01/11/07

Do plágio como uma das belas-artes

Eu, como todos os escritores por publicar (ou publicados, mas sem sucesso), também tenho uma teoria sobre o plágio de Miguel Sousa Tavares. Para ser verdadeiro, eu tenho uma teoria para todo e qualquer plágio, excepto para casos de escritores de génio, e esses, meu deus, são raríssimos.
A teoria é esta: o plágio é sinal de inteligência; corrijo: o plágio é sinal de esperteza, com a agravante de ser consistente com uma das principais qualidades que um escritor deve ter: o olho para reconhecer os grandes que o precedem. No limite, qualquer escritor que não seja génio, com aspirações a escrever alguma coisa de jeito, deve fazer como Bruce Chatwin: abrir uma dúzia de clássicos enquanto escreve, e ir copiando ao sabor da pena, copiosamente copiando, frase a frase - um pouco de Flaubert, uma pitada de Tolstoi, um gosto de Kafka (o escritor mais fácil e mais óbvio de imitar) ao lado, aqui e ali Sterne polvilhando a prosa, quem sabe alguma elegância de Henry James para melhorar a linguagem, algo de Proust a acompanhar. E não falo apenas de uma vaga inspiração - isso é tolice, o resultado final acaba por ser um sabor amargo a uma falta de originalidade tremenda, um pouco como ler "O Meu Nome é Legião" depois de "O Som e a Fúria" ou qualquer romance de Miguel Real como digestivo aprés "Memorial do Convento". Amigos, trabalhem com método: cortando e copiando, como não? Mas faça-se com estilo; não adianta mergulhar em livros de História e fazer copy/paste de factos, como MST faz. Entediante, aborrecido. Imaginem: se os originais já o são, o que será a cópia? Roubar? Em grande. É que enfiar uma frase de Pessoa entre uma exclamação de Virginia Woolf e um longo parágrafo digressional de Saramago não é plágio: é o talento a revelar-se. Não é uma questão de coser os pontos bem cosidos; é saber esconder as costuras. Chatwin conseguiu, mal ou bem - os romances, bom... são fracos; mas os livros de viagem são soberbos. E estou comovidamente grato apenas a ele - porque sei que já pagou as suas próprias dívidas de gratidão aos amigos que conheceu depois de partir. Um copo com Wilde no Paraíso - o sonho de um copista de génio.
O problema, na verdade, é que Miguel Sousa Tavares não plagia. Não tem coragem (ou talento) para tanto. É um enfadonho jornalista a escrever uma reportagem num tom neutro, chatíssimo, sem marca própria, sem nervo, colando com cuspo datas e acontecimentos longínquos numa sequência infindável de personagens que têm tanta profundidade como o papel em que o seu nome é impresso. Resultaria em jornal ou em revista? Não duvido. Resulta como produto de marketing claro e evidente (ser figura televisiva; ter boa figura; ser polémico)? Claro que sim. É literatura? Vasco Pulido Valente já ditou a sentença. Está tudo dito.
Confie nos bons conselhos que lhe dão, homem, plagie, nem sabe o que está a perder (e os seus leitores também)!

[Sérgio Lavos]

31/10/07

5 letras, 5 filmes

Ora bem, cinco filmes da minha vida, caro Solvstag? Um clássico, que já deve ter dado a volta ao mundo dos blogues centenas de vezes. Como até ando bem disposto, vou acrescentar alguma dificuldade à corrente. E que tal cinco filmes começados pelas letras do meu apelido, em inglês? Portanto um filme começado por L:

Lost Highway, de David Lynch - não é o meu preferido dele, mas Lavos não contém um M. Se Tivesse de dizer apenas uma razão para estar nesta lista, é o facto de, passados 10 anos, muitos visionamentos e alguns textos teóricos depois, ainda não ter entendido a totalidade do filme. Há pistas, claro, e quase que percebo por que razão o Mistery Man aparece em dois lugares ao mesmo tempo. Não é isso o mais importante, de resto. A ideia dos duplos estabelecendo pontos de contacto entre tempos e camadas de consciência é apenas um pretexto. Acima de tudo, a elegante esquizofrenia do desejo masculino. Soberbo.

