Uns versos de Cesário Verde: nas nossas ruas, ao anoitecer, há tal soturnidade, tal melancolia... transformados em prosa, deixam de descrever a Lisboa do século XIX e passam a designar qualquer fim de tarde, em qualquer época. Numa cidade, a noite cai de forma abrupta. As pessoas regressam a casa, as luzes acendem-se, o trânsito diminui. A melancolia urbana é triste. O anoitecer no campo é lento, os olhos vão-se habituando à luz nocturna, e o corpo vai atrás, acomoda-se às sombras. A cidade destrói o silêncio. E o campo dá-lhe um nome de família. Não tememos o silêncio, no campo; antes o ruído que o possa interromper. E os versos de Cesário Verde deixam de fazer sentido.
30/08/11
Falso zen
A paciência, para um monge budista, é tão maleável como um pedaço de plasticina. Contudo, mesmo a plasticina tem um limiar de elasticidade; e quebra-se.
(A história do monge budista é inventada. Sei lá eu o que pensa um monge budista da paciência.)
29/08/11
A ler
Uma reflexão de David Teles Pereira que complementa - e enriquece em muito - o texto de António Guerreiro no Expresso. O progressivo desaparecimento de uma coisa tão inútil como a "poesia" deveria ser um tema tão ou mais importante do que a crise económica ou o aquecimento global. A discussão não poderá deixar de ser feita.
Sabedoria
Chega uma altura em que teremos de reaprender a não ter certezas. Há quem lhe chame realismo; eu sou suficientemente cínico para lhe chamar sabedoria.
A culpa
Um homem não é culpado das coisas que não pode controlar; mas será sempre culpado por não as saber controlar.
28/08/11
Barata (uma alucinação de Adília Lopes)
"Por exemplo, nunca convidei uma barata para lanchar comigo"
CLARICE LISPECTOR
Havia uma pessoa
que convidava outras pessoas
para lanchar com ela
ela fazia pudins complicados
tão complicados
que eram precisas mais duas pessoas
para os fazer
o que é muito perigoso
porque se três pessoas fazem a mesma coisa
ao mesmo tempo (mais ou menos)
ou morre a mais velha ou morre a mais nova
ela por esperar muito os convidados
arranjou as coisas de maneira
a ser sempre a do meio
entretanto as criadas iam morrendo
mas os convidados não apareciam
ela chegou mesmo a suspeitar
que nunca os tinha convidado
ou que nunca os tinha conhecido
comia ela os pudins com a criada que sobrava
e às vezes com uma barata
as criadas não achavam bem a barata
em cima da mesa
e a barata deixou de aparecer
ela com o desgosto passou a viver de maneira perigosa
fazia de maneira que as duas criadas
fossem ambas mais velhas do que ela
ou ambas mais novas
mas eram sempre as criadas a morrer
até que um dia sem ter feito nada por isso
morreu
então as criadas abriram a porta do armário
onde tinham fechado a barata
e a barata saiu de lá
muito magra
a caminhar a custo
e à medida que os convidados
iam aparecendo os convidados
iam pedindo desculpa às criadas
In Dobra, ed. Assírio & Alvim, 2009.
27/08/11
Nada a Temer
Um livro ideal para o Verão? Pense Julian Barnes. Pense existencialismo. Literatura francesa. Morte. Nada a ver com praia, sol, paz de espírito? Tudo. Com Barnes, o temido fim não deixa de estar lá, mas relativizemos: a obra autobiográfica do francófilo escritor inglês é uma reflexão sobre o desaparecimento, um diálogo com o irmão filósofo, uma demonstração de virtuosa bibliofilia – e também um edipiano ajuste de contas com a falecida mãe. O cortejo de escritores ajuda Barnes na sua demanda para curar a “doença da existência”. Acabará por não a curar, é certo, mas alivia um pouco o seu peso. E o nosso.
Nada a Temer, de Julian Barnes. Edição Quetzal, tradução de Helena Cardoso.
(Texto publicado no ThePrintedBlogPortugal).
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