Dorothea Lange.
12/05/12
05/05/12
Olé
Não cheguei a terminar Dublinesca. Deve ter sido o primeiro livro de Enrique Vila-Matas a levar esse tratamento. Não me recordo de quais as exactas circunstâncias em que tal aconteceu, apesar de ter sido há menos de um ano. Mas ao ler a entrevista do escritor feita por Carlos Vaz Marques (na Ler deste mês) fiquei com vontade de comprar o tal Ar de Dylan. Aquela coisa de ser tão bom entrevistado como escritor pode parecer um cliché hiperbólico, mas quem retira tanto prazer de uma entrevista quanto das linhas escritas pelo entrevistado tenderá a concordar. E Vila-Matas nas entrevistas é tão esquivo e metaliterário como nos livros. É como se nos últimos anos ele se tivesse vindo a metamorfosear num dos seus Montano ou Bartlebys - e ele admite-o na entrevista, presta-se ao jogo. Não admira que tenha ido buscar Dylan - o tal homem que não tem rosto real, apenas uma máscara. Mas sem pretensões, como de resto Vila-Matas também admite. As coisas são como são, e numa entrevista não esperamos encontrar verdades. Mesmo que haja algumas confissões pelo meio - nesta, a admissão de que há personagens nos seus livros que gostam de citar supostas frases de escritores que são do próprio autor catalão. Como a agora famosa tirada de Marguerite Duras que aparece em Paris Nunca se Acaba: "escrever é tentar escrever o que escreveríamos se escrevêssemos". Um certo fetichismo literário, e a vingança da personalidade submetida a um questionário preparado por um estranho, um interrogatório. Ser uma estrela (como Dylan) é também ganhar calo nestas coisas, e passados tantos anos a escrever sobre escritores que o recusam ser (tudo o que vem com este trabalho, aparecer, falar, vender o produto), Vila-Matas, munido de um sentido de humor auto-depreciativo, irónico, que tanto existe na voz dos seus narradores como na voz do narrador que responde a entrevistas, chegou a um cúmulo que inclui roteiros turísticos pelas ruas e lugares que aparecem nas suas obras de ficção (?).
Talvez antes de Dylan regresse a Dublinesca, para compreender a brincadeira do "grande salto inglês"; que inclui uma confraria de joyceanos passeando-se por Dublin no Bloomsday, fazendo-se passar por anarquistas espanhóis. Tudo não passa de um jogo. Que refrescante, se pensarmos no modelo de entrevista habitual das "grandes figuras" da literatura...
04/05/12
Flannery
Chego sempre tarde a estas coisas, sobretudo por teimosia e alguma pose, mas posso afirmar com segurança: a Flannery O'Connor é uma maravilha do outro mundo.
30/04/12
Um mundo iluminado
Um livro que tem como ponto de partida o pensamento de David Foster Wallace, Moby Dick e os textos homéricos seria sempre um empreendimento gerador de interesse, sobretudo quando é escrito por dois professores de filosofia, um especialista em Heidegger e outro em fenomenologia. Um Mundo Iluminado consegue cumprir expectativas, sobretudo para quem, como eu, não espreitara qualquer referência ou crítica nos jornais.
Ler os clássicos para encontrar sentido numa era sem deus. O crescimento do domínio de influência das chamadas obras de auto-ajuda levou a que gente respeitável escreva textos que facilmente se poderão confundir com uma área das livrarias vedada a quem tenha o mínimo respeito por si próprio. Alan de Botton sofre do mesmo mal ou da mesma vontade de destruir três mil anos de pensamento ocidental, transformando a complexidade do pensamento filosófico num pudim light para o grande público. O mínimo denominador comum para o máximo público, eis um desejo que tanto pode ser digno como uma fraude filosófica. Mas, abençoados pelo pedagogismo de Sócrates, estes pensadores conseguem explicar ideias complexas sem destruir o pensamento original nem desvirtuar a essência dessas ideias.
A técnica de Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly é simples, sem deixar de provocar alguma surpresa: extrair de alguns textos literários, clássicos e contemporâneos, meios de enfrentar um mundo que teve de enfrentar, com uma simples frase de um filósofo, a morte de Deus. Discutir se Nietzsche se limitou a confirmar o diagnóstico não cabe nem aqui nem no livro de Dreyfus e Kelly, mas ninguém poderá recusar a ideia de que algo mudou com a frase assassina do filósofo alemão.
Como chegou a humanidade àquele ponto e o pensamento filosófico àquele cúmulo? Partindo das obras homéricas, no panteísmo dos deuses da Natureza e do Destino que conduziam as acções dos homens e dos heróis, passando pelo retrocesso humanista da Idade Média - a ideia é claramente defendida pelos autores - até desembocar na demanda insana de Ahab, o livro pretende criar um plano para resgatar o ser humano da solidão niilista em que vive.
Os autores terem conjurado as ideias de Foster Wallace para simbolizar essa deriva sem solução foi uma excelente decisão: as ideias são um vinho de aroma requintado ao gosto da burguesia perdida, a que procura uma nova poiesis num mundo dominado pela técnica. O escritor norte-americano parece ter perdido, ou então terá levado demasiado a sério a única questão filosófica de Camus. Mas este livro sobrevive. Um artefacto.
29/04/12
Público e privado
O entusiasmo pelas coisas que estão fora do plano privado é vazio e breve. Mas, por momentos, parece ser tudo, tornando o rosto público real e não uma máscara. O pior dos equívocos.
Começar pelo princípio
Antes de teres um plano para a tua vida, lembra-te de arranjares um para o teu dia.
24/04/12
20/04/12
Excedentários
Só consigo ser disciplinado na indisciplina, rigoroso na falta de método, um funcionário que se esquece de picar o ponto. Talvez por isso escreva e não goste de tecnocratas - repare-se, não escrevi detesto; não quero gastar emoções fortes com essa raça excedentária da Criação.
Tiros no vazio
Sombras, problemas. Sombras. Apenas uma escolha verdadeira. Já não vou a tempo de brincar aos índios e cowboys: fugir não é uma opção. Preciso de balas verdadeiras, de prata, e não de fulminantes, tiros no vazio.
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