Apocalypse Now, de Francis Ford Copolla: o melhor do bando à parte do cinema americano dos anos 70 (com milhas de avanço em relação a Scorcese) realizou aquele será, durante os séculos vindouros, o melhor filme de guerra de sempre (logo assim, à distância). E o problema para a concorrência é que o filme nem sequer é de guerra - majestática ópera sobre a natureza humana (as Valquírias não estão lá por acaso).

Vertigo, de Alfred Hitchcock: cada mulher sublima-se e perde a sua individualidade, na cabeça de um homem. Na cabeça de um homem, todas as mulheres são uma mulher só. E cada mulher repete-se em cada nova mulher que se ama. Misoginia? Uma condenação, uma miserável deficiência ditada pelo gene Y que partilhamos. E Madeleine/Kim Novak (a Scarlett Johansson de Hitchcock) sabe tudo, desde o início. Trágico destino da inferior raça masculina, o engano.

On The Waterfront, de Elia Kazan: podia ter aqui a primeira parte do Padrinho, só para falar da cena da morte de Don Vito Corleone e da improvisação do outro mundo de Marlon Brando. Mas como tem de ser um filme começado por "O" (e podia ser também "On Connait la Chanson" ou "One Flew Over the Cuckoo's Nest"), falo do gingar e do rodopiar do estivador Brando em volta da loura pálida Eva Marie-Saint, na rua, a caminho da imortalidade. Assentemos nisto: James Dean era um menino chorão que deitou fora cedo de mais o pouco talento que tinha. Marlon Brando era grande. Enorme. Maior do que alguma vez o seu ego aguentou - e sempre sem fazer caso disso, em esforço. O Maradona da representação.


Some Like it Hot, de Billy Wilder: já vi vezes suficentes este filme para conhecer todas as cenas de cor e ter deixado de lhes achar piada. Mas isso não aconteceu ainda. A melhor comédia de sempre (para alguns - eu diria que está a par de "Monty Python e o Cálice Sagrado") continua tão eficaz como da primeira vez. E claro, Marilyn Monroe mostra que consegue mais do que ser, simplesmente, o arquétipo da espécie. Sabe representar. Gozar com a imagem que o mundo tem de si. A mão de Wilder seria certeira mais vezes; mas nunca com o estado de graça deste filme. Há alguns que conseguem ser perfeitos.

Passo o desafio ao Pedro Mexia, ao Luís Miguel Oliveira, ao Alexandre Andrade, ao Ivan Nunes e ao João Lopes, porque são eles quem melhor escreve sobre cinema na blogosfera e também porque, por esta mesma razão, não se vão dar ao trabalho de continuar a corrente. Sete anos seguidos de maus filmes, é o que dizem. Azar.

(Reparo que Brando aparece duas vezes; aparecem duas louras de Hitchcock; uma loura/morena que emula as mulheres de Hitchcock; e o ideal de beleza feminina, a falsa loura Norma Jean. Que padrão é este que detecto?)


[Sérgio Lavos]

28/10/07

Os amores de Buster Keaton em Paris


As canções de Paris são, para Christophe Honoré, canções de amor: do amor simples dos casados, ao amor partilhado a três, ao amor homossexual, passando pelo amor fraternal. Elas conduzem o filme, revelam segredos e expõem a intimidade de Ismaël Bénoliel (Louis Garrel) e restantes companheiros musicais. Mas este Louis Garrel, que ouvi dizer, tem semelhanças interpretativas com Jean-Pierre Léaud [o mais certo é serem referências ao próprio cinema francês] afirmando-se mesmo o paralelismo entre a relação de Honoré e Garrel com a de Jean-Pierre Láud com François Truffaut, mais parece uma versão francesa-musical-gay de Buster Keaton. Houvesse a possibilidade de Keaton se apaixonar em Paris e ele poderia ser Ismaël. Louis Garrel tem o olhar triste, a boca sisuda, o andar feminino que caracterizam a fisionomia de Keaton, não esquecendo a magnífica capacidade pantomima deste. Esta semelhança é visível, não só nas sequências mais divertidas de As canções de amor (quando Louis Garrel nos conduz a um ambiente de espectáculo caseiro que até parece estar fora do registo das filmagens do filme), sequências dignas do cinema mudo de Keaton onde a seriedade facial contradiz com o burlesco dos gestos, como também na corporalidade do actor, gestos efeminados e esquivos fugindo à constante solicitação sexual. Christophe Honoré, a meu ver, destaca-se mais na narrativa, no desenvolvimento sempre inesperado e, por isso, fugindo aos clichés do romance contemporâneo, dos amores loucos de Ismaël, Julie, Alice e Gwendal, do que na linguagem cinematográfica. Nem sempre os recursos cinematográficos são os melhores. Alguns planos não têm o melhor enquadramento e, por isso, não se sucedem harmoniosamente, a profundidade nas cenas nocturnas também é inexistente, bem como um aspecto curioso: as pessoas olham e enfrentam a câmara e os actores nas filmagens de rua. As canções de amor é um filme que se alimenta da sombra de imagens icónicas do cinema francês mas que vale a pena pelas intensidade eróticas que percorrem Garrel.

