Aqueles cinco anos, dediquei-os a esquecer
os dezoito anteriores. Uma questão de prioridades,
ou essa coisa de construir a personalidade
de que os manuais de psicologia falam.
Não sabia ser, talvez o que queria.
Os encontros e a fortuna fizeram o resto:
bastaram alguns meses para ter um rosto
que se distinguisse da multidão, o pormenor
que eu julgava ser diferente.
A roupa, a pose, e a poesia.
Uma imagem a defender em acaloradas discussões,
becos sem saída, e na dobra
dos dias um amor que recusava a sua
natureza provisória.
O fulgor da provisão e do engano,
rebater argumentos recusando ler
mais do que os livros da moda,
uma vontade de poder frágil
como a vida de um vitelo recém-nascido.
Mas a força, ah, a força da ignorância.
Não saber o que o dia traz,
o seu declínio, era imparável.
A imortalidade na ponta dos dedos
que agarravam a manhã nascendo, o álcool
refazendo o seu percurso,
cumprindo a sua missão,
permitindo o esquecimento.
Foram cinco anos que se multiplicaram
pelo corpo dentro; não soube reconhecer
a primeira derrota. Todas as que se seguiram
trouxeram uma nova forma de evitar a vida:
escrever sobre ela, como se eu não lhe pertencesse,
um fantasma correndo sobre a tela.
16/12/11
15/12/11
Ulysses (5)
Ainda ando por lá. Como era de prever, demoro mais tempo do que tinha pensado. O tempo e a sua relatividade não são para aqui chamados; mas passados dois meses, não serei o mesmo. Contudo, passou apenas meio dia em Dublin - e várias linhas narrativas se cruzaram, avanços e retrocessos, memórias e devaneios, caos ordenado pelas frases perfeitas de Joyce. A ordem nasce do rigor sintáctico. Do ritmo das frases, da fonética. O sentido é por vezes incerto - ou assim parece ao leitor, a quem não vive dentro da cabeça do narrador - mas o texto nunca deixa de respirar, de fluir. Frases curtas, onomatopeias e canções. E os diálogos, resgatando da abstracção o texto, dublinescos, verdadeiros.
14/12/11
W.G. Sebald e George Whitman
O escritor alemão morreu há dez anos, num acidente de carro perto de Norwich. George Whitman é seguramente menos conhecido. Americano expatriado, amigo da geração beat, fundador da mais bela livraria do mundo, a Shakespeare and Company. Tinha noventa e oito anos, e, até ao dia derradeiro, leu. Whitman era uma relíquia de outros tempos e a livraria que ele criou, em 1951 (primeiro com um nome de mulher, Mistral, o seu primeiro amor), uma ilha no meio do negro mar em que se vai transformado o negócio dos livros. Tratar o livro como mais do que um objecto que passa de mão em mão a troco de dinheiro é um luxo em vias de extinção. Entrar numa livraria e não sermos invadidos por uma maré de produtos a que, por comodismo, se convenciona chamar "livro", uma raridade.
Sebald era também um bibliófilo. Um amante do conhecimento. O acaso quis que os dois morressem no mesmo dia, dez anos a separar as duas mortes. Por conveniência do destino, um epitáfio comum, de dois homens que talvez se tivessem conhecido e que certamente terão muito a conversar, caso se reencontrem. Num mundo onde as conveniências dos tecnocratas se tornaram lei, é preciso celebrar gente assim. Nunca foram muitos. Vão sendo cada vez menos. Os resistentes.
12/12/11
FCSH 1993
Lembro-me dele,
dormindo na última fila de Inglês I,
recuperando as horas perdidas
na Feira da Ladra das quintas,
vendendo discos, CD's, cassetes de vídeo porno.
Por vezes, acordava e dizia qualquer coisa
vagamente sábia - era mais velho do que a maioria,
voltara aos estudos, como então se dizia,
mas trabalhava, trabalhava como poucos de nós -
precisávamos de estar por ali, faltando à faculdade,
fumando cigarros no pátio onde alguns anos depois montaram uma feia
esplanada com cadeiras de plástico e chapéus de sol veraneantes,
precisávamos de sair
ir à Gulbenkian, deitar na relva
esticados ao sol, olhando o tempo retroceder por força da inércia,
e depois ler todos os livros de que não precisávamos,
sem subversão nem revolução, apenas
alguma preguiça, ter um livro para ler
e não o fazer, dormir até ser tarde demais,
adiar a derrota -
e ele andava a comprar discos para os vender
na Feira e a alguns de nós nas aulas.
