03/10/08

Arrastão

Uma Santa Aliança de blogues a que faltava um auto-retrato. Espera-se, daqui para frente, um ritmo (ainda mais) estrondoso de actualizações neste blogue - vou apostar, nitidamente, em fazer-me ao penalti.

[Sérgio Lavos]

Slowdive/Catch the breeze



[Sérgio Lavos]

28/09/08

Wall-E (2)


A técnica, de filme para filme, aprimora-se. Tem sido assim com a Pixar, desde Toy Story. Felizmente, cinema não é só técnica, e a atenção que o guião dos filmes de animação digital tem tido é o que tem permitido a estes filmes serem mais do que estéril fogo-de-artifício. A concorrência da Dreamworks também tem sido essencial - de filme para filme, a Pixar sente a obrigação de provar que ainda é melhor; daí, a sequência que tem sido prosseguida em contexto de escalada de qualidade: Toy Story - À Procura de Nemo - Wall-E; com Monstros pelo meio. Os dois últimos da cadeia são obra de Andrew Stanton, o que diz muito sobre o seu contributo para um género que começou com Walt Disney (a referência, é claro, não incorre em qualquer displicência ou exagero). 

Wall-E, por tudo e mais alguma coisa, deverá ter atingido um ponto difícil de superar por quem se segue. O segredo, parece-me, é o filme ter sido feito com todos os meios digitais disponíveis, e simultaneamente passar uma mensagem retro a quem se sente ultrapassado pelas novas gerações. É um filme digital com um espírito analógico; e vamos ser optimistas: não há qualquer contradição ou cinismo nas intenções de Stanton, ele é tão romântico como o tradicionalista Miyazaki. Não é novidade, Carros já tinha ensaiado esta aproximação metaficcional; mais é mais eficaz do que nunca, como se a velocidade do tempo presente fosse bruscamente desacelerada por um travão divino.

E falamos de lentidão, do seu elogio, de coisas antigas e do fétichismo que as envolve. Desde o robô Wall-E, modelo ultrapassado, ternurosamente ferrugento, até à revolta dos robôs high-tech defeituosos - a diferença como elemento de progresso -, passando pelas imagens analógicas de Hello, Dolly digitalmente manipuladas por um gadget do robô, o coração do filme é uma homenagem às coisas antigas, ultrapassadas, a um modo de vida em vias de extinção, a caminho da ruína. Que tudo isto seja mostrado recorrendo a tecnologias de animação avançadas é uma ironia que enriquece ainda mais o filme.

(continua)

[Sérgio Lavos]

27/09/08

Paul Newman (1925-2008)


Não é quem ganha - ninguém ganha; mas quem vai a jogo.

[Sérgio Lavos]

Palin e os homens

O que me parece ser o texto mais sensato sobre Sarah Palin, o único que coloca os pontos nos i's. 
Não sei até que ponto Luís Rainha não terá criado anticorpos no blogue que o acolhe, mas é verdade o que ele afirma: a campanha que alguns blogues de esquerda têm feito desde que foi anunciado o nome da senhora para vice de McCain cheira a enxofre, roçando o puro marialvismo, à moda de Miguel Sousa Tavares. 
A reacção de alguma esquerda não é um acidente; é um sintoma. É como o rancor contra as mulheres muçulmanas que decidem usar um lenço nos cabelos ou aceitam a poligamia. O progresso, muitas vezes, tem de ultrapassar questões tão incómodas como a individualidade ou a liberdade pessoal. Sarah Palin, mulher independente que conseguiu chegar a um cargo de poder num estado dominado por uma cultura ancestral predominantemente masculina - a caça, a pesca, a luta contra a natureza agreste - deveria ser um exemplo para a condição feminina. Contudo, Camile Paglia foi a única feminista conhecida que se pronunciou em favor da escolha da candidata, e fê-lo não por apoiar as suas ideias, mas sim pelo simbolismo de ter uma mulher com valores conservadores como provável vice-presidente. Por isso, será para mim estranha a série interminável de posts publicados por Palmira Silva no Cinco Dias sobre Palin. Eu sei que Palmira, como cientista, detesta por princípio qualquer criacionista - e faz bem. Mas julgo que um limite racional deverá ter sido ultrapassado - e não sei se a cientista se apercebeu disso.
E diga-se que todos os valores que Palin defende estão no espectro oposto daquilo que eu defendo. No entanto, lutaria de bom grado pelo direito de ela poder concorrer a um cargo político sem ser apelidada de "dona-de-casa do Alasca". Felizmente, a frase de Miguel Sousa Tavares vale o que vale, nada, tanto como o respeito que ele deve merecer: nenhum.

[Sérgio Lavos]

Wall-E


A infância é o período da nossa vida em que as coisas complexas parecem mais simples. Somos adultos, agora, mas haverá sempre perguntas para as quais não haverá resposta, e é curioso que tenha havido um tempo em que essa resposta existia.

