23/12/11

Livros do ano (1)

"Quando nascemos, alguma divindade marca com uma cruz preta o nosso nome e a partir daí a vida não dará tréguas, não encontraremos senão obstáculos, chacota, ciladas, e teremos de suar a mais pequena alegria, remando, lutando contra a corrente, vendo os afortunados a deslizar na margem, de trunfo na mão, e sem nos permitirem a menor distracção, pois é isso que se espera de nós, que cedamos um instante ao desânimo para que a arma penetre até ao cabo."

Prosas Apátridas, Julio Ramón Ribeyro, tradução de Tiago Szabo, ed. Ahab.

20/12/11

recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte


vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer -- vai por esse campo
de crateras extintas -- vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite


deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo -- deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração -- ouve-me


que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna -- o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite


não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira -- não esqueças o ouro
o marfim -- os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

Al Berto, em Horto de Incêndio, ed. Assírio & Alvim. Encontrado aqui.

16/12/11

Christopher Hitchens (1949-2011)

Depois de Nietzcshe, mais um ateu famoso que morre antes de Deus. Christopher Hitchens. Mas não a verve, a veia de polemista, o apurado gosto, a ferocidade do crítico. Os seus textos, as aparições na televisão. Os livros. Sobretudo, Deus Não é Grande, manifesto ateísta dominado por uma pulsão provocatória que ultrapassa demasiadas vezes a racionalidade argumentativa. Hitchens, como muitos ateus, era um militante, um crente. E, como muitos crentes, era um fundamentalista. Confudiu fé com religião, a imaterialidade da primeira com os erros das instituições que servem a segunda.

Pormenores. A inteligência do crítico e o arsenal retórico de que abusava em discussões muitas vezes pareciam deixar à distância eventuais erros de julgamento. O que desculpamos a um homem equivocado é quase sempre uma medida da nossa própria sensatez. A Hitchens, desculpamos muito. Viver terá de se aproximar do que foi a existência dele. Um fogo-de-artifício breve, e depois o céu escuro. Para tanto, Deus não deverá ser chamado.

Cinco anos

Aqueles cinco anos, dediquei-os a esquecer
os dezoito anteriores. Uma questão de prioridades,
ou essa coisa de construir a personalidade
de que os manuais de psicologia falam.

Não sabia ser, talvez o que queria.
Os encontros e a fortuna fizeram o resto:
bastaram alguns meses para ter um rosto
que se distinguisse da multidão, o pormenor
que eu julgava ser diferente.

A roupa, a pose, e a poesia.
Uma imagem a defender em acaloradas discussões,
becos sem saída, e na dobra
dos dias um amor que recusava a sua
natureza provisória.

O fulgor da provisão e do engano,
rebater argumentos recusando ler
mais do que os livros da moda,
uma vontade de poder frágil
como a vida de um vitelo recém-nascido.

Mas a força, ah, a força da ignorância.
Não saber o que o dia traz,
o seu declínio, era imparável.
A imortalidade na ponta dos dedos
que agarravam a manhã nascendo, o álcool

refazendo o seu percurso,
cumprindo a sua missão,
permitindo o esquecimento.

Foram cinco anos que se multiplicaram
pelo corpo dentro; não soube reconhecer
a primeira derrota. Todas as que se seguiram
trouxeram uma nova forma de evitar a vida:
escrever sobre ela, como se eu não lhe pertencesse,

um fantasma correndo sobre a tela.

15/12/11

Ulysses (5)

Ainda ando por lá. Como era de prever, demoro mais tempo do que tinha pensado. O tempo e a sua relatividade não são para aqui chamados; mas passados dois meses, não serei o mesmo. Contudo, passou apenas meio dia em Dublin - e várias linhas narrativas se cruzaram, avanços e retrocessos, memórias e devaneios, caos ordenado pelas frases perfeitas de Joyce. A ordem nasce do rigor sintáctico. Do ritmo das frases, da fonética. O sentido é por vezes incerto - ou assim parece ao leitor, a quem não vive dentro da cabeça do narrador - mas o texto nunca deixa de respirar, de fluir. Frases curtas, onomatopeias e canções. E os diálogos, resgatando da abstracção o texto, dublinescos, verdadeiros.

14/12/11

W.G. Sebald e George Whitman

O escritor alemão morreu há dez anos, num acidente de carro perto de Norwich. George Whitman é seguramente menos conhecido. Americano expatriado, amigo da geração beat, fundador da mais bela livraria do mundo, a Shakespeare and Company. Tinha noventa e oito anos, e, até ao dia derradeiro, leu. Whitman era uma relíquia de outros tempos e a livraria que ele criou, em 1951 (primeiro com um nome de mulher, Mistral, o seu primeiro amor), uma ilha no meio do negro mar em que se vai transformado o negócio dos livros. Tratar o livro como mais do que um objecto que passa de mão em mão a troco de dinheiro é um luxo em vias de extinção. Entrar numa livraria e não sermos invadidos por uma maré de produtos a que, por comodismo, se convenciona chamar "livro", uma raridade. 
Sebald era também um bibliófilo. Um amante do conhecimento. O acaso quis que os dois morressem no mesmo dia, dez anos a separar as duas mortes. Por conveniência do destino, um epitáfio comum, de dois homens que talvez se tivessem conhecido e que certamente terão muito a conversar, caso se reencontrem. Num mundo onde as conveniências dos tecnocratas se tornaram lei, é preciso celebrar gente assim. Nunca foram muitos. Vão sendo cada vez menos. Os resistentes.

O que este país precisa

Dos tomates e do sentido de liberdade de Luiz Pacheco, em vez desta "apagada e vil tristeza".

12/12/11

FCSH 1993

Lembro-me dele,
dormindo na última fila de Inglês I,
recuperando as horas perdidas
na Feira da Ladra das quintas,
vendendo discos, CD's, cassetes de vídeo porno.

Por vezes, acordava e dizia qualquer coisa
vagamente sábia - era mais velho do que a maioria,
voltara aos estudos, como então se dizia,
mas trabalhava, trabalhava como poucos de nós -

precisávamos de estar por ali, faltando à faculdade,
fumando cigarros no pátio onde alguns anos depois montaram uma feia
esplanada com cadeiras de plástico e chapéus de sol veraneantes,
precisávamos de sair
ir à Gulbenkian, deitar na relva
esticados ao sol, olhando o tempo retroceder por força da inércia,
e depois ler todos os livros de que não precisávamos,
sem subversão nem revolução, apenas
alguma preguiça, ter um livro para ler
e não o fazer, dormir até ser tarde demais,
adiar a derrota -

e ele andava a comprar discos para os vender
na Feira e a alguns de nós nas aulas.

Por vezes, eu visitava a banca, aos Sábados,
comprava-lhe bandas, músicas, motivos
para esquecer, gostos emprestados.

Ainda estão para ali, e ouço-os talvez mais
do que ouvia na altura.

Anos depois, soube que se tinha
perdido numa estrada a caminho do Sul,
uma curva, um metro a mais, desolação.

A morte é a memória de um rosto
que se vai perdendo, um breve relâmpago.

Uma banalidade tremenda.
Vale a pena?