29/06/07

Dia Hard 4.0

Os redutos da masculinidade já foram mais escassos do que agora, apesar de ser moda afirmar o contrário. Quanto mais forte é a revolução, mais possibilidade existe de haver uma reacção. O resultado deste equilíbrio de forças usualmente chama-se progresso.
Chega do elogio do metrosexual. Quem quer ser um David Beckham quando a maior parte das mulheres afirma preferir um Dr. House, exibindo uma amargura cinicamente macha a toda a prova? Talvez existam exemplares do sexo feminino que não trabalhem em supermercados ou cabeleireiros que gostem de Beckham, mas uma coisa é a cabeça a falar - o elogio da sensibilidade, do gosto mais que requintado por um bom creme de beleza, da companhia em dia de saldos - outra são os genes; e nenhuma vontade feminista resiste à pulsão de um bom modelo de homem. Entre Beckham e as feromonas, mostrem-me a mulher que escolha o modelo efeminado que Beckham representa - a não ser, é claro, que falemos dos seus atributos financeiros. Mas será que o dinheiro ainda é o mais forte afrodisíaco?
Vem isto a propósito de "Die Hard 4.0", bela série B que pegou numa receita equilibrada de músculo testosterônico e derissão pós-moderna para retomar a personagem do polícia duro de morrer John McClane (Bruce Willis), conhecido por aparecer sempre no sítio errado à hora errada. Clichés à parte (e há bastantes, mesmo que embalados num jogo de citações esperto que apenas valoriza o filme), é sempre bom receber uma descarga de adrenalina via ecrã de cinema. Queremos personagens? Não, de maneira nenhuma. Basta a história, esgrimida com o talento suficiente para que um realizador médio não complique e borre a pintura. Aliás, muito longe disso; Len Wiseman consegue aqui e ali uma destreza técnica que lhe fica bem e não desmerece a série herdada do excelente John McTiernan. Um ritmo imparável, planos originais e uma montagem competente servem para passar uma mensagem - o tema do dia continua a ser a ameaça terrorista e a herança do pós-11 de Setembro. É verdade que a mensagem é reaça (como reparou Pedro Mexia) mas também é verdade, como afirma Luís Miguel Oliveira no artigo para o Ipsilon, que o herói clássico do cinema americano sempre o foi. Desde a perseguição de John Wayne aos índios em "The Searchers" até Bruce Willis defendendo a América de uma ameaça esquerdista, os exemplos multiplicam-se. Mas sempre com desprendimento e amargura - com todo o estilo do mundo. No fundo, sabemos que o herói reaccionário do cinema americano representa a alma de um povo. A impotência perante o perigo desconhecido. No tempo do velho Oeste, o homem de fronteira conquistava território para o homem branco e defendia-o dos antigos ocupantes. Nos dias de hoje, o cenário torna-se urbano, mas a ameaça é a mesma. Sempre o território a defender; o mito do "frontier man" não esmoreceu, em tempos de terrorismo mediático.
E os heróis estão aí, no ecrã, personagens de ficção que sobrevivem a tudo com um sorriso nos lábios e uma frase jaculatória de vingança, piada libertadora da tensão acumulada, mesmo antes da morte do vilão: "Make my day, punk!"; "Hasta la vista, baby!" "Yippee Ki Yay Motherfucka!" Saímos da sala mais descansados.

[Sérgio Lavos]

Videografias 12



Panda Bear, aka Noah Lennox dos Animal Collective, é um lisboeta adoptivo no genuflexório (objecto de uso religioso pedido de empréstimo a Emma Bovary) de Brian Wilson. A solo, com Person Pitch.


[Susana Viegas]

26/06/07

Days of Heaven (2)

Days of Heaven é um filme tão belo como o descrevem. De 1978, nomeado para 4 Oscares, e com a fotografia da responsabilidade de Nestor Almendros e banda sonora de Ennio Morricone, Days of Heaven é um daqueles filmes onde a palavra "metafísico" não nos sai do espírito. (Recentemente, Sokurov enveredou por esta linha estética filmando personagens e ambientes como se pintasse fotogramas de forma expressionista.)

