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08/05/13

Coisas simples

"Mas naqueles tempos de juventude em Paris eu achava que a alegria era um disparate e uma vulgaridade e, com notável impostura, fingia ler Lautréamont e não parava de incomodar os amigos insinuando a todo o momento que o mundo era triste e que não tardaria a suicidar-me, pois só pensava em estar morto. Até que um dia encontrei Severo Sarduy no La Closerie des Lilas e perguntou-me o que pensava fazer no sábado à noite. «Matar-me», respondi-lhe. «Então fica para sexta», disse Sarduy. (Anos depois ouvi Woody Allen dizer o mesmo e fiquei de boca aberta, Sarduy tinha-se-lhe antecipado.)
A partir daquele dia, incomodei menos os amigos com essa ideia da morte por mão própria, mas durante muito tempo mantive - até Agosto deste ano não estava completamente pulverizada - a minha crença na elegância intrínseca do desespero. Até que descobri como era pouco elegante passear triste, morto e desesperado pelas ruas do nosso bairro de Paris. Compreendi-o este Agosto. E a partir de então a elegância encontro-a na alegria. «Empreendi várias vezes o estudo da metafísica, mas fui interrompido pela felicidade», dizia Macedonio Fernández. Agora penso que não é elegante mas de verdadeiros cataplasmas estar no mundo sem sentir a alegria de viver. Fernando Savater diz que a frase castiça encarar as coisas com filosofia não significa encarar as coisas com resignação, nem tão-pouco com gravidade, mas sim encará-las alegremente. Claro. Bem vistas as coisas, dispomos de toda a eternidade para estarmos desesperados." 

Enrique Vila Matas, Paris Nunca se Acaba, tradução de Jorge Fallorca, editado pela Teorema.

16/04/12

Lisboa, se fosses só três sílabas

"Nunca me apeteceu tão pouco regressar a Lisboa. Já houve épocas em que pensei em ir embora, mas nunca fui, por atavismo, receio, comodismo, mas também por gosto genuíno em viver aqui. Agora, porém, sinto que Lisboa está vista, ou antes, os lisboetas, os comportamentos parecem-me pavlovianos, sem surpresa ou frescura, as amizades foram-se deslassando, a paciência diminui, os constantes «contactos» são agradáveis mas fungíveis, cansei-me de fogachos e decepções, tornei-me mais reticente e recluso, e ainda por cima Lisboa é cada vez menos uma cidade, fecham cinemas, livrarias, cafés, começa a ser indiferente viver aqui ou em qualquer outro sítio, basta uma «ligação» e temos tudo em todo o lado, desta vez nem senti que passei uns dias «fora do mundo», como dantes, a única diferença foi um ambiente mais calmo, mais higiénico, de onde estavam ausentes o darwinismo infrene, o situacionismo degradante, a hostilidade mesquinha. Regressei sem vontade, o que nunca tinha acontecido. Não tenciono ir-me embora, mas pela primeira vez senti que podia ir-me embora, é triste quando a nossa cidade não nos faz falta."
Pedro Mexia.

11/01/12

Os gatos

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem

Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa

Somos intrusos, bárbaros amigáveis,
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos



Manuel António Pina, em Como se Desenha Uma Casa, ed. Assírio & Alvim

20/12/11

recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte


vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer -- vai por esse campo
de crateras extintas -- vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite


deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo -- deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração -- ouve-me


que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna -- o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite


não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira -- não esqueças o ouro
o marfim -- os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

Al Berto, em Horto de Incêndio, ed. Assírio & Alvim. Encontrado aqui.

04/10/11

Ulysses (2)

In long lassoes from the Cock lake the water flowed full, covering greengoldenly lagoons of sand, raising, flowing. My ashplant will float away. I shall wait. No, they will pass on, passing chafing against the low rocks, swirling, passing. Better get this job over quick. Listen: a four-worded wave-speech: seesoo, hrss, rsseeiss, ooos. Vehement breath of waters amid seasnakes, rearing horses, rocks. In cups of rocks it slops: flop, slop, slap: bounded in barrels. And, spent, its speech ceases. It flows purling, widely flowing, floating foampool, flower unfurling.

