28/02/07

Videografias 8


Pois, Justin Timberlake também tem lugar no mundo dos bons videos musicais. O rapaz do momento, o namorado de celebridades, o preferido da MTV, de primeiros lugares nos tops, de meses temáticos dedicados à sua música, cresceu e agora também contracena com Scarlett Johansson, a desejada. O video para What goes around ... comes around é realizado por Samuel Bayer que começou nos anos 90 com os Nirvana e o fantástico Smells like teen spirit. Tem ainda diálogos de Nick Cassavetes que em Portugal ficou conhecido pela inquestionável ascendência artística (John Cassavetes e Gena Rowlands) e pelo filme John Q (2002). Por entre meretrizes inspiradas em Moulin Rouge, perseguições de automóveis, encontramos o amor fous entre Scarlett e Justin. Consumido pelo ciúme e traição, este amor acaba mal, muito mal... no director's cut que dura mais de nove minutos. Um épico para rivalizar com Cry me a river.

[Susana Viegas]

26/02/07

Showbizz

Depois da noitada de ontem, um regresso sem cinema ao lugar do crime. Passo os olhos por alguns blogues de cinema e confirmo a ausência do fenómeno. Alguns, não todos. Aqueles que não se envergonham de gostar de cinema americano - e o que é isso - excepcionam-se? Cinema europeu? Dois ou três excelentes filmes por ano, ultrapassados pela dezena ou mais de filmes americanos. A maior parte destes, claro, nem passam pelos Oscares. Tenho ganho mais em ter perdido muito dos premiados dos últimos anos. E este ano, nenhuma surpresa, claro. Um prémio é um prémio, nunca é cinema. Vale o que vale, e acaba por ser penoso ver Scorcese, nos últimos cinco anos a fazer-se ao oscar como o Liedson se faz ao penalty. Olho para o sorriso de velho e detecto a verdade: "preferia ter recebido isto há trinta, vinte anos atrás". Mas a publicidade prescinde do mérito e do bom gosto. Penso em dois ou três filmes dos últimos dez anos; nenhum recebeu o Oscar. "Mulholland Drive"; "Pulp Fiction"; "A Barreira Invisível"; "In The Mood For Love" "Magnolia"... E podia enunciar mais vinte ou trinta melhores do que os que têm recebido o prémio - com a excepção de Clint Eastwood. Um bom exemplo da contigência da Academia em relação ao cinema foi o prémio que Philip Seymour Hoffman recebeu por Capote. Andou anos a fazer grandes papéis, mas teve de produzir o filme certo para ver reconhecida a sua qualidade. E o filme certo foi "Capote", um biopic camp com a dose certa de histrionismo e previsibilidade para ser oscarizavel. Este ano, outro actor inquestionável que precisou de passar pelo mesmo: Forest Whitaker. E serei apenas eu, ou acabam todos por sentir o que Scorcese deve ter sentido? Ou será a vaidade humana assim tão castradora?

(O homem na sombra lá em cima nunca recebeu a estatueta. Credibilidade, foi o que disse?)

[Sérgio Lavos]

21/02/07

Aviso

Este blogue não irá falar de literatura nem dos seus desaparecidos durante os próximos cinco dias. Até já.

[Sérgio Lavos]

20/02/07

Literatura de antecipação

Há algum masoquismo nas intenções - e talvez sadismo nas conclusões - de repisar um tema já tratado em textos anteriores. A preguiça reclama do trabalho que dá pesquisar nos arquivos do antigo blogue. Não irei lá. Mas como se aproxima a minha visita a Londres (dado inegavelmente de natureza biográfica, registe-se para memória futura), recordo a passagem de "Austerlitz", de W. G. Sebald, quando ele visita o museu de Greenwich, devotado aos instrumentos de medição e afins. Na altura escrevi uma charla memorialística, com um tom vagamente saudosista e, consequentemente, rançoso. Irei lá voltar, quem sabe, e percorrer o meridiano como qualquer turista, e talvez entre pela primeira vez no museu. Sebald ter-me-à convencido - a desgraça da literatura.
Ou convenceu-me Enrique Vila-Matas, ao convocar Sebald a propósito da sombra que paira sobre "Doutor Pasavento", Robert Walser. É verdade - não uma verdade de romance, como algumas inventadas por Vila-Matas em obras anteriores - verdade verdadinha que o pai de Sebald morreu exactamente no mesmo dia de Walser; e é também verdade que ele tinha o hábito de dar grandes passeios - como Walser. Que as personagens de Sebald cultivem também este gosto pela deambulação não é apenas um acaso. Em "Austerlitz", o narrador entra de olhar pasmo no museu de Greenwich e dedica-se ao prazer da observação minuciosa. Há uma impossibilidade concreta de sentirmos a passagem do tempo. O tempo é interior, qualquer um sabe, mas não os instrumentos que inventamos para o domar. Observar relógios, cronógrafos, sextantes e astrolábios pode-nos conduzir a um vislumbre da verdade da natureza humana, a sua força criadora. Numa paisagem de ruínas - as aventuras da pós-modernidade têm este infeliz defeito - estes vestígios de outras eras apenas fazem sentido em museus; como as estátuas.
Mas decido sair de Austerlitz. Reentro em Vila-Matas e cito uma citação (não sei se inventada ou real) de Alan Pauls: "É uma experiência única, adormecer num filme de Tarkovsky e acordar de repente com uma das suas imagens". Lugar-comum, já me sucedeu várias vezes. Recordo uma sessão na Cinemateca, lembro Stalker. Acordei no plano mais significativo do filme: a mão dentro de água, a água a correr, escolhos em volta. Entre Tarkovsky, continuação de um sonho, e a paisagem devastada de Sebald, há mais que um rio a correr.

