02/09/11

Momento Casanova

A última reformulação do suplemento Ípsilon parecia anunciar mudanças importantes. Num panorama de acelerada decadência dos suplementos culturais na imprensa escrita, foi importante a aposta do Público em artigos de fundo semanais, sobretudo porque os nomes convidados - Augusto M. Seabra e António Pinto Ribeiro - eram garantia absoluta de, como se costuma dizer, qualidade. Tem sido provado, ao longo dos últimos meses, que a decisão foi acertada - arrisco a subjectividade da observação sabendo que os números são o que dita a continuidade deste tipo de projecto. Com a circulação de jornais em acentuado declínio, provavelmente este acerto nada terá trazido de novo no aspecto comercial; e sabemos que, a longo prazo, tudo o que lamentamos será pouco, perante o que virá. Mas enquanto temos gente de quem gostamos a escrever para nós em jornais - e a troco de um valor, condição que ainda há pouco, por mais absurdo que nos pareça, foi posta em causa pelo novo dono do jornal I - desfrutemos do facto. 
Acrescente-se a estes nomes a "contratação" da época, Rogério Casanova. Numa espécie de troca com o Actual, do Expresso - Pedro Mexia partiu para essas paragens - Casanova chegou, viu e, claro, venceu. O crítico mais prodigiosamente canibalesco e intertextual das redondezas é também o que mais se aproxima do modelo da crítica anglo-saxónica. Dêem-lhe espaço e ele brilhará - como o fazem os números 10. Acontece hoje - o texto de 4 páginas (um merecido luxo) sobre David Foster Wallace beija ao de leve o génio de um ensaio do próprio David Foster Wallace. Sei bem que a influência das leituras pode ser uma maldição - já nem vou pela coisa da angústia; Harold Bloom é, digamos, sobrevalorizado - mas, no que interessa, Casanova acerta. A flexibilidade do seu pensamento é a prova das muitas horas perdidas a malhar - hermeneuticamente falando - em Foster Wallace. E em James Wood, não descuremos essa aprendizagem. Depois do "momento Federer" e do "momento Foster Wallace", arrisco dizer que deveremos começar a pensar no "momento Casanova", numa banca perto de si. Se foi para isto que a sua Pastoral Portuguesa embarcou num prolongado pousio, abençoada reforma agrária.

(O retrato foi tirado pelo conhecido artista hiper-realista Pedro Vieira.)

31/08/11

Arrival

And yet one arrives somehow,
finds himself loosening the hooks of
her dress
in a strange bedroom -
feels the autumn
dropping its silk and linen leaves
about her ankles.
The tawdry veined body emerges
twisted upon itself
like a winter wind...!


Sudek, William Carlos Williams

Simetrias

30/08/11

A cidade e as serras

Uns versos de Cesário Verde: nas nossas ruas, ao anoitecer, há tal soturnidade, tal melancolia... transformados em prosa, deixam de descrever a Lisboa do século XIX e passam a designar qualquer fim de tarde, em qualquer época. Numa cidade, a noite cai de forma abrupta. As pessoas regressam a casa, as luzes acendem-se, o trânsito diminui. A melancolia urbana é triste. O anoitecer no campo é lento, os olhos vão-se habituando à luz nocturna, e o corpo vai atrás, acomoda-se às sombras. A cidade destrói o silêncio. E o campo dá-lhe um nome de família. Não tememos o silêncio, no campo; antes o ruído que o possa interromper. E os versos de Cesário Verde deixam de fazer sentido.

Falso zen

A paciência, para um monge budista, é tão maleável como um pedaço de plasticina. Contudo, mesmo a plasticina tem um limiar de elasticidade; e quebra-se. 

(A história do monge budista é inventada. Sei lá eu o que pensa um monge budista da paciência.)

Santiago

29/08/11

A ler

Uma reflexão de David Teles Pereira que complementa - e enriquece em muito - o texto de António Guerreiro no Expresso. O progressivo desaparecimento de uma coisa tão inútil como a "poesia" deveria ser um tema tão ou mais importante do que a crise económica ou o aquecimento global. A discussão não poderá deixar de ser feita.

Sabedoria

Chega uma altura em que teremos de reaprender a não ter certezas. Há quem lhe chame realismo; eu sou suficientemente cínico para lhe chamar sabedoria.

A culpa

Um homem não é culpado das coisas que não pode controlar; mas será sempre culpado por não as  saber controlar.