Pág. 45, ed. Wordsworth.

27/09/11

Abro a porta

Abro a porta.
Tenho cuidado com os vidros partidos.
Olho constantemente para o mapa 
mas já não me lembro para onde queria ir.
Podia ficar aqui,
enquanto a noite respira nas janelas embaciadas.
Os móveis apagam-me os passos
em ângulos cegos
e, nessas sombras do incerto,
deixo que o cansaço me tire a peruca da paciência
assim como a noite nos tira a roupa antes de dormir.


Isolado num cantinho da boca entreaberta,
o teu sorriso
vai contribuindo para o genocídio dos camarões
que o vinho branco torna sempre menos sangrento.
Poderia, de facto, ficar aqui
enquanto desapareces, por fim, num sono sem importância.


Vou esvaziando os copos
e começo a compilar beijos,
como quem junta, à pressa, moedas caídas pelo chão:
somos todas putas, rapaz, 
com ou sem vodka.


Golgona Anghel, em Vim Porque Me Pagavam, edição Mariposa Azual.

16/09/11

Cat people

Curiosa a tribo que formamos, sós
que somos sempre e à noite pardos,
fuzis os olhos, garras como dardos,
mostrando o nosso assanho mais feroz:

quando me ataca o cio eu toda ardo,
e pelos becos faço eco, a voz
esforço, estico e, como outras de nós,
de susto dobro e fico um leopardo

ou ando nas piscinas a rondar -
e perco o pé com ganas sufocantes
de regressar ao sítio que deixei

julgando ser mais fundo do que antes.
A isto assiste a morte, sem contar
as vidas que levei ou já gastei.

Margarida Vale de Gato, em Mulher ao Mar, ed. Mariposa Azual

18/08/11

A Primavera das fotografias

O grande mural fotográfico que adorna a sala do café Les Finances. Representava, nos seus bons tempos, um bosque em pleno verdor. Com os anos a cor foi amarelecendo. A Primavera das fotografias também tem o seu Outono.

Uma prosa apátrida de Julio Ramón Ribeyro para a série "The Hungry Eye", da Maria João Freitas.

25/07/11

Abre-se a onda do poema

Na verdade, é numa espécie de entre-dois, a meio caminho entre a inteligência de um sentido e a sensibilidade às formas verbais, onde se dá a hesitação entre sentido e som, que se abre a onda do poema. Ao solicitar, mais do que a nossa inteligência narrativa, uma compreensão que se poderá dizer "afectiva", o poema lança as suas palavras como outras tantas sondas, em direcção aos fundamentos mais recônditos da nossa presença sensível no mundo. Ele faz vibrar em nós a corda enigmática do tempo, isso mesmo em que se mostra mais inescrutável. E o poema excita também as nervuras mais secretas da nossa habitação corporal e espacial do mundo. Desta forma, não é uma mensagem que ele passa, nem o que quer que seja que possa ser da ordem de um ensinamento doutrinário. Ele não põe ideias em verso; desenha e declina versões de mundos que são outros  tantos esboços de uma outra economia possível da existência - de um outro ethos (morada); o qual seria, no dizer de Mallarmé, mais "autêntico".

Jean-Claude Pinson, in Para Que Serve a Poesia Hoje, ed. Deriva

21/05/11

Ceder

Quando nascemos, alguma divindade marca com uma cruz preta o nosso nome e a partir daí a vida não nos dará tréguas, não encontraremos senão obstáculos, chacota, ciladas, e teremos de suar a mais pequena alegria, remando, lutando contra a corrente, vendo os afortunados a deslizar na margem, de trunfo na mão, e sem nos permitirem a menor distracção, pois é isso que se espera de nós, que cedamos um instante ao desânimo para que a arma penetre até ao cabo.

Julio Ramón Ribeyro, Prosas Apátridas, ed. Ahab.

09/01/11

Figos

A maneira correcta de comer um figo à mesa
É parti-Io em quatro, pegando no pedúnculo,
E abri-Io para dele fazer uma flor de mel, brilhante, rósea, húmida,
desabrochada em quatro espessas pétalas.


Depois põe-se de lado a casca
Que é como um cálice quadrissépalo,
E colhe-se a flor com os lábios.


