Andrei Zvyagintsev.
23/08/10
14/08/10
Carros, livros e filmes
Não há férias que resistam a uma onda de calor - calma, dizem os meteorologistas, ainda é cedo para isso - principalmente quando se decidiu há muito não procurar o Sul. A água fria, revolta, o vento a bater o areal, belas praias que julgamos ainda manterem uma virgindade clandestina, horas suportáveis que terminam com algumas imperiais e petisco a acompanhar, uma esplanada sobre o mar. A alternativa é ficar em casa, e aqui o único consolo é uma ventoinha, mais ice tea e muita televisão. Filmes atrás de filmes, integral de Clint Eastwood nos canais TvCine - estranha época para descobrir as obras-primas perdidas dos primeiros tempos (The Outlaw Josey Wales, Honkytonk Man) e saber que o realizador não é apenas o último dos clássicos, essa frase para vender qualquer coisa que transcende a ideia que os publicistas querem passar. É o descendente mais fiel de John Ford, é certo, mas é sobretudo o depositário de uma tradição do cinema feito em Hollywood que privilegia a palavra e o trabalho dos actores, a história e as personagens que a transcendem. A câmara está ali, rigorosa, elegante, capturando e evidenciando esse material de base, a essência do cinema clássico.
Filmes e séries, dieta rigorosa de Top Gear (e The Ultimate Survivor como aperitivo), ao fim da tarde e à noite, tentando recuperar as temporadas perdidas de uma das melhores séries de humor da última década. O programa de Jeremy Clarkson (devidamente acompanhado por James May, Richard Hammond e o incomparável Stig) é um achado, umas das mais vertiginosas reviravoltas a que um conceito pode ser submetido: como fazer um programa sobre carros? Se olharmos para os exemplos nacionais, o deserto: test drive bocejantes, raparigas talentosas, mas não no trabalho que fazem, comparações de preços e outras peças convencionais e sensaboronas que me fazem lembrar o tempo todo que eu nem conduzir sei. Verdade absoluta de que me esqueço quando vejo Top Gear.
E pouca leitura, que o calor não deixa. Há cerca de quinze anos que não lia Vergílio Ferreira, se descontarmos uma tentativa que se ficou pelo início, há uns tempos. Um dos autores que li com maior espanto, por volta dos vinte. Aparição foi a revelação que se seguiu a Na Tua Face, o primeiro que li dele, o que eu mais gostei, que isto dos gostos pouco tem a ver com cânones e unanimidades críticas. Para Sempre a meio, e houve qualquer coisa que se perdeu pelo caminho. Certamente não foi Vergílio, fui eu. As belíssimas frases aparecem, aqui e ali, parágrafos exemplares, e aquele vaivém temporal, ao ritmo incerto da memória. Mas - os capítulos cheios de um rancor indefinido, o narrador que se deixa tomar pela voz do autor (imagino) e uma certa imprecisão no tom da narrativa. É a história de um amor, uma recolha do que se foi perdendo, o relato de um fim que se aproxima?
Julgo não ser o único a ler com atenção as primeiras frases, parágrafos, dos livros, e a admirá-los por si só, independentes do que vem a seguir. Frequentemente, obrigam-me a continuar a leitura, e raras são as vezes em que me arrependo - um escritor terá de investir tudo nestas primeiras palavras, convencer o leitor a acreditar no que escreve, ir com ele. Começa assim:
Para sempre. Aqui estou. É uma tarde de Verão, está quente. Tarde de Agosto. Olho-a em volta, na sufocação do calor, na posse final do meu destino. E uma comoção abrupta - sê calmo. Na aprendizagem serena do silêncio. Nada mais terás que aprender? Nada mais. Tu e a vida que em ti foi acontecendo.
Uma tarde de Verão, o calor de Agosto. É por aqui.
10/08/10
2666 - a sequela
Havia um tijolo literário que me estava atravessado na garganta. Peguei nele diversas vezes, folheei, espreitei parágrafos, li páginas inteiras, frases, confirmei que a dupla de tradutores é de qualidade (li outros livros trabalhados por eles), deixei de parte, fui debicando os milhares de caracteres debitados em todo o tipo de publicações insuspeitas - e outras menos, como blogues - elogiando tal obra, tecendo loas que, aqui e ali, não desmereciam uma qualquer ode de Píndaro, voltei a insistir, uma e outra vez, até que desisti e decidi fazer uma espécie de introdução ao autor.
