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07/08/12

Edições DOCUMENTA

Não são muitas as vezes em que os marginais passam a perna às leis do mercado, por isso é de assinalar quando isso acontece.
A Assírio & Alvim (a marca e o catálogo) foi comprada pelo grupo Porto Editora, mas passado pouco tempo surgiu o projecto que acaba por ser a Assírio com outro nome, as Edições Documenta, constituída por quatro chancelas: a Sistema Solar, que publica ficção, a Documenta, dedicada ao ensaio e às artes plásticas, a Pedra Angular (uma marca antiga trazida há algum tempo para este novo grupo editorial), devotada à religião, com o dedo do poeta José Tolentino Mendonça, e os livros de bolso da BI, que tinha começado por ser uma parceria entre três editoras de referência: a Assírio, a Relógio d'Água e a Cotovia. 
Os primeiros títulos publicados mostram a mesma exigência de sempre: boas traduções, grafismo exemplar (próximo da Assírio) e um critério editorial inatacável: os livros escolhidos e apresentados pelo tradutor Aníbal Fernandes são o melhor exemplo deste critério.
Entretanto, a antiga Assírio vai-se perdendo na enxurrada de novidades do grupo a que pertence, nada de novo sai, os livros esgotam sem previsão de reedição. Na prática, já desapareceu a Assírio, tal como tinha previsto aqui. Longa vida à Documenta e a quem continua a fazer da edição um prazer e motivo de alegria; mais, muito mais, do que um negócio.

19/08/11

A minha Assírio

A "parceria" entre a Assírio & Alvim e o grupo Porto Editora marca uma fim de uma era. Aconteça o que acontecer. A editora fundada nos anos 70 não era uma marca, não era um produto; era uma referência. Criou uma identidade. A editora da poesia. A editora de Herberto Helder. A editora da Phala. A editora da colecção de poesia inédita portuguesa, que foi revelando grandes poetas ao longo de várias décadas. A editora de Fernando Pessoa. De Alfredo Saramago. Do Poemário e do Culinário. Da minha Poesia Toda a espreitar ali da estante. Do meu Lunário - e não é d'O Medo porque tenho a edição da desaparecida Contexto. Do meu Bartleby e do meu Tonino Guerra. Do meu Kafka. Do meu Miguel Esteves Cardoso. De Manuel António Pina. O que vai ser dela, agora que foi engolida por um gigante? Como Jonas, sobreviverá dentro da baleia? O comunicado da Porto Editora assegura que se vai manter a autonomia editorial. Mas Manuel Rosa, o continuador de Manuel Hermínio Monteiro (o homem que forjou a alma do projecto), parece que vai sair. E nem passou um ano desde que Vasco Teixeira, o dono do gigante, afirmou numa entrevista que a poesia, a curto prazo, deixará de ser editada - amargas ironias do destino. Temos o bom exemplo da Sextante, também pertencente ao grupo, e que tem sabido manter, pela mão de João Rodrigues (o fundador), a mesma criteriosa qualidade. Tudo muda, tudo se transforma. E o gigantismo pode não ser absolutamente uma doença. Mas saber que a Assírio não era uma "marca" ou uma "chancela", mas sim uma editora, a sério e à antiga, uma força com identidade própria que foi sobrevivendo nas livrarias, era um sinal de conforto num mercado que cada vez mais tem menos que ver com livros e mais com "produtos". 
O uso do pretérito imperfeito poderá ser prematuro. Espero que seja. Porque eu não quero perder a Assírio da poesia. E as coisas que vão desaparecendo são muito mais preciosas do que as que vão nascendo. Tempos de sobressalto, quando valores mais altos do que a poesia se levantam. Tristes tempos.

12/01/11

Poetas

A Maria do Rosário Pedreira (que é uma excelente poeta) tem toda a razão. Mas a questão é esta: o que pode fazer ela, enquanto editora, para mudar este estado de coisas? Será que pertencer a um grande grupo editorial é limitador, sabendo que a Leya tem duas chancelas, a D. Quixote e a Caminho, que continuam a publicar poesia? Diagnosticar é bom; curar seria muito melhor. Ou, pelo menos, tratar.

