10/08/10

2666 - a sequela

Havia um tijolo literário que me estava atravessado na garganta. Peguei nele diversas vezes, folheei, espreitei parágrafos, li páginas inteiras, frases, confirmei que a dupla de tradutores é de qualidade (li outros livros trabalhados por eles), deixei de parte, fui debicando os milhares de caracteres debitados em todo o tipo de publicações insuspeitas - e outras menos, como blogues - elogiando tal obra, tecendo loas que, aqui e ali, não desmereciam uma qualquer ode de Píndaro, voltei a insistir, uma e outra vez, até que desisti e decidi fazer uma espécie de introdução ao autor.
Aqui há uns meses, comecei a ler, prenhe de expectativa, O Terceiro Reich, do omnipresente Robert Bolaño, que é dele que falo. Aquilo a início pareceu-me estranho - um alemão amante de jogos de guerra perdido numa aldeia balear espanhola? Insisti, até porque recordo com prazer as horas passadas, na minha adolescência, debruçado sobre um tabuleiro onde soldados de plástico evoluiam em território inimigo conquistando regiões e países à velocidade ditada pelas pintinhas dos dados que eram atirados ao sabor de um ressalto provocado pela irregularidades do terreno - a mesa da sala. No livro, os dias vão passando entre o ritmo de um jogo ensaiado com uma personagem sinistra, pele queimada e mistérios por contar (oooooh) e a vida nocturna da localidade - que todos os que fizeram viagens de finalistas a Benidorm ou Ibiza saberão reconhecer, enlevados pela doce música da nostalgia. Comecei a pensar, a determinada altura, nos prós e contras do livro: jogos de tabuleiro - um pouco silly (se fosse xadrez, sempre poderíamos perdoar o lugar-comum) mas de algum modo reconfortante; praia - bom, mas, por amor de Zeus, não as da costa espanhola; personagens sinistras de pele queimada - humm... Dan Brown não escreveu uma coisa parecida? E por aí fora, por entre uma namorada que não chega a existir enquanto personagem, dois espanhóis que são o cliché de qualquer coisa, uma dona de hotel teutónica que desperta sonhos adormecidos no jogador e vagas - e óbvias - analogias à 2ª Guerra Mudial. Também há sonhos contados minuciosamente, que deve ser uma das coisas mais aborrecidas que nos podem acontecer, tanto na vida real como na literatura, e uma técnica narrativa comum a muitos estudantes de escrita criativa, a narrativa na primeira pessoa em forma de diário (isto não é um elogio). E o estilo, claro, o estilo, ausente, zero, sem uma metáfora marcante ou uma frase cantante, estilo seco, tão seco como um pau no deserto ou a pele do Queimado (juro que Bolaño usa, algures, esta imagem), e não falo do estilo de um Hemingway, lacónico e certeiro, ou de um qualquer escritor de policiais hard-boiled - nestes casos, a simplicidade da linguagem visa um objectivo que acaba por ser concretizado. Em Bolaño, há várias tentativas de embelezar o texto que falham. A secura, parece-me, é o resultado da rapidez de escrita. Mas ler duzentas e tal páginas sem um brilho que seja, chegando ao fim sem perceber muito bem o propósito daquela narrativa - a tal referência aos "horrores" da 2ª Guerra Mundial, que, mais para a frente, se torna explícita, é a única segunda leitura que se pode fazer do romance - será pedir demasiado. E o resto?
Sendo assim, admito a minha derrota - discordando de meio mundo, incluindo gente que muito prezo. Não avançarei pela noite escura de 2666. A perda irreparável, se quiserem, fica apenas comigo. Ninguém é perfeito.

(Publicado inicialmente no Arrastão).