[Sérgio Lavos]

19/02/07

Bartlebys

O cinema também se tem interessado, aqui e ali, pelo fenómeno bartleby. A mitologia do escritor que desaparece pode ser um bom tema. Tem glamour e tem mistério, tem o questionamento fundamental da arte; não tem romance nem morte, mas tem uma coisa melhor: o desaparecimento. Tratado assim, desligado da realidade, há, que me lembre, "Sous le Sable", de François Ozon. Dir-se-ia que não tem nada que ver com Bartleby. Talvez tenha. Talvez seja mais estimulante achar que o marido desaparece de forma voluntária, e não que tenha morrido no mar. De qualquer modo, o tema óbvio do filme é a perda, a quebra no fio narrativo da realidade que qualquer mudança provoca (contra o conselho comum que obriga as pessoas que sofrem esse corte ontológico a retomar o ritmo normal da vida - como se o pudessem fazer). Pensar a obra de Ozon pelos olhos de quem procura gente com a melancólica condição do desvanecimento, todavia, conduz-nos a realidades que estão para lá do filme, quem sabe se para lá do pensamento do realizador. Regressemos portanto a Bartleby. Por exemplo, William Forrester no mais ou menos ingénuo "Finding Forrester", de Gus van Sant. Mais ingénuo pela repetição do tema em relação a "Good Will Hunting" - o jovem génio conturbado em busca do mentor esquecido de si mesmo. Mas menos pela evocação de um J. D. Salinger perdido no Bronx (terá lido o autor do argumento a história em que Vila-Matas encontra o escritor num anónimo autocarro nova-iorquino?), lutando pelo seu direito à reclusão. O que é inteligente no filme é o facto de Forrester (Sean Connery) não ter simplesmente deixado de escrever - ele persiste, imperturbável, na continuação da sua obra. Mantém o ritmo, a rotina, os fetiches da escrita. Mas já não quer publicar, não quer saber do mundo que continua a rodar fora do refúgio onde se encontra. Três ideias de notar no filme: a agarofobia, relacionada de forma determinante com o sibaritismo da personagem; aquela velha ideia de que se queremos nos esconder do mundo, então o melhor é encontrar um esconderijo o mais perto possível do centro de tudo - no caso, o Bronx, a dois passos do coração de Nova Iorque; a tal insistência na escrita - o verdadeiro bartleby nunca desiste de ser ele próprio; simplesmente desiste de ser ele próprio no mundo. E desaparece.
A escrita precede a vida e eleva-se acima dela. Quantos originais estarão guardados na gaveta de J. D. Salinger?

[Sérgio Lavos]

18/02/07

O escritor imerso em melancolia

Mirando aquella postal, tuve la sensación repentina de vivir una inmersión radical en la melancolía. Luego, me olvidé. No fue hasta 1993 cuando volví a encontrarme con aquel paisaje de Cascais. Lo encontré inesperadamente en una revista femenina, y allí estaba el mismo paisaje, pero actualizado. El faro había crecido verticalmente y había tres en lugar de dos palmeras. La casa o "vivenda Lino", informaba la revista, pertenecía ahora a los Kennedy portugueses, "la emblemática familia de banqueros apellidados Espírito Santo". Volví a conocer una inmersión radical en la melancolía. La memoria difusa de haber estado alguna vez en aquel lugar. ¿Cuándo? No lo sabía. Pero ya había estado allí antes de haber estado nunca. (Ler o resto aqui).

