21/05/11

Ceder

Quando nascemos, alguma divindade marca com uma cruz preta o nosso nome e a partir daí a vida não nos dará tréguas, não encontraremos senão obstáculos, chacota, ciladas, e teremos de suar a mais pequena alegria, remando, lutando contra a corrente, vendo os afortunados a deslizar na margem, de trunfo na mão, e sem nos permitirem a menor distracção, pois é isso que se espera de nós, que cedamos um instante ao desânimo para que a arma penetre até ao cabo.

Julio Ramón Ribeyro, Prosas Apátridas, ed. Ahab.

Por outro lado

Também há a versão de Wittgenstein: se nada tens a dizer, cala-te.

Words of advice for young people

Um conselho de quem não tem muito a aconselhar: se não compreendem alguma coisa - um livro, um filme, um quadro, a vida - escrevam sobre ela. Tudo parecerá muito mais claro.

20/05/11

Um caso de estudo

O Pedro Mexia, em duas entrevistas recentes (no Ipsilon e na revista Alice), admite a falsidade da sua escrita confessional, intimista. Ou a meia verdade, que é menos do que uma mentira inteira. É claro que sabemos que um entrevistado mente e simula, no registo mais confessional a que um escritor se pode dedicar. Uma entrevista é, formalmente, uma confissão. O bom entrevistador consegue arrancar do entrevistado coisas que este nunca esperou dizer em público. Mas é também verdade que a mentira poderá fazer parte desta dinâmica: e a pose do escritor - penso em concreto, apenas em escritores - facilita a dissimulação e a fuga. Mexia, o escritor que admite dever pouco à imaginação, criou uma personagem que os leitores acreditam ser real, e confunde ainda mais os dois planos quando se confessa. Por isso, podemos relativizar a importância da sua poesia, admirar a independência do seu trabalho crítico, gostar das suas crónicas, mas a verdade da literatura, essa, resiste estoicamente, admiravelmente, no seu blogue. E há muito poucos assim, em pleno aproveitamento das potencialidades que o meio oferece.