. As mulheres sofrem a passagem do tempo da maneira mais séria possível: o corpo é o que as distingue, e a beleza é a manifestação de um espírito natural indomável. 
O filme de Pascale Ferran é feminino, feminino, e apenas poderia ter sido criado por uma mulher; a atenção ao pormenor, o corpo usufruido em vislumbres, a intimidade que surge dos grandes planos sobre as coisas que passam despercebidas ao olhar masculino, a atenção dada à linguagem não-verbal, olhos boca, rosto, mãos, a distensão do tempo, a demora do acto sexual, como uma seta apontada ao ponto mais frágil de um homem. Os ruídos que vêm da Natureza, os pássaros, o vento, as folhas restolhando, a luz natural, de noite e de dia; a história de um adultério, de um ponto de vista que a maioria dos homens recusa e quase todas as mulheres querem recusar. 
Afirmar que o filme apenas poderia ter sido realizado por uma mulher não é uma forma de menorização, nem da obra nem das capacidades femininas; é um sublinhar de diferenças, e apenas isto. As mulheres terão plenos direitos quando os homens conseguirem entender perfeitamente a sublimação do seu desejo. Mas então, quando cair o véu, valerá a pena a sedução?

[Sérgio Lavos]

29/10/08

Antes que o Diabo saiba


Quem por gosto corre, não cansa, e deve ser a primeira vez que uso um provérbio no blogue, teria de ser este, porque resume essencialmente a actividade bloguística.
Não vou repisar o assunto - não agora. Lembrei-me da frase a propósito da vontade de escrever sobre determinado tema aqui, na oportuna altura. O cinema é tratado neste blogue desse modo - apenas escrevo sobre o que me apetece, nunca sobre tudo o que vejo, ainda menos sobre o que não gosto. E muitas vezes, não escrevo sobre o que gosto. Vem isto a propósito de uma conversa com o Pedro Sales, pensando num dos melhores filmes deste ano, Antes que o Diabo saiba que morreste, a que votei o meu desprezo ou desatenção. Não foi desatenção, mas a verdade é que o filme saciou-me, e bastou isso. Acontece-me muito; filmes que servem numa bandeja tudo bem composto, evitando que no fim sinta a vontade de petiscar noutro prato. Explicando: apetece-me quase sempre falar de filmes que pensem o cinema, filmes que ofereçam ao espectador a oportunidade de regressar às imagens. Por vezes, saímos da sala de cabeça vazia, e parece que nenhuma corda foi tangida, mas quando estamos à noite em casa, olhando o vazio ou a televisão ligada (o que é quase o mesmo), as imagens, insidiosas, obrigam-nos a tentar entender, gostar de outra maneira, empurrando a mão para o papel ou para o processador de texto mais próximo. 
O filme de Sidney Lumet, exercício estilístico, falsamente experimental, que se apoia no espantoso trabalho dos actores (à boa maneira dos anos 70), termina e a emoção acumulada esvazia-se, deixando pouco espaço ao pós-operatório, digamos; a estrutura é adequada, mas evidente, as histórias evoluem em ritmo de tragédia familiar bem doseada, pathos incluído (a cena de Seymour Hoffman destruindo a intimidade perdida do casal é o coração da obra), e a amoralidade moral que Lumet nos oferece preenche a necessidade básica de qualquer espectador: sair da sala de cinema sentindo-se um ser humano melhor ou mais inteligente. Mas, a meu ver, esgota-se aí.
E pensar depois na razão do esquecimento levou-me a compreender de modo mais completo o filme: a escrita serve, sobretudo, para isto: entender o mundo.

[Sérgio Lavos]

Muro


[Sérgio Lavos]

27/10/08

O ponto de vista


O filme começa assim: um assassino deambulando pelas ruas procura uma vítima - Godard falava num arma e uma mulher para fazer um filme; uma câmara encontra a sua presa, e não é a prostituta que grita no derradeiro momento - é o espectador, que sem dar por isso é colocado no lugar do assassino.
Peeping Tom, na aparência, é um simples catálogo de horrores, ensaio psicanalítico sobre a loucura. Mas, ao contrário de Psycho, de Hitchcock, não há explicação que distancie o louco do espectador. A amoralidade do filme não está nos actos do assassino, mas na simpatia que sentimos por ele - e nisto, o filme de Powell diferencia-se de Laranja Mecânica, com o qual por vezes é comparado. As origens da esquizofrenia - as experiências do pai, cientista - fundamentam a vontade de matar, e desculpam-no aos nossos olhos. O ponto de vista subjectivo é quase sempre o nosso; e a única personagem moral é uma mulher cega, que não morre porque não pode olhar de frente a morte. Nós, que somos voyeuristas, estamos irremediavelmente condenados.
Abençoados sejamos.

