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25/02/26

David Lynch goes for a walk

Talvez os anos sejam uma coisa
diferente de vapor num espelho.
Talvez os passos percorridos
de regresso ao corredor
onde encontrámos o homem
que nos levou à cabana no bosque
onde o mundo nasceu
sejam reversíveis, como uma cortina
de que apenas se conhece o outro lado.
Talvez o tempo hoje seja terno,
as nuvens breves, o sol macio e claro.
 
Do outro lado da estrada, não há monstros.
Do outro lado da casa, o amor aguarda.
 
O tempo é justo,
vive em todas as manchas, nódulos e sombras
da pele.
No corredor
o fumo vai entrando, trazendo
fantasmas e demónios pela mão,
como quem leva os filhos à escola.
Dançamos contra o tempo,
sozinhos na sala
onde os sonhos são forjados.
 
Talvez um dia encontre David
e fume um cigarro com ele.

10/02/26

O futuro

Nós sabemos – o futuro
não é um caminho
ao qual voltamos diariamente,
é uma curva de que apenas
divisamos o suave declinar,
e por ela avançamos descobrindo
a cada passo o espaço
que vamos percorrer de seguida.
 
Nós sabemos.
Mas houve outras curvas
que dobrámos antes,
e acreditamos na memória
e nas palavras dos antigos,
nos livros que registaram
os tempos que outros viveram
antes de nós.
 
E os antigos dizem: está a acontecer,
neste movimento lento do ponteiro,
o que está a destruir o mundo
e as coisas como sempre as conhecemos,
está a acontecer agora,
e escrevendo no presente
deixaremos um rasto
que será lido no futuro. 
 
E os antigos gritam: não repitam
o que agora estamos a viver,
permitam que o caminho
se desdobre em múltiplas vias,
que não haja quem as encubra
com névoas, amarras e mordaças,
não deixem que a mentira
alastre, com seus tentáculos apodrecidos,
por toda a vida,
todo o amor,
toda a alegria.
 
Os antigos gritam
da entrada da caverna
e os seus gritos
não chegam
não chegam até nós.
Olhamos para sombras
projetadas no ecrã
e acreditamos nelas,
não as podemos dissipar
nem as afastar, o desenho do destino
foi escrito a tinta permanente.
 
O futuro afinal
não é um caminho desconhecido:
é uma bifurcação onde voltamos,
um retorno que se repete
até à destruição do mundo.
Esperemos que haja ainda tempo
para construir novas cidades
com as pedras das próximas ruínas.

09/10/25

Este poema

Falei de ti e os sonhos voltaram.

Deveria saber que é sempre assim,
as palavras trazem o esquecido,
os lugares e o seguro
que a vida estabelece, a demarcação:
 
não regressarás ao tempo
onde enfrentaste o silêncio
e a casa vazia por dentro das
figuras que a descrevem, dilúvios
curtos contra a espessura do grito.
 
Entre essa imagem e o espelho
há o doce olhar de um veado
pronto para a matança.
E nessa imagem vivo eu
 
mas tu não me procuras,
vivo eu e o eco do amor,
atenuado, uma vibração
tão mínima na noite que
apenas a sinto quando
 
a trago aqui, a este poema.  

23/09/25

O rio sagrado

Do lado esquerdo do rio
os dias são mais curtos,
pescadores de ilha em ilha
procuram conchas para matar
a fome.
 
Do outro lado do mundo
o sol rasura o céu
de outra maneira,
aqui a ponte serve de moldura
para a sua emenda,
e a noite vai-se embrenhando
nos braços areando
o fundo,
à procura de mais um dia.
 
Pescador de pele tisnada,
toma o ódio e transforma-o
em moedas para enviares
para o outro lado do mundo,
bem podem gritar
contra o teu corpo,
no teu rosto,
nada te demoverá.
 
No teu passado
egrégios avós
escravos que à distância
te trouxeram aqui,
procuravam no lodo
a verdade, uma só,
que lançaram ao mundo.
 
“Isto é Portugal! Isto é Portugal”,
vomitam os celerados,
herdeiros dos senhores de outrora –
o rio regressa da foz à nascente,
e tudo se repete, eternamente.
 
Portugal também és tu,
que estás aqui agora,
e fazes do ódio beleza,
talvez nada reste mais neste dia,
mas é teu.