Mas a maneira vulgar
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne.


Cada fruta tem o seu segredo.
O figo é uma fruta muito secreta.
Quando se vê como desponta direito, sente-se logo que é simbólico:
Parece masculino.
Mas quando se conhece melhor, pensa-se como os romanos que é
uma fruta feminina.


Os italianos apelidam de figo os órgãos sexuais da fêmea:
A fenda, o yoni,
Magnífica via húmida que conduz ao centro.
Enredada,
Inflectida,
Florescendo toda para dentro com suas fibras matriciais;
Com um orifício apenas.


O figo, a ferradura, a flor da abóbora.
Símbolos.


Era uma flor que brotava para dentro, para a matriz;
Agora é uma fruta, a matriz madura.


Foi sempre um segredo.
E assim deveria ser, a fêmea deveria manter-se para sempre
secreta.


Nunca foi evidente, expandida num galho
Como outras flores, numa revelação de pétalas;
Rosa-prateado das flores do pessegueiro, verde vidraria veneziana
das flores da nespereira e da sorveira,
Taças de vinho pouco profundas em curtos caules túmidos,
Clara promessa do paraíso:
Ao espinheiro florido! À Revelação!
A corajosa, a aventurosa rosácea.


Dobrado sobre si mesmo, indizível segredo,
A seiva leitosa que coalha o leite quando se faz a ricotta,
Seiva tão estranhamente impregnando os dedos que afugenta as
próprias cabras;
Dobrado sobre si mesmo, velado como uma mulher muçulmana,
A nudez oculta, a floração para sempre invisível,


Apenas uma estreita via de acesso, cortinas corridas diante da luz;
Figo, fruta do mistério feminino, escondida e intima,
Fruta do Mediterrâneo com tua nudez coberta,
Onde tudo se passa no invisível, floração e fecundação, e maturação
Na intimidade mais profunda, que nenhuns olhos conseguem
devassar
Antes que tudo acabe, e demasiado madura te abras entregando
a alma.


Até que a gota da maturidade exsude,
E o ano chegue ao fim.


O figo guardou muito tempo o seu segredo.
Então abre-se e vê-se o escarlate através da fenda.
E o figo está completo, fechou-se o ano.


Assim morre o figo, revelando o carmesim através da fenda púrpura
Como uma ferida, a exposição do segredo à luz do dia.
Como uma prostituta, a fruta aberta mostra o segredo.


Assim também morrem as mulheres.


Demasiado maduro, esgotou-se o ano,
O ano das nossas mulheres.
Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.
Foi desvendado o segredo.
E em breve tudo estará podre.


Demasiado maduro, esgotou-se o ano das nossas mulheres.


Quando no seu espírito Eva soube que estava nua
Coseu folhas de figueira para si e para o homem.
Sempre estivera nua,
Mas nunca se importara com isso antes da maçã da ciência.


Soube-o no seu espírito, e coseu folhas de figueira.
E desde então as mulheres não pararam de coser.
Agora bordam, não para esconder, mas para adornar o figo aberto.


Têm agora mais que nunca a sua nudez no espírito,
E não hão-de nunca deixar que o esqueçamos.


Agora, o segredo
Tornou-se uma afirmação através dos lábios húmidos e escarlates
Que riem perante a indignação do Senhor.


Pois quê, bom Deus! gritam as mulheres.
Muito tempo guardámos o nosso segredo.
Somos um figo maduro.
Deixa-nos abrir em afirmação.


Elas esquecem que os figos maduros não se ocultam.
Os figos maduros não se ocultam.
Figos branco-mel do Norte, negros figos de entranhas escarlates do Sul.
Os figos maduros não se ocultam, não se ocultam sob nenhum clima.
Que fazer então quando todas as mulheres do mundo se abrirem na
sua afirmação?
Quando os figos abertos se não ocultarem?

D. H. Lawrence, versão de Herberto Helder (incluída em Magias, ed. Assírio & Alvim)

13/10/10

Para quê?

