21/07/11
Uma sombra em Montparnasse
A memória de Jean Seberg assombrava-me, tristemente.
As palavras de William Styron resgatam a imagem de uma laje de pedra no meio de tantas, um nome e uma data meio sumidos, a actriz americana anónima na morte, igual a todos os outros mortos sem nome conhecido. Estive ali, a olhar o desenho do nome da pedra, e aquele desenho não poderia ser a americana que Belmondo encontra nos Campos Elísios a vender a imprensa ianque. Mas era. E não era mais do que aquilo: um nome desaparecido, uma recordação de um filme visto em tempos. Uma sombra.
20/07/11
Meninges
Histórias de brilhantes fracassados que se perderam no caminho para a glória. Escrever sobre esse nada que afecta os membros como se de uma doença insidiosa se tratasse, o cansaço e o sono. A minha vida está cheia de estes sinais que tento ignorar a todo o custo. Encontro na escrita de Sérgio Sant'Anna velhos conhecidos que de vez em quando entendem azucrinar-me sem descanso. Bem, não exageremos. Não me interessa cair no auto-comprazimento masturbador, as festinhas no ego são exclusivo privilégio de quem me quer amar (apesar de tudo). É assim, sem sossego e a todo o custo tentando suportar as toupeiras que por dentro roem as entranhas, agora surge a imagem de longe e é tudo: papel deixado pelos ratos, ruína de papel empilhado sobre ruína de lixo, cheiro nauseabundo espalhando-se em redor, fedor a rato e a urina de rato e ratazana, e eu fugindo da invasão de ratos por toda a casa, surgindo de todo o lado, do soalho, das paredes, dos tachos e da chaminé, por todo o lado, das bocas abertas de espanto perante o ataque das coisas insalubres que se escondem do nosso olhar domado pelo terrível quotidiano, de todo o lado por todo o lado, e isto era um sonho, um sonho apenas, alimentado por uma realidade com demasiadas costuras soltas, cicatrizes mal fechadas, vagas que regressam de onde o sangue nasceu, em todo o seu fulgor, o sabor férreo do esplendoroso sangue na boca. Como conciliar o sono com as toupeiras que se transformam em ratos, o tempo avançando em permanente ameaça, que tal substituir por histórias de brilhantes fracassados esses símbolos tardios de freudianismo de pacotilha, ignorar o drama de faca e alguidar com o qual a vida se pode facilmente confundir? Dormindo, de um lado para o outro do sono resgatando o conforto das ilhas a que podemos aportar na volta da viagem, o sentido descendente em direcção ao medo que com esforço podemos controlar. Esquecendo e rindo, escrevendo e resistindo (sem ideologia nem partido, apenas palavras e pudor).
17/07/11
Doppler
O percurso de um homem pode ser de uma rectidão tão clara que chega a parecer, para quem vê de longe, uma linha curva que quase toca no seu início. O efeito doppler aplica-se também a uma vida. Todos os outros pontos que circulam em redor da linha movem-se em trajectórias irregulares, e por vezes cruzam o caminho do homem bom. Ele sabe de onde vem e, mais importante, para onde se dirige. Nada o pára, e espreita pelo canto do olho a sua sombra constante, mesmo quando o sol não brilha. A moral de um homem é uma questão de geometria. O comprimento de onda em que os seus sentimentos prosperam, apesar de inaudível para os outros indivíduos, é uma ladainha mínima que lhe serve de silencioso mote. O desvio para o vermelho que a linha recta que o homem desenha apresenta é a prova da sua curvatura na dimensão espaço-tempo. Um homem não passa de um corpo celeste. Em eterna rotação e perpétua translação, sempre a ponto de ver o seu movimento cruzado pelo movimento de outro corpo. Espera a qualquer homem um de dois destinos: a destruição ou a fusão, e a segunda hipótese contém em si a primeira. O desaparecimento.
16/07/11
Mãe
As mãos são troncos, a pele rugosa casca. As veias, raízes fincadas na terra, o sangue seiva alimentando os frutos radiando no céu. Mas nunca estivemos sós; nunca tanto como ela.
15/07/11
Metáforas
Um homem em tempos confessava-me que perdera o dom de coleccionar os dias ao perder-se nas fracções em que os dias se desdobram, e que, desde esse dia em diante, passara a falar por metáforas. Por exemplo: se dizia "está sol" pensava num livro que lera em criança, ou se dizia "lamento que não tenha percebido" na verdade incentivava o seu interlocutor a prosseguir na conversa. Era normal que poucos entendessem o sentido das palavras, a direcção do discurso, a coerência das frases. O desconcerto chegava a ser redundante, à força da repetição e da implacável lógica da imagem que se escondia no simples enunciado das coisas. Certo dia, a uma pergunta que eu lhe fiz acerca da razão porque estava ali naquele momento, desatou a contar sem parar, não queria parar, não conseguia parar, abrindo e fechando a boca numa velocidade crescente, número atrás de número atrás de número até à intangibilidade absoluta, até o encadeamento de números se tornar um emaranhando de sons, roucos, altos e baixos, graves e agudos, uma série de gritos, culminando num silêncio final fulgurante; o rosto vermelho e desfigurado, uma careta insuportável como a de um sátiro. Nesse momento, decidi cortar relações com ele. Nunca mais a partir daí consegui pensar em metáforas. Ainda hoje quando vejo o sol apenas penso em amarelo. Nunca em luz.
(Como estamos no Verão, dedico-me às reprises, textos de outras andanças. Está calor.)
14/07/11
13/07/11
O mesmo, eu
De cada vez que leio textos antigos - aqueles que cheguei a esquecer de os ter esquecido - é como se nunca os tivesse escrito. E identifico muita coisa que se ausentou do que agora escrevo. São estranhos, rostos não reconhecidos por força de uma qualquer doença da memória. Talvez os valorize em demasia, mas parece-me que tudo o que ganhei, o que foi afinado, não está à altura de alguma ingenuidade lírica que por vezes era quase certeira. O cinismo nem sempre compensa.
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