31/10/09

Ahab edições


Passados dez anos como livreiro, é difícil ser surpreendido - positivamente, pelo menos, já que a imaginação das editoras no que diz respeito ao mau gosto é inesgotável; desde livros com fitinhas, livros vendidos dentro de recipientes de fruta, livros com outros livros, livros com máscaras anti-epidémicas, de tudo um pouco tenho visto. Há casos em que parece que o produto vendido não é o livro, mas a sua oferta. Se a isto juntarmos os verdadeiros crimes cometidos contra bons autores - a título de exemplo, lembro a recente reedição de Ulisses e Retrato do Artista Quando Jovem, pela Difel, ou a nova linha gráfica da Teorema para Italo Calvino - compreende-se o desencanto sentido, que se nota mais nos últimos anos - a concentração editorial empobreceu a diversidade, e a sobrevivência dos projectos que interessam, mantidos por verdadeiros editores e não por burocratas vindos dos cursos de marketing, é bastante precária. Por isso, tenho de ficar contente quando aparecem no mercado estas excepções à mediocridade.
A Ahab edições começa por ter um lema admirável - à semelhança do que acontecia com a Cavalo de Ferro, outra editora arrastada para a lama por razões de pura trafulhice, por alguém que não merece outro epíteto que não seja o de canalha - mas isso é outra triste história. "There are some enterprises in which a careful disorderliness is true method". Fantástica frase, retirada de Moby Dick, e uma escolha de risco para bandeira do projecto. Mas começam muito bem - os primeiros livros publicados são objectos belíssimos, dão vontade de folhear e ler: Pudor e Dignidade, de Dag Solstad, A Ilha, de Giani Stuparich, Pergunta ao Pó, de John Fante. Boas traduções, e no caso de Solstad, isso é óptimo, até para contradizer a história recente - Solstad é noruegês, e pelos vistos há tradutores em Portugal das línguas escandinavas, ao contrário do que indiciava a opção da Oceanos, ao traduzir Stieg Larsson do francês. A tradutora de Stuparich é Margarida Periquito, com trabalho mostrado na Cavalo de Ferro, e Fante é traduzido pelo poeta Rui Pires Cabral, que é também um excelente tradutor - dele li em português Kazuo Ishiguro. Elogie-se o que merece ser elogiado - se aparecessem mais ilhas como esta no meio da corrente de maus livros que diariamente inunda a livraria, o meu trabalho seria um mar de rosas. Para descansar de todos os gatos que passam por lebre.

20/10/09

Extinção


Vamos falar de coisas sérias. Deixemos de parte as distracções que a literatura proporciona - é tão bom amar um autor, é tão bom odiar um autor, e esquecer a obra. Tenho pena que a editora Quasi tenha falido - ou perto disso. Já não deve haver quem duvide de que o aparecimento de grandes grupos editoriais seja prejudicial para o mercado. A Quasi foi importante porque dedicou-se anos a fio a publicar poesia inédita de autores portugueses*. E, contrariando a aura negativa que se foi formando em redor daquele projecto, acho que acertou muito mais do que errou, apenas por ir publicando. Jorge Reis-Sá criou vários anticorpos, mas um editor não precisa de ser unânime no trabalho produzido. O que ele tem para mostrar é um catálogo com dezenas de nomes revelados, alguns bons poetas, outros menos, dois ou três notáveis. Nenhuma editora portuguesa se pode orgulhar de tanto, nos últimos dez anos (e não falo do resto, as traduções e a boa ficção também paridas). A Assírio & Alvim praticamente deixou de publicar novos autores; a colecção Forma, da Presença, é uma memória vaga; a Caminho publicava aqui e ali algum poeta do PCP até ser comprada pela Leya, e desapareceu desta área da edição; a Relógio d'Água também, nitidamente, deixou de publicar poesia, mesmo autores traduzidos, que era uma das marcas da sua política editorial. O que temos, então? O aparecimento de fugazes editores que publicam meia dúzia de livros e desaparecem do mercado, certamente pela intrínseca inviabilidade comercial do género. E o surgimento de novos poetas em semi-edição de autor, como é o caso de Miguel-Manso, por exemplo. Muito pouco.
Vale a pena proteger esta espécie em vias de extinção, a poesia? Bem, esquecendo o facto de a literatura ocidental ter começado com um poema - a Ilíada... na verdade, a principal razão para proteger esta espécie é essa. Defender projectos editoriais que publiquem poesia deveria ser uma causa intocável. Os poetas talvez não precisem de editoras para escrever; haverá sempre alguém que resista à normalização dos costumes. Mas certamente que a poesia devia continuar existir para quem não escreve. A modernidade utilitarista dispensa o uso da inutilidade, e não há coisa mais inútil que um poema - não "distrai", não conta uma história, não ajuda a pessoa. Aceitamos então este avanço em direcção a um risonho futuro sem inutilidades, excrescências de um tempo cuja seta aponta apenas para o futuro? Pergunto novamente: vale a pena defender um ofício inútil contra as investidas da uniformização cultural? Se há pergunta que tem resposta incluída é esta; é lamentável que a poesia se vá tornando um resquício do tempo que passa.