Filmado em 70mm, tem a marca da mestria de Terrence Malick, realizador texano que apenas realizou 4 filmes em 30 anos. Formado em Filosofia (e foi professor no M.I.T.), Terrence Malick foi aluno de Stanley Cavell (filósofo do cinema autor de The World Viewed) e tradutor de Heidegger, filósofos que acabaram por marcar a sua visão do mundo. No entanto, e após o sucesso que foi Days of Heaven, Malick retirou-se e durante 20 anos não deu notícias até que, em 1998, apareceu com o inesquecível narrador de The Thin Red Line, James Caviezel. (Aliás, a voz off é um elemento importante nos filmes de Malick, sugerindo uma base argumentativa e dando uma consistência às próprias imagens, por vezes bastante abstractas.)

O lado filosófico e o bíblico entram em harmonia para servirem os objectivos de Malick: filmar cada ser humano na sua diferença e no seu carácter único e irrepetível. Nem bom, nem mau, só humano, demasiado humano. O lado profético é uma constância: desde a praga de gafanhotos ao incêndio destruidor, passando pela fragilidade do homem, mortal, com as suas invejas, cobiça, adultério e assassínio. Tudo isto é vivido de forma intensa por Richard Gere (Bill), operário de uma fábrica e obrigado a fugir da cidade por um crime que cometeu, segue num comboio a vapor para o campo acompanhado da irmã, Linda Manz, e Brooke Adams (Abby) acabando por trabalhar para Sam Shepard (the Farmer). A perfeição na captação da imagem é inacreditável, todos os movimentos no campo de trigo, o vento a bater na água do lago, juntamente com a cor, onde o dourado natural do sol e do trigo predomina (conseguido com filmagens ao nascer do sol e ao entardecer), formam um conjunto final que não deixa de surpreender.

Se há uma vontade maior de ver filmes, sempre mais e mais filmes, de uma forma compulsiva, deve ser porque se esperam momentos destes, momentos que perduram na memória como boas lembranças da infância. Este filme é capaz de preencher todos os desejos da cinefilia, todos os encantos que se procuram. Cria uma sensação que permanece para lá do crepúsculo das imagens.

Linda: "He [the Farmer] knew he was gonna die. He knew there was nothing there could be done. You're only on this Earth once. And, to my opinion, as long as you're around, we should have it nice."

[Susana Viegas]

Days of Heaven

Christina's World (1948), do pintor realista americano Andrew Newell Wyeth (n.1917), uma influência directa para Terrence Malick em Days of Heaven (1978), marcando a compreensão do contraste entre a vastidão dos campos cultivados, da obra do homem, e a solidão e isolamento da figura humana.

[Susana Viegas]

25/06/07

Verdade e consequência

Quem entra no auto-retrato em busca de hipocrisia que toma conta do mundo arrisca-se a sair pela porta dos fundos. Não há qualquer vontade de afastar o visitante brasileiro que aqui caiu. Espere, não vá embora. Fique um pouco. Falo de hipocrisia num ou noutro texto, é verdade. Entretanto curei a maldição - ficar de olhos raiados atrai sempre a espécie errada de deus. Não me interessam os hipócritas; na realidade, até que vagamente me atraem. Qualquer mentiroso compulsivo - e um hipócrita não passa disso mesmo - merece mais do que a minha atenção; a minha devoção. É difícil passear no labirinto da mentira; o minotauro espreita a cada esquina, a maldita verdade que estraga qualquer boa história. Neste ponto, afirmo: interessam-me os hipócritas até ao ponto em que não são apanhados a mentir. Quando são descobertos, deixa de ter interesse (e neste aspecto o erotismo assemelha-se à mentira). Um hipócrita é alguém que vive em constante humilhação, sorrindo para a pessoa que odeia, murmurando entredentes ressentimento e amargura, passeando em público a impotência de não chegar a ser um mitómano. O delírio em que este último vive é um problema de negação para o hipócrita - este julga ser racional, e portanto um ser em pleno auge social. Por vezes chegam longe - ou, como último recurso, tornam-se políticos. Mas carregam atrás de si pesadas grilhetas: sentir que nenhuma humilhação se compara à incapacidade de confessarem a verdade a si próprios. Imaginem: um hipócrita não aguentando o teatro em frente ao espelho; a encenação. No momento em que tudo é permitido, a mentira.
O escritor, esse, contraria a cada palavra a sua vocação de mitómano: quando quer mentir, diz a verdade mais límpida. O que vai tomar conta do mundo? Não espere nenhuma verdade neste texto, leitor. Muito menos hipocrisia.

