21/02/12

Pensamento mutilado

Reflexão interessante de José Gil - o seu texto vai muito além da argumentação mais comum contra o novo AO. O Acordo não "mutila o pensamento", simplesmente o transforma. A questão é, e será sempre: a língua terá de ser regida por um Acordo, seja o de agora, seja o de 1911, seja o do latim escrito das classes altas de Roma Antiga. E pensamos de acordo com o acordo que usamos. Mas será um melhor do que o outro? Heidegger achava que o pensamento nunca teria atingido patamares tão elevados como na Grécia Antiga, precisamente por causa da língua que os filósofos e os poetas da época falavam. Maior complexidade gramatical permite uma maior amplitude do pensamento. Difícil discordar. Mas com o AO não são as regras gramaticais que mudam, mas sim a grafia. Será preciso mais do que uma profissão de fé para se provar que a língua ficará mais pobre com a mudança. E precisamente porque os grandes escritores infrigem e ultrapassam as regras da língua que usam, "quando o espaço virtual de liberdade interna da língua se solta e ousa, para além do uso rotineiro e correcto da gramática", é que o AO não "mutila o pensamento". Um criador precisa de regras para as poder quebrar, torcer, manipular. Para descobrir uma nova linguagem, um outro pensamento. Um Acordo é como se fosse um obstáculo que se evita, apenas para se descobrir um caminho escondido. Seja este ou outro, em qualquer tempo.


(Também no Arrastão.)

Banhof Potsdamer Platz

Berlim, 2008.

Chuva na Haupstrasse

Enrodilhados neste disforme
edredão de penas, sofre-se o conceito
germânico de leito, ouvindo chegar
um Junho humedecido, no Balkon envidraçado
do quarto do hotel Schöneberg. Desistimos
da visita à sepultura de Marlene, num
pequeno cemitério aqui próximo, que dizem
bastante arborizado e apetecivelmente
deserto. E ficámos a olhar
a mulher turca de cabeça velada, com
a filhita pela mão, vestida em tons
berrantes. No passeio em frente,
os grandes contentores da Rotes Kreuz,
para donativos de roupas usadas,
atestam a organizada caridade
do povo alemão. Até a chuva
parece aderir organizadamente a todas
as formas estáticas ou animadas, com
o seu antigo manto.

                                                     Berlim, 96
Inês Lourenço

09/02/12

...

A emoção vive para lá das imagens. Existe no breve momento em que dois planos ou dois rostos se intersectam.

08/02/12

Módico

Palavra do momento: "módico". Os intelectuais de direita descobriram-na e vai daí, toca a gastá-la. É módico aqui, módico ali, até Vasco Pulido Valente, há umas semanas, a usou. Ela, a palavra, não corre perigo. Era o que faltava, não poder abusar dela. Como um brinquedo novo. Ao contrário da paciência e das mulheres, as palavras não têm por onde se esgotar. Usem-na. Utilizem-na. Não há módico nem dosagem que possa refrear o abusado uso de um adjectivo. No fim de contas, há marcas de classe menos discretas. E tudo passa.

04/02/12

Encontrar um estilo

Pensava no que seria um modo de escrever um blogue intimista. Os textos de Julio Ramón Ribeyro coligidos em Prosas Apátridas poderiam ser um blogue na sua forma primitiva, o diário. Mas se a aproximação é evidente, também acaba por ser a distanciação. Um diário não se escreve para um público imediato. Um blogue é público no momento a seguir à escrita. A distinção entre os dois meios é obrigatório. Os blogues intimistas que costumo ler fingem uma sinceridade que é pouco interessante. Ou então revelam uma intimidade através de uma linguagem cifrada e remissiva, criando objectos anónimos ou desconhecidos para o leitor, e desenhando um sujeito que se esconde mais do que descobre. Uma identidade furtiva, no fundo uma imitação da vida que existe fora do que se escreve no blogue. Há pouca verdade na construção de uma personagem, por isso o voyeurismo de quem lê é construído a partir de uma ficção. Um desejo de conhecer o outro, como se a linguagem não fosse a barreira mais eficaz entre o ego e o superego. A escrita intimista é portanto uma projecção distorcida ou ficcionada da identidade. O diário terá mais verdade, mas é menos útil, numa época de identidades simuladas. Não é público.