21/09/11

...

Já não existem poetas;
o último morreu em agonia,
escrevinhando um ridículo poema de amor
para uma namorada cega.

16/09/11

Too afraid

"Honey, we all got to go sometime, reason or no reason. Dyin's as natural as livin'. The man who's too afraid to die is too afraid to live."

Cat people

Curiosa a tribo que formamos, sós
que somos sempre e à noite pardos,
fuzis os olhos, garras como dardos,
mostrando o nosso assanho mais feroz:

quando me ataca o cio eu toda ardo,
e pelos becos faço eco, a voz
esforço, estico e, como outras de nós,
de susto dobro e fico um leopardo

ou ando nas piscinas a rondar -
e perco o pé com ganas sufocantes
de regressar ao sítio que deixei

julgando ser mais fundo do que antes.
A isto assiste a morte, sem contar
as vidas que levei ou já gastei.

Margarida Vale de Gato, em Mulher ao Mar, ed. Mariposa Azual

13/09/11

Marketing, mas do bom

Estive a ler textos antigos. Em 2006, começava a reler Rentes de Carvalho. Em 1996, conhecia-o de nome, alguém que vivia na Holanda me falou do escritor português que vendia apenas por lá. Dois anos depois devo ter lido o primeiro livro dele. Já não tenho a certeza, e não estou com vontade de ir espreitar os livros de capa branca da Escritor. Agora, todos o lêem. Ainda bem. Nem todos os marketeers têm lugar reservado no Inferno.

12/09/11

A inconsciência e o romance

Calhou ter em mãos o livro de David Lodge, A Consciência e o Romance, quando me deparei com uma frase do escritor israelita Lev Grossman: «Being a novelist demands arrogance […] "To be a good critic, you have to be humble." Não há acasos que possam ser descuidados, mesmo em assuntos tão pouco importantes como a literatura, ou ridiculamente menores, como a crítica literária. Lodge é também um (excelente, embora não tão valorizado como deveria) romancista, mas é sobretudo respeitado pelo seu trabalho académico e crítico. O caso é simples: a arrogância deverá ser uma das qualidades de um bom escritor; a modéstia nunca terá sido boa conselheira. Depreendo que Grossman estará a falar daquela arrogância que obriga o escritor a prosseguir, quando a razão aconselha o contrário. A velha questão: como escrever, o que escrever, depois de tudo que já foi escrito? Imagino que a dúvida terá levado, ao longo do tempo, ao desespero e ao suicídio; ou pior, à desistência. Robert Walser foi dos mais sensatos: internou-se num hospício e inventou uma escrita aparentemente indecifrável (até alguns investigadores com demasiado tempo em mãos a terem decifrado), até à morte - de resto excessivamente romântica para os usos da época; nem a tísica, nem a morte de amor, nem a descoberta de um corpo sobre a neve; tudo tão batido como o ferro às mãos do metalúrgico.
Mas há quem continue a escrever; e publique; e apareça em todo o lado envergando o sobretudo do "autor". Um mercado dentro do capitalismo, vivo e aparentemente de boa saúde. David Lodge acha que foi Charles Dickens o primeiro autor famoso. Não uma celebridade - outros já o tinham sido antes dele. Famoso. Não sei se terá sido Dickens o único autor famoso que tinha, digamos, qualidades inegáveis como escritor. Depois dele, a decadência.
O problema de muitos escritores contemporâneos é que lhes sobra em empáfia o que lhes falta em talento. A arrogância não será uma virtude, mas sim uma necessidade. Para continuar. E falhar. E voltar a tentar.
Quanto à humildade do crítico, a verdade da frase de Grossman é mais um desejo do que a realidade. Como poderá um romancista conter um ego em busca de reconhecimento ao escrever sobre os outros? Os grandes conseguem. Os outros não são críticos. 

Contra Mundum

Se eu quiser procurar boa crítica literária nos jornais portugueses, dificilmente a encontrarei. As excepções a esta regra são submetidas ao espartilho cada vez mais estreito do limite de palavras. A blogosfera - por muito que António Guerreiro não queira - apoderou-se desse espaço deixado vazio pelos media tradicionais. Há alguns blogues que poderia dar como exemplo; todos estão na barra lateral. Desses destaco o Contra Mundum, pela rigorosa reflexão condensada em breves actualizações, ritmo de trabalho em progresso. Obrigatório.

11/09/11

As novas gerações

Um dia iremos acordar falidos,
sem nenhuma hipoteca moral que nos salve
da ruína - e isto não é uma metáfora,
a bancarrota virá e seremos arrastados,
e o que diremos então dos passivos, desnecessários,
do amor e da poesia e das tardes cismando
nas acções por concretizar, a maré baixa
do rio ecoando fantasmas.

Esse dia, radioso, em que a necessidade dispensa o ócio;
a utilidade que o tempo edifica,
preencher os minutos, correndo de um lado
para o outro, construindo coisas mais reais do que a estupidez
da literatura, os seus ocasos verbais
imagens de um qualquer tédio – aí chegados, nós,
reminiscência de um tempo que os jovens
não recordarão – assim se orgulham de ser as novas gerações.

O dia - negro, furioso - erguer-se-á com homens a cair de prédios altos,
esse movimento descendente ressoando outros homens do passado,
e o símbolo fixar-se-á ao eixo temporal como um alicerce de aço: quando
um mundo acaba, homens matam-se para fugir à morte,
e não lamentaremos a ironia da desgraça - uma certa beleza
deflagra no momento em que no ecrã o corpo é um risco
no céu, uma mancha contra a cidade que se prepara para a derrocada
como se fosse uma velha actriz na sua última estreia.

Mas este dia, hoje, é límpido, agora, é límpido e claro;
choveu de manhã, é certo, mas a tarde irrompeu
como um insecto da toca, colocámos sobre os joelhos
a velha manta da melancolia, ligámos a televisão
e adormecemos a ver um filme romântico; chega-nos isso.
O crédito que nos proporciona a felicidade não sofre
das flutuações do mercado, seremos náufragos num mar de hipotecas
furadas, remando contra a corrente das empresas falidas; amarrados

a uma proa, a salvo da morte das sereias, actores de uma epopeia
suburbana que apenas deseja ser lida nos corredores
dos supermercados e nos comboios que regressam a casa.

Moral? Não nesta casa; a tarde, incurável,
não deixa que a noite se inicie. O ritmo familiar
é uma venda nos olhos - seguir, sempre, em frente.