25/07/11

Abre-se a onda do poema

Na verdade, é numa espécie de entre-dois, a meio caminho entre a inteligência de um sentido e a sensibilidade às formas verbais, onde se dá a hesitação entre sentido e som, que se abre a onda do poema. Ao solicitar, mais do que a nossa inteligência narrativa, uma compreensão que se poderá dizer "afectiva", o poema lança as suas palavras como outras tantas sondas, em direcção aos fundamentos mais recônditos da nossa presença sensível no mundo. Ele faz vibrar em nós a corda enigmática do tempo, isso mesmo em que se mostra mais inescrutável. E o poema excita também as nervuras mais secretas da nossa habitação corporal e espacial do mundo. Desta forma, não é uma mensagem que ele passa, nem o que quer que seja que possa ser da ordem de um ensinamento doutrinário. Ele não põe ideias em verso; desenha e declina versões de mundos que são outros  tantos esboços de uma outra economia possível da existência - de um outro ethos (morada); o qual seria, no dizer de Mallarmé, mais "autêntico".

Jean-Claude Pinson, in Para Que Serve a Poesia Hoje, ed. Deriva

23/07/11

Amy Winehouse (1983-2011)

Live fast, die young... no bullshit. Grande voz, o panteão dos 27 está mais rico; mas o mundo ficou a perder. Descanse em paz.
E mais: vejo repetida por todo o lado a expressão "desperdício de talento". Depois de morta, continua a ser recriminada por levar o estilo de vida que levava. Censurada por não ter feito outro disco desde Back to Black. Condenada pelas desastrosas actuações ao vivo. Não é justo. É egoísmo puro. Queremos que os nossos ídolos sejam perfeitos? Não, pedimos apenas que nos sirvam, como cantava outro perseguido pela fama, Kurt Cobain. Serve the servants - os artistas obrigados a servirem a sua arte. E nós, como vampiros, nunca nos cansamos, queremos sempre mais. Desperdício de talento, como se deus (ou alguém por ele) tivesse desperdiçado um dom em alguém que não o merecia. Amy Winehouse não era apenas um produto consumível. No fim de contas, o que lamentamos nós? A morte de alguém, ou o fim do nosso vício? Quem será, afinal, imperfeito?

21/07/11

Postal turístico com demasiado céu (2)

Postal turístico com demasiado céu

Uma sombra em Montparnasse

A memória de Jean Seberg assombrava-me, tristemente.

As palavras de William Styron resgatam a imagem de uma laje de pedra no meio de tantas, um nome e uma data meio sumidos, a actriz americana anónima na morte, igual a todos os outros mortos sem nome conhecido. Estive ali, a olhar o desenho do nome da pedra, e aquele desenho não poderia ser a americana que Belmondo encontra nos Campos Elísios a vender a imprensa ianque. Mas era. E não era mais do que aquilo: um nome desaparecido, uma recordação de um filme visto em tempos. Uma sombra.

20/07/11

Luzes

Meninges

Histórias de brilhantes fracassados que se perderam no caminho para a glória. Escrever sobre esse nada que afecta os membros como se de uma doença insidiosa se tratasse, o cansaço e o sono. A minha vida está cheia de estes sinais que tento ignorar a todo o custo. Encontro na escrita de Sérgio Sant'Anna velhos conhecidos que de vez em quando entendem azucrinar-me sem descanso. Bem, não exageremos. Não me interessa cair no auto-comprazimento masturbador, as festinhas no ego são exclusivo privilégio de quem me quer amar (apesar de tudo). É assim, sem sossego e a todo o custo tentando suportar as toupeiras que por dentro roem as entranhas, agora surge a imagem de longe e é tudo: papel deixado pelos ratos, ruína de papel empilhado sobre ruína de lixo, cheiro nauseabundo espalhando-se em redor, fedor a rato e a urina de rato e ratazana, e eu fugindo da invasão de ratos por toda a casa, surgindo de todo o lado, do soalho, das paredes, dos tachos e da chaminé, por todo o lado, das bocas abertas de espanto perante o ataque das coisas insalubres que se escondem do nosso olhar domado pelo terrível quotidiano, de todo o lado por todo o lado, e isto era um sonho, um sonho apenas, alimentado por uma realidade com demasiadas costuras soltas, cicatrizes mal fechadas, vagas que regressam de onde o sangue nasceu, em todo o seu fulgor, o sabor férreo do esplendoroso sangue na boca. Como conciliar o sono com as toupeiras que se transformam em ratos, o tempo avançando em permanente ameaça, que tal substituir por histórias de brilhantes fracassados esses símbolos tardios de freudianismo de pacotilha, ignorar o drama de faca e alguidar com o qual a vida se pode facilmente confundir? Dormindo, de um lado para o outro do sono resgatando o conforto das ilhas a que podemos aportar na volta da viagem, o sentido descendente em direcção ao medo que com esforço podemos controlar. Esquecendo e rindo, escrevendo e resistindo (sem ideologia nem partido, apenas palavras e pudor).

17/07/11

Doppler

O percurso de um homem pode ser de uma rectidão tão clara que chega a parecer, para quem vê de longe, uma linha curva que quase toca no seu início. O efeito doppler aplica-se também a uma vida. Todos os outros pontos que circulam em redor da linha movem-se em trajectórias irregulares, e por vezes cruzam o caminho do homem bom. Ele sabe de onde vem e, mais importante, para onde se dirige. Nada o pára, e espreita pelo canto do olho a sua sombra constante, mesmo quando o sol não brilha. A moral de um homem é uma questão de geometria. O comprimento de onda em que os seus sentimentos prosperam, apesar de inaudível para os outros indivíduos, é uma ladainha mínima que lhe serve de silencioso mote. O desvio para o vermelho que a linha recta que o homem desenha apresenta é a prova da sua curvatura na dimensão espaço-tempo. Um homem não passa de um corpo celeste. Em eterna rotação e perpétua translação, sempre a ponto de ver o seu movimento cruzado pelo movimento de outro corpo. Espera a qualquer homem um de dois destinos: a destruição ou a fusão, e a segunda hipótese contém em si a primeira. O desaparecimento.

16/07/11

Mãe

As mãos são troncos, a pele rugosa casca. As veias, raízes fincadas na terra, o sangue seiva alimentando os frutos radiando no céu. Mas nunca estivemos sós; nunca tanto como ela.