13/10/11

The Sense of an Ending - na companhia de Ulysses (5)

Julian Barnes preparou o terreno até chegar à primeira surpresa do livro, mas eu não percebi. O que era, até certo momento, uma desapaixonada memória de juventude transformou-se numa reflexão sobre o sentido da vida a partir da célebre primeira frase de Camus: "O suicídio é a única questão filosófica".
Não me interessa resolver agora esse problema - ainda há quem se atreva a tentar? - mas antes realçar a perfeição do efeito. Os sinais, subtis, de que a narrativa iria sofrer uma inflexão dramática - como a vida, lá está, como a vida - foram semeados pacientemente por Barnes, sem nunca deixar de cativar o leitor  com episódios mais ou menos picarescos da história das personagens. Curiosamente, a tal questão filosófica é um tema que terá mais a ver com as pretensões da juventude do que com a sabedoria da velhice. Mas apenas o desenrolar do fio do romance poderá confirmar esta intuição.
Entretanto, em Dublin decorre o funeral de Paddy.

11/10/11

Ulysses (4) - na companhia de Julian Barnes

Sair do caos da Dublin joyceana para a memória ordenada de Julian Barnes. 
O título do seu mais recente romance, The Sense of an Ending*, contém uma promessa de revelação. Melancólico e banal, poético e coloquial. Depois da leitura de Nada a Temer, apeteceu-me voltar a Barnes. A mulher dele entretanto morreu. Pat Kavanagh, uma das protagonistas de uma querela literária no meio britânico com Martin Amis, de quem era agente. Amis e Barnes eram amigos, e também eles se afastaram depois da zanga.**
A sombra da mulher, cairá sobre a novela? As primeiras trinta páginas parecem ser a típica narrativa de um escritor a entrar na idade crepuscular. Há aqui e ali alguma ironia distanciada - sobretudo na descrição que o narrador faz das tolices de juventude - mas a carga humorística característica de Barnes parece ter-se esvaziado.
As dores da velhice pesam; mais no corpo do que no espírito, como Stephen Dedalus ainda não sabe. Nem Joyce saberia quando estava a escrever o seu Ulysses. A vitalidade transbordante da epopeia dublinesca nada tem a ver coma serenidade desiludida de Barnes. Por isso, vou continuar a ler os dois em paralelo. Até ver.

*Belíssima capa, a da edição inglesa. Hardback Jonathan Cape, elegante e sóbria, com estilo e graça. As editoras portuguesas continuam a não seguir os bons exemplos porquê?

**Será que depois do desaparecimento dela, em 2008, eles restabeleceram a amizade? Estas histórias paralelas dos escritores começam a interessar-me como nunca até agora. As biografias sempre me passaram ao lado, e apenas recordo de ler com bastante proveito a escrita por Nicholas Shakespeare sobre Bruce Chatwin, um tijolo de 1000 páginas que li durante dois, três meses de um verão da década passada - ou talvez da anterior, não sei; mas foi no verão, isso é certo. A vida de Chatwin - um dos meus heróis literários dos vinte anos - foi uma história mais bem contada do que qualquer uma das suas novelas. Apenas os relatos de viagem - Na Patagónia, Canto Nómada - conseguem ir mais longe na efabulação, na invenção.

09/10/11

Este não é o verso

Não nos ensinaram a perder.

Tanto tempo passado e os mesmos pulhas
lixam-nos a vida, e não é a mãe, não é o pai -
são os pulhas lá fora que nos tramam,
à nossa vulgaridade burguesa,
a necessidade de controlar o tédio,
de pertencer a um mundo tão fragmentado
que nenhuma imagem o poderá remendar.

E perdemos amigos verdadeiros
para ganharmos amigos que nunca iremos conhecer;
perder, perder, perder,
antes de naufragarmos na velhice
e então esquecer a sério os amigos que perdemos,
e a memória dos amores que não iremos recuperar.

Lixam-nos a vida com a permissividade que
nos leva a sentir menos o sofrimento dos outros,
e nós deixamo-nos lixar, felizes
na nossa pacífica derrota, isolados num mundo a que
dizemos não pertencer - mas como pertencemos!

Tudo o que nos ensinaram foi
a saber como ganhar; todas as lições erradas,
e agora submetemos os nossos filhos
à mesma dança envenenada, o testamento
deixado a uma vida que não espera,

porque nada tem a perder.

Ensinaram-nos todas as coisas erradas; e é tão
inútil, a alegria de aqui estar.

06/10/11

Ulysses (3)

Como ser popular sem deixar de ser erudito? Como retratar a alma de uma cidade e dos seus habitantes, de todas as classes e proveniências, criando uma obra de arte que transcende de algum modo tudo o que foi feito antes? Como soar a Pogues nunca abandonando o caminho da epopeia de inspiração homérica? Uma viagem em circuito fechado, urbana, que tem a respiração de uma longa jornada de regresso de casa, marítima.

Tomas Tranströmer

Não correu como eu desejaria, mas não deixa de ser uma boa surpresa.

LISBOA

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas
subidas.
Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!


"Mas aqui", dizia o revisor e ria baixinho, maliciosamente,
"aqui sentam-se os políticos". Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
e em cima, a uma janela, um homem,
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
para além do mar.


A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde, perguntei a uma dama de Lisboa:
Isto é real, ou fui eu que sonhei?

(Tradução de Luís Costa, encontrado aqui.)