Envelhecemos, complicamos. E erramos. Para que serve a arte? Nem sempre para divertir ou provocar o espanto; cada vez mais, a arte serve de porta de entrada a realidades que preferíamos não enfrentar. A arte moderna, sobretudo, especializou-se em copiar os nossos dias, esqueceu o seu propósito inicial: transcendê-los. Vamos a um filme para ver pessoas sofrer, como se o nosso sofrimento não bastasse. E não me falem da tragédia clássica: o ciúme de Otelo é insuperável; a culpa de Édipo é intransponível; o amor de Romeu e Julieta é sublime, divino. O maravilhoso deixou de ser uma categoria para grande parte dos criadores modernos. Em consequência disto, os critérios estéticos mudaram: relevantes são agora as intermináveis conversas sobre nada de Beckett em desfavor do mundo criado por Tolkien. Nada contra, apesar de não se perceber porque não serão as duas obras manifestações do mesmo espírito (e perdoem-me os propósitos românticos).

E a infância, que tem a ver com isto? É verdade que a pós-modernidade arrancou a sério (Lawrence Sterne foi um avô excêntrico e extemporâneo) com duas obras que teimam em ser consideradas como de literatura infantil ou juvenil: Alice no País das Maravilhas e Alice do Outro Lado do Espelho. Mas o que se seguiu tem sido uma tentativa séria de manter as crianças no seu mundo, encarando-as como adultos em ponto pequeno ou pior, adultos imperfeitos. Apesar de todos os psicólogos infantis que aparecem na televisão a falar com voz de algodão doce, como se as crianças sofressem de sensibilidade auditiva extrema, nunca como agora elas tiveram tão pouca atenção. Todo o conhecimento pode ser adquirido pela literatura, mas já ninguém conta histórias às crianças sem receio de provocar medo ou ferir susceptibilidades; as fábulas, que, mais do que ensinar uma moral, estimulam a imaginação da criança, habituando-a a relacionar acontecimentos e a colocar-se no lugar dos outros, são um género em vias de extinção. E a praga dos contos tradicionais politicamente correctos ainda não terminou.

E o que nos pode salvar o futuro? Os adultos Peter Pan que ainda sonham com tempos de outra época, os criadores conservadores que, ainda que com outros meios, continuam a efabular o mundo. O cinema, a animação, é o meio; por isso mesmo, um filme para crianças sofrerá sempre o preconceito de todos os adultos, e a injustiça tantas vezes é radical neste aspecto. Se as longas-metragens de Miyazaki, por exemplo, são obras de arte absolutas, alguns filmes produzidos na era digital conseguem ser únicos na forma como conciliam a apetência de um público abrangente e o gosto crítico; são as obras-primas que nunca irão ser consideradas como tal, apenas por pudor dos adultos que estabelecem o cânone - mas esperem até as crianças que agora se maravilham com filmes como Shrek, Toy Story, Finding Nemo ou Wall-E crescerem. O mundo será delas. E será melhor.

(Continua)

[Sérgio Lavos]

26/09/08

Boas notícias

Um trocadilho capaz de rebater a frase chave repetida por Tom Cruise em Magnolia, Tame the Kant, apenas podia ser airoso, inteligente e feminino; e as três condições são mutuamente inclusivas; claro.
A Alexandra regressou, com um texto sobre Primeiro Amor, de Turguénev, que estranhamente evoca Wall-E e a sua história de amor pueril e primitiva. As condições do amor são iguais, na grande literatura como no cinema de Hollywood? Se não fosse um filme de animação digital, seria uma obra-prima (como 2001 - Odisseia no Espaço)?
E esta semana, o melhor texto lido nos blogues não é sobre a crise financeira, Sarah Palin ou casamento de pessoas do mesmo sexo. Através do vidro duplo, espreita esta entrevista de Damian Hirst ao Guardian, na qual ele fala sobre Francis Bacon. Uma preciosidade.

[Sérgio Lavos]

Desvios


[Sérgio Lavos]

22/09/08

Deaf Sentence


Depois da aproximação ficcional à vida de Henry James em Autor, Autor, o regresso de David Lodge aos romances é um reconhecimento de temas e obsessões antigos. Não que Autor, Autor não fizesse sentido em Lodge, tendo em conta o seu percurso académico e a obra ensaística, sempre empenhados em descobrir os caminhos que se foram desbravando entre modernidade e pós-modernidade; Henry James acaba por ser um dos escritores que fabricaram a ponte entre dois tempos, com o seu apurado estilo de pendor classicista e a sua atenção a temas contemporâneos, muitas vezes polémicos, que por uma ou outra razão continuam a ser actuais.