*Não costumo alterar textos publicados no blogue, como é evidente, mas tive de o fazer porque esta frase saiu diferente do que tinha escrito no rascunho inicial. É claro que a Quasi não foi a única editora a publicar novos poetas. Foi a mais importante, sem dúvida. O Dr. Henrique Fialho e o Sr. Fortinbras objectaram esta passagem do texto, por isso corrigi o que estava errado. Quanto ao resto, ficará para outras núpcias.

13/10/09

Humor de risco


Outro exemplo de uma opção editorial esteticamente irrepreensível mas que, do ponto de vista prático, acaba por ser um desastre, é a nova colecção de literatura de humor dirigida por Ricardo Araújo Pereira para a editora Tinta-da-China. Neste momento, esta editora é, de longe, a referência para o sector na área gráfica. O trabalho de Vera Tavares tem sido fantástico, conseguindo estabelecer uma linha gráfica que associamos de imediato à editora, mantendo a individualidade de cada uma das colecções. Os dois títulos agora saídos, Os Cadernos de Pickwick, de Charles Dickens, e Jacques, o Fatalista, de Diderot, são exemplo de um arrojo estético assinalável. Mas ao estilo retro procurado pela designer poder-se-ia ter juntado um mínimo sentido prático, sem perder o ar chique que os livros sem dúvida exibem. O aspecto de livro antigo, sem lombada a proteger os cadernos, que ainda por cima estão unidos por costuras excessivamente frágeis, é um risco. E também não ajuda o facto de capa e contracapa não terem uma película a proteger o cartão de que são feitas. Ao fim de poucos dias na livraria, o papel que cobre esse cartão começou naturalmente a descolar. Dá que pensar na balança entre ganhos e prejuízos, quando os livreiros devolverem o que não se vende. Quantos exemplares estarão, nessa altura, irremediavelmente danificados?

Como não vender um livro

Esta é a capa do livro que reúne textos sobre a obra de Pedro Costa. Um belo objecto gráfico, sem dúvida, mas um conselho: não seria sensato pôr o nome do realizador na capa, um fotograma de um filme, qualquer coisa que fornecesse ao potencial leitor alguma informação sobre o conteúdo do livro? Ou achará o editor que todos os cinéfilos lêem suplementos literários, o mais provável meio de divulgação? Achará ele que o vil comércio conspurca qualquer obra de arte?