[Susana Viegas]

27/10/07

A realidade

Durante muitos anos, deitei-me cedo. E, antes de adormecer, lia. Velho hábito, que fui perdendo com os anos, à medida que as horas de sono se foram encurtando, que o cansaço diário se foi fazendo sentir de forma mais intensa. Actualmente, ao fim de algum tempo, caio no sono. Abro o livro, reclinado, mudo de posição várias vezes, a leitura ganha corpo, os olhos vão pesando sobre as letras, a consciência desliza lentamente em direcção aos doces braços do sono - que não recuso, nunca recusei. Nessa dimensão aprendo quase sempre mais do que nesta; os sonhos são a verdade que recusamos ver enquanto acordados.
Por vezes, cruzava as noites a ler; acontecia quase sempre com policiais, o género dos anos de aprendizagem. Os primeiros livros que lemos têm de ter aquele gancho, o querer saber quem matou. Quando nos habituamos a outros géneros, o gancho ganha outras formas, mas continua presente. É difícil entrar num livro que nos deixe completamente perdidos, sem farol a indicar o caminho; no entanto, com o tempo resistimos com mais força a essa necessidade. Avançamos às escuras, e por vezes julgamos, no coração da floresta, que o autor nos abandona, sem um propósito aparente - a melhor literatura dos últimos cem anos vive deste artifício. Por que razão Joseph K. é perseguido? O que leva o estrangeiro a matar o homem na praia? O suspense prolonga-se para lá da última linha - e a eterna promessa do policial, a de que no fim tudo será desvendado, fica por cumprir, ou, de outro modo, é deixada nas mãos do leitor. Os livros sem solução são aqueles que oferecem mais respostas - mas nunca certezas. Haverá algo que se aproxime tanto da substância essencial da existência humana?

(Texto inicialmente publicado no Arte de Ler)

[Sérgio Lavos]

