18/05/11
Um cego
Saberei conhecer a minha vida quando acreditar. Até agora, vou andando como o cego a quem guiam, o cego que acabou de cegar. E tive tantos anos para aprender.
15/05/11
O Estranho Caso de Angélica
A pose encenada de Angélica, um portento de beleza e mistério, será uma chave para se compreender o cinema de Manoel de Oliveira. A distância entre os códigos do cinema moderno, que supostamente será mais realista, longínquo do teatro filmado que, nas palavras do cineasta, o cinema nunca deixou de ser, e os que sustentam a obra de Oliveira, terá sido o que criou o mito sobre o cinema de Oliveira e, por metonímia, o cinema português. Maravilha, ainda bem que assim é. O realizador de 103 anos é o cinema português, e ter conseguido criar uma obra como O Estranho Caso de Angélica é um milagre. A idade não é um problema: há mais modernidade neste filme - apesar dos efeitos especiais evocando o cinema clássico de Meliés ou o expressionismo alemão - do que na esmagadora maioria das estreias com pipocas dos últimos dez anos. Uma modernidade que recorre, com uma inteligência fulgurante, a citações, à metaficção, à ironia, ao jogo intertextual com a anterior obra e com a obra de outros autores. E há, ainda, o prazer da descoberta. Nunca me terei apercebido do modo perfeitamente distanciado, auto-irónico, como Oliveira encara a utilização de actores amadores e a artificialidade pomposa do seu desempenho - um dos horrores que lhe apontam, como se um filme como Avatar fosse menos artificioso do que qualquer um de Oliveira. Mas sim, espantoso, Oliveira sabe, e brinca subtilmente com isso, demonstrando através das imagens o que já afirmara em entrevistas.
Voltando a Avatar - e apetece falar deste filme que diziam ir revolucionar o cinema -, nem o mais perfeito 3D poderia provocar em nós o efeito que a sequência final de O Estranho Caso de Angélica provoca: um plano comovente, por tudo o que sabemos do que existe fora da sala de cinema, mas um plano também que nos engole e, num prodígio de magia, nos coloca dentro do filme, mergulhados na mesma escuridão do fotógrafo que se perdeu de amores por uma morta.
E, por entre deliciosos anacronismos, a beleza da paisagem do Douro fotografada de forma brilhante, uma montagem perfeita complementada por uma montagem de som que cria fantasmas sonoros em cada cena, homenagens nada veladas ao cinema soviético (e juro que vi John Ford em alguns contra-picados), somos derrotados pelo vigor de um artista que merece muito mais do país onde calhou nascer. É um cliché, mas é também verdade. Um pecado não ver esta obra-prima.
14/05/11
Certo e errado
A raridade não está naquele momento em que julgamos encontrar a pessoa certa; é sim, passado tanto tempo, aquela ainda ser a pessoa certa. Até que o tempo desista de si próprio.
13/05/11
Nada se perde
O blogger esteve em baixo durante algum tempo, e a avaria acabou por apagar posts por todo o lado. Sem danos, parece-me. Nada ter-se-á perdido. No caso do auto-retrato, estava aqui um texto de Julio Ramón Ribeyro, citado do blogue em papel, um diário não datado, que leva o título de Prosas Apátridas. Textos curtos, certeiros, melancólicos, pequenos apontamentos do quotidiano, para se ler enquanto não se dorme - hábitos antigos que tinham sido interrompidos. Não vou republicar, é só espreitar em qualquer boa livraria, como se diz - e pode-se consultar à socapa, sem comprar o livro, dada a brevidade dos textos - a, mais uma vez irrepreensível, edição da Ahab. A emissão volta à sua irregularidade dentro de momentos.
Manuel António Pina

Como escreve o Miguel Serras Pereira, o Prémio Camões está de parabéns por ter escolhido Manuel António Pina. Cronista lúcido, inteligente e elegante, escritor de livros para adultos que as crianças também gostam de ler, excelente poeta. A escolha foi um desvio à monotonia habitual deste tipo de prémios de carreira, e ainda bem.
Arte Poética
Vai pois, poema, procura
a voz literal
que desocultamente fala
sob tanta literatura.
Se a escutares, porém, tapa os ouvidos,
porque pela primeira vez estás sozinho.
Regressa então, se puderes, pelo caminho
das interpretações e dos sentidos.
Mas não olhes para trás, não olhes para trás,
ou jamais te perderás;
e teu canto, insensato, será feito
só de melancolia e de despeito.
E de discórdia. E todavia
sob tanto passado insepulto
o que encontraste senão tumulto,
senão de novo ressentimento e ironia?
