30/06/06

O bico ao prego

Vasco Pulido Valente decide escrever sobre futebol. Vou repetir: Vasco Pulido Valente - como muitos dos que estão a ler este texto sabem - decide escrever sobre futebol. E o que ele tem a dizer sobre o assunto? Mal. Ah, admiro a coragem deste homem. Na última página do Público, lá está a palavrinha mágica a saltar aos olhos de um qualquer leitor imprevisto. Futebol. E o que ele diz sobre o assunto? Bem, reparem nas contradições: acha o desporto "muito chato" e não consegue justificar o tempo que perde com ele. Antes que se faça qualquer associação livre ao tema do cinema português, ele prossegue. Diz que lhe é indiferente que Portugal ganhe ou perca. Irrita-se com o estendal montado das bandeiras, com o Marcelo, com o circo mediático. Mas vê. Não perdeu mais de meia dúzia de jogos, o que acaba por ser mais do que aquilo que a maioria dos que se dizem amadores da coisa vêem - falo de mim, claro, o problema dos jogos em canal codificado é inultrapassável; nada de urros em locais públicos, cheiro de courato frito ou sambinha dos brasileiros a cada finta, passe ou traque de Ronaldinho e C.ª. E, imagine-se, Vasco Pulido Valente resigna-se à pressão da "atmosfera" e confessa que não lhe interessa ficar à parte do entusiasmo universal. Esperem! Li bem? O último dos gauleses sai da trincheira e junta-se ao Império? O amargo, pessimista, cínico vedor das causas da decadência dos povos lusos concilia-se com o mundo e abraça calorosamente os milhões que javardamente celebram o vazio do espectáculo futebolístico? É esta a razão? Para cavalgar a onda? Um desporto, repito, "muito chato", que não vale o tempo que se perde com ele? Pacheco Pereira, se estivesse morto, estaria neste momento a dar voltas na tumba. Só nos resta então o historiador ubíquo, pobres de nós, só nos resta ele. Aprisionado na sua implacável farda de intelectual blasé de inspiração saxónica e liberal, vociferando para o resto de nós (Pulido Valente incluído) o quão ignóbeis somos. Baixos. Medíocres. Indignos da cabeça gigantesca que o encima.
O que Vasco Pulido Valente tem a dizer sobre o futebol? Mal, apesar de passar horas em frente ao aparelho a ver os jogos do Mundial. A ver o pré, o durante e o pós desafio, as nauseantes reportagens televisivas, as inacreditáveis entrevistas aos jogadores, técnicos, apanha-bolas, populares de garrafão de vinho tinto às costas, aos empregados de restauração e às camisolas dos jogadores, às mulheres e aos bifes que vão ser consumidos pela comitiva - "então, acha que o jogador que está prestes a ingeri-lo tem hipótese de jogar no Sábado?" "e depois da digestão feita, vai assistir ao jogo?".
Enfim, safam-se as bicadas em Marcelo - como comentador de futebol um cruzamento entre Gabriel Alves e o Horácio Caramelo que nos fala de Ontário, no Canadá - e fica a faltar a referência menos velada ao achado que foi convidar o Dr. Paulo Portas para escrever sobre futebol. Bem, se formos a ver bem as coisas, faz algum sentido o convite do... (nem sei bem em que pasquim Portas escreve). Coerente com a pose postiça de Portas na vida, um pouco como a falsa tartaruga de sopa de Lewis Carrol; falso jornalista de direita, falso liberal, depois falso conservador, falso líder de um partido católico, falso católico, falso político populista, falso ministro de Estado, cabelo falso, bronzeado falso, dentes falsos, falso membro do PP na reserva, falso comentador neutro de televisão. O último degrau na escada deve ser o que acede directamente ao comentário futebolístico, imagino. A um passo do elevador que desce a grande velocidade ao oitavo círculo do inferno, aquele que acolhe com prazer quem já só consegue viver da imagem na televisão ou no espelho, o político feito de vidro baço e vácuo, quase nada.
Ah, Dr. Vasco Pulido Valente, se não fosse o gozo que me dá ler as suas crónicas e os seus livros de História, escreveria um texto a dizer mal de si, juro que o faria. Mas respeito-o. Respeito.