Por vezes, eu visitava a banca, aos Sábados,
comprava-lhe bandas, músicas, motivos
para esquecer, gostos emprestados.
Ainda estão para ali, e ouço-os talvez mais
do que ouvia na altura.
Anos depois, soube que se tinha
perdido numa estrada a caminho do Sul,
uma curva, um metro a mais, desolação.
A morte é a memória de um rosto
que se vai perdendo, um breve relâmpago.
Uma banalidade tremenda.
Vale a pena?
dormindo na última fila de Inglês I,
recuperando as horas perdidas
na Feira da Ladra das quintas,
vendendo discos, CD's, cassetes de vídeo porno.
Por vezes, acordava e dizia qualquer coisa
vagamente sábia - era mais velho do que a maioria,
voltara aos estudos, como então se dizia,
mas trabalhava, trabalhava como poucos de nós -
precisávamos de estar por ali, faltando à faculdade,
fumando cigarros no pátio onde alguns anos depois montaram uma feia
esplanada com cadeiras de plástico e chapéus de sol veraneantes,
precisávamos de sair
ir à Gulbenkian, deitar na relva
esticados ao sol, olhando o tempo retroceder por força da inércia,
e depois ler todos os livros de que não precisávamos,
sem subversão nem revolução, apenas
alguma preguiça, ter um livro para ler
e não o fazer, dormir até ser tarde demais,
adiar a derrota -
e ele andava a comprar discos para os vender
na Feira e a alguns de nós nas aulas.
Por vezes, eu visitava a banca, aos Sábados,
comprava-lhe bandas, músicas, motivos
para esquecer, gostos emprestados.
Ainda estão para ali, e ouço-os talvez mais
do que ouvia na altura.
Anos depois, soube que se tinha
perdido numa estrada a caminho do Sul,
uma curva, um metro a mais, desolação.
A morte é a memória de um rosto
que se vai perdendo, um breve relâmpago.
Uma banalidade tremenda.
Vale a pena?
06/12/11
05/12/11
Encontro
Roubo ao passar por ele, grave decisão,
a dignidade da solidão,
e recolho-o em minha casa,
decidido a derrotar a miséria humana
e todos os seus reclusos, a quem os pontapés
que a vida dá deixaram de doer, e as feridas
comidas pelos animais traidores
que em tempos lhe fizeram companhia
parecem cintilar, cicatrizando,
promessa de absolvição.
Grande história, a que lhe contaram os pais -
no seu berço ouvia mentiras e acreditava nelas,
preparava-se para aquilo a que se chama maturidade,
o desprezo da vida adulta, intermitente
e carcomida pelo medo e pela hesitação,
a sombra de uma derrota como um cão
mordendo as pernas.
As mentiras, rosto do conforto familiar -
narrativas, livros, fieis depositários de um grandioso engano -
os sorrisos disfarce, demónios entrando pela pele,
percorrendo o sangue e saindo em golfadas pela boca.
Antes vinho, carrascão,
bebido na companhia amena dos outros desterrados,
almas penadas encostadas às esquinas das ruas
cravando ao próximo alguns minutos mais de esquecimento,
tocando o frio da calçada, na radiosa celebração da bebedeira.
Deixai-me efabular sobre o desconhecido
a quem nunca guardei, e acreditar que na recusa,
e na vergonhosa metáfora de um poema,
vencerei a morte e a sua finta, jogador medíocre
a quem a sorte soube dar o merecido destino.
Não tenho direito a gravar nesse nome a minha cruz -
a luz de um novo encontro é breve, e a manhã tarda.
a dignidade da solidão,
e recolho-o em minha casa,
decidido a derrotar a miséria humana
e todos os seus reclusos, a quem os pontapés
que a vida dá deixaram de doer, e as feridas
comidas pelos animais traidores
que em tempos lhe fizeram companhia
parecem cintilar, cicatrizando,
promessa de absolvição.
