Mostrar mensagens com a etiqueta videografias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta videografias. Mostrar todas as mensagens

21/11/09

Smells Like Teen Spirit/Nirvana

Voltei a ouvir Nevermind, alguns anos depois - dois, três - e vou gostando cada vez mais da bateria de David Grohl, e portanto cada vez gosto menos de Bleach, que tem mais raiva mas menos atitude do que os álbuns posteriores dos Nirvana, em parte - grande, grande parte - porque Grohl ainda não fazia parte da banda. Devo dizer que o texto de Vítor Belanciano para o Ípsilon de sexta é dos melhores que eu já li sobre Kurt Cobain, o único lido num jornal - com limite de caracteres incluído - que consegue aproximar-se do que terá sido o fenómeno.
Os Nirvana, são, sobretudo, Nevermind, e Nevermind é, sobretudo, Smells Like Teen Spirit, que é, para além da música, o video, dirigido por Samuel Bayer. Numa altura em que parece que a maior parte dos adolescentes focou os seus interesses em produtos plásticos de terceira categoria, histórias de vampiros e bandas nu-metal requentadas, filmes gore com sangue e violência filmados como se fossem um piquenique de domingo à tarde - estamos tão longe dos filmes de terror com mensagem de Wes Craven ou dos zombies de Romero - é bom lembrar, lágrima saudosista ao canto do olho - a falsa verdade - 4 real, como desenhou a lâmina no braço de Richey "Manic Street Preachers" Edwards - dos Nirvana, os milhões de adolescentes que, durante alguns anos, acreditaram num tipo que não fingia o sofrimento e a rebeldia; o contrário de uma estrela rock, como escreveu Vítor Belanciano, um mártir. Em vão.

15/11/09

When the Deal Goes Down/Bob Dylan

Mencionar Bob Dylan e Mad Men no mesmo texto inevitavelmente leva a que pensemos em When the Deal Goes Down, a música do álbum Modern Times e o video com Scarlett Johansson. Realizada por Bennett Miller (que dirigiu também o filme Capote), a curta é uma homenagem à mesma época em que se passa Mad Men (para além de ser um hino a Scarlett, mas isso é outra história) e a perfeita ilustração da história de amor cantada por Dylan. O recurso ao formato Super 8 - e a ajuda de alguns efeitos que pretendem simular a passagem do tempo no filme - recria o espírito de uma década perdida, uma era de optimismo e beleza eterna, um tempo que agora não passa de uma memória vaga. O video de Miller e a série, apesar de retratarem o mesmo período, são distintos: o primeiro apela à nostalgia, situa-se num presente que procura resgatar um passado irrecuperável; a série é linear, alusiva, pretende ser fiel ao que se passou - vive no passado, cria uma realidade autónoma, que não depende da memória. Há uma representação obsessiva dos pequenos pormenores, hábitos, objectos, situações, marcas culturais que foram deixando de fazer sentido: fumar em público, bater em crianças, ir de comboio da cidade ao subúrbio, etc. Mad Men é o retrato de uma época de homens a quem era permitido mais do que agora e de mulheres que sonhavam ter mais do que o conforto de uma vida burguesa: a vida suburbana que também conhecemos dos livros de Richard Yates, John Cheever, Dorothy Parker, dos quadros de Edward Hopper, do cinema de Douglas Sirk (All That Heaven Allows) ou Todd Haynes (Far From Heaven).
O video para a música de Dylan é um sonho de uma época; Mad Men é a possível realidade, o fim de algo - a revolução hippie estava a chegar.

03/11/09

We Are Your Friends/Justice vs Simian



Um video cool para uma banda que tem tudo para ser cool: são franceses, da área da electrónica, e o seu grande êxito é uma remistura, neste caso do projecto inglês Simian. As batidas são retro qb, sintetizadores analógicos dançantes Daft Punk style e o respectivo refrão a martelar obsessivamente, ou não se produzisse assim um fenómeno das pistas de dança - e foi, em 2006. Mas o que interessa é esta curta, realizada pela dupla Rozan & Schmeltz - a definição de um videoclipe: a montagem acompanha o ritmo da música, arrastado e lento, e ilustra o que se vai cantando. No fundo, a eficácia resulta da coreografia dos actores e da sintonia entre os seus movimentos e o dos objectos que tendem para o caos. Nada a que qualquer grupo de amigos solteiros não esteja habituado, de resto. Um encanto sem grande teoria, como a boa música electrónica deve ser.