Aqui há uns meses, comecei a ler, prenhe de expectativa, O Terceiro Reich, do omnipresente Robert Bolaño, que é dele que falo. Aquilo a início pareceu-me estranho - um alemão amante de jogos de guerra perdido numa aldeia balear espanhola? Insisti, até porque recordo com prazer as horas passadas, na minha adolescência, debruçado sobre um tabuleiro onde soldados de plástico evoluiam em território inimigo conquistando regiões e países à velocidade ditada pelas pintinhas dos dados que eram atirados ao sabor de um ressalto provocado pela irregularidades do terreno - a mesa da sala. No livro, os dias vão passando entre o ritmo de um jogo ensaiado com uma personagem sinistra, pele queimada e mistérios por contar (oooooh) e a vida nocturna da localidade - que todos os que fizeram viagens de finalistas a Benidorm ou Ibiza saberão reconhecer, enlevados pela doce música da nostalgia. Comecei a pensar, a determinada altura, nos prós e contras do livro: jogos de tabuleiro - um pouco silly (se fosse xadrez, sempre poderíamos perdoar o lugar-comum) mas de algum modo reconfortante; praia - bom, mas, por amor de Zeus, não as da costa espanhola; personagens sinistras de pele queimada - humm... Dan Brown não escreveu uma coisa parecida? E por aí fora, por entre uma namorada que não chega a existir enquanto personagem, dois espanhóis que são o cliché de qualquer coisa, uma dona de hotel teutónica que desperta sonhos adormecidos no jogador e vagas - e óbvias - analogias à 2ª Guerra Mudial. Também há sonhos contados minuciosamente, que deve ser uma das coisas mais aborrecidas que nos podem acontecer, tanto na vida real como na literatura, e uma técnica narrativa comum a muitos estudantes de escrita criativa, a narrativa na primeira pessoa em forma de diário (isto não é um elogio). E o estilo, claro, o estilo, ausente, zero, sem uma metáfora marcante ou uma frase cantante, estilo seco, tão seco como um pau no deserto ou a pele do Queimado (juro que Bolaño usa, algures, esta imagem), e não falo do estilo de um Hemingway, lacónico e certeiro, ou de um qualquer escritor de policiais hard-boiled - nestes casos, a simplicidade da linguagem visa um objectivo que acaba por ser concretizado. Em Bolaño, há várias tentativas de embelezar o texto que falham. A secura, parece-me, é o resultado da rapidez de escrita. Mas ler duzentas e tal páginas sem um brilho que seja, chegando ao fim sem perceber muito bem o propósito daquela narrativa - a tal referência aos "horrores" da 2ª Guerra Mundial, que, mais para a frente, se torna explícita, é a única segunda leitura que se pode fazer do romance - será pedir demasiado. E o resto?
Sendo assim, admito a minha derrota - discordando de meio mundo, incluindo gente que muito prezo. Não avançarei pela noite escura de 2666. A perda irreparável, se quiserem, fica apenas comigo. Ninguém é perfeito.
(Publicado inicialmente no Arrastão).
08/08/10
Let's Go Surfing
Nunca se deve menosprezar o poder do assobio (esqueçamos os Scorpions) numa música pop, principalmente quando ela fala de praia, sol e miúdas. Os coros uma oitava acima e as harmonias vocais também costumam resultar - os Beach Boys deixaram uma lição valiosa. Junte-se a estes pressupostos a natureza passageira do Verão e já se pode ter uma boa canção. E se houver uma fixação pelos sons da new wave, versão anos 80, principalmente a facção Joy Division/New Order, sendo que aos primeiros pode-se ir buscar a bateria minimalista e a guitarra limitada de Bernard Sumner (os Cure também andam por aqui) e aos segundos a leveza vocal que estava ausente dos primeiros (a morte de Ian Curtis permitiu essa evolução), temos material mais do que suficiente para um feel good hit of the summer. Há uns anos foram os Peter, Bjorn and John (imediatamente seguidos de David Fonseca), agora há The Drums, com um álbum (Summertime! é o EP de 2009 que também inclui esta faixa) entre a nostalgia urbano-depressiva e a euforia do som de Brooklyn, versão Vampire Weekend e LCD Soundsystem, com passagem pela pop dos 80 (a minha década preferida), de Housemartins a Jesus and Mary Chain. E os Beach Boys sempre a espreitar. Combinação que primeiro se estranha, mas depois entranha-se, e bem. Durará o que durar esta estação. E já é muito.
06/08/10
05/08/10
Subscrever:
Mensagens (Atom)