[SL]

29/06/06

A Crítica

O romance da Fátima Lopes? Amar depois de amar-te? Se é bom, é isso que pergunta? Se dizem que sim, é porque deve ser. Dizem, dizem. Na televisão. Dizem. É giro. O prémio da APE? Tenho de ler, foi premiado. Se recebeu um prémio, é giro. Ainda ontem o Marcelo, no intervalo dos seus pré-claros apontamentos sobre a bola, falava de um livro qualquer de um autor qualquer editado numa editora qualquer. Compramos? Claro. Prémios, felicitações, bicos de pés, luzes pálidas incidindo sobre as letras. Preciso de ajuda. A sério, necessito que me ajudem. Tenham a bondade de me auxiliar. Anseio por consolo e orientação. Penso positivo. Ouço o que os outros ouvem, leio os que os outros lêem, procuro nas livrarias obras com títulos que me puxem para cima, "pense positivo", "ajude-se a si próprio" "compre o meu romance" "polémico", "conspiração templária" "a 4ª cruzada" "delírio na cerimónia de entrega do prémio literário". Gostava que me ajudassem a ouvir a verdade no meio do ruído. Compra. Vai. Pega em mim e leva-me para casa. Acarinha-me com amor, toma conta de mim até adquirires o próximo descartável. A minha opinião? Quer saber qual é a minha opinião? Pergunte-me. Política? Eu percebo. Economia? Sou especialista. Sociologia? Domino na perfeição. Cultura? Ninguém melhor que eu. Arte? Sou eu o entendido. Futebol? Oh, pá, cá estou eu, de dedo no ar. Vida sexual da lesma asiática? E encontra outro conhecedor neste país de gigantones e zé-robertos? Ajudem-me, por favor, que as férias ainda vêm longe. Deixem-me sentir na pele o entusiasmo que há tanto anda afastado de mim, trata-me como se não houvesse amanhã e estivesses presa comigo num elevador parado entre dois andares. Com um livro na mão e uma esponja na outra. Grudada ao metal frio e ao espelho quente. Preciso de ajuda.

[SL]

Sobre os leitores

"O público, dizíamos, abdicou uma vez por todas dos seus poderes de verificação e de controle, conformou-se, resignou-se como um animal doméstico a viver num cinzento quotidiano, a agarrar humildemente o que lhe dão sem procurar razões."

Julien Gracq

[SL]