18/02/09

Believe/Chemichal Brothers



Realizado por Dom and Nic, dupla responsável por outros videos dos Chemical Brothers, Believe é um breve apontamento sobre a paranóia moderna. Do homem-funcionário ao homem-máquina, um passo apenas; do homem-máquina à loucura, ainda mais curto o caminho.  
A melhor música do último álbum da banda, Push the Button, enriquecida pela voz de Kele Okereke, vocalista dos Bloc Party, já tem, à partida, na sua repetição obsessiva do refrão e no recurso a batidas industriais, de linha de montagem, demarcado o território temático que o video acaba por explorar. Mas o modo como imagens, música e conceitos se complementam é quase perfeito, ao longo de pouco mais de 4 minutos. E o tempo que dura obriga a que se esqueça rapidamente o que se viu, e rapidamente se aceite a sociedade que o video mimetiza. A profundidade da pele, em forma de música pop.

[Sérgio Lavos]

23/01/09

King's Cross/Pet Shop Boys



A incursão de Dereck Jarman, nos anos 80, pela música pop, deixou para a história várias preciosidades videográficas, entre as quais Panic, Ask e The Queen is Dead, realizados para os Smiths, e Rent, It's a Sin e este King's Cross para os Pet Shop Boys. 
Os videos de Jarman oscilam entre a aproximação plástica à pintura clássica, ao estilo de Caravaggio, e a captação realista de ambientes urbanos. O lugar-comum da Inglaterra dos anos 80 como um país cinzento e melancólico deve-se em grande parte aos videos dos Smiths - pelo menos para mim, confesso - e deve andar longe da realidade. Mas o olhar do cineasta compromete sempre a objectividade - o cinema deve servir, no mínimo, para isto mesmo.
Em King's Cross, a câmara vagueia pelos túneis do metro, sem rumo, e depois afasta-se do centro da cidade, em direcção ao campo. O plano subjectivo, de câmara escondida, reforça a solidão da vida urbana; a multidão que corre, que foge, ignora que é vigiada. As imagens reforçam as palavras de Neil Tennant e o tom baixo da canção, distante das euforias dançantes de outros temas da banda inglesa. 
King's Cross é uma estação central em Londres, cruzamento de várias linhas do metro e ponto de chegada de comboios vindos de todo o país. Um lugar de partida e de regresso. A imagem desfocada de uma cidade, ponto de definição. Na última visita à cidade, todos os dias passei por ali. O devir cinematográfico de Jarman consegue evidenciar, na perfeição, o espírito do lugar; e da cidade, no seu todo.

[Sérgio Lavos]

15/11/08

The child/Alex Gopher

 te

A aleatória relação entre significado e significante demonstrada em forma de canção electro-pop: eis o objectivo deste video realizado por H5, a ilustrar uma música de Alex Gopher. Um sample soul e umas batidas lounge, o som está lá, mas o que interessa é o movimento das palavras, o ziguezague das coisas pelas ruas de Nova Iorque, os sons de gente a falar que atribuem consistência à ilusão. Que ligações se estabelecem no nosso cérebro, permitindo que a cidade seja real apesar de nenhuma representação directa do mundo se dar? Serão os objectos símbolos, como o são as palavras, e antes delas, os sons que as compõem? Nomear as coisas é aquilo que lhes permite ter substância. O reconhecimento do mundo não é natural, a linguagem não é uma extensão do mundo; é antes uma continuição da inteligência humana, um atributo que é passado de ser para ser, o código da acesso à consciência humana.
Ou será que este video é de uma simplicidade absoluta e não coloca estas questões que artificializam o que é fácil de entender, instintivo? Aquilo que até uma criança entende?

[Sérgio Lavos]

11/10/08

Sigur Rós/Svefn-g-englar



Agora que a Islândia é ameaçada pela bancarrota e o Inverno se aproxima - a chuva voltou, e a boa disposição matinal com ela - será tempo de regressar aos Sigur Rós, ao fabuloso Aegetis Byrjun, o primeiro álbum. 
É melhor não tentar pronunciar o nome da música, "Svefn-g-englar"; cantarolar também será complicado. A música destes islandeses é para se ouvir deitado na cama, enquanto a vida bate nas persianas corridas. Percorrer paisagens desconhecidas dentro de quatro paredes, permitir que a música flua como a água desabando lá fora. 
Difícil é não cair no lugar comum quando se escreve sobre Sigur Rós - culpado, confesso. Extraordinariamente, o som que a banda produz é tudo menos regular, banal, quotidiano. Assim como os vídeos, nem que seja pela mística paisagem da ilha, pano de fundo ideal para devaneios poéticos e outras fraquezas - basta apontar a câmara às colinas de basalto, à turfa cinzenta, à erva que desponta nas encostas dos vulcões adormecidos. Mas este vídeo, dirigido por August Jacobsson, em colaboração com os próprios elementos da banda, vai mais longe, rasando a fronteira entre beleza pura e o puro mau gosto. A utilização de uma companhia de teatro composta por actores com Síndrome de Down poderia ser arriscada, pelo oportunismo ou coisa pior, mas o resultado final é comovente, pelo menos para gente que tem a corda da sensibilidade bem afinada.
Chuva calma, lá fora. A tempestade acabou.