[Sérgio Lavos]

Segundo nível

Perdoem-me a sinceridade: excedo-me nas contradições. Enquanto juro por todos os anjos de Rilke que é mentira que deva alguma coisa à verdade, coloco uma etiqueta no texto que diz: diário. Não me procurem aqui. Isto é apenas um ecrã de computador reflectindo (reparem bem) o vosso próprio rosto. Chega de interactividade?

[Sérgio Lavos]

Questão de semântica

Não é inédito. Talvez seja comigo. Perguntam-me se está tudo bem, e eu digo que sim. Dizem-me que o que escrevo indicia o contrário. Desistam. De procurar aqui qualquer sucedâneo de realidade. Sacrifiquei a verdade no altar da linguagem há muito. Procuro o estilo - ou a falta dele. Não há verdade na literatura. Muito menos num blogue - que não chega a ser literatura. Mas eu compreendo. Leio blogues intimistas e chego a acreditar que a pessoa que escreve existe mesmo. Ficcionistas da melhor colheita. Recriar um "eu" não é fácil. Quem o consegue fazer através de palavras merece o melhor de dois infernos: o do difícil confronto com o verdadeiro "eu" e o inferno do bloqueio de escritor. O que me deixa a pensar: o blogger intimista que interrompe a escrita, tira umas férias da vida? Quem precisa mais da verdade, o blogue ou a vida?

[Sérgio Lavos]

Cuidar dos vivos

Nenhum deus sustém a realidade. No ângulo cego de um espelho, ela diariamente nos confronta. Cuidamos dos vivos, mas apenas os mortos nos procuram.

[Sérgio Lavos]

21/06/07

O caminho

Não consigo compreender por que razão a voz dos anti-proibicionistas é tão pouco ouvida em sociedades ditas democráticas. Devia se levantar este mundo e o outro contra leis que visam, no limite, impor uma moral dentro de quatro portas. Alguém achava o contrário? Que mais cedo ou mais tarde se iria começar a proibir uma actividade estritamente privada, como fumar? Ninguém pode fingir ingenuidade. Qualquer cruzada moral conduz inevitavelmente a este tipo de fim. Deixem os moralistas tratar do assunto do tabaco, e é vê-los de seguida arranjar outras bandeiras: álcool, comida que não seja considerada saudável (seja o que isto for), sexo. E por aí fora. Nenhuma razão explica a obsessão. Apenas a pura irracionalidade. Mas nenhuma moral consegue erradicar a morte e a doença. O que qualquer moralista, de resto, também acaba por descobrir.

(Via Francisco José Viegas, a notícia de que falo é esta)

[Sérgio Lavos]

Linhas para um velho

O tigre no seu covil
Não é mais irritável do que eu.
A cauda chicote não está mais quieta
Do que quando eu farejo o inimigo
A contorcer-se no sangue essencial
Ou balançando-se da segura árvore.
Quando revelo os dentes do escárnio
O sibilar da língua bífida
É mais caloroso que o ódio,
Mais amargo que o amor que se tem à juventude -
E inacessível aos jovens.
Reflectido no meu olho dourado,
o velho do restelo torna-se um louco.

Digam-me se não devo rejubilar!

T. S. Eliot

versão de

[Sérgio Lavos]