26/10/07

O gato, a corrente e o livro

Curiosamente, disse o gato, não estou aqui por acaso. Curiosamente, o sentido que encontro no acaso de aqui estar fez-se de uma coincidência, mas aqui cheguei, portanto a coincidência tem sentido. Não há limites para a combinação de elementos. O sentido surge sempre depois, depois da combinação se dar, de acontecer. As palavras são limitadas. As possibilidades de se combinarem, infinitas. Não há qualquer vestígio de esoterismo neste estado de coisas.
O gato disse: a curiosidade fez-me abrir ao acaso a página 161 do livro mais próximo (qual o simbolismo cabalístico deste número?). Curiosamente, terei lido o conto que folheio enganado. Fui levado ao engano. Eu explico: julgava ler um conto de Iris Murdoch (reconheci-lhe erroneamente o estilo, talvez por pouco conhecer de Murdoch; bom, não o suficiente); estava gostando do ritmo sensivelmente feminino (acredito na literatura feminina; acredito na diferença entre a mão masculina que segura a caneta e a mão feminina que a conduz; triste é a mulher que não se orgulhe desta diferença); da evocação/homenagem a Virginia Woolf e à sua Mrs Dalloway; da citação directa do ensaio Um Quarto Que Seja Seu: uma mulher que aluga um quarto para fugir à rotina familiar, marido e filhos, à modorra burguesa de um subúrbio londrino; as subtilezas de alma que (desconfiei cedo) conduziam lentamente ao deslizar para a loucura (mas a previsibilidade era uma coisa boa, confortável; doméstica). Julgava ler um conto de Iris Murdoch. Lia com prazer um conto que julgava ser de Iris Murdoch. Voltei atrás, à tábua das matérias, para me certificar da precisão bio e bibliográfica. Identifiquei o logro. O logro em que me enredei (mas já tinha sido capturado). Uma história bem contada é uma teia - e haverá coisa mais feminil que uma aranha? Não lia Iris Murdoch. Antes Doris Lessing. Doris Lessing? Teria lido alguma coisa antes? Talvez, mas esquecera ao certo que livro. Pouco importante. Regressei ao rio, deixei-me levar na corrente, cheguei ao fim e confirmei as minhas suspeitas. Voltei ao local do crime, por acaso, impelido por um desafio do João Ventura. O livro à minha esquerda era Modern British Short Stories, que retirara da prateleira no outro dia, ao escrever um texto sobre Doris Lessing para o blogue. A página 161 era uma das páginas do conto, o maldito conto, To Room Nineteen. O gato diz: há acasos? Que se prove com a transcrição da frase nº 5, a cores, devidamente enquadrada pelo antes e o depois:

She said to Mathew in their bedroom: "I think there must be something wrong with me."
And he said: "Surely not, Susan? You look marvellous - you're as lovely as ever."
She looked at the handsome blond man, with his clear, intelligent, blue-eyed face, and thought: Why is it I can't tell him? Why not? And she said: "I need to be alone more than I am."

Não há passagem que melhor defina o ambiente do conto. E, para todos os efeitos, a alma feminina. A nova alma feminina, usufruindo do esplendor de um tempo, de um quarto para ficar sozinha. O gato diz: haverá sentido em toda esta sequência de simultaneidades entre vida interior e exterior, entre realidade e ficção, entre coisa escrita e coisa acontecida? Ou a minha curiosidade acabará por não ser satisfeita?

(Entretanto, passo o meme a cinco bloggers. Não esquecer: o primeiro livro que estiver à mão. A página 161. A quinta frase completa. Bom proveito tenham o André Moura e Cunha, a Miss Allen, a Ana de Amsterdam, o Luís Carlos Silva e o Tiago Galvão. E eu sei quem não vai continuar a corrente. Estão debaixo de olho.)

[Sérgio Lavos]

24/10/07

MACE



Um recente passeio pelo norte do Alentejo levou-nos a Elvas guiados pela curiosidade em ver a colecção de António Cachola no MACE que desde Maio ocupa o espaço da Misericórdia de Elvas. Depressa a vontade esmoreceu: ao contrário do que indicava o site do museu, a exposição encerrava às 18h e não às 20h, contratempo que nos permitia cerca de 1 minuto para circularmos pelas salas. Explicada a obtenção de informação desactualizada no site (era Domingo e a alteração vinha de 4ª feira...) e graças à boa vontade dos funcionários, foi possível fazer uma visita relâmpago à exposição. Olhando para o conjunto de artistas, reparo que metade estão ausentes, talvez emprestados a outros museus ou exposições, talvez guardados à espera da sua vez.

Fez-se notar a ausência de algumas obras, nomeadamente, A Noiva, de Joana Vasconcelos, que rumara para Nova Iorque. No entanto, era forte a sua ausência na sala do Consistório onde se via ainda o grampo deixado no tecto. Este facto revela-se positivo: ainda assim, a sua ausência permitiu imaginar o contraste interessante que terá havido entre A Noiva, lustre feito de tampões OB, e os azulejos azuis e brancos da 1ª metade do séc. XVIII que cobrem as paredes da sala, e questionar, não só o valor das obras da arte contemporânea, mas os elevados níveis de sucesso que alguns artistas portugueses alcançam e que, parece, se multiplicam por todas as bienais e exposições. Este é, aliás, um problema clássico neste tipo de colecções exclusivas de arte contemporânea. Como o tempo é bom conselheiro, só a sua passagem irá permitir a imprescindível sedimentação dos objectos expostos, distinguindo o objecto decorativo, por vezes um produto fraudulento do marketing, das obras de arte, as que sobrevivem ao nome do artista, como testemunho da própria função educativa dos museus, salvaguardando o acumular de tralha.