01/11/08

Uma Cotovia

Como livreiro, sou obrigado a vender um pouco de tudo, e sei como é praticamente inviável manter uma livraria aberta promovendo apenas aquilo que o nosso gosto aprova. As apostas pessoais que se podem fazer em livrarias especializadas, apesar de serem um mito do mundo livreiro, são, basicamente, um risco, e não há negociante que não tenha de ceder ao mainstream, de maneira a poder vender aquilo que poderá verdadeiramente interessar - vende-se a lúmpen-literatura para se poder apostar na diferença.
E apostar na diferença pode ter resultados bastante satisfatórios. Numa livraria pequena, onde cada cliente que entra é umItálico rosto conhecido, dá para ir sabendo o que as pessoas querem, para além dos best-sellers e do último livro do clube da Oprah. O meu trabalho é também direccionar o cliente para aquilo que eu gosto, e lamento se isto possa parecer presunçoso ou elitista. É claro que não vale a pena tentar vender diamantes a vaqueiros, e garanto que há casos perdidos, dê por onde der - a ideia de que qualquer um poderá, começando por Rebelo Pinto, chegar a ler Pynchon, é uma brincadeira de democratas com a consciência pesada. Mas o meio termo é uma mina: basta colocar os livros nos sítios certos, falar de um romance evidenciando aquilo que as pessoas querem ouvir, e a educação está feita. Uma forma de vender a banha da cobra, com a vantagem de não ser banha, nem cobra. É isto que faz a felicidade de um livreiro.
Vem esta conversa no seguimento da leitura de um pequeno volume que os Livros Cotovia publicaram agora, a propósito dos seus vinte anos, no qual recolhem depoimentos de autores e outros aficionados da casa. No blogue Os Livros Ardem Mal, Luís Quintais já fez o favor de republicar o seu texto, por isso não irei acrescentar muito mais ao que ele afirma. Apenas dizer que a Cotovia, desde que na Feira do Livro apanhei alguns números da revista As Escadas Não têm Degraus e um livro essencial cujo título é de uma beleza resplandecente, Sete Rosas Mais Tarde, de Célan, tornou-se também uma referência, e imaginando a estante (não vou olhar), vejo o Pedro Paixão e o Luís Quintais, Larkin (maior identificação com o nome da editora é difícil) e Daniel Jonas, Martin Amis, E. M. Forster, a Ilíada, até ao mais recente, Um Punhado de Pó, de Evelyn Waugh, que ainda não foi lá parar, e por isso não me sinto nada comprometido por dizer que grande parte do meu percurso de livreiro passei-o a aconselhar (também) livros publicados pela Cotovia. Há outras casas editoriais, de que vou falando no blogue, ou dos autores que elas publicam. Mas o aniversário é da Cotovia. Parabéns. 

[Sérgio Lavos]

09/06/08

NADA 11


Nova NADA:
Editorial impossível, Pedro Peixoto Ferreira & Emerson Feire
Informação e sensação, Emerson Freire
A mente multisensorial, David Howes
A identidade na era de sua reprodutibilidade técnica - Entrevista a Eduardo Viveiros de Castro por Pedro Peixoto Ferreira, Fábio Candotti, Francisco Caminati e Eduardo Duwe
Um fio para o înmõxã: em torno de uma estética maxakali, Rosângela Pereira de Tugny
Etnografia, cinematografia e cidade, Paulo Tavares
Lazar, Christian Pierre Kasper
Do fluxo ao lugar, Gilles Delalex
Forma, difração e colapso - Entrevista a Donna Haraway por Thyrza Nichols Goodeve
Corpos d'Água & Fluid Geographies, Eve André Lamarée
Sobre o futuro do humano, Laymert Garcia dos Santos
In_formação, Cecilia Diaz-Isenrath
More than meets the eye: os Transformers e a vida secreta das máquinas, Pedro Peixoto Ferreira
Cultura e técnica, Gilbert Simondon

[Susana]

05/05/08

Um escritor promissor

Carta recebida por L. V. de Camões em 1572:

Exm.º Sr.

recebemos com mui agrado a obra que nos propôs para publicação, e a ela dedicámos atenção e tempo que julgámos ser necessário à fruição devida.
O começo de uma intensa pujança colocou-nos logo de sobreaviso. Longas horas de deleite esperavam por nós, não ouse julgar o contrário, e a perfeita singeleza daqueles primeiros versos não deixavam lugar para dúvidas. Avançámos com confiança e a cada nova estrofe o espanto e a admiração cresciam em nossos corações, tal o labor e a perícia, dignos de um Virgílio ou de um Dante, que sua excelência demonstrava; o ritmo, o labor da construção, a exaltação heróica de um povo, a intromissão da mão divina nos assuntos terrenos, o modo como intercala os mundos conhecidos e os desconhecidos, todos estes predicados nos foram entretendo em tal enlevo que nos fomos mantendo acordados, durante horas e horas de puro prazer estético.
Não chegou uma leitura apenas, confessamos; aquelas páginas, ali pousadas sobre a mesa, continuavam a clamar por nós. Depois de duas leituras, decidimos, no entanto, não ir além com a publicação. Como já deve ter percebido, não se trata daqueles casos muito comuns de recusa por falta de qualidade literária, qualidade que na sua obra é, de resto, indiscutível; mas talvez – e isto se calhar vai parecer-lhe estranho – de um excesso de qualidade; ou seja, cremos que, apesar de a temática da obra ser extremamente actual, a estrutura e a linguagem adoptadas dificultam frequentemente a compreensão da história, fazendo com que o livro não possa ser compreendido no seu todo por um público que não seja suficientemente culto e sofisticado. Talvez as gentes deste tempo não estejam preparadas para um tal avanço nas letras. Como tal, lamentamos o incómodo e agradecemos a profunda emoção provocada em nós pelas páginas por si escritas. Aconselhamos a guardar como o mais rico tesouro a obra que escreveu, para que as gerações vindouras possam descobrir tal manuscrito e assim maravilhar-se com uma relíquia perdida da literatura.

