17/10/06

Tentar

Quando escrevo sobre a arte de emendar, sei do que falo. Nada nas minhas mãos consegue durar muito tempo. Não preciso de Beckett para me lembrar de tudo o que não conseguirei tornar definitivo. Tentar, sempre tentar.

[Sérgio Lavos]

Emendar

No Expresso desta semana, Joaquim Manuel Magalhães escreve sobre a consistência que uma obra pode ter nas mãos do autor. Fixa dois pontos opostos na sua cartografia da inconstância: o poeta que escreve, publica e não volta a tocar no texto, como se este, ao revelar-se ao mundo, deixasse de pertencer ao criador; e o poeta que emenda, rasura, apaga, reescreve. Como exemplo dos dois extremos refere Jorge de Sena – e sublinhe-se o pudor usado, obsequiando em avanço alguma eventual falha no julgamento – e Carlos de Oliveira. Interessante exercício, que não deixa de conter na entrelinhas uma auto-reflexão premente - e quase irónica. Joaquim Manuel Magalhães (JMM) pertence, desde a publicação da sua obra refundadora “A Consequência do Lugar”, ao segundo grupo, dos que não se demitem das responsabilidades perante o poema, considerando-o um erro em progresso, e por isso mais perto da vida, da matéria que imita. As conclusões a que chega JMM acabam por revelar mais sobre as suas próprias estratégias do que sobre as estratégias dos outros. É ele quem escreve: “Estas posições face à obra já escrita, que oscilam entre dois extremos – ou nunca alterar absolutamente nada do alguma vez publicado ou contínua e radicalmente sempre alterar em todo o momento em que entende fazê-lo – têm um significado profundo que ajuda a compreender não só o perfil psicológico do poeta em causa como os próprios mecanismos críticos do seu entendimento do que é a língua da literatura.”
Este parágrafo revela exactamente aquilo que JMM quer revelar: o entendimento da sua própria obra. Quase que se pode adivinhar em que grupo ele se enquadra, e a pista decisiva ele dá-a quando narra um encontro entre ele, Eugénio de Andrade e Carlos de Oliveira, em que este admite a sua vergonha em presença de figura tão admirável como Eugénio. “Desconfiança” e “incerteza", são os termos que JMM usa. Carlos de Oliveira emendava com medo do seu próprio falhanço. Jorge de Sena não errava – ou então tinha nojo daquilo que produzia e nunca mais se atrevia a olhar para os poemas; hipótese sem dúvida mais sedutora. Herberto Helder, desconfio, é de outra estirpe. Muda para produzir obra nova, o labor poético em Herberto é produção, máquina lírica, crescimento incontrolável, excesso e vertigem – que nunca pode acabar. Eugénio de Andrade alterava pouco, fazia acertos, reencontrava o rigor que a juventude não lhe tivesse permitido assegurar. E Joaquim Manuel Magalhães? Escreve como um crítico, adequa a obra antes publicada à linguagem da obra presente, torna o discurso coerente e homogéneo, modela os poemas antigos à forma actual, alisando as rugosidades de outras épocas – e, julgo, adaptando também a sua poesia do início ao modelo teórico que actualmente defende. Nada censurável, de resto.

[Sérgio Lavos]

16/10/06

Ponto da situação

Bem gostava de ter um blogue em fuga; da notícia diária e diariamente esquecida, do tema fixo e para especialistas, do recorte de vida para amigos e conhecidos. Consigo escapar do segundo e do terceiro, menos do primeiro, mas assim cumpro a função original deste meio: o diário. Outras experiências expressivas, tento-as de vez em quando, e surgem-me desadequadas. E o blogue é também da Susana. Não sei até quando - nunca se sabe - nem com que regularidade, mas vou dividir os meus esforços de escrita entre esta e outra casa, a que regresso, como alguns leitores já sabem: o Arquivo Fantasma. Neste conto publicar tudo o que não interessa: exercícios de escrita inglórios e tentativas vãs de dançar no vazio - isto não pode ser apenas pessimismo. Por aqui, falo do que verdadeiramente não importa, notícias do quotidiano e as minhas visitas regulares a coisas tão pouco interessantes como salas de cinema, jardins, livros e parques de diversão fantasmas - esta última é só para despistar. Tentando diariamente não coincindir com os interesses da blogosfera em geral, com o assunto do dia, tentando manter um registo desfasado do tempo, para meia dúzia de interessados com muito tempo em mãos para perder. Esqueçam grandes projectos; falho tudo. Quem escreve de graça ou é burro ou um atirador vesgo: errando sempre o alvo. Contem com isso.