28/06/06

Futebol

Caro Rui,

compreendo o que escreves, entendo os teus argumentos, percebo onde pretendes chegar. Concordo em quase tudo porque não posso discordar de um gosto pessoal. E, para dizer a verdade, também me escapa a razão da euforia patriótica que toma conta do país nestas alturas, principalmente desde o Europeu de há dois anos atrás. Quer dizer, sei porque aconteceu. Como me dizia um brasileiro no outro dia, Scolari conseguiu colocar um povo a amar a bandeira sem vergonha, conseguiu unir uma pátria em torno de um objectivo comum. Tinha de ser um brasileiro, de resto. O futebol é a alma do Brasil, o que melhor espelha as características de um povo. Parte desta identificação étnica foi trazida por Scolari quando fez o apelo às bandeiras há dois anos. Ajudou também o jargão guerreiro, o discurso motivador a funcionar junto dos jogadores e ao mesmo tempo a estender-se ao resto do país, esse eterno animal arrastando o focinho pelo chão, na lama da crise duradoura. Por isso vemos seres humanos absolutamente normais durante o resto do ano, gente que nem olha para a televisão quando dá bola, cidadãos sem clube, maus chefes de família e intelectuais tristes transformarem-se em selvagens, belos e sentimentais, como escreveu Javier Marias, durante o tempo que dura o Mundial. E, cúmulo do cúmulo, as mulheres, de olhar fixo nas pernas dos jogadores a emocionar-se ao lado do namorado, do marido, retirando ao homem a possibilidade de este usufruir de um dos poucos gestos permitidos pelo tabu sexual: o abraço ao companheiro do lado aquando do golo. Elas não percebem nada, é verdade, mas dão beleza a um desporto de brutos - reveja-se o Portugal-Holanda. Para dizer a verdade, os únicos que não conseguem aceitar a onda de alegria são os adeptos ferrenhos dos clubes, portistas à cabeça, os coitados que sofrem com os penosos jogos do campeonato nacional e discutem ad absurdum as minudências de cada jornada; já ouvi dizer, da boca de um benfiquista, que a selecção é nada, discorrendo de seguida sobre a meia equipa encarnada que não foi convocada por Scolari e sobre as razões porque Simão e Petit devem jogar em vez de Costinha e Ronaldo. Não ligo, apesar do meu confesso benfiquismo.
Podemos discutir: não existe uma parolice nesta euforia em torno da selecção? Claro que sim, é como as sardinhas e Fátima e os santos e a javardice dos pedreiros quando passam raparigas nas ruas. Mas existe também um sentimento único de pertença a qualquer coisa que quase sempre parece intangível. Ter orgulho do país onde nascemos, e mesmo sabendo que isto é um facto acidental, ajuda-nos a firmar raizes no mundo. Ninguém quer ser apátrida, como ninguém deseja ficar órfão. Ama-se a pátria como se ama a família a que se pertence: por uma fatalidade e por renúncia à nossa natureza mais profunda - o egoísmo. Aprender a aceitar este amor burro torna-nos seres sociais, mais em paz com todas as contrariedades e incongruências que a vida tem para nos oferecer.
Mas o que isto tudo tem que ver com futebol? Absolutamente nada. Ninguém te pode convencer a gostar do jogo. A estética do desporto, que nada tem a ver com a clubite aguda ou o patriotismo passageiro, é inexplicável. Podia falar aqui do rigor dos passes de Deco, da vertigem das fintas de Ronaldo, da força admirável de Figo enquanto jogador e pessoa, da emoção que é ver Miguel pegar na bola cortando um passe para Robben e desatar a correr por ali fora, como se não houvesse amanhã, em direcção à baliza adversária, e no final, oh, beleza suprema, falhar o golo. Podia descrever cada pormenor que foi estudado antes pelos jogadores a ser aplicado em campo, ou então ver tudo de pernas para o ar, a desordem total, e ainda assim esperar a qualquer momento um sprint de Simão, um drible para o meio, aquele disparo que sempre se espera quando Simão finta para o interior do campo, porque o jogo é caos que nasce da ordem do treinador. E que volta ser ordem apenas na repetição televisiva. Quando tudo corre bem - isto é, quando a nossa equipa ganha - os defeitos e o sofrimento desaparecem do passado, como se nunca tivessem existido. Semelhante à guerra? Supera-a, porque nenhum combate é real, tudo é simbólico, saído da imaginação de quem joga e manda jogar. Perfeito como a Arte. Arte.

[SL]

26/06/06

Até os comemos

Venha quem vier, cá estaremos. Mérito de Scolari, que contra os críticos e os poderes instalados conseguiu transformar o habitual grupo excursionista de outros Mundias num conjunto de guerreiros que deixam o suor, a pele e a carne, se necessário for, em campo. Agressão de Figo? Não brinquem; depois do duplo abalroamento de Ronaldo e da incrível falta de fair-play dos holandeses depois da bola ao chão, Figo agiu como sempre: um líder em campo e o melhor jogador português desde Eusébio.

[SL]