07/08/25

Regresso

Passo mais tempo dentro
do que fora.
E dentro vai-se acalmando
o tempo, desacelerando
seu passo,
esperando que em si germine
a semente de onde nascem
as minhas mãos e a corda
que as prende ao seu destino.
 
O meu país é pequeno,
tão pequeno como o coração
que o abriga,
tão grande como esse golfo
de sangue onde o dia
aporta, o curto tempo
e a breve praia onde espero
dormir depois do naufrágio.
 
Faço companhia aos peixes
e nesta masmorra 
o tempo passa
tão devagar como o meu desejo dele,
esse mesmo desejo que nos
engole como onda
em mar bravo,
golpe solto,
cumprindo a hora fosca
seu desígnio quando
os barcos de Ulisses
entram na baía 
do regresso.
 
Passo mais tempo
dentro de mim
do que ao largo de mim,
e no céu onde mergulho
há um monstro familiar
puxando-me em direção ao fundo,
na sua boca um rosto
no seu rosto o sangue
desenhando a verdade
que agora liberto:
 
um dia,
qualquer dia,
talvez não encontre
o caminho de volta,
e assim está bem, aceito isso,
as mãos precisam de sombra
para cumprir seu destino.

20/01/24

David Bowie

Há um homem
é um homem
percorrido pela luz
e sorri
a legenda diz que é a
última foto
última foto
mas todas as imagens
que eu vi a seguir
dele,
sorrindo por dentro
desse diafragma
por onde escapa aquele ritmo
aquele ritmo doido
gritam
aquela não é a última foto
e a imagem
vive agora nos meus dedos,
e nas colunas de som
de todas as discotecas de Berlim
e do mundo,
a imagem vive nessa
bela abstração
a que os gregos um dia
chamaram musiké
a arte das musas
e do céu mais longínquo
do céu mais negro e mais profundo
ele canta
e não é mais a imagem
não é mais a última foto,
esse vislumbre de metamorfose,
é forma além da forma,
som sucedendo-se ao silêncio.

14/02/23

Ajudar a morrer

Nesse vento eu respiro.
Na frente da casa eu convido quem queira entrar
nesses corredores onde despeço
o tempo e acomodo os tentáculos do esquecimento.
Em breve, da tua vida restará apenas um diário
deixado sobre a arca de mogno escuro
que num Verão antigo transportaram para o sótão.
Nesse diário vivem rostos, e árvores, e amor,
mas as letras que desenham tais inutilidades
começam a sumir – na sombra do sótão, não existem já.
 
Quando o diário começou a ser escrito, habitavam
no teu coração as criaturas do espírito que te levava
pela mão, do caminho da escola à ladeira que circundava
o muro mais longínquo da casa. Louro bravo
dançava com as sombras da figueira carregada
de Setembro – o figo, escrito no papel,
tocava os lábios como um verso doce
que te adormecia à noite. Na coroa aberta
do figo dançavam a língua e as palavras que a cobriam.
Tempo de certeza. O voo misterioso da andorinha
tinha o seu regresso marcado – todos os anos
o ninho estava à espera. O ritmo das estações,
exato e pleno, adormecia-te quando o temor rondava.
 
Contra o vento eu agora respiro. Mas não resisto.
E ajudo a morte, ajudo, fecho as janelas de casa
sabendo que nunca mais as vou abrir.

Agora o conjunto de folhas é uma ruína fria na luz apagada da manhã.

24/03/18

O mal

Olá de novo,
diz o sacripanta, o infernal, o odioso tirano
desse tempo.
Olá de novo,
olho para ti e do fundo desse temporal
nasce uma acalmia tal
que não podes fazer nada senão sucumbir,
cair como essas folhas mortas pousadas destroçadas sobre a casa.
Olho para ti do fundo desse lago
e o teu rosto é um espesso logro
do qual não vais recuperar, sabes,
um tecido barato, fazenda podre,
espécie de lama desenformada
de onde não despontará nunca nunca vida.

A carta que enviaste está no lixo
e a breve trecho os teus passos
não serão mais do que um eco de uma sombra.
Olá de novo, vem a meus braços,
alegre idiota que pensa saber de cor
a melodia do meu maldito canto.
Não sabes, alegre idiota, e não conheces
a esquina onde te vou emboscar.
Que essa dança que te ofereço não é mais
material do que o último sopro do temporal.