[Sérgio Lavos]

15/10/06

A Dália Negra

Há duas sequências que vale a pena ver em "A Dália Negra", de Brian de Palma: quando o corpo de Elizabeth Short é descoberto e o crescendo culminante que antecede a cena. E a sequência da escadaria, quando Lee Blanchard (Aaron Eckhart) é morto. Mas nada acontece por acaso. Ambas as sequências são decalques de outros filmes: no primeiro caso, de Palma emula a panorâmica inicial de Orson Welles em "A Sede do Mal", e a cópia é quase perfeita. A pequena cidade de fronteira no filme de Welles, montada num estúdio em Los Angeles nos anos 50, é evocada no cenário erguido na Bulgária por Dante Ferretti, longe no tempo e no espaço da Los Angeles dos anos 40 em que James Ellroy ambientou a história. Mas enquanto que Welles consegue, nesse movimento de câmara, transmitir o tom de decadência e corrupção trágico que marca todo o filme, de Palma apenas nos faz sorrir pela citação. Genial, apenas pelo tom pós-moderno e pelo reconhecimento de um estilo: o pastiche, mais ou menos óbvio. Para mais, o próprio livro de Ellroy é já assombrado pelas memórias cinematográficas dessa época (a sua infância), incluindo a obra de Welles - uma das cenas esquecidas na adaptação cinematográfica passa-se num México tão sujo e corrupto como o que aparece em "A Sede do Mal". Esta "boneca russa" de de Palma tem o seu paroxismo libidinoso na sequência da escadaria, declinada a partir de um plano decalcado de outro filme do realizador, "Os Intocáveis", que por sua vez já imita a cena da escadaria de Odessa em "O Couraçado Potemkin", de Sergei Eisenstein. A partir daquele plano, que suspende o tempo fílmico e prepara o espectador para as imagens que se seguem, sabemos que a obra se vai resolver de modo dramático. O "pathos" repete-se numa auto-citação falsa, e portanto irónica: o desenvolvimento da acção afasta-se da técnica eiseinsteiniana do plano de pormenor intercalado com o plano mais afastado e aproxima-se de Hitchcok em "Vertigo", do jogo de picados e contra-picados, quando Madeleine (Kim Novak) - também nome de personagem em "A Dália Negra" - é empurrada do cimo da torre da igreja. No filme, é Madeleine (Hilary Swank) que empurra, e de Palma vinga a morte de uma personagem memorável da única maneira possível: através da imagem ficcionada.
Cada imagem, nos filmes de Brian de Palma, vale por muitas imagens: as de todos os filmes que são citados e homenageados em cada cena. E o jogo a que ele se propõe acaba por ser menos intelectual, como acontece, por exemplo, em Peter Bogdanovich, e mais lúdico. Tudo pode servir como material de trabalho. O que nos leva a uma pergunta: onde acaba o cinema dos homenageados e começa o cinema do homenageador, de Palma? Esqueçam a retórica: uma imagem apenas pode valer por si própria.

*Em cima, podemos ver Scarlett Johanson fingindo ser Kay Lake, fingindo ser Eva Marie-Saint em "Intriga Internacional". Já chega de citação?

[Sérgio Lavos]

Elizabeth

Não diria superseca. Mas a Isabel I de Miranda Richardson é insuperável, sem dúvida. Nem Judy Dench nem Cate Blanchet, nem agora Helen Mirren: demasiado fútil para uma série que se pretende séria, demasiado "dama" para uma comédia - o meio de onde vem o argumentista Nigel Williams. Vamos esperar o segundo episódio.

[Sérgio Lavos]

11/10/06

O museu

O sonho de Gustav era compor uma galeria macabra de ditadores. Facínoras, sanguinários, lunáticos. Homens cujo rosto oscila entre a demência e o ridículo, caretas facetas que nem a pior das selvagerias salva da farsa que a expressão invariavelmente trai. Como o poderia fazer, pensava Gustav? Havia alguns mantidos numa morte suspensa, mumificados para desfrute das gerações vindouras. A maior parte, porém, resistia apenas em fotografias. Mas talvez houvesse uma maneira. De qualquer modo, não era obrigatório que o corpo estivesse no seu lugar do museu. Uma imagem bastava, uma fotografia. Bigodes retorcidos, buços femininos, braços estendidos, ceptros esculpidos a partir de ossos, tronos erguidos sobre a cinza dos cadáveres, óculos, cabeleiras, dentes postiços, barbas de molho, a família em volta, rodeando o avozinho de mãos manchadas de sombra, sinistra sombra, caricaturas de um arquétipo criado por um qualquer deus irónico e cruel. Uma imagem, apenas, no lugar do corpo, e etiquetas com os nomes por baixo, duas datas, a vida e a morte, e um intervalo de tempo preenchendo meticulosamente relatórios e ficheiros com números organizados em colunas, ao longe apenas uma mancha indistinta assemelhando-se a fumo, mais longe nada a não ser memória, mais longe nada a não ser nada. As imagens multiplicando-se para deleite dos visitantes do museu, Gustav imaginava e nesse enlevo se perdia, generoso curador de uma estranha galeria de monstros.