[Susana Viegas]

Sigur Rós



Sigur Rós a triplicar dia 5 de Novembro com o cd duplo Hvarf-Heim e o dvd Heima. A nível musical, não será o acontecimento mais esperado, não só porque já circula nos downloads gratuitos, mas porque não são músicas novas: se Hvarf diz respeito a músicas nunca gravadas mas já conhecidas dos concertos, em Heim encontramos uma espécie de best-off acústico. O mesmo não diria do dvd Heima, um filme sobre os Sigur Rós com uma série de concertos realizados gratuitamente na Islândia (a casa deles) (quando terminaram a digressão) nos mais extraordinários cenários.

[Susana]

23/10/07

Nossa Senhora Fátima

Visitar o café do bairro onde vivo a um dia de semana de manhã começa a tornar-se fundamental. A um dia do 13 de Outubro, é uma trip bestial ver o programa da Fátima Lopes e a turba de senhoras domésticas e reformados solitários que ainda não receberam o prometido telemóvel, glorificando-a acima de todas as coisas. Grita-se muito, nestes belos magazines matinais. Grita a Fátima, gritam os assistentes, gritam os convidados, gritam os repórteres de rua a entrevistar o Zé Manel que nos fala da Suíça e manda um beijinho a toda a gente lá em casa, lágrima ao canto do olho, caniche ao colo e bandeira do Glorioso numa mão, que a fé católica pode ser perfeitamente compatível com a crença sobrenatural numa entidade que ultrapassa em importância qualquer santinho, vidente ou virgem: o Benfica. Há razões perfeitamente válidas para a gritaria: as velhinhas deste país agradecem não terem de se levantar para aumentar o volume do aparelho – entre a surdez e a artrite, não é fácil a vida de um fã de Fátima Lopes.

Um senhor, emocionado, relata o último milagre da Senhora:

- Eu não via o meu sobrinho, vá lá, afilhado, há pr'aí trinta, bem, foram vinte, quer-se dizer, dez, ou seis ou sete, e encontrei-o, por acaso, numa missa ontem, à uma da manhã, estava atrás de mim, acredite (pausa para limpar a lágrima, o repórter diz: amigo, tenha calma. Respire fundo, se não não se percebe nada), acredite, Nossa Senhora foi quem fez isto, mando um beijinho para a minha filha de seis meses, e à minha esposa, que é belga, estou muito comovido...

Corte para a Fátima, passagem algures ao Algarve, onde se encontra Marco Paulo, que deve a vida à intervenção de Nossa Senhora:

- Foi graças a ela (mão no peito, rosto sofrido, olhos por detrás dos óculos escuros raiados de lágrimas) que recuperei da minha doença, devo-lhe tudo, daqui de onde estou, agradeço, que ela está aqui, a Nossa Senhora não é de Fátima, é do mundo, é do povo.

Regresso ao estúdio, alguém vai cantar, daqui a pouco publicidade e depois voltamos a Fátima, onde os milagres podem acontecer.

Não vale a pena procurar explicações para o fenómeno de Fátima noutro sítio que não seja o Portugal retrógado de 1917. Que, passados 90 anos, continua tão retrógado como era nessa época. Curiosa é a coincidência da Revolução Comunista ter acontecido na mesma época das aparições. Menos curioso é o facto das aparições terem sido utilizadas como arma política contra a emergência da nova potência comunista, a União Soviética. Imagino que as visões de Lúcia, de um apocalipse liderado pelas hordas de proletários, tenham mais a ver com a hierarquia católica ameaçada pelo ateísmo que o comunismo preconizava (apenas há lugar a um ópio para o povo, o belo ideal revolucionário propagado pelo Querido Líder), do que com algum cogumelo mágico encontrado pelos pastorinhos e pelo povaréu que se juntou ali na Cova da Iria (embora haja relatos de uma erva-do-diabo que crescia à sombra da azinheira milagrosa). Há árvores que choram, quadros de santas que sangram, cadáveres que não se decompõem, mas é difícil atingir o estado de delírio a que se chegou naquele dia. Tão delirante, tão delirante, que nem a fiável objectiva de Joshua Benoliel (por sinal, um ímpio judeu) conseguiu apanhar o milagre do Sol rodando sobre si próprio (há uma música sobre isto em “Piper at the Gates of Dawn”). Fixou-se antes na multidão de devotos, braços abertos em direcção ao céu, rostos crédulos e esfomeados esperando por um milagre que os salvasse da miséria em que viviam.

