15/07/11
Metáforas
Um homem em tempos confessava-me que perdera o dom de coleccionar os dias ao perder-se nas fracções em que os dias se desdobram, e que, desde esse dia em diante, passara a falar por metáforas. Por exemplo: se dizia "está sol" pensava num livro que lera em criança, ou se dizia "lamento que não tenha percebido" na verdade incentivava o seu interlocutor a prosseguir na conversa. Era normal que poucos entendessem o sentido das palavras, a direcção do discurso, a coerência das frases. O desconcerto chegava a ser redundante, à força da repetição e da implacável lógica da imagem que se escondia no simples enunciado das coisas. Certo dia, a uma pergunta que eu lhe fiz acerca da razão porque estava ali naquele momento, desatou a contar sem parar, não queria parar, não conseguia parar, abrindo e fechando a boca numa velocidade crescente, número atrás de número atrás de número até à intangibilidade absoluta, até o encadeamento de números se tornar um emaranhando de sons, roucos, altos e baixos, graves e agudos, uma série de gritos, culminando num silêncio final fulgurante; o rosto vermelho e desfigurado, uma careta insuportável como a de um sátiro. Nesse momento, decidi cortar relações com ele. Nunca mais a partir daí consegui pensar em metáforas. Ainda hoje quando vejo o sol apenas penso em amarelo. Nunca em luz.
(Como estamos no Verão, dedico-me às reprises, textos de outras andanças. Está calor.)
14/07/11
13/07/11
O mesmo, eu
De cada vez que leio textos antigos - aqueles que cheguei a esquecer de os ter esquecido - é como se nunca os tivesse escrito. E identifico muita coisa que se ausentou do que agora escrevo. São estranhos, rostos não reconhecidos por força de uma qualquer doença da memória. Talvez os valorize em demasia, mas parece-me que tudo o que ganhei, o que foi afinado, não está à altura de alguma ingenuidade lírica que por vezes era quase certeira. O cinismo nem sempre compensa.
12/07/11
Fernanda - é este o amor de que me lembro
Planeara escrever, antes de começar, um texto que deixou de fazer sentido. Maus sentimentos na origem do texto, uma daquelas irritações que insistem em forçar a verbalização, a qual contrariarei, sabendo eu como a maior parte das vezes a concretização do impulso me traz apenas arrependimento e frustração.
Nos seis anos do seu desaparecimento, uma evocação da actriz Fernanda Alves no A Invenção de Morel trocou-me as voltas, limpou o fel que sufocava na gargante há dois dias. Nunca a vi representar ao vivo, confesso, e quando tive conhecimento da notícia apenas me impressionei com uma fotografia de juventude que irradiava uma misteriosa beleza. Outra fotografia que circulou na altura mostrava-a junto do seu companheiro de uma vida, Ernesto Sampaio, tradutor exemplar, surrealista por vezes, poeta, ensaísta, figura marginal da literatura portuguesa. E admito que a morte de Fernanda Alves rapidamente se tornou facto esquecido; até algum tempo depois. Algum tempo depois, quando aparece nas livrarias um volume de título Fernanda, editado pela Fenda. Comprei-o, salvo erro, na Feira do Livro, e li-o ao sabor de um tempo que, para mim, na altura seria de quase desespero, corria devagar e se encerrava em si próprio como uma espiral ameaçando estrangulamento. Uma descoberta como raras vezes acontece; e, meses depois, ele morria. De amor, como afirmou Mário Cesariny. O José Mário Silva, no seu texto, fala de uma alegria pura soltando-se do rosto da actriz quando viva e encontra nos olhos do poeta uma melancolia que talvez já intuísse a dor vindoura. A mim parece-me que os olhos não podem revelar assim tanto, e eu desconfio que depois do presente passar torna-se algo que se pode reconstruir de acordo com a nossa vontade. Gostava portanto de pensar, como o José Mário, que tudo morava já ali, naqueles olhos adivinhando o futuro. Mas não. Sim, ele temia perdê-la um dia, mas somos nós, daqui do nosso invejável futuro, que construímos personagens à medida do nosso desejo, prontas a encaixar na nossa história pessoal, uma consequência da necessidade que temos de nos perceber através dos outros. Parece-me que Ernesto Sampaio não desistiu da vida, a vida é que desistiu dele quando lhe furtou a única válida razão para continuar a existir: alguém para amar.
Textos que por vezes nos fazem retroceder no caminho. Ainda bem que assim é.
