09/02/12

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A emoção vive para lá das imagens. Existe no breve momento em que dois planos ou dois rostos se intersectam.

08/02/12

Módico

Palavra do momento: "módico". Os intelectuais de direita descobriram-na e vai daí, toca a gastá-la. É módico aqui, módico ali, até Vasco Pulido Valente, há umas semanas, a usou. Ela, a palavra, não corre perigo. Era o que faltava, não poder abusar dela. Como um brinquedo novo. Ao contrário da paciência e das mulheres, as palavras não têm por onde se esgotar. Usem-na. Utilizem-na. Não há módico nem dosagem que possa refrear o abusado uso de um adjectivo. No fim de contas, há marcas de classe menos discretas. E tudo passa.

04/02/12

Encontrar um estilo

Pensava no que seria um modo de escrever um blogue intimista. Os textos de Julio Ramón Ribeyro coligidos em Prosas Apátridas poderiam ser um blogue na sua forma primitiva, o diário. Mas se a aproximação é evidente, também acaba por ser a distanciação. Um diário não se escreve para um público imediato. Um blogue é público no momento a seguir à escrita. A distinção entre os dois meios é obrigatório. Os blogues intimistas que costumo ler fingem uma sinceridade que é pouco interessante. Ou então revelam uma intimidade através de uma linguagem cifrada e remissiva, criando objectos anónimos ou desconhecidos para o leitor, e desenhando um sujeito que se esconde mais do que descobre. Uma identidade furtiva, no fundo uma imitação da vida que existe fora do que se escreve no blogue. Há pouca verdade na construção de uma personagem, por isso o voyeurismo de quem lê é construído a partir de uma ficção. Um desejo de conhecer o outro, como se a linguagem não fosse a barreira mais eficaz entre o ego e o superego. A escrita intimista é portanto uma projecção distorcida ou ficcionada da identidade. O diário terá mais verdade, mas é menos útil, numa época de identidades simuladas. Não é público.

03/02/12

Não falemos de subjectividade

Um louco não sabe distinguir a natureza das suas obsessões, não consegue saber se é racional o que pensa, não chega a saber mesmo o que é razão - a loucura é o despejo da razão. Mas poderá um louco saber que a sua loucura é apenas resultado de uma vontade que não consegue controlar, uma vontade de razão sobrepujada pelo desejo do cérebro primitivo? Há quem saiba o que não pode pensar, mas ainda assim pensa. Distinguir o pensamento da acção iliba o louco?

28/01/12

Fim de tarde

Rui Costa (1972-2012)

A morte de um poeta vale pouco. Não passa no rodapé das televisões, é uma breve notícia nas secções de sociedade dos jornais. Ou nem isso. A morte de um poeta vale cada vez menos. Para os que o conhecem, para as escassas centenas que o lêem. Quase todos também poetas. A morte de um poeta antes dos quarenta anos apenas é uma tragédia se o valor de um homem for medido pelo tempo que dura a sua vida. Um homem deverá morrer tão discretamente como viveu. Ou partir tão estrondosamente como quis viver. A morte, para ser derrotada, precisa de ser tão importante como a vida. E não se falar nela, como não se fala deste dia que passou em absoluta discrição. Um conjunto de horas sem nada de especial, rotina seca, tempo que irá desaparecer sem deixar vestígio. Tempo destinado a ser esquecido. A morte de um poeta é uma notícia de rodapé na vida das pessoas. Talvez seja capa na vida dos que gostam da sua poesia, mas certamente que essa capa irá parar ao lixo, como todos os jornais. Será mais do que isto, mais do que uma parangona,  para os poucos que o amavam. Mas mesmo o amor, perde-se, transforma-se em pó, memória de uma ilusão. A morte, para ser derrotada, precisa de ser reduzida à sua nula importância. Ninguém consegue.

25/01/12

3

Rasando o ar, chamando o vento,
a andorinha passa, e tu andas
perdida, sais de uma porta cansada
mas falas como se eles não estivessem lá,

o caminho é curto e assassino,
desvias-te do trânsito, desapareces
na rua, a andorinha nota a curva do lábio
pintado, pica mais o voo destemido,

espicaçada pelo movimento
calado do corpo que se mostra escondendo
queria saber ela, (é um pássaro)
o que pensas, uma impossibilidade,

coses os enigmas da vida à couraça
que te protege, a andorinha traz de volta
notícias e sorrio, mergulho
nesse deleite à distância, sei que te atravesso

no voo da ave, a matéria:
lençol trilhado pela luz do verão,
e entretanto regressas, e sentas-te e
julgas pensar no tempo que não tens.

21/01/12

Era muito de noite

                                                     para Nuno Franco


Era muito de noite, os amigos ficaram para trás
presos ao álcool e ao paleio fácil da procura. Seguimos as
ruas desertas da cidade, apenas parámos onde a água
corria na ribeira, sob o que restava de uma cortina de
buganvília.
Na varanda do quarto do hotel
os sentidos sombrios - a cama
entreaberta esperava quem nunca havia de chegar, nela ficou a
flor estridente da chama da floresta (tem a cor de cólera de
deus na nossa fronte
tem a cor dos nossos lábios), nem eu sei porque
me deu para falar da estrela da aliança,
para depois nos rirmos e comermos maçãs madrugada fora sob
a lua negra do outono atlântico
e mais forte e mais doce do que tudo
rodeia de espinhos o círculo arroxeado à volta da ferida, terreiro
alagadiço os dedos afligem
e depois
boa-noite.


João Miguel Fernandes Jorge, em Lagoeiros, ed. Relógio d'Água.