05/04/11

The Draughtsman's Contract

Já não me lembrava de que gostava de Peter Greenaway. Há anos que os filmes dele não estreiam nos cinemas, e o último que eu vi em sala terá sido o Livro de Cabeceira. Tudo o que interessa numa arte puramente visual está na obra dele. Nunca terá tido muito interesse em contar uma história, mas a verdade é que os diálogos tem uma elegância, uma wit rara no cinema contemporâneo. E o cuidado na composição, nos enquadramentos, o rigor do plano fixo, a imaginação da montagem, as alusões mais ou menos evidentes aos mestres da pintura ocidental e a reflexividade metaficcional, fazem dele um cineasta que acaba por ser bastante menosprezado. Uma injustiça.

02/04/11

É assim

Cada passagem por onde andei, agora nada guarda de mim. Nem o que eu escrevi me reconhece, caminhamos sem saber se os pés irão chegar ao fim incólumes. A alma não. Pormenores que nos tornam piores,  a canga às costas de quem nos ama. Não somos melhores porque continuamos a lembrar tudo o que se perdeu. Somos inúteis na funcionalidade do mundo. É assim.

31/03/11

Mercúrio

Farley Granger (1925-2011)

Os dois únicos filmes que terei visto com Farley Granger jogam na ambiguidade sexual da relação entre dois homens, provocações de Hitchcock na América dos anos 40. O Desconhecido do Norte Expresso é uma adaptação do romance de Patricia Highsmith e põe em cena um desejo sublimado: o crime perfeito. Dois estranhos que se encontram num comboio e trocam de vítimas porque ninguém os poderá relacionar a cada um dos casos. Perverso, tanto quanto o rosto de galã de Granger o permitia. Em A Corda, um exercício formal sobre a maldade e a amizade masculina que não corre bem. Granger mais tarde dedicar-se-ia ao teatro. Mas pela mão de Hitchcock, deixou muito ao cinema.

28/03/11

Cama com luzes

William Eggleston.

Escrever a viagem

imobilidade fulminante da escrita e o movimento permanente da viagem: os dois territórios em que o escritor viajante se encontra. Entre um e outro, entre a velocidade da mão sobre o papel e a atenção do olhar sobre a paisagem, a dinâmica da memória, o vaivém entre passado o futuro, esbatendo o eterno presente. A dobra nascida deste embate, desta comunhão, desdobra o espaço em todas as suas dimensões. Mas Sebald ultrapassa estes vastos limites: cria pensamento.

Caminhos de floresta

Um escritor de viagens precisa mais do país de onde partiu do que do seu destino. O deslumbre do exterior, do que está fora, é material para juntar e compor o texto da sua própria viagem, um percurso invisível a todos. E no país que fica, estão as referências, as imagens com as quais as novas imagens recolhidas no exterior se vão comparar. O deslumbre é assim um reconhecimento, uma revelação de algo até aí secreto para o viajante. A paisagem é mental, a viagem uma simples ilusão temporal, um delírio. As fotografias a derradeira mentira: nunca estivemos naqueles lugares, não somos os que vivem ali, nas imagens. Mas acreditamos. Não passa disso e já é muito.