24/09/10
23/09/10
O escritor popular
O escritor popular é um escritor sob suspeita. Mais ainda quando o escritor popular consegue ser popular e alegrar as franjas certas, os fraques e as cartolas, os carros alegóricos, a dançar. O escritor popular, quando se lança, tem sempre alguém a amparar - e leva as luzes e os microfones, a bailar, num estrépito de carrossel e música. Mas escreve. E sua. Dança e lança, luminoso escritor popular, amado pelos leitores, a jóia precária da saison. Coitado do escritor popular, em permanente andança e cagança, cedendo à solicitação de ocasião, ao cumprimento, à vénia. Sorriso e salamaleque, boa presença. E a literatura, o que será dela? Dispensável. Nada que um bom vinho não possa disfarçar. E um livro é apenas um conjunto de páginas agrafadas, ao qual se cola um determinado preço. Minudências. As tripas, o coração e a cabeça oferendas na bandeja, excrescências.
21/09/10
Chá quente e torradas
O frenesim da reentrada, útil, exercício de vaidade ou motor da mecânica perpétua da novidade, é um paradoxo da estação. O Verão vai-se diluindo na chegada mais rápida da noite. De manhã, saímos de manga curta e sentimos o frio leve de Outono. Esperamos e receamos o último dia de praia - e o fim de tarde, sol baixo, que ele nos oferece. E depois achamos que o Verão deixou de ser necessário, e será melhor ficar em casa, à espera da primeira chuva. A realidade troca-nos as voltas. O regresso à rotina diária é uma violência - o mundo acelera, mas o fim do Verão mereceria o som triste de uma valsa tardia. Não quero reentradas, nem rentrées, apenas um chá quente e algumas torradas - mesmo que não beba chá, nem coma torradas.
18/09/10
17/09/10
15/09/10
Penelope
Há poucas divas no cinema actual, e as que há nada têm que ver com as de antigamente. São imperfeitas, desiludem-nos, aparecem nos tablóides a cores, carregando sacos de compras, divorciam-se e vêm para imprensa cor-de-rosa lavar a roupa suja dos seus escolhos amorosos. Além disso, o cinema deixou de as servir, não temos Lubitsch ou Billy Wilder ou Howard Hawks a trabalhar nos filmes de produtor, como acontecia na idade de ouro de Hollywood. Papéis bons, grandes interpretações, figuras maiores do que a vida encarnadas no grande ecrã por actrizes intocáveis, tudo se perdeu. Restam talvez Deneuve, Binoche e Hupert em França (Isabelle Adjani trabalha pouco e é irregular nos seus desempenhos). Na América, nenhuma veterana, a não ser Meryl Streep, mas como lhe poderemos perdoar o desfile de maus filmes? Daí para baixo, o deserto: Michelle Pfeiffer recusou o estatuto e perdeu-se. E todas as outras são claramente sobrevalorizadas, a começar em Nicole Kidman e o seu amigo Botox e a acabar na trupe de ex-modelos que ganharam o Oscar a fazer de coitadinhas em filmes que rapidamente caíram no esquecimento.
Enquanto Scarlett Johansson não irrompe da crisálida, teremos sempre a europeia de importação, a única possível herdeira de Greta Garbo ou Ingrid Bergman. Talvez nunca perca o sotaque espanhol - o que joga a seu favor, se pensarmos em Garbo, por exemplo. O que temos é uma espantosa actriz. E enquanto houver Almodovar (esperando que haja mais Woody Allens que reparem nela), haverá Penelope Cruz. A diva possível.
Dor de dentes
O cronista do quotidiano atrever-se-à a tudo para preencher o papel em branco. Procura assunto nos jornais, recorda acontecimentos que julga ter esquecido - ou que esqueceu, e pensa ainda lembrá-los -, pega em frases deixadas a meio e recomeça-as, apaga e volta a tentar. Nada o fará desistir da sua função. Metódico, é pior que um parasita - alimenta-se da vida dos outros e nada oferece em troca. Sobretudo, arrisca-se a chegar a um dia em que irá escrever sobre a dor de dentes que não tem, ou pior, sobre o tema que não encontra para a sua crónica do quotidiano.
Eu, por outro lado, tenho mesmo uma dor de dentes e por isso posso afirmar, como se fosse um político, que falo verdade quando escrevo que tenho uma dor de dentes. Mortifica, desgasta, transforma o pensamento numa papa mole e sem préstimo. Não há comparação que resista à dor de dentes, metáfora que sobreviva à puta da realidade. O dente metafórico seria uma bela invenção - o que impedisse de perder alguns minutos numa reflexão inútil sobre o dente real. Nada original. Talvez não tenha uma dor de dentes porque o dente que me doía é uma sombra vaga na cratera deixada pelo dentista. Poderia falar dos meus movimentos intestinais, como o poeta concretista de Chesterton. Nem mais, nem menos. O justo.
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