E lá fora tudo se cala, tudo se cose, tudo é mortalha, falha, o mal.

24/10/13

Velhos

O velho diz: “mais um que morre”.
E sem mágoa ou medo o repete,
sabendo que na regular providência
da vida se equilibra o valor
a que cada um tem direito.

Outro velho ao lado diz:
“ não sairemos daqui”.

À terra se submete
a esplêndida alegria
que levou os dois pela vida fora
e os trouxe ali, ao fim de tarde,
sentados no muro dos esquecidos,
quando apenas podem remeter
para uma incerta memória
a seiva e a carne, aquilo que são,
a bifurcação
ou o atalho oculto na sombra da figueira
a pedra solta onde tropeçaram,
a curva que os levou ao caminho errado
ou a voz que os capturou e os trouxe
perdidos durante demasiado tempo,
a caligrafia precisa do sol
sobre o mar
e aquela nuvem atravessando o horizonte,
trazendo a chuva.

Na ruína, já vêem perto o barco que os leva.
E nunca a tarde foi tão demorada, tão silenciosa.
Ainda esperam.

09/10/13

O tempo

Na luz do dia,
bate a vida.
O calor entra pela janela,
trazendo vozes,
o canto dos pássaros e a primavera,
restos de conversas às quais
não se destrinça o fio,
o sentido,
o rumor da auto-estrada
sobrepondo-se ao perpétuo
bulício da fábrica na distância,
o som das turbinas
ruído de fundo do universo.

Tento perceber
as palavras trocadas;
crianças riem por cima dos adultos,
o estalo de uma bola de futebol contra um muro
é a tónica da frase,
um riso breve corta a atenção,
levando outros atrás,
aves seguindo o bando.

É o tempo do regresso,
de uma nova imagem a que seguimos,
é o tempo de esquecer o inverno que passou.
Acredito no caminho que me
segue, e repito-o como um mantra
antigo onde me abrigo,
uma palavra nova ensinada a um viajante
vindo do outro lado do deserto:
não a aprendo agora, mas guardo-a na memória,
e quando menos esperar vou saber como a dizer.

O Sol é um ritmo claro,
a ele entrego a vida que me chega.

18/09/13

Os amantes

Uma notícia de jornal diz que
eles, como os amantes de Verona,
eram de famílias desavindas e que por isso
tiveram de fugir para se casar quando
ainda andavam na escola.

Como não viveram sob o signo
da poesia, não chegaram a morrer de amor,
do veneno ou da força do punhal no peito.
Casaram e viveram felizes para sempre.
Isto é: foram encontrados setenta e cinco anos depois
entregues por fim
ao inevitável desfecho, mortos separados por um dia,
vivos amando-se ainda.

16/08/13

A adolescência

A adolescência – ah,
suspira quem se afasta a velocidade de cruzeiro
da idade do ouro.

Adolescência – o buraco negro do existencialista,
passagem para a superfície, em direcção à luz.
Todos os adultos que se perdem
em enredados jogos, florete em punho,
atirando ao primeiro que se mexa,
se for mulher, melhor,
lembram aquele momento
em que o sol no rosto
(o último do dia)
na praia quase vazia,
perdeu de um momento para outro a força,
e do abismo espreitou o demónio da verdade,
arreganhando os dentes,
a verdade apodrecendo logo abaixo da superfície,
o vazio sustentando a pele do mundo,
a membrana fina das ideias.

A velocidade a que uma nave se afasta
do coração da galáxia é um salto rápido no tempo,
menos que um momento.

Na praia sem luz, enquanto a noite
vai cobrindo a sombra deixada pela
vida que partiu ao pôr do sol,
acendem-se fogueiras.
A adolescência é um lugar no passado
que nunca existiu, incerto como o voo de uma ave.
Ela está ali, ouvindo o mar
subindo na memória.

30/06/13

O seu rosto

Chega de mansinho, a meio da felicidade.

À traição, embosca-se e encurrala-nos,
e entrega-nos à sua ferocidade negra.
Num momento, estamos esquecidos do mundo
e somos o seu centro unívoco.
No outro, o sangue arde nas veias
e a náusea dança nas entranhas,
atraindo à boca a alma e o seu reverso.

