23/07/11

Amy Winehouse (1983-2011)

Live fast, die young... no bullshit. Grande voz, o panteão dos 27 está mais rico; mas o mundo ficou a perder. Descanse em paz.
E mais: vejo repetida por todo o lado a expressão "desperdício de talento". Depois de morta, continua a ser recriminada por levar o estilo de vida que levava. Censurada por não ter feito outro disco desde Back to Black. Condenada pelas desastrosas actuações ao vivo. Não é justo. É egoísmo puro. Queremos que os nossos ídolos sejam perfeitos? Não, pedimos apenas que nos sirvam, como cantava outro perseguido pela fama, Kurt Cobain. Serve the servants - os artistas obrigados a servirem a sua arte. E nós, como vampiros, nunca nos cansamos, queremos sempre mais. Desperdício de talento, como se deus (ou alguém por ele) tivesse desperdiçado um dom em alguém que não o merecia. Amy Winehouse não era apenas um produto consumível. No fim de contas, o que lamentamos nós? A morte de alguém, ou o fim do nosso vício? Quem será, afinal, imperfeito?

21/07/11

Postal turístico com demasiado céu (2)

Postal turístico com demasiado céu

Uma sombra em Montparnasse

A memória de Jean Seberg assombrava-me, tristemente.

As palavras de William Styron resgatam a imagem de uma laje de pedra no meio de tantas, um nome e uma data meio sumidos, a actriz americana anónima na morte, igual a todos os outros mortos sem nome conhecido. Estive ali, a olhar o desenho do nome da pedra, e aquele desenho não poderia ser a americana que Belmondo encontra nos Campos Elísios a vender a imprensa ianque. Mas era. E não era mais do que aquilo: um nome desaparecido, uma recordação de um filme visto em tempos. Uma sombra.

20/07/11

Luzes

Meninges

Histórias de brilhantes fracassados que se perderam no caminho para a glória. Escrever sobre esse nada que afecta os membros como se de uma doença insidiosa se tratasse, o cansaço e o sono. A minha vida está cheia de estes sinais que tento ignorar a todo o custo. Encontro na escrita de Sérgio Sant'Anna velhos conhecidos que de vez em quando entendem azucrinar-me sem descanso. Bem, não exageremos. Não me interessa cair no auto-comprazimento masturbador, as festinhas no ego são exclusivo privilégio de quem me quer amar (apesar de tudo). É assim, sem sossego e a todo o custo tentando suportar as toupeiras que por dentro roem as entranhas, agora surge a imagem de longe e é tudo: papel deixado pelos ratos, ruína de papel empilhado sobre ruína de lixo, cheiro nauseabundo espalhando-se em redor, fedor a rato e a urina de rato e ratazana, e eu fugindo da invasão de ratos por toda a casa, surgindo de todo o lado, do soalho, das paredes, dos tachos e da chaminé, por todo o lado, das bocas abertas de espanto perante o ataque das coisas insalubres que se escondem do nosso olhar domado pelo terrível quotidiano, de todo o lado por todo o lado, e isto era um sonho, um sonho apenas, alimentado por uma realidade com demasiadas costuras soltas, cicatrizes mal fechadas, vagas que regressam de onde o sangue nasceu, em todo o seu fulgor, o sabor férreo do esplendoroso sangue na boca. Como conciliar o sono com as toupeiras que se transformam em ratos, o tempo avançando em permanente ameaça, que tal substituir por histórias de brilhantes fracassados esses símbolos tardios de freudianismo de pacotilha, ignorar o drama de faca e alguidar com o qual a vida se pode facilmente confundir? Dormindo, de um lado para o outro do sono resgatando o conforto das ilhas a que podemos aportar na volta da viagem, o sentido descendente em direcção ao medo que com esforço podemos controlar. Esquecendo e rindo, escrevendo e resistindo (sem ideologia nem partido, apenas palavras e pudor).

17/07/11

Doppler

O percurso de um homem pode ser de uma rectidão tão clara que chega a parecer, para quem vê de longe, uma linha curva que quase toca no seu início. O efeito doppler aplica-se também a uma vida. Todos os outros pontos que circulam em redor da linha movem-se em trajectórias irregulares, e por vezes cruzam o caminho do homem bom. Ele sabe de onde vem e, mais importante, para onde se dirige. Nada o pára, e espreita pelo canto do olho a sua sombra constante, mesmo quando o sol não brilha. A moral de um homem é uma questão de geometria. O comprimento de onda em que os seus sentimentos prosperam, apesar de inaudível para os outros indivíduos, é uma ladainha mínima que lhe serve de silencioso mote. O desvio para o vermelho que a linha recta que o homem desenha apresenta é a prova da sua curvatura na dimensão espaço-tempo. Um homem não passa de um corpo celeste. Em eterna rotação e perpétua translação, sempre a ponto de ver o seu movimento cruzado pelo movimento de outro corpo. Espera a qualquer homem um de dois destinos: a destruição ou a fusão, e a segunda hipótese contém em si a primeira. O desaparecimento.

16/07/11

Mãe

As mãos são troncos, a pele rugosa casca. As veias, raízes fincadas na terra, o sangue seiva alimentando os frutos radiando no céu. Mas nunca estivemos sós; nunca tanto como ela.

15/07/11

Uma árvore

Metáforas

Um homem em tempos confessava-me que perdera o dom de coleccionar os dias ao perder-se nas fracções em que os dias se desdobram, e que, desde esse dia em diante, passara a falar por metáforas. Por exemplo: se dizia "está sol" pensava num livro que lera em criança, ou se dizia "lamento que não tenha percebido" na verdade incentivava o seu interlocutor a prosseguir na conversa. Era normal que poucos entendessem o sentido das palavras, a direcção do discurso, a coerência das frases. O desconcerto chegava a ser redundante, à força da repetição e da implacável lógica da imagem que se escondia no simples enunciado das coisas. Certo dia, a uma pergunta que eu lhe fiz acerca da razão porque estava ali naquele momento, desatou a contar sem parar, não queria parar, não conseguia parar, abrindo e fechando a boca numa velocidade crescente, número atrás de número atrás de número até à intangibilidade absoluta, até o encadeamento de números se tornar um emaranhando de sons, roucos, altos e baixos, graves e agudos, uma série de gritos, culminando num silêncio final fulgurante; o rosto vermelho e desfigurado, uma careta insuportável como a de um sátiro. Nesse momento, decidi cortar relações com ele. Nunca mais a partir daí consegui pensar em metáforas. Ainda hoje quando vejo o sol apenas penso em amarelo. Nunca em luz.

(Como estamos no Verão, dedico-me às reprises, textos de outras andanças. Está calor.)