25/06/06

A Literatura no Estômago

Disperso-me do futebol. Não vejo, estou fora. Assisto com pouco ânimo ao jogo de logo à noite. Há excitações tão breves que nem valem a pena. Há entusiasmos tão tocantes que me deixam a pensar no tempo que perco com as breves excitações que por vezes me transportam.
Um livro em duas partes brilhantes, o prefácio de Ernesto Sampaio e o texto de Julien Gracq: A Literatura no Estômago. Não é uma novidade, um livro recente, um clássico em nova tradução, um autor inédito em português ou uma poderosa revelação. Não é um livro que fale de uma conspiração secreta, nem do amor nos tempos modernos, nem de uma figura esquecida da nossa História que urge recuperar, não é um livro que fale do estado da crítica em Portugal. Bem, talvez seja. Esta última hipótese. Um panfleto feroz contra o situacionismo da literatura francesa em 1950, digo, e tentarei explicar já de seguida o que este assunto tem a ver com o nosso burgo em 2006.
Julien Gracq pagou a ousadia, mas teve a última palavra. Afirmo (seguindo Ernesto Sampaio): o combate de Gracq contra os poderes ocultos do establishment cultural francês da época, contra o coma em que estava mergulhada a literatura francesa desde a revolução do manifesto surrealista de Breton, contra os nomes que decidiam o gosto do público, desde os comunistas aos anti-comunistas, e Gracq tem a coragem de os convocar todos - Camus, Gide, Malraux, etc. - teve como imprevista consequência a atribuição, dois anos depois, do mais prestigiado prémio francês, o Goncourt, trazendo na cola a quase mortal frase de um dos membros do júri: "Um surrealista que escreve como um professor - ora aí está o laureado ideal." Touché? Não, Gracq recusou o prémio. O livro? O fabuloso "Le Rivage des Syrtres", que li há uns anos numa tradução de Pedro Tamen (ed. Vega).
Leio num jornal (interessa saber que é o Público?) a resposta de um desses críticos ubíquos que se queixam da exiguidade do espaço mediático a uma inventiva de outro crítico que se reclama defensor do último bastião de pureza e independência do pensamento cultural português. A mesquinhez faz-me uma certa impressão, lembra-me sempre as matanças a que assistia na minha infância, quando o porco era dependurado pelos pernis com uma corda e lhe abriam a barriga de alto a baixo, escorrendo para fora sangue e tripas, fígado e estômago e pâncreas, os vapores digestivos espalhando-se em redor numa nuvem nauseabunda. O meu pai dizia-me para estudar com atenção as entranhas, não porque possuíssem estranhos poderes divinatórios, mas porque no corpo do porco poderia descobrir o meu próprio corpo, modo ancestral de aprender anatomia. Eu observava então a autópsia do animal com uma curiosidade comedida, entre o nojo e o respeito a uma sabedoria que eu intuía verdadeira.
Os blogues por vezes também discutem as mesmas miudezas a que se atiram circunstancialmente os críticos. É um assunto que vai e volta, como a carreira que João César Monteiro tomava todos os dias. Sugeria então a quem se interessa pela espuma dos dias que lesse o livro de que falo, A Literatura no Estômago, editado pela Assírio e Alvim em, veja-se lá, 1987, de modo a perceber o mecanismo quebrado da História. Os ciclos que se repetem. Gracq insurge-se contra a busca fácil da novidade, e duvida do critério de gosto do leitor, habitualmente guiado pelo gosto do crítico. Resta a dúvida: valerá a pena discutir o carácter de quem habita esses espaços privilegiados que decidem o critério estético do leitor? Nunca o leitor saberá reconhecer em si um gosto estético firme, se não dispuser das ferramentas para o estabelecer. A verdadeira questão é: estará o leitor disposto a isso?

Um excerto:

"Desde que existe um público literário (quer dizer: desde que há uma literatura) o leitor, colocado diante de uma grande variedade de escritores e de obras, reage de duas maneiras: por um gosto e por uma opinião. Instalado diante de um texto, vai produzir-se nele o mesmo clic interior que sentimos, sem regra e sem razão, quando encontramos alguém: "ama" ou "não ama", sente ou não sente, à medida que vai virando as páginas, a sensação de ligeireza, de liberdade pura, embora suspensa, que se pode comparar à sensação dum galope sobre um cavalo de raça."

E o prefácio do tradutor, Ernesto Sampaio, é exemplo de uma utilização da língua portuguesa rara, de tão exemplar. Pudessem dez por cento das novidades editoriais serem tão essenciais como este livrinho e o buraco onde o país se encontra por certo já estaria um pouco mais raso do que está. Quase perfeito.

[SL]

23/06/06

New Order

Não serei original se disser que os New Order acabaram por ser aquilo que os Joy Division poderiam ter sido acaso tivessem resistido à desolação do Inverno. O álbum Substance prova isso mesmo: do negrume decadente e minimal das primeiras faixas, ainda contaminadas pela doença da melancolia de Ian Curtis, até aos alvores luminosos de True Faith e Bizarre Love Triangle, existe um percurso de purificação rigoroso, desembocando na paz de espírito que apenas o Verão pode trazer. Continuando na metáfora de gosto duvidoso, a banda passa agora pelo seu declínio outonal, programático e nada original, mas ninguém lhes exige nada; o que fizeram em conjunto com Curtis e o modo como se libertaram da canga pesada deixada em herança depois da morte daquele - no filme 24 Hour Party People é tocante a cena em que os sobreviventes Joy Division ensaiam a sua nova incarnação em estúdio, a voz de Bernard Sumner dançando sobre um fio finíssimo que separa a idiossincracia da dissonância, o resto da banda acompanhando como pode o esfoço do vocalista, mas estou a falar apenas de um filme, divago -, dizia, o modo como conseguiram contornar a importância de Curtis já lhes tem garantido um lugar lá no éden onde mora Ian Curtis - lado a lado com os outros mártires da causa musical. A música que se vai poder ouvir aqui nos próximos tempos é uma espécie de acto de pacificação com o passado; e uma das melhores dos anos 90: Regret, do álbum Republic. Chegámos ao Verão.