[Sérgio Lavos]

05/10/08

Björk/All is Full of Love



É impossível analisar a música de Björk (quando escrevo analisar, penso, evidente, em ouvir e sentir) sem ter em mente uma série de imagens que traduzem de forma fiel o espírito da música. A frieza maquinal como via de uma intensidade material, o erotismo panteísta, a confluência entre urbe e campo, entre o sentir da vida moderna e a nostalgia da natureza perdida. Tem sido assim, desde "Human Behaviour" (realizado por Michel Gondry) até à estranha e problemática colaboração da artista com o puritano Lars von Trier, em Dancer in the Dark (retomando o título de uma música de David Bowie). 

As imagens, criadas por outros - sobretudo o mencionado Gondry e Spike Jonze - contribuiram, em grande medida, para a criação de um universo "bjorkiano". Atingir este patamar - a criação de um termo que defina um estado de espírito - é um feito de que muito poucos cineastas, vivos ou mortos, se poderão orgulhar; e Björk, sendo "apenas" criadora de música, consegui-o. Encontrar realizadores que conseguem traduzir em imagens um universo pessoalíssimo é, por isso, a maior qualidade de Björk. Pode haver quem se irrite profundamente com os tiques de diva, as tolices de criança por crescer, os ambientes infantilóides e fofinhos dos videos (os gatinhos de "Triumph of a Heart, dirigido por Jonze, devem ser um cúmulo qualquer neste campo), mas a verdade é que é inegável a coerência e, sobretudo, a presença de um elemento teórico em toda a criação imagética que envolve a produção musical da cantora islandesa.

Mas o melhor video de Björk acaba por ser aquele que recentemente foi eleito pelos espectadores da MTV 2 como o melhor de sempre, e pouco se poderá dizer para contrariar esta escolha. O terceiro mago dos clips musicais, Chris Cunnigham, assina esta maravilha do cinema contemporâneo, cunhando uma marca comparável, em certa medida e sem exagerar, a Matrix, dos irmãos Wachowski. "All is Full of Love" é a história de amor dos nossos tempos: fria e reflexiva, comovente e, acima de tudo, impossível: duas formas femininas, máquinas na linha de montagem, que simulam os gestos humanos do amor - apenas assim ele pode ser definido, pela imitação do movimento. O campo teórico preenche-se de possibilidades, mas nem por isso a música deixa de ser essencial na definição da teoria. A electrónica de Björk, contaminada por simulacros de instrumentos tradicionais, reclama uma emotividade alienígena que chega a ser calorosa - a contradição que espelha os caminhos que iremos escolher no futuro.

[Sérgio Lavos]

21/09/08

Chemical Brothers/Star Guitar



Confesso que demorou a conversão a música que fosse mais electrónica que os sintetizadores dos Nine Inch Nails ou dos Young Gods; mas falamos de há mais de uma década atrás, águas passadas e estagnadas que nunca moveram moinhos. A primeira banda (?) exclusivamente electrónica a que dei a atenção devida foram os Chemical Brothers, e um especialista dirá que comecei quase pelo fim e pelo mais evidente - não há problema. Ser pop não é necessariamente um defeito, e os irmãos químicos nunca deixaram de prezar essa veia na música que fizeram. E ser pop, no caso dos Chemical Brothers, significa entregar os vocais a uma série de gente conhecida, de Noel Galagher a Richard Ashcroft, passando por Wayne Coyne, dos Flaming Lips, tudo gente estimável. Mas mesmo as músicas exclusivamente instrumentais (ou quase), contaminadas pelo big beat ou pelo house por vezes quase europop, são tudo o que o povo quer: delírios épicos em crescendo, psicadelismo que, prolongado por um DJ numa pista de dança ou numa rave, se aproxima perigosamente do trance (Hey, boy, hey girl, por exemplo).
Quem também ajudou foram os realizadores que foram convidados ao longo da carreira do duo para criar os videos. Se Fatboy Slim precisou de um brilhante empurrão de Spike Jonze (em Praise You), os Chemichal Brothers convidaram o melhor de todos, Michel Gondry. Em Let Forever Be, uma brincadeira com espelhos e uma bailarina multiplicada antecipa Being John Malkovich num ritmo sincopado perfeito. Mas o preferido é Star Guitar, tour de force de montagem que representará um cúmulo na arte de casar imagens com música; além disso, com um tema que se adequa à canção, electrónica etérea e planante, de forma perfeita: as viagens de comboio.