Além disso, para que impedir as pessoas de morrerem se a morte é o termo normal e legítimo para cada um de nós? Que importância tem que um mercador ou um funcionário quaisquer vivam mais cinco ou dez anos? Ora, se considerarmos que o objectivo da medicina consiste em aliviar com panaceias o sofrimento, surge involuntariamente uma pergunta: aliviá-lo para quê? Em primeiro lugar, dizem que o sofrimento leva o homem a atingir a perfeição; em segundo lugar, se a humanidade realmente aprender a aliviar o sofrimento com pastilhas e gotas, abandonará por completo a religião e a filosofia, nas quais tem encontrado até hoje não só protecção para todas as desgraças, como ainda felicidade. Púchkin, no seu leito de morte, passou por sofrimentos atrozes, o pobre do Heine esteve paralisado durante vários anos; por que não hão-de estar doentes um Andrei Efímitch ou uma Matriona Sávichna, cuja vida é fútil e seria completamente vazia como a da amiba, se não fosse o sofrimento? 

Anton Tchékhov, "A Enfermaria nº 6", incluído em Contos de Tchékhov, vol II, ed. Relógio d'Água, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra

24/09/10

Arte poética

Escreve primeiro uma frase
E corta-a aos bocadinhos
Mistura-os e deixa-os ficar
do modo que vão cair
Não tem qualquer importância
A ordem que daí resultar.

Lewis Carroll

03/01/10

O começo de um livro é precioso

À aldeia chamam-lhe Azinhaga, está naquele lugar por assim dizer desde os alvores da nacionalidade (já tinha foral no século décimo terceiro), mas dessa estupenda veterania nada ficou, salvo o rio que lhe passa mesmo ao lado (imagino que desde a criação do mundo), e que, até onde alcançam as minhas poucas luzes, nunca mudou de rumo, embora das suas margens tenha saído um número infinito de vezes. A menos de um quilómetro das últimas casas, para o sul, encontra-se com o Tejo, ao qual (ou a quem, se a licença me é permitida), ajudava, em tempos idos, na medida dos seus limitados caudais, a alagar a lezíria quando as nuvens despejavam cá para baixo as chuvas torrenciais do Inverno e as barragens a montante, pletóricas, congestionadas, eram obrigadas a descarregar o excesso de água acumulada.

José Saramago, em As Pequenas Memórias

24/03/09

Seixos

Embora nos Céus Deus insista
E designe a lei do tempo,
A pintada e a candeliça sabem
Que os ventos sopram como lhes aprouver
Na tempestade ou na tormenta.

Herman Melville, Seixos (I), em Poemas, ed. Assírio & Alvim, trad. Mário Avelar


08/10/08

A Faca Não Corta o Fogo


(...) e escrever poemas cheios de honestidades várias e pequenas digitações gramaticais,
com piscadelas de olho ao «real quotidiano»,
aqui o autor diz: desculpe, sr. dr., mas:
merda!, 1971 - e agora,
mais de trinta anos na cabeça e no mundo,
e não,
não um dr. mas mil drs. de um só reino,
e não se tem paciência para mandar tantas vezes à merda,
oh afastem de mim o reino,
afastem-nos a eles todos,
atirem-lhes aos focinhos o que puderem dela,
sim até se acabar a mirífica montanha,
ó stôr não me foda com essa de história literária,
o stôr passou-se da puta da mona,
a terra extravaza do real feito à imagem da merda,
e então vou-me embora,
quer dizer que falo para outras pessoas,
falo em nome de outra ferida, outra
dor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor,
se alguém puder tocar em alguém oh sim há-de encontrar alguém
em quem toque,
dedos atentos atados à cabeça,
luz,
um punhado de luz,
cada lenço que se ata a própria seda do lenço o desata,
a luz que se desata,
aí é que se ouve a gramática cantada, imagine-se, cantada para sempre sem se ver a quem,
baixo ressoando,
alto ressoando,
mexendo os dedos nas costuras de sangue entre as placas do cabelo rude,
rútilo cabelo e o sangue que suporta tanta rutilação, tanta
beltà, beauty, que beleza! diz-se, fique
aí onde está dr. porque para si já se reservou
um quilo, uma tonelada, desculpe,
estou com pressa,
alguém lá fora dança na floresta devorada,
alguém primeiro escuta depois canta através da floresta devorada,
desculpe dr. mas já desapareci como quem se abisma
num espaço de hélio e labaredas,
eu próprio atravesso o incêndio imitando uma floresta,
fui-me embora pela floresta infravermelha fora,
não estou para essas merdas floresta vermelha fora

(Inédito do novo livro livro de Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo - Súmula & Inédita, edição Assírio & Alvim - e o que dizer do regresso por outro caminho?)

