02/04/12

Coro grego

O cliché é deixar o futuro em aberto. Na possibilidade de o conhecermos, desistir, recuar. Queremos um universo prenhe de expectativas, ignorando o que nos espera. Não há outra hipótese. Pensar que poderá haver, imaginar que poderíamos conhecer tudo o que virá, resulta numa desnecessária angústia - se nos fosse oferecida a possibilidade de escolha, recusaríamos tudo, saber e escolher. Ninguém quer ser coro grego da tragédia que se vai desenrolando.

30/03/12

Boletim meteorológico

Há quem seja tragado pela mudança das estações. É a melancolia sazonal, o mal de viver partilhado por quem retira da repetição dos dias o conforto possível. Mas, quando a mudança das estações traz o contrário do que deveria? Quando, na passagem do verão para o outono, não vem frio, cinzento, a provisória morte da Natureza? Quando, chegado Outubro, ainda é verão? E se a primavera traz chuva, geada, o regresso às roupas quentes arrecadadas pelo aquecimento global no baú do inverno? Poderá a melancolia trocar as voltas às estações? Precisará essa sombra cinza e taciturna que as estações se confirmem, mudando? Estará sempre, sempre, vigiando, o determinado passo em falso do tempo?

O bom leitor

Andar pelos dias, dias a fio, sem ler uma única linha é como ser levado num barco em direcção ao alto-mar. Quando damos por nós, somos o que resta no mundo.

21/03/12

Tonino Guerra (1920-2012)

"Começou a desligar-se das coisas e dos homens. Olhava o jovem vaqueiro no rio e sabia que apenas podia admirá-lo, em seus gestos com o boi, mas não aproximar-se. Assim como da rapariga que, da árvore, colhia cerejas. Como se o ar formasse um muro diante de si. Então fixou a água, que a seus pés corria, e a água já não reflectia a sua própria imagem."

18/03/12

Blankets, de Craig Thompson

Blankets, de Craig Thompson, é uma novela gráfica publicada nos EUA em 2004 e que agora é traduzida e publicada pela editora Devir, na sua chancela "Biblioteca de Alice"*. Quase seiscentas páginas que demoraram vários anos a serem escritas e desenhadas. Mas valeu e pena. Na badana da edição portuguesa, uma frase de um crítico avança o lugar comum: "Eu chamaria a isso literatura". Como se muitos outros livros de banda desenhada - mesmo a mais mainstream, os comics - não pudessem ser catalogados como literatura. Não interessa agora desenvolver essa discussão, mas a verdade é que Blankets é literatura, independentemente de ter "bonecos" a acompanhar os textos. Mas as palavras escritas são apenas outra forma de contar uma história. A banda desenhada vive da integração das duas linhas da narrativa - o texto e as imagens - e o livro de Thompson consegue conciliar os dois universos de maneira quase perfeita. Uma história sobre o crescimento, um bildungsroman sobre o adolescente cristão que encontra o primeiro amor e  descobre as primeiras perplexidades metafísicas num mundo de certezas religiosas. E a neve, elemento da paisagem que envolve e marca a evolução da personagem. 
Há dois tempos na história: a infância, entre os 7 e os 10 anos, e a adolescência. A amizade - o amor - que unia Craig e o irmão desaparece com a passagem do tempo, e a transição entre as duas realidades é elegante e precisa. E aqui reside a grande força, a vantagem da linguagem da BD em relação a um romance sem imagens: a simultaneidade de tempos é possível quando as duas linguagens coincidem na mesma página. São quadradinhos, pranchas, páginas inteiras onde coexistem o Craig adolescente e a criança. O narrador conta as duas histórias a partir de um presente que nunca chegamos a conhecer, atraindo o leitor para um plano que transcende e subverte os tempos narrativos: o da memória. Algumas páginas chegam a ser luxuriantes, psicadélicas. A cor é desnecessária; até certo ponto o preto e branco reforça a presença da paisagem americana no livro: a neve branca, as árvores despidas, os longos Invernos passados na solidão do Midwest. 
As referências, são as correctas - para a minha geração. Craig cresceu nos anos 90, e aprendeu a afastar-se da educação familiar, do ambiente rural e sufocado pela religião, conhecendo a música certa: Nirvana, Joy Division, Cure, Radiohead, Violent Femmes, Vaselines. E estas referências apenas aparecem nas imagens: estas bandas apenas existem como fundo, no quarto de Raina, a namorada. A geração grunge tem aqui um retrato possível: subtil, apaixonado, nostálgico. Sim, continua connosco muito para além da última página; não há assim tantos livros que se possam gabar do mesmo.

*Inspirada pela frase de Alice no País das Maravilhas: "para que serve um livro, se não tem imagens ou diálogos".