[SL]

The joke is on you

Na última hora entretive-me a rever dois ou três videos no YouTube (se o leitor quiser, pode procurar lá) de Stephen Colbert, colaborador do Daily Show, de Jon Stewart - vocês sabem do que estou a falar - e dei-me conta de uma coisa: os liberais na América têm muito mais sentido de humor que no resto do mundo. A nossa esquerda, de inspiração francesa, está quase sempre encerrada num moralismo que restringe a liberdade de rir e fazer rir, e mesmo quando tenta imitar o modelo americano apenas consegue arrancar um sorriso amarelo e rancoroso. Basta passar por alguns blogues de esquerda para perceber isso. Com a única ressalva de Rui Tavares, mas quase que nem vale a pena insistir no elogio; a sua crónica ao Sábado no Público foi das melhores coisas que aconteceram nos últimos tempos.
O desvio foi feito, regresso à batata quente: o humor liberal americano. Acerta quase sempre porque não é cego. Tem em mira não só as contradições do pensamento conservador americano mas também a demagogia da ideologia de esquerda. Tanto pode fazer um gag com as parolices de Bush como a seguir gozar com o humilhado Al Gore ou a ameba mediática John Kerry. Os jornalistas (?) do "Daily Show" procuram, acima de tudo, o provincianismo e a burrice que abundam, tanto na direita como na esquerda americana. Encontram contradições, ignorância, e exploram um filão inesgotável de piadas e sketches que partem muitas vezes das próprias situações em que os políticos se vêem envolvidos. George W., nesse aspecto, tem surpreendido. Conseguiu fabricar uma personagem que não se importa de passar por comediante involuntário, uma caricatura de um presidente. Os humoristas que andam há seis anos à pesca da próxima gaffe viram-se substituídos na função pelo objecto da paródia. O.K., já percebemos que Bush Jr. convence como palhaço, mas será que serve como presidente?
Por cá, o único espaço que se aproxima desta liberdade crítica da trupe de Jon Stewart é o Inimigo Público. Quem achava José Manuel Fernandes apenas um director de jornal neocon com mau gosto para fatos e uma tendência para se emocionar ao ver o derrube de construções simbólicas, deve ter ficado surpreendido quando o suplemento surgiu, vai para dois anos - penso. Mas cedo se percebeu a razão da escolha: não existe uma tendência política clara nos colaboradores do Inimigo. Basta ver as vezes que Eduardo Prado Coelho já foi gozado para se perceber isto. O corte a eito que o suplemento faz não divide direita e esquerda, mas releva a cretinice e o ridículo a que as figuras públicas se podem submeter - voluntariamente ou não. O mérito dos humoristas passa pela perspicácia que revelam na escolha do ângulo, equidistante de campos políticos marcados. O que é satirizado é a situação, não a personagem. O humor bem feito vive disto.
Camaradas (já se percebeu que sou de esquerda?) da nossa praça, tenham isto presente ao tentar fazer humor: o ridículo não tem ideologia. E é um dos maiores símbolos da liberdade de expressão, esse chavão imundo que qualquer bom moralista gosta de repetir até esvaziar o verdadeiro significado da frase. O sátiro é um ser verdadeiramente livre. (Desde Nietzsche).

[SL]

22/06/06

Data

apresento-te a vida: parto do princípio
de que não gostas da sua feia carantonha,
nem dos seus modos ínvios de agir.
Parece-me por vezes que ela se assemelha a
uma história contada por alguém que se esqueceu
do fim e tenta com grande esforço improvisar à medida
que vai contando. Será isto. Podemos, tu e eu,
disfarçar. Esconder por trás do espelho
a fresta por onde entra a sombra;
de noite, quando dormimos na suspensão do tempo,
cremos sonhar enredos distintos dos filmes a que assistimos,
mas quando acordamos tudo se mantém,
o mesmo sol se levanta lá fora,
a luz que mudou sem mudar ou o vento
que regressou acendendo de imediato a imagem
da tempestade antiga – cada lapso de tempo
é apenas a memória de um tempo anterior; quando
me aproximo de ti sabendo de cor o espaço
a que pertences, conheço duas coisas apenas:
a linha de realidade que nos cabe e a sua extensão
para lá do espelho que nos espreita. Por outras palavras,
amar-te é existir em dois tempos simultâneos.
Num, ainda hesito entre oferecer-te um copo mais
ou convidar-te para casa, no outro sou puxado de
volta à terra e mergulho a fundo na experiência
de reconhecer um corpo, sabes: procurar nele
o tecido que envolve a manhã atrasada pela
insónia, cerzir à minha pele a tua – e não quero com esta imagem
equivaler o procedimento a um acto cirúrgico e desapaixonado –
e no fim dormir profundamente e sem sonhos,
a manhã resgatada à nossa porta.