Muito respeitosamente nos assinamos,

(assinatura ilegível)

[Sérgio Lavos]

04/01/08

Coleccionismo para totós (2007 revisto)

Não há razão para pânico ou histerias. Não vale a pena correr a esconder para debaixo da mesa mais próxima, vender todas as acções em desespero ou deitar a toalha ao chão. As coisas mudam, mas nem sempre mudam para muito pior.

A situação aconselha prudência. Miguel Pais do Amaral vai compondo o ramalhete de editoras, qual apaixonada coleccionando declarações de pretendentes; os editores em pré-reforma engordam a conta bancária, embarcam na aposentação dourada para a qual trabalharam toda uma vida. (E quem os pode censurar, verdadeiramente?) Quem sobra nesta história de demandas quixotescas, negociações ferozes, batidas com a porta por parte de editores, lacrimejar de donzelas ofendidas, lamentações, choro e ranger de dentes?

Meus amigos, quem vai sofrer, quem já começou a sofrer, são as centenas de pessoas que foram e irão para as ruas durante os meses que se avizinham. A concentração empresarial e o monopólio têm o sabor de um whisky velho para quem vai enriquecendo e o gosto amargo do fel para quem desespera perante a possibilidade de desemprego. Não há razão para pânico ou histerias? Quem por lá tiver de passar, passará, alguém acha que pensa de modo diferente quem trata da vida de pessoas como se fossem “peanuts”? O caridoso coração de Pais do Amaral estremece ao ouvir os rumores de que um negócio gigantesco, no espaço de um ano ou dois, se prepara, entre ele e a Bertelsman. De bom-grado o empresário se dispôs a fazer o jogo sujo de angariar, cortar a eito (património, capital, pessoas) e depois compôr tudo muito bem composto para oferecer, em belo bouquet feito de prémio Nobel e do mais importante escritor de língua portuguesa (palavras do próprio), ao noivo alemão que colecciona editoras pelo mundo fora.

Falando claro: nenhum leitor exigente perderá com a concentração editorial. Haverá sempre espaço no mercado para projectos que visam editar primeiro por gosto. As notícias sobre a estagnação do mercado da edição são manifestamente exageradas; nos últimos anos são muitos as editores que realmente trouxeram algo de novo ao mercado (A Cavalo de Ferro, a Livros de Areia, A Ovni, todas as minúsculas editoras que continuam a albergar a poesia, como a Averno), e houve também a renovação de algumas editoras que já eram manifestamente importantes no mercado português, como a Assírio & Alvim, a Cotovia, a Fenda. É verdade que nos últimos tempos a vida dos pequenos editores não tem sido fácil: a entrada das grandes superfícies, incluindo a FNAC, no mercado, e a expansão dos grupos livreiros levou a que o poder de negociação destes últimos junto dos editores aumentasse exponencialmente, o que se traduziu em margens de comercialização bastas vezes incomportáveis para os editores. Mas também é verdade que a única razão para os livreiros terem conseguido forçar os descontos pretendidos foi a falta de um entendimento entre editores, foi a inexistência de uma associação de editores forte e unida, disposta a defender o dumping praticado pelas grandes superfícies. A lei do preço fixo seria uma óptima medida, se não vivêssemos em Portugal. Mas como a regra por cá é contornar chico-espertamente a lei, tornou-se norma vermos nos hipermercados livros com menos de 18 meses de edição com descontos astronómicos, e ninguém acusa ninguém. A ASAE serve mesmo para quê?