É a vida esse doce esquecimento dela,
e quando tentamos submete-la a um compasso,
a uma esquadria, ela escapa-se-nos, desfoca-se,
torna-se o absoluto vazio, matéria solta, espaço
ocupado pelo cão negro que nos persegue pelos dias fora.
E não conhecemos as defesas.
Tentamos recordar aquele tempo
em que os dias eram largos e fluidos
como o mar que nos pede o verão.
Falhamos. A cada tentativa voltamos a
perder – palavras acumulando-se sobre
os passos, som sem sentido, eco desaparecendo.

Na volta que damos,
procuramos o rasto do esquecimento,
a terna mão que nos leva pelos montes
até ao lugar onde repousa a infância.

Não olhemos de frente o medo:
o seu rosto é tão parecido com o nosso.

26/06/13

Sombra

Não te convenças de que sabes tudo
nem que estes sejam os últimos momentos de vida
e que tudo o que recordas
seja como o vento
soprando pelo sonho de alguém.

Não te convenças de que tudo o que sabes
é mais do que aquela folha seca
que o rio transporta em direcção ao mar.
Não carregues aos ombros mais do
que a sombra das brincadeiras
que tinhas nas traseiras da casa de infância
ou a luz que te leva pela margem
quando procuras o lugar para ancorar.

Nesse lugar onde podes esquecer
quem és e o que te prende à terra,
esperas pela grande ordem material,
o zimbro imemorial, o fogo sólido,
na boca e nos braços abertos ao mundo
partes sabendo que
no fim da viagem, para lá da curva
plena onde assenta a penumbra dos plátanos,
colherás o incêndio semeado.

O que sabes não se esconde, onde te perdes;
mas a sua sombra, estendendo-se,
recolhe-te e vai-te enganando. Ou tu te enganas.

23/06/13

Um sonho

Do lado de lá dos montes
sopra o vento, trazendo
com ele o canto dos pássaros
do fim da tarde, quando se preparam
para o sono, voando na sombra das árvores,
procurando nas folhagens o melhor
lugar para dormir.

É o regresso do fim,
um sinal familiar de cansaço,
o calor desaparecido uma memória
escrita na pele,
um cheiro a sal e a desejo domado.

Deixamos entrar a melancolia
e trocamos palavras com o medo.
Pelas portadas vem
o princípio do sonho e aquela
lembrança do filme que vimos
num ano melhor do que este.
Não olho para ti;
na cama deixamos que
a aragem leve o que guardámos
para os pássaros.

A fome cumprida e a sede saciada,
desenha-se no tempo a cicatriz deixada pelo amor.
A tarde retira-se, derrotada.

12/06/13

As manhãs

As manhãs,
plúmbeas, opressivas, abissais.
Sair de casa sem saber se regresso,
a caminho de um dia sem final.

Aquelas manhãs, o lento nevoeiro
cobre o espírito, deixa-o perder-se
na floresta onde aguardam as feras
as suas presas, mortais,
o seu modo de emboscar,
implacável, o espírito dominado
pela profundidade animal.

Aquelas manhãs, vozes
calando o rumor do pensamento,
banais, eliminando os restos
de luz, de movimento.

Mas, o céu, e a sua beleza rompendo,
é o pão diário dos olhos,
uma possibilidade de voltar,
o retorno.

26/05/13

Fotografia

Estaria mais interessado em
roubar a alma da cidade
do que em vivê-la, sentir a leveza da pedra
nos dedos e a luz caindo sobre a tarde
como uma amante reencontrada,
e cada fotografia que tirava
afastava-o mais desse centro essencial
de que falam os poetas e os teólogos.

Quando estava a escolher as imagens
que dariam sentido à cidade que dizia amar,
foi pensando no exacto instante
em que parara e decidira enquadrar
e matar com o obturador a parcela de tempo
que o abismava. Perdeu muito. E tudo o que ganhou –
a beleza desfocada e a imitação da vida –
não se compara ao que recorda.

A realidade é uma âncora presa à memória – para trás,
fica tudo o que não se pode capturar.

01/05/13

Montmartre, 1.º desvio

Quando decido escrever sobre a vida que vivo
atraiçoo o que está fora dela -
encontro à hora certa os fantasmas da viagem,
a melancolia de uma tarde noutra cidade,
as pessoas na sua rotina comum,
e eu procurando as ruas de há cem anos
batidas por poetas que mal conheço;
a mesma caça de outrora,
menos verdadeira, uma verdade fora de prazo,
desajustada como as casas respirando
os ares venenosos de uma modernidade nunca cumprida.