Em Deaf Sentence, acompanhamos um período de vários meses na vida de Desmond Bates, professor de Linguística a gozar os prazeres da reforma, académico conservador sofrendo as contrariedades da velhice: o fantasma da impotência sexual, a decadência do corpo, a surdez. A velhice, em Lodge, apenas poderia ser retratada como uma farsa, nunca como tragédia. Desmond é surdo, e a situação apenas pode piorar. O seu pai, também surdo, vai tombando progressivamente na senilidade, por entre ataques de casmurrice e aflitivos episódios de amnésia. A sua mulher, por seu lado, tem um negócio que segue de vento em popa e uma vida social mais activa do que nunca. Os filhos vivem longe e levam vidas que ele não quer compreender na totalidade. E para cúmulo acaba por conhecer uma estudante americana de doutoramento que agressivamente se introduz na sua vida simples como um insidioso cancro. A velhice, para Desmond, não é uma sentença de morte, mas a surdez acaba por ser. (A dedicatória de Lodge aos tradutores justifica-se; não se imagina qual possa ser a tradução em português de Deaf Sentence, por isso boa sorte ao sofredor a quem calhou a tarefa.) O que se segue é um calvário de privações devidamente registado em forma de diário, com uma ou outra incursão pela ficção, em jeito de exercício de escrita criativa ensaiado pelo professor Bates – o narrador.

Na verdade, o livro não é (apenas) esta história. Como sempre em Lodge, o material narrativo é um pretexto para pensar a narratividade e a ficção enquanto construção artificial de uma realidade. O narrador do livro nunca é o autor (já sabemos há muito), apesar das coincidências biográficas entre os dois; e quando a narrativa salta para a terceira pessoa, o leitor começa a perceber o artifício em toda a sua plenitude. Mas o brilhantismo de Lodge é conseguir pensar a literatura, divertindo. Leitura fácil, calorosa, sustentada parágrafo sim, parágrafo não, pelo humor britânico que o leitor habitual identifica: aquela maneira de tornar o ridículo digno tanto de pena como de simpatia; as personagens criadas por Lodge, muitas vezes académicos pomposos e sexualmente inoperantes, homens em fatos cinzentos que sonham com a saia mais curta da mulher do colega da faculdade (como acontece em A Troca e O Mundo é Pequeno), transformam-se em heróis reticentes da idade moderna.

Imaginamos que possuir todas as ferramentas teóricas para poder detectar cirurgicamente as estratégias de um romancista seja uma vantagem injusta; Lodge sabe muito bem que mecanismos um escritor usa para criar vida e torná-la interessante para o leitor. Contudo, imaginamos também que o passo entre teoria e prática seja tão difícil de dar como sobreviver como um surdo num mundo repleto de sons. Lodge consegue desenvencilhar-se melhor da tarefa do que o seu pobre protagonista. E é sempre um prazer reencontrar velhos amigos.

(A edição inglesa é da Harvill Secker; por enquanto, não há informação sobre uma edição portuguesa; espera-se que a deglutição da editora Asa pelo grupo Leya não acabe com velhos hábitos, e Lodge continue a ser fielmente traduzido por cá).

(Texto publicado antes no Arte de Ler)

[Sérgio Lavos]

21/09/08

Chemical Brothers/Star Guitar



Confesso que demorou a conversão a música que fosse mais electrónica que os sintetizadores dos Nine Inch Nails ou dos Young Gods; mas falamos de há mais de uma década atrás, águas passadas e estagnadas que nunca moveram moinhos. A primeira banda (?) exclusivamente electrónica a que dei a atenção devida foram os Chemical Brothers, e um especialista dirá que comecei quase pelo fim e pelo mais evidente - não há problema. Ser pop não é necessariamente um defeito, e os irmãos químicos nunca deixaram de prezar essa veia na música que fizeram. E ser pop, no caso dos Chemical Brothers, significa entregar os vocais a uma série de gente conhecida, de Noel Galagher a Richard Ashcroft, passando por Wayne Coyne, dos Flaming Lips, tudo gente estimável. Mas mesmo as músicas exclusivamente instrumentais (ou quase), contaminadas pelo big beat ou pelo house por vezes quase europop, são tudo o que o povo quer: delírios épicos em crescendo, psicadelismo que, prolongado por um DJ numa pista de dança ou numa rave, se aproxima perigosamente do trance (Hey, boy, hey girl, por exemplo).
Quem também ajudou foram os realizadores que foram convidados ao longo da carreira do duo para criar os videos. Se Fatboy Slim precisou de um brilhante empurrão de Spike Jonze (em Praise You), os Chemichal Brothers convidaram o melhor de todos, Michel Gondry. Em Let Forever Be, uma brincadeira com espelhos e uma bailarina multiplicada antecipa Being John Malkovich num ritmo sincopado perfeito. Mas o preferido é Star Guitar, tour de force de montagem que representará um cúmulo na arte de casar imagens com música; além disso, com um tema que se adequa à canção, electrónica etérea e planante, de forma perfeita: as viagens de comboio.

[Sérgio Lavos]