Num meio editorial onde as editoras de referência num passado recente (Asa, D. Quixote, Caminho, Gradiva) convivem lado a lado com os abortos editoriais que se foram instalando no mercado durante a última década, é de esperar o pior. Não é que, por exemplo, a D. Quixote, se salvaguarde do descalabro dos últimos anos, desde a saída de João Rodrigues (agora, na Sextante, outro exemplo de um excelente projecto editorial). Quando colocam à frente das empresas gente formada em Escolas Superiores Comerciais com um currículo assinalável na direcção das cadeias Lidl, sabe-se muito o que se pretende: baixar a fasquia, baixar, até se acabar editando potenciais best-sellers pelos quais se pagam milhares à cabeça e que acabam por redundar em flops, e, deste modo, deixar de publicar produtos de qualidade e sucesso garantido, como é o caso, por exemplo, dos outros quatro livros de Carlos Ruiz Záfon que precederam o sucesso de A Sombra do Vento (inexplicável). Resultado: o desastre e a consequente venda a alguém que se orgulha de ler, agora e sempre, um livro apenas: o de cheques.

Esperamos o pior, mas alguém há-de ocupar o lugar de referência das editoras que se afundam. Se Lobo Antunes sair da D. Quixote, alguém o há-de publicar. Como a Luísa Costa Gomes. Ou José Saramago, da Caminho. Ou Gonçalo Tavares.

Seria tão bom se todos fizessem como Rui Zink, que ao primeiro sinal de deriva da D. Quixote (Carolina e C.ª) abandonou o barco, indo parar à Teorema (que, curiosamente, também foi vendida a um grupo de investidores de contornos, no mínimo, nebulosos). Pessimismo? Apenas para quem achar que editar é como somar números numa calculadora. Os bons continuarão por cá.


(Texto publicado inicialmente no Arte de Ler)

[Sérgio Lavos]

11/08/07

Portugal para o português (2)

Em Barcelona, não é fácil encontrar o escritor catalão mais conhecido em Portugal, Enrique Vila-Matas. Percorri várias livrarias e apenas encontrei cinco títulos na Fnac. Talvez pelo facto de ele escrever em castelhano - nestas coisas do nacionalismo, é difícil para um escritor que traia a língua obter o reconhecimento devido. Ou então por cá temos uma ideia distorcida do valor de Vila-Matas. Para isto muito contribui o marketing que a Teorema fez quando adquiriu os direitos de Vila-Matas para os últimos três livros ("Paris Nunca se Acaba", "O Mal de Montano" e "Doutor Pasavento"), principalmente junto dos suplementos literários dos jornais. A verdade é que, não sendo um autor fácil, Vila-Matas vende mais do que muitos com mais notoriedade em Espanha, como Juan José Millas ou Espido Freire, dois exemplos apenas.
Trouxe então de volta dois que ainda não li dele, "El Viaje Vertical" e "Extraña Forma de Vida", e acabei por fazer um bom negócio: o primeiro custou 14.25 euros e o segundo 9.13. A literatura não se pode medir pelo que custa, é verdade, mas também é verdade que as editoras portuguesas gostam de se fazer pagar caro. Os mesmos livros, editados pela Assírio & Alvim, custam 15.50 e 11.50, respectivamente. E, além disso, apenas se podem encontrar neste momento à venda em pack, junto com outros dois livros do autor. Se formos por este caminho, percebemos o exagero que é vender um romance de 300 páginas por 25.20 euros, como é o caso de "Doutor Pasavento", que no original custa 19.00 euros. A Teorema, de resto, tem vindo a especializar-se em fazer livros com caracteres tipográficos de tamanho garrafal, papel de fraca qualidade e preço pouco condizente com a qualidade final do produto oferecido, defeitos que menorizam o quase intocável critério editorial. Recordo, para confirmar esta ideia, a péssima edição que está a ser feita da obra de W. G. Sebald, com traduções sofríveis e uma pobre qualidade de impressão das imagens que acompanham o texto. Tudo excelentes razões para ter comprado as edições inglesas (de resto, revistas pelo autor alemão) e ter deixado de parte ao fim de 15 páginas o "Austerlitz" editado pela Teorema. E muitos potenciais leitores também o terão feito. Será assim tão difícil perceber as consequências destas autênticas fraudes editoriais?
Este hábito de encarecer os livros não se explica apenas pela reduzida dimensão do mercado português, em que a maior parte dos títulos não chega a vender o suficiente para pagar a edição. Padecer de vistas curtas é o mínimo de que se pode acusar muitos editores portugueses. Porque editar, como o fez a Europa-América há uns anos, um livro como "A Companhia", de Robert Littel, em capa mole, por 35 euros, o preço de um álbum, é um convite ao desastre, a que se vendam 100 ou 200 exemplares apenas e que o resto da edição fique para sempre a ganhar pó nos armazéns. E falamos de um livro de espionagem, sobre a CIA, que deveria ter um potencial de vendas razoável. Exemplos como este abundam - não se percebe, por exemplo, como ainda temos de pagar 26 euros por uma recente edição de bolso em 2 volumes do D. Quixote ou 14 euros por uma tradução da Odisseia, também de bolso, quando em espanhol e em inglês estes clássicos e todos os outros (aos quais, recorde-se, não são devidos direitos de autor) se encontram disponíveis em excelentes edições, a todos os níveis, e a um preço muito mais acessível.
Há poucos editores portugueses que sejam excepção a este estado de coisas. E depois vem o costumeiro discurso do coitadinho - mesmo quando a Feira do Livro é um sucesso, como aconteceu este ano. Haverá maneira de alguma coisa mudar, com estas novas tendências concentracionárias do mercado?