Vou subindo as escadas,
e cada degrau me vai esquecendo;
paro e desato a tirar fotografias,
tanto rosto que se me quer escapar,
não sabem que não me é permitido o registo
do presente nem a ilusão do passado.
Meti-me num avião sabendo muito bem o que esperava:
desencontrar as sombras dos meus poetas,
chegar ao lugar e percorrer
o bravo caminho de agora,
o que me resta, deitar notas ao papel
e depois lembrar o desencanto - mas não era assim, não era;
sorria enfiado num fato demasiado largo,
o sorriso compostinho dos turistas,
sorria tanto como aquele japonês de Nikon espetada
em direcção às encostas que desaguam na cidade,
o mar plano de onde se ergue a torre, maldita profecia
de uma humanidade perdida.
Sorria tanto como tantos que saíram
de casa, julgando que assim se comprometiam com
uma transumância que não passa de uma ideia de viajante
submetido ao suave adorno da burguesia - era mais um de muitos,
e pensava, sorrindo do lugar mais do que comum, na fuga para a Abíssinia,
o desaparecimento.

Cadência vulgar,
a do passeio; os corvos estremecem
na alma dos turistas. São muitos, muitos,
cada vez mais a caminho da morada térrea de Truffaut.
A flor que lá foi deixada, já sei, já sei, de nada vale.
Regressamos pelas ruas a disparar contra um vazio
que se aloja nos ossos e um gato - esse, verdadeiro viajante -
aproxima-se, confiante. Damos-lhe pão que ele engole num golpe rápido e partimos,
embrulhamos o coração num pano seco, carregâmo-lo
até ao próximo cruzamento.

O trânsito, não pára.
A vida nunca pára.

20/04/13

Até sempre

O dealbar arrastado da madrugada
traz consigo os escolhos da noite,
a festa, o movimento das ruas
desaparecendo na corrente,
o regresso dos mortos, dos cansados da vida,
da gente para quem a alegria
se fixou naquele ponto distante
do passado a que apenas traidores
conseguem aceder.

O incêndio da Rua do Alecrim
lavra no seu derradeiro fôlego.
Grupos esparsos de amigos
que se abraçam, dizendo adeus;
táxis passando e recolhendo quem
desiste; dois rapazes e uma rapariga
abrandam o passo na penitência da bebedeira,
arriscando beijos mais rápidos do que o amor
permite.

Vozes ao longe, no eco das ruas,
ensaiam despedidas no torvelinho musical
que ainda dança nos ouvidos.
Um grupo de eslavos oferece a quem passa
a boca de uma garrafa, gritando impropérios
ou versos – não sei – em russo.

A reseda cheira à agua,
amor à maçã rescende
mas agora já sabemos –
só o sangue cheira a sangue.

Um fogo deflagra
nos dedos que oferecem o esquecimento.
Aquele grupo aceita, os amigos
bebem o sangue dos estrangeiros
que fugiram de Babel e ficam por ali,
trocando cigarros e palavras que serão
sempre justas e finais, as mais belas.

Ao lado de Eça, alguém vomita. Ninguém nota.
A vida passa à margem de quem se perdeu,
o turista a caminho do hotel
ou o velho que paga à ultima puta da
Praça de São Paulo.

Demasiado tarde para arrependimentos.
Estão à vista do rio aceso pela cidade
e enquanto esperam pelo primeiro autocarro
da manhã, repetem beijos e despedidas.

Há sempre uma casa à espera,
louça suja do jantar,
o cinzeiro cheio, a transbordar.

Até sempre.

14/04/13

Warsazwa

Passagens para jardins
onde nenhuma planta cresce,
onde encontramos a soma
daquilo que nos foi pedido
reduzida a uma pilha de ensaios e mentiras.

Se nos dispomos a perder,
quando partimos,
que seja na solidão dos iludidos,
na sombra que nos retiram
e na memória do que não saberemos guardar.
Se oferecemos os despojos
a braços mais felizes do que sonhámos ser,
percorramos no silêncio a contrição
e a recusa, a derrota a que entregamos
o sangue e o desejo, o sopro
que anima a carne, o amor.

A nosso lado caminha o animal possível.
Vida que não lhe pulsa nas veias,
luz que não lhe sobe aos olhos,
fogo apagado pelo vento frio do tempo.

Animal sabendo que na vida vai morrer.