Poema incluído em Os Livros, ed. Assírio & Alvim, 2003
- Publicado também no Arrastão -
11/05/11
Signos
Enquanto o meu filho brinca no seu quarto e eu escrevo no meu, pergunto-me se o acto de escrever não será o prolongamento das brincadeiras da infância. Tanto ele como eu estamos concentrados naquilo que fazemos e encaramos a nossa actividade, como sucede amiúde com as brincadeiras, de forma mais séria. Não admitimos interferências e corremos imediatamente com o intruso. O meu filho brinca com soldados, automóveis e torres, e eu brinco com as palavras. Com os meios de que dispomos, ambos ocupamos o tempo e vivemos num mundo imaginário, embora construído com utensílios ou fragmentos do mundo real. A única diferença é que o mundo de diversões da criança desaparece quando deixa de brincar, ao passo que o mundo literário do adulto, para o bem e para o mal, permanece. Porquê? Porque os materiais do nosso jogo são diferentes. A criança usa objectos enquanto nós utilizamos signos. E para o caso, o signo é mais duradouro do que o objecto que representa. Deixar a infância para trás é justamente substituir os objectos pelos seus signos.
Julio Ramón Ribeyro, Prosas Apátridas, ed. Ahab
10/05/11
A feira dos novos horrores
Talvez a Feira do Livro mereça nova visita, menos apressada e sem ter a agenda preenchida, mas o que vi foi o suficiente para confirmar receios e opiniões alheias: está pior, cada vez pior. Arrisco: a Feira já não é a feira que conheci e de que aprendi a gostar quando era um estudante com pouco dinheiro nos bolsos e muito por ler. Vamos lá ceder um pouco ao saudosismo, como quase toda a gente que fala ou escreve sobre a Feira: ainda temos farturas e subidas e descidas, é certo, mas já não temos a igualdade democrática dos stands a cair da tripeça. Havia grupos, sim, mas cada barraca valia por si só; as ilhas dos grandes grupos presumivelmente trouxeram mais visitantes - carece de confirmação isto, e as informações de gente do meio indiciam o contrário - mas transformaram a celebração anual do livro num colorido carnaval aproveitado pelos diferentes entre iguais para "escoar" os seus "produtos". Os mastodontes editoriais que pespegam barras anti-furto à entrada do condomínio de luxo e espalham seguranças de maus modos pelo "espaço" limitaram-se a abrutalhadamente tomar conta de mais um "canal de venda", igual a qualquer hipermercado ou cadeia de livrarias. Os gestores de produto que começaram a dirigir as editoras, alegres substitutos dos editores à antiga, pensam apenas no que estão formatados para pensar: o máximo lucro com o menor custo. Por isso, que se espalhe pelo mundo a mensagem colorida, folclórica, jovial desta gente. Os livros são um pormenor, a literatura qualquer coisa de que eles ouviram falar na televisão. E o cúmulo deste admirável mundo novo é a lombriga gigante plantada no meio do recinto, a brilhante invenção do arquitecto pós-moderno contratado pelo antigo administrador de um banco, bibliófilo cujos méritos muita gente se apressou a reconhecer, o túnel do hiperespaço babélico que suga tudo em redor para um vórtice fantasmagórico que faz lembrar vagamente um lugar onde vivem livros. Que o responsável pelo aborto arquitectónico seja presidente da associação que organiza o acontecimento, um detalhe um pouco mais do que interessante. A rédea soltou-se há alguns anos, e por isso aqui chegámos.
Quando me tornei livreiro e deixei de frequentar com o mesmo amor a Feira - é verdade que a profissão esvazia um pouco o romantismo sacralizado que rodeia o universo dos livros - este período era sempre o mais temido, pela previsível quebra nas vendas. Mas nunca deixei de o frequentar, nunca deixei de passear por ali, na esperança de encontrar um livro que ainda não conhecesse. De ano para ano, a vontade esmorece. E este, apesar das surpresas e dos encontros inesperados que irei recordar com o amor de outros tempos - vá lá, ainda se pode ter prazer em conhecermos um escritor que admiramos, pedir um autógrafo, dizer a coisa errada no momento certo - confirma o pior dos meus receios. Por mim, pense-se a sério na proposta do Pedro Piedade Marques: duas feiras, uma para os três grandes grupos (claro que o terceiro grande grupo é uma fraude, a quota de mercado que preenche nem de perto nem de longe é tão alta como foi afirmado, mas enfim, não vale a pena contradizer o que foi soprado para os meios de comunicação social) e outra para os editores que querem apenas vender livros, maus ou bons, novos ou raridades. Livros, livros, não "produtos". É assim tão difícil perceber a diferença?
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