Grande história, a que lhe contaram os pais -
no seu berço ouvia mentiras e acreditava nelas,
preparava-se para aquilo a que se chama maturidade,
o desprezo da vida adulta, intermitente
e carcomida pelo medo e pela hesitação,
a sombra de uma derrota como um cão
mordendo as pernas.
As mentiras, rosto do conforto familiar -
narrativas, livros, fieis depositários de um grandioso engano -
os sorrisos disfarce, demónios entrando pela pele,
percorrendo o sangue e saindo em golfadas pela boca.
Antes vinho, carrascão,
bebido na companhia amena dos outros desterrados,
almas penadas encostadas às esquinas das ruas
cravando ao próximo alguns minutos mais de esquecimento,
tocando o frio da calçada, na radiosa celebração da bebedeira.
Deixai-me efabular sobre o desconhecido
a quem nunca guardei, e acreditar que na recusa,
e na vergonhosa metáfora de um poema,
vencerei a morte e a sua finta, jogador medíocre
a quem a sorte soube dar o merecido destino.
Não tenho direito a gravar nesse nome a minha cruz -
a luz de um novo encontro é breve, e a manhã tarda.
04/12/11
Melancolia (mas da parva)
Lars von Trier conseguiu. Outra vez. Criar um mastodonte pretensioso, caricato e obcecado com o seu próprio umbigo. Melancolia é tudo isto em tons sépia, como convém num filme sobre o fim do mundo - ou lá o que é -, uma obra sobre cortar os pulsos que quase nos impele a isso. Desprovido de subtilezas - mas o realizador nunca se preocupou com isso -, repetindo temas anteriores, um grito na cara do espectador com a densidade filosófica do correio sentimental da revista Maria.
Em tempos, gostei de Ondas de Paixão - mas admito que, se eu o revisse, talvez mudasse de opinião. Dogville é excelente, por conseguir chegar a um nível de abstracção que o transforma num objecto que reflecte sobre a sua própria importância, um ensaio metaficcional sobre o mal e as suas consequências, uma obra conceptual sobre os limites da artificialidade e do naturalismo da representação cinematográfica. O contrário de Dogville é Melancolia: indigesto e farto, depósito de citações de pintores - Pré-Rafaelitas, Românticos alemães -, uma espécie de paródia involuntária ao cinema da contemplação metafísica - como se fosse um Malick de quinta categoria ou um Tarkovsky superficial, sem espessura - e manifesto da neurose pessoal do realizador dinamarquês. Só se safa mesmo Kirsten Dunst, que parece ter conseguido fazer melhor figura que outras mártires do cinema de von Trier, como Björk ou Charlotte Gainsbourg (fraquíssima, o que é uma pena tendo a conta a linhagem da qual descende).
A polémica do último festival de Cannes - o elogio provocatório e infantil a Hitler - é uma nota de rodapé, perante o desastre preguiçoso e auto-contemplativo que é Melancolia. Prémio de Melhor Filme Europeu do Ano? Não quero saber quem seriam os outros concorrentes...
Passarinhos e melancolia
Virginia Astley, From Gardens Where We feel Secure. É o único álbum em casa. Piano, flauta, oboé e sons da natureza. Coros virginais. O chiar de um baloiço. Balir de ovelhas. Música melancólica para dias cinzentos, não tão perto do new age que não justifique o incondicional amor.
Os sons recriam imagens, ligações do inconsciente. O filme de Peter Weir, Piquenique em Hanging Rock. As meninas do colégio privado que se perdem na Natureza. Sinos na distância, a chamada para a missa de Domingo. A igreja de infância? Não, essa era clara, caiada, plena de Verão; arraial com foguetes e alegria. Igrejas inglesas, perdidas na neblina. Os Cinco no campo inglês. Os contos de Arthur Conan Doyle, especialmente o Cão dos Baskervilles - english marshes. A outra Virginia, a de As Ondas. As caminhadas de Sebald no meio de ruínas. A perda e o esquecimento. A recuperação da memória, emergir do passado. Um pulmão de aço. Como na música dos Radiohead. Ordem no caos.
02/12/11
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