[Sérgio Lavos]

09/09/08

José Vítor Malheiros

Não sei o que possa ser um bom cronista - procurei no dicionário a entrada correspondente e deu em nada. Mas leio nos jornais tanta coisa decorada por uma fotografia mais ou menos debotada do seu autor, que alguma coisa deverei ter aprendido sobre o assunto. Na verdade, compro jornais quase só pelos artigos de opinião e as reportagens; e enquanto que os primeiros abundam, espalhando mediocridade opinativa pelas ruas do país, as segundas começam a escassear, dizem que por razões de economia. Lá saberão os directores dos jornais, e eu não quero perceber por que razão é mais fácil vender o que a concorrência - televisão e internet - também oferece: notícias. Que os bons jornais lá de fora cada vez mais apostem em artigos de fundo não poderá ser apenas coincidência - o Público chegou a publicar há uns tempos um artigo com uma entrevista a um guru dos media que defende ser o esse o futuro, um regresso em força ao novo jornalismo ao estilo da New Yorker e do movimento com o mesmo nome que surgiu nos EUA nos anos cinquenta. Mas o risco deve ser grande - não se vê nenhuma mudança neste sentido.
Enquanto isto, vou lendo as escassas vozes, e entre elas uma tão discreta quanto certeira e clara: José Vítor Malheiros. A sua coluna de hoje, dedicada aos ritmos do tempo moderno, é um exemplo. O estilo, entre o cínico e o sério, cativa desde o primeiro parágrafo; o texto começa por ser sobre as mudanças que vão ocorrendo na sociedade de hoje, e sem darmos por isso vai construindo a sua argumentação de forma subtil, até culminar na sua essência secreta: o silêncio; de Manuela Ferreira Leite, quem mais? Nem me tinha dado conta de que entráramos em território da política; são assim os bons escritores: lançam o laço no momento mais imprevisto. O parágrafo final, apenas para que se prove o que afirmo:

A democracia deve ser também o conhecimento destas tarefas, do ritmo e dos objectivos do trabalho político, porque ele deve ser transparente e possuir uma racionalidade evidente, cujos resultados se inscrevam com sentido na nossa vida. A inexistência desse sentido é um sinal de que a democracia está colada com cuspo. Mas é também um reflexo de uma incompetência dos políticos. Dar visibilidade e racionalidade ao seu trabalho é uma das tarefas de qualquer político. É por isso que a afasia do PSD, o silêncio de Manuela Ferreira Leite ou a banalidade do seu discurso quando finalmente fala é tão lesivo da democracia como as práticas de que acusa com razão governo.

Ninguém disse sobre o não-acontecimento da rentrée social-democrata nada tão sensato e incisivo. Apenas isto. Isto, apenas.

[Sérgio Lavos]

20/07/08

A vida (2)

A noção de proletariado, se a entendermos num sentido mais filosófico, enquanto subjectividade privada das suas condições substanciais, é novamente actual. Esta noção mais abstracta de proletário já não encarna num específico agente colectivo, já não é a classe dos trabalhadores.

Ter sempre um texto de Slavoj Zizek à mão de semear, neste caso em entrevista a António Guerreiro para o Actual do Expresso.

[Sérgio Lavos]

28/05/08

Todas as coisas

É difícil estar simultaneamente de bons termos com Deus e com o baixo-ventre.

Etty Hillesum

25/04/08

Um poema

a manhã sacode os lençóis
sobre metais distraidamente preciosos
pede ajuda ao vento
que ele te joeire o melhor trigo
comê-lo-ás saudando o sol de frente
o rosto cavado a terra benévola
desfere aí o golpe
e não fiques à espera do dilúvio
quem é que não voa
depois de triturada e chupada a medula
para o esquecimento de uma montanha?

Sérgio Pereira, in Istmos e Hordas, edições TOMAHAWK, 1997