[Sérgio Lavos]

08/09/08

House of cards/Radiohead



Um ano depois de ter sido lançado via Internet In Rainbows, é extraído o 5º single, o que acaba por ser indicativo do êxito do álbum. Nada mau para uma banda que decidiu ser original, rompendo com a editora EMI e colocando o seu trabalho à disposição em troca de um valor à escolha dos fãs, que podia ir do zero ao infinito. Eu lá acabei por gastar dez euros digitais, mais dez libras pelo CD alguns meses depois, e da minha parte continuo a achar que ainda não está pago. 
No outro dia, em conversa com amigos, meditava sobre um possível top 5 de bandas e a única facilidade com que me deparei envolvia o primeiro lugar: Radiohead, sem discussão. Vale o que vale, e vale o facto da minha banda preferida ser liderada por um maníaco-depressivo paranóico com um rosto assustadoramente assimétrico. Adiante. Não seria de estranhar, por isso, que eu ache todas as músicas deste álbum potenciais singles. O mais acessível desde OK Computer (mas não o melhor, esse será Amnesiac), letras minimamente, digamos, mentalmente equilibradas, o que é um contra, fragmentos de melodias flutuando numa cápsula espacial vazia. Mais do mesmo, portanto.
Quanto ao vídeo, excelente. A desolação digital no seu esplendor frio e extraterrestre, paisagens naturais e rostos humanos transformados em pontos, linhas e rectas, as dimensões espaciais reduzidas ao que realmente são: um conjunto de nada, quarks animados por uma aleatória vontade. Criado em computador a partir da colocação de pontos sensoriais na matéria (os corpos e a paisagem), dispensando o uso de câmaras ou de luz, será talvez o vídeo que melhor traduz em imagens as sensações transmitidas pela música da banda. Emoções à flor da pele metálica de um andróide depressivo. Eis os Radiohead.
  
[Sérgio Lavos]

07/05/08

The Last Shadow Puppets



The Age of the Understatement

É notório: Alex Turner e Miles Kane andaram mesmo a ouvir Scott Walker. O primeiro vídeo foi realizado por Romain Gavras.
Kiss me properly and pull me apart.

[Susana]

15/04/08

Holy Fuck/Milkshake



Por falar em instrumentais, uma banda de Toronto que podiam ser os !!! sem vocais. Ou então os Green Jelly com mais groove. Bateria, baixo, guitarra, dois sintetizadores analógicos e um vídeo com uma técnica ultrapassada. O álbum, LP, é do ano passado, e o nome que escolheram é quase tão exclamativo quanto os mencionados !!!. Carregar no play e ouvir com atenção. A não perder também a incursão pelo shoegazing electrónico que é a música "Lovely Alien".

[Sérgio Lavos]

07/04/08

Beastie Boys/Off The Grid



A música já é de 2007, mas, em consequência do meu interesse pouco mais do que ameno pela banda em questão, apenas agora se chegou aos meus ouvidos e se fez ouvir. É verdade que comecei a gostar da música porque soa a tudo menos aos punk-rappers, ex-teenagers revoltados com o mundo, os pretos mais brancos do hip-hop e arredores (o Eminem não conta, é um menino). Qualquer coisa de rock progressivo, instrumental, com um baixo a fazer saltar as colunas e um ritmo groovy modernaço, a modos que um cruzamento entre Air e Daft Punk/Chemical Brothers, com um cheirinho Brian Eno vintage - se isto for possível; a guitarra shoegazing é excelente e o som de sintetizador analógico é a perfeita cereja em cima do bolo. Ah, e não sei se disse, mas é instrumental. Talvez a minha música preferida dos Beastie Boys (e perdão, Pedro, se cometo o pecado de gostar tanto dos rapazes como tu gostas do Bob Dylan.)