(Texto antigo, regressado com a releitura do livro. Continua esquecido. A editora, uma referência, desapareceu. Parece que, de cada vez que me apercebo da mudança, tudo está menos vivo. Esquecido.)
Tempo, outra vez
Quando o tempo se torna circular, corremos o risco de ser engolidos por um vórtice.
08/07/11
05/07/11
E agora vamos falar de coisas sérias
Calhou uma vez mais estar de férias durante o Tour. Não vou tecer considerações (não tenho jeito para bordados) sobre as suspeitas de doping que perseguem os grandes ciclistas nem a monumental vaia que Contador ouviu durante a apresentação da prova. Toda a gente sabe que os franceses facilmente cedem ao prazer da irascibilidade, e por isso - mais o Flaubert, o Godard, o Camus e o Zidane - lhes devemos perdoar. Adiante. Parece que este ano vai haver montanha a sério. Andy Schleck is my man, se sabem do que estou falar. Como não é o Djokovic nem o Nadal. Gostaria de ter visto este um escocês ganhar Wimbledon, mas não foi desta que Andy Murray superou os seu complexo de inferioridade perante a musculatura do sobrinho do central do Barcelona de Cruyf. Mas o ténis é um jogo de meninas (como maradona e David Foster Wallace se esforçaram por provar). O ciclismo é aquela coisa da glória e da superação e da absoluta verdade de que apenas se poderá ganhar recorrendo a meios ilícitos. O problema não é este ou aquele ciclista serem suspeitos de alguma coisa; o problema é que parece não haver outra maneira de lá chegar, ao topo. A dúvida paira sobre todos, como num filme de Hitchcock. Mesmo os que nunca são apanhados. E isso deixa-me vagamente chateado; por exemplo, aborrece-me que aquele que parecia o mais puro talento surgido nos últimos anos, o herdeiro de Marco Pantani, tenha entregue a alma ao Diabo e o corpo a várias transfusões de sangue, e por duas vezes seguidas. Ricardo Ricco sprintando serra acima era um espectáculo do outro mundo. Mas... como diria Gregory House, "a vida não é justa", e por vezes a glória vai parar aos lutadores com grande capacidade de fintar as equipas anti-dopagem. Enfim, só me lembro disto porque revi hoje um episódio da série no qual é tratado um grande campeão americano pelo médico. E claro, esse grande campeão americano dopa-se. E no fim, safa-se. É a vida.
Enquanto vou, eticamente dividido, assistindo na Eurosport ao excelente relato da Volta (bela dupla de comentadores aquela, por vezes complementada por um francês irascível chamado Olivier - ou será um belga? Afinal, é monegasco. - que não se importa de ser o saco de pancada dos outros dois), espero pelos primeiros jogos da pré-época. Confesso que a satisfação de ver partir Villas-Boas rumo a melhores paragens foi um pouco atenuada quando foi revelado o nome do novo treinador - Pinto da Costa terá algo na manga, ao escolher alguém chamado Vítor Pereira para o lugar. Resta-me esperar que meia equipa seja vendida - e quando escrevo "meia", refiro-me ao João Moutinho e ao Falcao, os outros podem ficar - e acreditar cegamente nos três ou quatro defesas-esquerdos que Jorge Jesus vai testar no lugar do Fábio Coentrão. Tirando isso, está tudo bem com o Benfica; temos jogadores suficientes para ter duas equipas a disputar o campeonato (haverá maneira de autorizar uma alteração nos regulamentos?) e o pelotão de avançados em linha de espera para substituir Cardozo dá-me razões de sobra para confiar numa boa campanha na Taça da Liga. Isso e os dois Salvios (ou Ramires, como preferirem), os dois Di Maria (Gaítan e a maravilha que sobrou do Barcelona) e os três defesas direitos que não irão tirar o lugar a Maxi Pereira. No entanto, confesso sentir um pouco de inveja do adversário (?) da Segunda Circular. É tempo do Benfica começar a apostar noutros mercados; queremos um Thadeus von Rumpelstiltskin no ataque; um Varsaj Snhjors no meio-campo; e esperanças sul-americanas a treinar na Academia (ah, esperai, isso já temos).
Jogos contra equipas da terceira divisão suiça: um must de qualquer pré-época, para compor as bombásticas capas da Bola e ajudar ao entusiasmo dos milhões de benfiquistas que vivem no Seixal. Pelo andar da carruagem, talvez nem sobre muito tempo para espreitar os Mundiais de atletismo, lá para Agosto. O Verão é longo - e a pilha de livros habitual uma vez mais não será desbastada. Boas férias desportivas.
- Inicialmente publicado no Arrastão -
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