[Sérgio Lavos]

10/08/07

Portugal para o português

Uma das coisas que funcionam melhor em Espanha é o mercado editorial. Desde a disponiblidade de traduções em todas áreas - as incríveis lacunas que existem em Portugal ao nível da edição, principalmente na área das ciências sociais, são de Terceiro Mundo e têm tendência para se agravar, com editoras como a D. Quixote ou a Asa a deixarem de reeditar livros por razões apenas comerciais (achar que qualquer best-seller americano desconhecido, muitas vezes comprado a peso de ouro, é mais facilmente vendável que um long-seller para um público esclarecido é pura e simplesmente burrice) - até à aposta séria nas edições de bolso, o leitor espanhol está sempre bem servido na sua língua. Talvez por esta razão a Fnac de Barcelona tenha uma oferta limitada de livros na língua original (francês ou inglês), em comparação com as suas congéneres portuguesas.
Não adianta especular sobre o dislate de José Saramago acerca do iberismo - o homem tem todas as razões para querer ser espanhol. Dá para ver que do outro lado da fronteira Saramago é quase um autor espanhol. Em todos os escaparates das livrarias espanholas se encontra pelo menos o último livro dele, "As Pequenas Memórias", que já saiu quase há um ano; e o resto da obra também se encontra facilmente. Mais facilmente do que em muitas livrarias portuguesas, de resto. O prémio Nobel, deve-se, em grande parte, à projecção que ele começou a ter nos países de língua espanhola - e falamos de um mercado de algumas centenas de milhão. Além disso, tem de agradecer a Espanha a maior das oferendas - encontrar o amor no último terço de vida; para um escritor, não é, de modo algum, facto de menor importância. Agora que a Caminho foi comprada pelo Rupert Murdoch dos pequeninos, Paes do Amaral, como se sentirá o anti-capitalista Saramago?
Estaremos condenados à concentração editorial, com o consequente empobrecimento da oferta? É o que parece estar a acontecer, e quando vemos o assalto que os grandes grupos estão a fazer a editoras que se destacam pela sua independência e diversidade, como é o caso da Teorema ou Relógio d'Água, é caso para recear o que aí vem. Sabemos que a dimensão do mercado espanhol permite que este funcione de modo bastante mais dinâmico que o mercado português, mas há sempre espaço para uma edição guiada por critérios que não sejam puramente economicistas. O esforço de manter a língua portuguesa viva pode passar muito por aqui (e basta ver a aposta que continua a existir, em Espanha, nas edições em catalão e nas outras línguas das regiões autónomas, por exemplo). Traduzir tudo o que está por traduzir, apostar em autores de língua portuguesa, o caminho possível contra as tendências globalizantes do mercado e a pressão mais ou menos intensa dos iberistas. A língua pode ser uma trincheira.

[Sérgio Lavos]