Salazar e a Igreja Católica encarregaram-se do resto. Fim da história.

Noventa anos depois, o delírio entra pelas casas dentro. E, no fundo, entre uma peregrinação a Fátima e uma visita à catedral da Luz não há muita diferença. Cada um dedica-se ao culto que mais lhe convém. E se possível, acumulando. Garantem-se assim maiores possibilidades de salvação. Amén.

(Texto originalmente publicado no irmão lúcia)

[Sérgio Lavos]

22/10/07

Homo Sapiens Watson

Não deveria ser assunto que merecesse um texto aqui, depois de ter lido esta brilhante refutação de Vasco Barreto no Cinco Dias; ainda assim, há coisas que se tornaram um hábito, e nem assim se tornam confortáveis. Os textos que defendem, de forma mais ou menos velada, mais ou menos hábil, as afirmações de James Watson, têm em comum o fantasma recorrente da liberdade de expressão. E o espantalho do politicamente correcto, para afastar as mentes mais susceptíveis. Torna-se cansativo. Para além de aturarmos a pesporrência ignorante de um prémio nobel desatinado, levamos com os habituais especialistas em tudo e coisa nenhuma, que, à primeira oportunidade, se socorrem da agenda política do costume.

Qual não foi a minha surpresa ao ver o habitualmente (para mim) inatacável Desidério Murcho juntar-se ao coro de carpideiras, com João Miranda à cabeça. Deste último, já não se espera muito. Na cabeça da alegre tropa fandanga de fãs que linka o Blasfémias e parasita a caixa de comentários, não há superioridade genética que resista à solidão do neurónio. Normal. Como também é o facto de a maior parte dos Mirandettes não snifar sequer a agenda política do ídolo - a revelada e a oculta (ou já ninguém se lembra de Pinochet, esse grande defensor da liberdade de expressão à força de armas, ou de Salazar, paladino da virtude libertadora do silêncio à luz de velas - pingando quentes sobre a pele -?).

Isto é João Miranda. Mas Desidério Murcho? Vejamos o que me interessa, citando:

Em conclusão, Watson pode estar a ser vítima do “politicamente correcto”. Hoje é proibido pensar que as pessoas podem ser diferentes umas das outras em capacidades cognitivas, sendo tais diferenças correlativas às suas origens genéticas. Tal como é proibido dizer que o aquecimento global não é provocado pelos seres humanos. A proibição em si é grave, pois mostra até que ponto estamos em pleno pesadelo orwelliano.

Primeira frase, o "politicamente correcto". E o que pensa o PC? Que é errado achar que as pessoas podem ser diferentes em termos de capacidade cognitiva, se estas diferenças forem causadas por diferentes origens genéticas. Abandonemos a paráfrase. O que existe de falacioso nesta frase? Não foi ainda provada uma correlação entre origem genética e capacidades cognitivas. Portanto, não há argumento racional que possa contradizer o facto de ser eticamente mais correcto achar que todos os seres humanos possuem as mesmas potencialidades a nível cognitivo, independentemente da sua origem geográfica ou étnica. E porquê? Porque a genética provou que apenas há uma raça humana, o Homo Sapiens Sapiens. Como, de resto, Desidério Murcho sabe, se esquecer por um momento a sua própria agenda anti-politicamente correcto.

