19/04/12

Um alvo

Como usar metáforas de forma literal? Imaginem um alvo distante e uma flecha certeira; apontar; atirar; errar sempre. Um dia as flechas hão-de acabar.

17/04/12

O duplo

Um homem que encontrasse o seu duplo e o matasse, viveria duas vezes?
O confronto entre as expectativas do passado e a realidade do presente é como acordar de um sonho de onde não queremos sair: tentamos prolongar o momento do sonho, mas acabamos sempre por despertar.

16/04/12

Lisboa, se fosses só três sílabas

"Nunca me apeteceu tão pouco regressar a Lisboa. Já houve épocas em que pensei em ir embora, mas nunca fui, por atavismo, receio, comodismo, mas também por gosto genuíno em viver aqui. Agora, porém, sinto que Lisboa está vista, ou antes, os lisboetas, os comportamentos parecem-me pavlovianos, sem surpresa ou frescura, as amizades foram-se deslassando, a paciência diminui, os constantes «contactos» são agradáveis mas fungíveis, cansei-me de fogachos e decepções, tornei-me mais reticente e recluso, e ainda por cima Lisboa é cada vez menos uma cidade, fecham cinemas, livrarias, cafés, começa a ser indiferente viver aqui ou em qualquer outro sítio, basta uma «ligação» e temos tudo em todo o lado, desta vez nem senti que passei uns dias «fora do mundo», como dantes, a única diferença foi um ambiente mais calmo, mais higiénico, de onde estavam ausentes o darwinismo infrene, o situacionismo degradante, a hostilidade mesquinha. Regressei sem vontade, o que nunca tinha acontecido. Não tenciono ir-me embora, mas pela primeira vez senti que podia ir-me embora, é triste quando a nossa cidade não nos faz falta."
Pedro Mexia.

14/04/12

Telex: 1

Escrever,
um método
para correr
à volta
de um ponto cego.
Correr
e regressar
e entender que nem tudo
pode permanecer.

O ponto, o nó, o lugar.

Equívoco

Do que não sabemos não devemos falar. Mas falamos sobretudo do que não sabemos, e criamos para saber ao certo o que não conhecemos, escutar o que não se ouve, ver o invisível. Antes da criação, nada. Depois, outro nada em que julgamos acreditar.

06/04/12

Ilusão

Queremos ser severos, queremos ser dramáticos, queremos ser tão trágicos como as gerações que nos precederam. Mas somos apenas farsantes, ou menos que isso: a ilusão de sermos actores numa peça que não escrevemos.