[Sérgio Lavos]

10/10/06

Antes do amanhecer

Os dias. Os dias aparentam prolongar-se além do verão que terminou. Sinais que se repetem, o calor e a disposição amena da multidão suburbana a caminho dos empregos. Ainda não se vêem camisolas de lã, poucos chapéus, a depressão sazonal teima em acampar ao largo, os espíritos sobrevivem à luz da derradeira humanidade estival. Nem o trânsito se denuncia. O gigantesco animal do mundo enrola-se com gestos pré-históricos à cidade presa num tempo cego e estagnado, os veículos fluem mais devagar mas continuam a chegar ao seu destino, há poucos acidentes a reportar, o metro nunca pára.
Talvez anseie o frio, apenas isso. Coitados dos ossos, atraindo a película de tristeza em redor, aquela que se destaca naturalmente em altura de hesitação e pudor da vida violenta. Um país que não sobrevive ao gelo e à neve não merece a alegria do ciclo das estações, as celebrações pagãs que se perpetuam em regiões a norte de qualquer esperança.
Será saudades do verão, e confesso a minha genealogia maldita. Trocava de bom grado a luz esquecida da estação anterior por um pouco de frio de... por exemplo, Viena. Seis meses depois, o tempo que não se lembrou da hora marcada. A bolha cresceu até ao limite urbano da cidade. E eles já não estavam lá.

[Sérgio Lavos]

08/10/06

O jogo

O jogo, disposto sobre o pano verde, era aberto. Cada carta valia por si própria, e a mão que ele mostrava não era menos forte que aquela que ele escondia. As mensagens paralelas seriam assim acessórias, a clareza dos movimentos previa que o desfecho fosse rápido e ele prescindisse, se fosse caso disso, da mão escondida. Tudo factos evidentes, daqueles que vêm escritos em tratados da modalidade. Ele, no entanto, entendia a sua estratégia de modo diverso. Preferia percorrer estranhos trajectos, transgredir e hesitar voluntariamente em vista da solução óbvia. Quando se sentia obrigado a jogar a carta necessária, fazia-o com um esgar amargo e enfadado, os dedos atirando com algum desprezo o pedaço de papel na direcção do adversário. Este, placidamente, respondia à sobranceria e continuava a jogar como se nada fosse.
O jogo, disposto sobre a mesa, avançava. Quando se começou a aproximar do fim, as jogadas ganharam um novo fôlego, e a hesitação artificial transformou-se em pressa nervosa. O outro jogador mantinha a calma. Ninguém poderia adivinhar que a mão escondida resolveria a contenda para um dos lados. Menos ainda se poderia prever o surpreendente final, as nuances de uma vez por todas desvendadas. Quando ele se retirou, braços caídos e preso de uma profunda melancolia, o adversário recostou-se na cadeira. Enquanto reunia o baralho, uma carta saltou da manga. Lesto, pousou o cigarro que acendera na borda do cinzeiro e deu um piparote com a ponta do polegar e do indicador, fazendo voar a carta em direcção a algum lugar incerto. De costas, o outro não via. E ele sorria.

[Sérgio Lavos]

05/10/06

A árvore

Na nossa barbárie actual encontra-se em actividade uma teologia extinta, um corpo de referência transcendente cuja morte lenta, incompleta, deu lugar a formas e sucedâneos paroxísticos. O epílogo da crença, a transformação da fé religiosa em convenção oca, parece ser um processo mais perigoso que os philosophes tinham previsto. As formas de degradação são tóxicas. Em busca do Inferno, aprendemos a construí-lo e a fazê-lo existir na Terra. (...) Não há outra capacidade humana portadora de maior ameaça. E porque a possuímos e a usamos sobre nós próprios, vivemos hoje uma pós-cultura. Tendo colocado o Inferno à face da terra, abandonámos a ordem suprema e as simetrias fundamentais da civilização ocidental.

George Steiner, No Castelo do Barba Azul, ed. Relógio d'Água

O texto, resultado de uma série de conferências que Steiner proferiu em 1971 na Universidade de Kent a convite da T. S. Eliot Memorial Lecture Foundation, é uma resposta ao livro de Eliot, escrito em 1948, Notas para a Definição de Cultura. Ou antes, é um questionamento directo a Eliot, uma interpelação póstuma à lacuna principal do texto do poeta católico. Porquê o esquecimento do Holocausto? Mais de 30 anos depois, quase tudo se mantém: as perplexidades de Steiner, as propostas que são apresentadas para a tentativa de compreensão do mal humano. As raízes, de acordo com Steiner, fundam-se longe, na revoltosa transição do século das Luzes para a Revolução Industrial. Seria interessante conhecermos hoje a opinião de Steiner sobre a árvore que entretanto foi crescendo - e que parece não ter fim à vista. A experiência de purga a que ele alude, será, mais do que nunca, essencial?

[Sérgio Lavos]

02/10/06

O Público afecto ao Porto

Afinal não fui só eu que achei ridícula aquela crónica do Bruno Prata pós-derrota do Porto em Londres. Não sou do Sporting, mas com o resto, de acordo a cem por cento - ler aqui, por Carlos Leone.

[Sérgio Lavos]