19/08/11

A minha Assírio

A "parceria" entre a Assírio & Alvim e o grupo Porto Editora marca uma fim de uma era. Aconteça o que acontecer. A editora fundada nos anos 70 não era uma marca, não era um produto; era uma referência. Criou uma identidade. A editora da poesia. A editora de Herberto Helder. A editora da Phala. A editora da colecção de poesia inédita portuguesa, que foi revelando grandes poetas ao longo de várias décadas. A editora de Fernando Pessoa. De Alfredo Saramago. Do Poemário e do Culinário. Da minha Poesia Toda a espreitar ali da estante. Do meu Lunário - e não é d'O Medo porque tenho a edição da desaparecida Contexto. Do meu Bartleby e do meu Tonino Guerra. Do meu Kafka. Do meu Miguel Esteves Cardoso. De Manuel António Pina. O que vai ser dela, agora que foi engolida por um gigante? Como Jonas, sobreviverá dentro da baleia? O comunicado da Porto Editora assegura que se vai manter a autonomia editorial. Mas Manuel Rosa, o continuador de Manuel Hermínio Monteiro (o homem que forjou a alma do projecto), parece que vai sair. E nem passou um ano desde que Vasco Teixeira, o dono do gigante, afirmou numa entrevista que a poesia, a curto prazo, deixará de ser editada - amargas ironias do destino. Temos o bom exemplo da Sextante, também pertencente ao grupo, e que tem sabido manter, pela mão de João Rodrigues (o fundador), a mesma criteriosa qualidade. Tudo muda, tudo se transforma. E o gigantismo pode não ser absolutamente uma doença. Mas saber que a Assírio não era uma "marca" ou uma "chancela", mas sim uma editora, a sério e à antiga, uma força com identidade própria que foi sobrevivendo nas livrarias, era um sinal de conforto num mercado que cada vez mais tem menos que ver com livros e mais com "produtos". 
O uso do pretérito imperfeito poderá ser prematuro. Espero que seja. Porque eu não quero perder a Assírio da poesia. E as coisas que vão desaparecendo são muito mais preciosas do que as que vão nascendo. Tempos de sobressalto, quando valores mais altos do que a poesia se levantam. Tristes tempos.

Raúl Ruiz (1941-2011)

18/08/11

Carro

Surpresas e ausências. Permanência. O que preferir, o que entender? O esforço de atribuir um sentido aos acontecimentos; não no sentido premonitório ou místico. Mas um sentido. A linha que leva de um lugar ao outro; sentir o ritmo da viagem. Andar a reboque do tempo, deixá-lo tomar as decisões de que não nos conseguimos livrar. E depois não lamentar a abdicação. Olhar para trás e achar que tudo aconteceu como deveria ter acontecido. A liberdade, uma paisagem desaparecendo no retrovisor do carro. E eu, no lugar do morto.

A Primavera das fotografias

O grande mural fotográfico que adorna a sala do café Les Finances. Representava, nos seus bons tempos, um bosque em pleno verdor. Com os anos a cor foi amarelecendo. A Primavera das fotografias também tem o seu Outono.

Uma prosa apátrida de Julio Ramón Ribeyro para a série "The Hungry Eye", da Maria João Freitas.

01/08/11

Vultos

O que torna o passado uma morada de reconhecimento é a sua natureza extensiva. Alongado, esticado até ao limite, um habitante do reverso da pele, um vulto desaparecendo na janela. Pegar numa folha de papel, dobrar, vincar com as unhas, esmagar imagem contra imagem. Qual a original, qual a cópia? Guardar a folha num casaco que nos foi roubado. Perder tudo. Recordar a imagem da imagem. Regressar ao espaço imaginando-o tempo.

25/07/11

Abre-se a onda do poema

Na verdade, é numa espécie de entre-dois, a meio caminho entre a inteligência de um sentido e a sensibilidade às formas verbais, onde se dá a hesitação entre sentido e som, que se abre a onda do poema. Ao solicitar, mais do que a nossa inteligência narrativa, uma compreensão que se poderá dizer "afectiva", o poema lança as suas palavras como outras tantas sondas, em direcção aos fundamentos mais recônditos da nossa presença sensível no mundo. Ele faz vibrar em nós a corda enigmática do tempo, isso mesmo em que se mostra mais inescrutável. E o poema excita também as nervuras mais secretas da nossa habitação corporal e espacial do mundo. Desta forma, não é uma mensagem que ele passa, nem o que quer que seja que possa ser da ordem de um ensinamento doutrinário. Ele não põe ideias em verso; desenha e declina versões de mundos que são outros  tantos esboços de uma outra economia possível da existência - de um outro ethos (morada); o qual seria, no dizer de Mallarmé, mais "autêntico".

Jean-Claude Pinson, in Para Que Serve a Poesia Hoje, ed. Deriva

23/07/11

Amy Winehouse (1983-2011)

Live fast, die young... no bullshit. Grande voz, o panteão dos 27 está mais rico; mas o mundo ficou a perder. Descanse em paz.
E mais: vejo repetida por todo o lado a expressão "desperdício de talento". Depois de morta, continua a ser recriminada por levar o estilo de vida que levava. Censurada por não ter feito outro disco desde Back to Black. Condenada pelas desastrosas actuações ao vivo. Não é justo. É egoísmo puro. Queremos que os nossos ídolos sejam perfeitos? Não, pedimos apenas que nos sirvam, como cantava outro perseguido pela fama, Kurt Cobain. Serve the servants - os artistas obrigados a servirem a sua arte. E nós, como vampiros, nunca nos cansamos, queremos sempre mais. Desperdício de talento, como se deus (ou alguém por ele) tivesse desperdiçado um dom em alguém que não o merecia. Amy Winehouse não era apenas um produto consumível. No fim de contas, o que lamentamos nós? A morte de alguém, ou o fim do nosso vício? Quem será, afinal, imperfeito?