O pensamento "claro e disciplinado" da filosofia deveria servir pois, antes de mais, para reflectir na razão de acreditar mais em estudos científicos que analisam a média do QI de diferentes grupos étnicos norte-americanos (a famosa Curva de Bell) do que numa evidência científica mais que comprovada. O QI, e as medições que dele se fazem, está longe de ser um valor absoluto. Já a homonogeidade genética de toda a Humanidade, ninguém com boa-fé poderá colocar em causa.

Dispenso-me a outro tipo de considerações em relação à lógica enviesada do texto de Desidério Murcho. Se a premissa é errada - a suposta cientificidade a qualquer prova dos estudos de demonstram as diferenças cognitivas de acordo com a "raça" - nenhuma argumentação pode ser considerada válida. Ou , vá lá, inteligente.

A cegueira provocada pela sanha anti-politicamente correcto é uma doença que alastrou tão rapidamente como o próprio PC (e não é estranho que a sigla maldita se confunda com o partido do mesmo nome - é a política, estúpido!). Que gente com um "pensamento claro e disciplinado" se associe (indirectamente) a nebulosos comentadores de tudo e nada, é que é surpreendente. Por vezes, é preciso pouco para despertar o monstro. Um cientista idiota e racista não é pouco.

[Sérgio Lavos]

Mudança

Estava a ver o "Câmara Clara", bem sentado, confortável, a olhar para o ar também confortável (alguém maldoso diria acomodado) do Zé Pedro e, principalmente, de Pedro Ayres Magalhães, e imaginava o que seria o Bairro há trinta anos, quando meia-dúzia de voluntariosos decidia imitar as bandas que via no NME e ouvia em vinis importados de Inglaterra (Miguel Esteves Cardoso explicou tudo muito bem explicadinho na sua "Escrítica Pop"). Não é a minha história. Conheci os Xutos por alturas do "Circo de Feras"; respeito - mas não vibro. Aprendi a gostar de alguma música com Zé Pedro - num programa de TV dos princípio dos anos 90, o Vira o Video, que ele apresentava em conjunto com a Xana e o Henrique Amaro; os Young Gods, as vezes que passaram Gasoline Man no programa! E a improvável fama para os Mão Morta - em Budapeste.
Quinze anos depois, trinta anos depois, depois da comenda e da consagração nacional, depois dos anos de estrada e da música de combate dos Xutos, da cena facho-romântica dos Heróis do Mar, depois de tudo, a calmia da meia-idade. Zé Pedro é Zé Pedro. Já Pedro Ayres foi provocado várias vezes. Manteve-se calado. Falou-se de política. Falou-se do percurso de Nick Cohen, jornalista criado pela esquerda e como tal edipianamente distante da esquerda.
(É tempo de alguém que ainda seja de esquerda escrever um livro sobre todos os intelectuais e ideólogos de esquerda que chegaram à meia-idade a apoiar cegamente a administração Bush ou a tibieza de Durão Barroso. Que percursos são estes? Que motivações? Que complexo ou recalcamento conduz homens como Cohen ou os neoconservadores, ou Pacheco Pereira, ou José Manuel Fernandes? Mudou mesmo alguma coisa nestes homens?)
Não há revolução que não precise de sangue quente e pouco neurónio. E não há revolução que não deixe de fazer sentido quando se chega aos 40 e já se conseguiu conquistar tudo o que havia para conquistar. Vejo os dois músicos, e sei que o Zé Pedro deixou a má vida, os abusos, e imagino-o sentado à lareira, recordando ultrapassadas rebeldias. Pedro Ayres Magalhães tem ar de bon-vivant. Comida e bebida. Desfrutar. Olhando para o passado sem ansiedade, com ironia mais ou menos arrependida.
Não é uma coincidência que ambos os músicos tenham referido a admiração comum por Bob Dylan. Dylan, de guitarra sob o braço cantando para uma multidão com desejo de revolução (a pandilha folk), já se via quarenta anos depois trovando sobre o desencanto do mundo, do tempo que o espartilha, da mudança. Dylan nunca quis fazer revoluções, a não ser na sua própria maneira de ver as coisas. A grandeza de um homem não está naquilo que consegue mudar, mas sim no que consegue guardar do tempo que mudou. Não sei que outra definição possa ter a sabedoria.

[Sérgio Lavos]