[Sérgio Lavos]

25/03/08

Protection/Massive Attack



Há sempre um vídeo de Michel Gondry que nos surpreende, de cada vez que o vimos. É inestimável a imaginação do realizador francês, um tesouro precioso que ele tem a boa-vontade de partilhar com os fãs de músicos como White Stripes, Rolling Stones ou Bjork. É pena que a fragmentação criativa que é marca nos vídeos não resulte bem nas longas-metragens (com a excepção de Eternal Sunshine of the Spotless Mind); mas, se pensarmos bem, a riqueza imagética de Gondry, composta de autênticos puzzles freudianos e oníricos, dificilmente se adequa à linguagem do cinema, no qual o tempo e a duração têm de ser, obrigatoriamente, mais importantes que as ideias por metro quadrado. Por outro lado, existem tantas camadas nas curtas de Gondry que estas acabam por facilmente perdurar tanto como os filmes.
Neste vídeo, feito para Protection, dos Massive Attack, o ponto de partida é simples, mas difícil de concretizar: um plano sequência que vai mostrando vários apartamentos de um prédio, os seus habitantes e as diversas actividades que vão acontecendo. O cenário gigantesco tem um ar postiço (chega-se a ver uma rua a abanar, assim como várias partes do prédio), mas a ideia é mesmo essa; no fundo, estamos dentro da cabeça de uma criança ou de um sonho de adulto que não ultrapassou a infância. O livro de Georges Perec, A Vida - Modo de Usar, e a sua metáfora da vida enquanto miniatura manipulável por um coleccionador de puzzles, não terá andado longe dos pensamentos de Gondry quando fazia o vídeo. Mas o que é mais espantoso é a destreza técnica que faz encaixar o real e o sonhado, a banalidade e a súbita intrusão do surreal em cada apartamento. E a dança entre câmara e acção, coordenada ao segundo, até ao fim, mesmo depois da música ter terminado, quando entramos num carro e apenas se ouve o som dos limpa para-brisas na noite chuvosa; o falso silêncio que se segue ao caos - e que espelha o efeito que aparece antes da música começar. O fechar do círculo. Perfeito.

[Sérgio Lavos]

21/03/08

Road to Nowhere/Talking Heads



A sofisticação low tech de realizadores de clips como Spike Jonze ou Michel Gondry teve um percursor em Stephen Johnson. E quem é Stephen Johnson? Eu respondo, com outra pergunta; quem, tendo crescido nos anos 80, não se lembra do vídeo de Sledgehammer, de Peter Gabriel? Pois, é impossível escapar, goste-se ou não do ex-vocalista dos Genesis (o horror, o horror). Ora bem, Stephen Johnson não realizou muito mais vídeos; e, entre eles, o meu preferido é Road to Nowhere, dirigido em parceria com David Byrne.
O trabalho é um compêndio de uma cena artística: as insinuações arty remetem de imediato para uma década, a de 80, e para um local, Nova Iorque. O vanguardismo insinua-se, evocando várias técnicas da arte das décadas anteriores: o estilismo pop à Andy Warhol, o cromatismo da arte de rua, a action painting de Jackson Pollock. Se juntarmos a isto o kitsch dos símbolos norte-americanos - o deserto, as igrejas evangélicas, o gospel - temos um retrato mais ou menos fiel do que poderia ser a América. E, sobretudo, do que poderia ser a ideia que a cena artística de Nova Iorque tinha da América.
E, claro, a música dos Talking Heads; tão desviante e referencial como o vídeo. Por vezes, uma boa ideia é tudo.

[Sérgio Lavos]

20/12/07

Michel Gondry


Há nos videos de Michel Gondry uma vontade de regresso que toca qualquer um agora na casa dos 30, ou prestes a entrar nela. Pode não haver uma identificação completa com os fétiches infantis (nem sempre há paciência para os peluches "qu'iduchos" perseguindo Bjork), mas a verdade é que Gondry consegue mostrar uma criatividade assombrosa na perseguição de uma quimera: um estado de espírito entre sonho e memória de infância (há quem afirme que um e outra não estão assim tão distantes). Nas longas-metragens, o realizador francês conseguiu prolongar o imaginário dos vídeos, consubstanciado na excelente parceria com a imaginação delirante do argumentista Charlie Kaufman, em Eternal Sunshine of the Spotless Mind. Desde a praia de infância até ao mundo visto à escala de uma criança, são várias as imagens marcantes do filme.
As diferenças de escala, a distância entre mundo sonhado e mundo real, a natureza como refúgio das agressões da cidade, as metamorfoses, de criança a adulto, de um objecto noutro, as coreografias de aparência caótica desenhando uma ordem concreta, tudo temas que se reproduzem de video para video. Como neste, um dos meus preferidos, Dead Leaves and the Dirty Ground, dos White Stripes. Ou de como um video pode introduzir uma inovação ao nível da representação de uma ideia cinematográfica. Dois tempos que coincidem, o passado projectado no presente (ou dois presentes existindo simultaneamente), numa solução técnica original que consegue criar uma imagem cristal (duas camadas de tempo sobrepostas) deleuziana. Grande cinema no pequeno écrã: e a música ao nível das imagens.

[Sérgio Lavos]