Apresento-te a vida: aceita o seu belo
rosto, não precisas de gramática nem retórica
para a compreenderes. Eu ensino-te.

(Para S.)

[SL]

20/06/06

Gonçalo M. Tavares

Palavra de comerciante de livros: Gonçalo M. Tavares publica demais. A sério, é o que dizem, saem demasiados tomos dele para o mercado, moda de verão, moda de inverno, meia-estação, etc. E em várias colecções, cadernos pretos, cadernos brancos, poesia; existe um projecto editorial que ultrapassa os limites de qualquer editora: os cadernos de Gonçalo M. Tavares. Extra colecção da editora - a Caminho cria duas séries para ele, a Relógio d'Água edita a "Poesia 1" num formato em tudo igual à linha gráfica da colecção regular dedicada à lírica (ainda se usa?) mas com a impressão digital do escritor no fim, a marca do homem: Cadernos de Gonçalo M. Tavares. Os editores, respeitosos de tanta prolixidade, aceitam tudo - julgo. O vendedor de livros reclama. É que Gonçalo não sabe que o mercado não se compadece deste excesso comunicativo. Um livro mata o outro, que pergunte de forma séria aos editores, caro Gonçalo. Chegam a estar dois ou três expostos nas mesas de novidades, tirando o lugar a outras obras que mereciam estar no seu lugar - há muito Dan Brown aí à espreita, esperando a sua oportunidade no mundo-cão da produção de livros.
E não se pense que isto é uma subtil inventiva contra o mercantilismo do produto cultural. Não, nada disso. Tento usar a ironia com a parcimónia que um assunto deste calibre merece. Os críticos, pasme-se, também estão insatisfeitos. Não há recensãozita, ensaio curto ou crónica folhetinesca que, ao referir-se à obra de Gonçalo Tavares, não oponha ao elogio um "mas", um "porém" , um penalizador "todavia". Comedimento, Gonçalo, publique menos. Que os seus livros até são, e assim de memória (ou inventando, tanto faz), "interessantes, "acutilantes", "inovadores no panorama inquinado da literatura portuguesa", "certeiros e cruéis", "sarcásticos e cortantes na sua compreensão do mundo moderno", quando não mesmo "o exemplo perfeito do modo de escrever pós-moderno, paródico, intertextual, percorrendo vários géneros sem se fixar em nenhum, textos ora eivados de um fôlego dramático, ora miniaturas buriladas pelo cinzel da linguagem". É - será - isto, mas modere-se, homem, tem tempo para publicar, um livro por ano é bom, dois passa, mais de cinco é um colossal exagero.
Que interessa o valor individual de cada obra, se o conjunto excede em muito o razoável que se pode esperar de um grande escritor? Pense mais em autores que tanto admira, como Borges, que conseguiu ter uma obra que cabe em quatro volumes apenas - nem um romance para amostra, muitos contos, todos pouco extensos, ensaios que raro ultrapassavam a dezena de páginas. Ou pense em Karl Kraus, sem obra sistematizada, ou em Kafka, inconcluso e imperfeito, ou em Musil, que andou uma vida inteira a escrever uma obra inacabada. Bom, é isso; se quer ter o favor sem reservas da crítica, deveria começar a publicar textos por terminar, deixados a meio, apenas esboçados, tem de esquecer o rigor e a perserverança que aplica aos seus livrinhos. Esboce, apenas, escrevinhe umas palavras, umas quantas páginas e deixe tudo em aberto, não vale a pena levantar tão cedo de manhã para escrever tanto, levante-se tarde, leve uma vida desregrada, a glória espera-o. Convença-se, vivemos em Portugal, país de génios incompreendidos, adoramos quem cultiva de modo sábio a preguiça, palavra feia que, por vezes, substitui o helénico ócio. Olhe, fale com o Luiz Pacheco, que ele ainda tem muito para ensinar nesse campo.
Não diga que vai da minha parte.

[SL]