05/12/11

Encontro

Roubo ao passar por ele, grave decisão,
a dignidade da solidão,
e recolho-o em minha casa,
decidido a derrotar a miséria humana
e todos os seus reclusos, a quem os pontapés
que a vida dá deixaram de doer, e as feridas
comidas pelos animais traidores
que em tempos lhe fizeram companhia
parecem cintilar, cicatrizando,
promessa de absolvição.

Grande história, a que lhe contaram os pais -
no seu berço ouvia mentiras e acreditava nelas,
preparava-se para aquilo a que se chama maturidade,
o desprezo da vida adulta, intermitente
e carcomida pelo medo e pela hesitação,
a sombra de uma derrota como um cão
mordendo as pernas.

As mentiras, rosto do conforto familiar -
narrativas, livros, fieis depositários de um grandioso engano -
os sorrisos disfarce, demónios entrando pela pele,
percorrendo o sangue e saindo em golfadas pela boca.
Antes vinho, carrascão,
bebido na companhia amena dos outros desterrados,
almas penadas encostadas às esquinas das ruas
cravando ao próximo alguns minutos mais de esquecimento,
tocando o frio da calçada, na radiosa celebração da bebedeira.

Deixai-me efabular sobre o desconhecido
a quem nunca guardei, e acreditar que na recusa,
e  na vergonhosa metáfora de um poema,
vencerei a morte e a sua finta, jogador medíocre
a quem a sorte soube dar o merecido destino.

Não tenho direito a gravar nesse nome a minha cruz -
a luz de um novo encontro é breve, e a manhã tarda.

04/12/11

Melancolia (mas da parva)

Lars von Trier conseguiu. Outra vez. Criar um mastodonte pretensioso, caricato e obcecado com o seu próprio umbigo. Melancolia é tudo isto em tons sépia, como convém num filme sobre o fim do mundo - ou lá o que é -, uma obra sobre cortar os pulsos que quase nos impele a isso. Desprovido de subtilezas - mas o realizador nunca se preocupou com isso -, repetindo temas anteriores, um grito na cara do espectador com a densidade filosófica do correio sentimental da revista Maria. 
Em tempos, gostei de Ondas de Paixão - mas admito que, se eu o revisse, talvez mudasse de opinião. Dogville é excelente, por conseguir chegar a um nível de abstracção que o transforma num objecto que reflecte sobre a sua própria importância, um ensaio metaficcional sobre o mal e as suas consequências, uma obra conceptual sobre os limites da artificialidade e do naturalismo da representação cinematográfica. O contrário de Dogville é Melancolia: indigesto e farto, depósito de citações de pintores - Pré-Rafaelitas, Românticos alemães -, uma espécie de paródia involuntária ao cinema da contemplação metafísica - como se fosse um Malick de quinta categoria ou um Tarkovsky superficial, sem espessura - e manifesto da neurose pessoal do realizador dinamarquês. Só se safa mesmo Kirsten Dunst, que parece ter conseguido fazer melhor figura que outras mártires do cinema de von Trier, como Björk ou Charlotte Gainsbourg (fraquíssima, o que é uma pena tendo a conta a linhagem da qual descende). 
A polémica do último festival de Cannes - o elogio provocatório e infantil a Hitler - é uma nota de rodapé, perante o desastre preguiçoso e auto-contemplativo que é Melancolia. Prémio de Melhor Filme Europeu do Ano? Não quero saber quem seriam os outros concorrentes...

Passarinhos e melancolia

Virginia Astley, From Gardens Where We feel Secure. É o único álbum em casa. Piano, flauta, oboé e sons da natureza. Coros virginais. O chiar de um baloiço. Balir de ovelhas. Música melancólica para dias cinzentos, não tão perto do new age que não justifique o incondicional amor. 
Os sons recriam imagens, ligações do inconsciente. O filme de Peter Weir, Piquenique em Hanging Rock. As meninas do colégio privado que se perdem na Natureza. Sinos na distância, a chamada para a missa de Domingo. A igreja de infância? Não, essa era clara, caiada, plena de Verão; arraial com foguetes e alegria. Igrejas inglesas, perdidas na neblina. Os Cinco no campo inglês. Os contos de Arthur Conan Doyle, especialmente o Cão dos Baskervilles - english marshes. A outra Virginia, a de As Ondas. As caminhadas de Sebald no meio de ruínas. A perda e o esquecimento. A recuperação da memória, emergir do passado. Um pulmão de aço. Como na música dos Radiohead. Ordem no caos.

02/12/11

Sudden

Jeff Wall em Santiago de Compostela. E eu não estou lá.

Deriva

Andar à deriva poderá parecer uma imagem poética, ou pior, o destino de um romântico. Mas na realidade é um lastro pesadíssimo. Terá de haver método na viagem, uma perda estruturada, uma certeza. Uma deriva com um rumo traçado.

29/11/11

George Harrison

Passam hoje dez anos desde que partiu para outras paragens aquele que é considerado, pelas melhores famílias, o mais genial Beatle. Não sei, ninguém pode saber, e pouco importa. All in all, é tudo um sonho. Apenas a maravilhosa claridade da guitarra de George Harrison é real. E eterna.