[Sérgio Lavos]

24/10/08

To peep

A primeira imagem de Peeping Tom, de Michael Powell, é esta; um olho que nos observa, azul, de mulher, a pele de mulher marcada por sardas - as ruivas, diáfanas, multiplicam-se no filme, confundindo-se e confundindo, um olho que nunca saberemos de quem é. O olho, o buraco, e a lâmina escondida pelo tripé da câmara; o espelho reflectindo o medo da vítima. 
É extraordinário como este filme trouxe a desgraça ao realizador, depois de uma carreira quase gloriosa. Recuperado nos anos 80 por Martin Scorcese, estreou apenas nessa década nos E.U.A. A razão da passagem aos subterrâneos da história do cinema foi, imagine-se, a crítica. Arrasadoras, "inacreditáveis", nas palavras de Scorcese, unânimes, ao que parece, na altura em que estreou em Inglaterra. Na sua autobiografia, Powell cita escrupulosamente os seus detractores e todo o moralismo que eles destilaram na altura: acusado de ser um filme escandaloso, pornográfico, demente, de tudo e mais alguma coisa, terá sido esta uma rara ocasião de testemunhar o delírio total da crítica, incapaz de separar ética e estética, horrorizada com a simpatia que Powell aparenta ter pelo assassino voyeurista interpretado pelo, até aí, anódino actor Karlheinz Böhm (o imperador Francisco José da série de filmes sobre a imperatriz Sissi, com Romy Schneider).
A atitude de Powell, depois de o filme ter sido revalorizado por uma nova geração de realizadores, foi um acto de fria vingança sobre os pobres e esquecidos críticos que arruinaram a sua carreira. Mas a história repete-se; quantos críticos de agora terão noção do real valor das suas palavras? Das suas relativas opiniões?

[Sérgio Lavos]

22/10/08

A banheira

Como uma banheira de porcelana branca
Quando a água quente arrefece e se evapora,
Assim é o lento desvanecer da nossa tempestuosa paixão,
Ó minha mui louvada mas-não-especialmente-satisfatória senhora.

Ezra Pound

versão de

[Sérgio Lavos]

16/10/08

A Faca Corta o Fogo

Por vezes, basta um juízo de valor para espoletar as mais inopinadas razões. Coisas simples, sem importância, vagas opiniões. Foi isso que sucedeu com o meu texto sobre o livro de Herberto Helder, e sinceramente talvez não mereça a atenção que terá tido. Para que se prove este facto, posso dizer que cheguei a começar um texto mais desenvolvido sobre o tema, a que decidi atribuir mais sensato destino: o desaparecimento.

Mas, as coisas simples: como o Henrique Fialho, comecei a gostar de Herberto Helder muito cedo. A sua obra poética, o tijolo comprado na livraria Portugal, no Chiado (lembrar-me do lugar e da circunstância em que comprei a Poesia Toda esclarece sobre a importância que a obra teve em mim), formou não só muito do meu gosto posterior, mas também a escrita; e, principalmente, motivou-me para a escrita (com consequências mais ou menos nefastas). Cada geração terá os seus heróis; a minha é herdeira sobretudo de Al Berto, primeiro, e depois de Herberto Helder. Bastava ler o suplemento DN Jovem nos anos 90 para se perceber isso: as epígrafes repetiam-se de número para número, e eram sempre os mesmos nomes, estes nomes, e também Yeats, Hölderlin, Novalis e o ocasional Nietzsche. Será esta a família de poetas que se dedicam a um registo que João Camilo, simpaticamente, apelida de “porque não te calas?”. A poesia do “absoluto”, e não do absoluto metafísico, antes egocêntrico, a poesia que queima o terreno em redor, (e Herberto, no fim, também nos "deixa sem nada"; simplesmente, o caminho tomado é outro) afirmando-se de forma transcendental não apenas em relação à realidade, mas sobretudo, e no caso que nos interessa, na sua relação com a obra de outros poetas.