Enrique Vila-Matas

[Sérgio Lavos]

16/02/07

Escolhas

Ler uma entrevista de Enrique Vila-Matas pode ser uma acção arriscada. Há quem julgue que apenas jogar na bolsa e praticar mergulho com tubarões - que, no fundo, é a mesma coisa - são actividades perigosas, mas a verdade é que a literatura não oferece segurança nem porto de abrigo a ninguém. Um escritor mente, por defeito profissional ou por hábito, obsessivamente e de forma ingénua, como se a mentira fosse uma segunda pele. Gosta tanto da mentira que não a consegue abandonar quando lhe é exigida a verdade. O horror que o escritor tem às entrevistas nasce deste apego doentio ao delírio, à invenção, uma vontade irrepremível de ser outra coisa qualquer que não ele próprio. Vila-Matas, instalado (ele diz) na sua casa em Barcelona, respondeu às perguntas da jornalista. Incauta, imprevidente, que deixou cair todos os trunfos que tinha na manga. Deixar que o escritor responda por escrito a perguntas sobre a vida é um convite aberto à falsificação, à invenção de outra vida. Um escritor a falar, por outro lado, é quase sempre um peixe fora de água, tentando sobreviver no meio hostil da palavra falada. Há hesitações que se lêem nas entrelinhas, ausências, contradições. Nem o mais hábil dos escritores consegue ser coerente quando fala. E esta incoerência, para a felicidade do leitor mais atento, aproxima-se tanto da verdade que quase a pode substituir na perfeição - o caos da linguagem substituindo o caos da vida humana, bela utopia.
Mas Vila-Matas deu por escrito as respostas, e ninguém pode afirmar com certeza o grau de realidade que elas deixam passar cá para fora. Ele fala de uma crise pessoal; e qualquer crise leva a uma transformação, a uma mudança. Que, continua ele, se começa a notar na sua escrita. Espero para ver, mas desconfio. No caminho que Vila-Matas decidiu percorrer havia apenas um final a assinalar; e esse fim, o da literatura como espelho da imaginação e daquilo que diferencia os seres humanos do resto dos animais, conduzia ao desepero da não-produção. Vila-Matas, ao questionar os fundamentos do seu ofício, questionava a sua própria existência. Sentiu na pele a resposta da vida que imitava - resistiu ao niilismo (diz) e reecaminhou a sua escrita noutra direcção. Entre a sensatez da derrota e o absurdo do desaparecimento, fez uma escolha, contrariou a decisão do seu herói Robert Walser.
Eu bem posso continuar a escrever sobre uma ficção. Nunca saberei ao certo.

[Sérgio Lavos]

Hotel Memória

Jefferson Hayman Avenue


Perante o mais recente romance de João Tordo, Hotel Memória, devemos deixar de lado os preconceitos e fazer uma suspensão das crenças tradicionais quanto ao uso hiper-feminino do cor-de-rosa "esta coisa de olhares a contracapa de um livro e teres a fotografia do autor, a descrição sumária do enredo e da sua vida, quantos filhos tem e onde é que costuma jantar, torna tudo um bocadinho previsível"(p.35). Não julguemos a capa de um livro por critérios de cor mas também não esperemos uma surpresa porque este livro não surpreende quem lera o anterior Livro dos homens sem luz (Temas e Debates, 2004). João Tordo continua a possuir o ânimo de quem sabe contar bem uma história não escondendo as influências directas: como o anterior livro, Hotel Memória é inspirado de um modo claro, e por isso honesto, em Paul Auster e na incompreensão do poder que o acaso tem. João Tordo sabe manter a coerência numa narrativa comandada por relações livres entre factos e personagens, mantém a procura por determinadas atmosferas ficcionais oníricas e demenciais por onde caminham personagens perdidas ou em expiação, como o narrador, Ismael de Moby Dick ou um verdadeiro Bartleby luso.


"Quando a conheci já ela trabalhava para um morto. Soube-o mais tarde, mas só passados três anos fui capaz de descobrir as linhas invisíveis com que tudo se encontrava ligado" pág.9

Hotel Memória, QuidNovi, 2007, 224 p.

[Susana Viegas]

15/02/07

A ocupação dos dias

Não tenho tempo para tudo. Não quero ter. Tempo para tudo. Não quero ter lençóis de tempo a cobrir os dias. Entre trabalho e casa, uma distância ocupada sempre com mais trabalho, menos tempo. Um homem com a vida nas mãos acaba por perder o jeito. O contacto com a sua essência. O tempo livre limpa o gosto da vida da boca. Um homem sozinho, entre paredes e angústia, é o rasto de uma pedra na água. Entre a queda e o desaparecimento, quase nada.

[Sérgio Lavos]

14/02/07

Deus me livre

Um gajo morto pode estar mais vivo do que muitos vivos sem vontade de viver. Será que as sessões espíritas vão continuar?

[Sérgio Lavos]