O facto de, enquanto leitor, admirar a poesia de Herberto Helder, não evita que a leitura da obra seja feita de modo crítico. O que, no caso de Herberto, é fácil: o trabalho de desbaste que ele tem levado a cabo na sua produção poética tem limpo de todo o joio o tal tijolo que eu, há quinze anos, comprei na livraria Portugal, seria uma bela tarde de Primavera.

Ora, julgo que existe uma certa confusão entre ética e estética, principalmente no texto do Henrique: que o novo livro de Herberto seja tratado como “acontecimento” - no sentido mediático do termo: fenómeno de curta duração empolado por uma corrente de opinião dominante na imprensa – não deve obstar a que exista uma leitura crítica do mesmo. E parece-me que recusar, simplesmente, o burburinho, é um erro, porque Herberto, quer se queira ou não, não é propriamente uma Margarida Rebelo Pinto. Há inéditos de um poeta importantíssimo da segunda metade do século XX a serem publicados, muitos anos depois dos últimos terem saído. Não é importante? Não são importantes, os inéditos? Deixemo-nos ficar por aqui, se é essa a discussão. Não gosto, porque sim, não é razão. Eu poderia deixar aqui as razões pelas quais gosto da poesia de Herberto, mas esse texto, como afirmei ao início, não será publicado. No limite, claro, é uma questão de gosto. O problema é a não-crítica que se tem produzido a propósito de A Faca Não Corta o Fogo, e desta situação são culpados não só os que recusam a predominância de Herberto na poesia portuguesa actual, como também, e principalmente, os admiradores que escrevem para jornais e não quiseram, ou não puderam, enfrentar de forma séria a trabalho crítico a que se dedicam. Daquilo que li, apenas o texto de António Guerreiro, no Expresso, se destaca positivamente. Que não há risco nos suplementos literários dos jornais portugueses, estamos cansados de saber, mas insisto: por que razão é que o Ipsilon, por exemplo, no lugar de ter entregue a recensão a Manuel Gusmão, que, enquanto poeta, claramente pertence à mesma família de Herberto, não o fez a Pedro Mexia, denodadamente distante do autor? E Manuel de Freitas, que, apesar de ter escrito um ensaio sobre o poeta, também se encontra na margem oposta àquela onde Herberto se coloca, não poderia também ele ter escrito uma recensão para o Expresso? O não-criticismo português é assim: as escolhas feitas são sempre as mais fáceis, principalmente no caso das vacas sagradas da cultura portuguesa. Mas até uma vaca sagrada trabalha melhor se for picada, e não me parece que a diversidade crítica seja um aspecto que prejudique a obra criada – já o ego do escritor, não ponho a mão no fogo (sem faca); mas o respeito que uma obra deve merecer bem pode dispensar o uso de paninhos quentes no tratamento das divindades da literatura.

Esta fraqueza da crítica leva a que os aspectos que estabelecem a diferença em relação à anterior produção poética mal tenham sido aflorados nas críticas ao livro. Porque, parece-me, há de facto mudanças, desvios, transgressões, transformações. O hermetismo, palavrão que tantas vezes se usa a propósito de tudo e de nada na poesia de Herberto, deixou de ser uma intenção, um motivo. Nota-se uma respiração diferente, uma abertura, que se evidencia quer no campo lexical, quer no semântico. Há brincadeiras, remissões para a realidade quotidiana, alusões, ensaios num registo mais vernacular, menos “elevado”, que têm de ser considerados. Qual a razão, o que levou ao movimento, quando o mais expectável seria a permanência? É que, lendo a maioria das recensões que foram publicadas, até parece que nada se acrescenta ao universo temático e formal neste novo livro. O tal endeusamento em vida de um escritor, que prejudica a interpretação crítica da obra.

A leitura que João Camilo faz do poema que eu publiquei é correcta, mas não completa. Mas o texto dele levanta questões mais importantes, a que responderei, no seu devido tempo.

[Sérgio Lavos]