08/08/10

Let's Go Surfing



Nunca se deve menosprezar o poder do assobio (esqueçamos os Scorpions) numa música pop, principalmente quando ela fala de praia, sol e miúdas. Os coros uma oitava acima e as harmonias vocais também costumam resultar - os Beach Boys deixaram uma lição valiosa. Junte-se a estes pressupostos a natureza passageira do Verão e já se pode ter uma boa canção. E se houver uma fixação pelos sons da new wave, versão anos 80, principalmente a facção Joy Division/New Order, sendo que aos primeiros pode-se ir buscar a bateria minimalista e a guitarra limitada de Bernard Sumner (os Cure também andam por aqui) e aos segundos a leveza vocal que estava ausente dos primeiros (a morte de Ian Curtis permitiu essa evolução), temos material mais do que suficiente para um feel good hit of the summer. Há uns anos foram os Peter, Bjorn and John (imediatamente seguidos de David Fonseca), agora há The Drums, com um álbum (Summertime! é o EP de 2009 que também inclui esta faixa) entre a nostalgia urbano-depressiva e a euforia do som de Brooklyn, versão Vampire Weekend e LCD Soundsystem, com passagem pela pop dos 80 (a minha década preferida), de Housemartins a Jesus and Mary Chain. E os Beach Boys sempre a espreitar. Combinação que primeiro se estranha, mas depois entranha-se, e bem. Durará o que durar esta estação. E já é muito.

02/08/10

Duas mulheres

Uma das principais preocupações do cinema português dos últimos quinze anos tem sido a reflexão sobre o estado de coisas em Portugal. Com o correr do tempo, seria natural que assim acontecesse; a revolução dos cravos parece ser um acontecimento que gera mais divisão do que união na sociedade, e chegou a altura de pensarmos na herança que ficou dos ideais de Abril e no país em que nos acabámos por transformar. João Botelho tem feito isso, João Canijo também, e, em certa medida, Fernando Lopes, na sua adaptação do romance de José Cardoso Pires, O Delfim, também o fez, continuando essa reflexão de forma mais evidente nas obras que se seguiram, Lá Fora e Os Sorrisos do Destino.
João Mário Grilo, que, além de realizador, tem sido um dos teóricos e críticos de cinema mais estimulantes em Portugal, também decidiu enveredar por esse caminho no seu mais recente filme, Duas Mulheres, tomo 1 de uma série que ele chama A Condição Humana. Curiosamente, lembrei-me da trilogia de Agustina Bessa-Luís, O Princípio da Incerteza, constituída pelos romances Os Espaços em Branco, A Alma dos Ricos (Espelho Mágico, de Manoel de Oliveira, é uma adaptação) e Jóia de Família, brilhante retrato de uma certa burguesia que se perdeu e da nova que surgiu no seu lugar. E não anda muito longe do universo de Agustina, este filme. O argumento do escritor Rui Cardoso Martins e de Tereza Coelho procura um instantâneo da actualidade, dominada pelas notícias de uma anunciada crise financeira e das repercussões que esta terá num Portugal depauperado e em perpétua indefinição de identidade. A seriedade do assunto não permite que o filme se aproxime da ironia desencantada de Bessa-Luís, apesar de uma ou outra sequência - o aniversário do comandante, o primeiro jantar dos accionistas da empresa - lembrar o humor corrosivo (mas distante da sátira) do João Botelho de Tráfico.
Temos assim apresentado o tom geral do filme. O material de partida, apesar de não ser uma novidade no cinema português, seria sempre interessante. João Mário Grilo consegue transformar a história de um casal burguês, Joana (a sempre fabulosa Beatriz Batarda) e Paulo (um certeiro Virgílio Castelo), na imagem, fria e cínica, de um país. A companhia de Paulo passa por um momento de definição provocado pela crise financeira. O casamento de Paulo com Joana, bem composto e aquilo que a sociedade espera que um casamento daqueles seja (o tratamento por "você", a pose nos jantares sociais, o acompanhamento da "carreira" de Paulo por parte da boa esposa), é tão frágil como a economia mundial. Joana, uma psiquiatra que ascendeu socialmente e "casou bem", sente-se fora do aquário e não sabe o que é a felicidade - a determinada altura, confessa a um amigo (João Perry) que é... "feliz... pelo menos sou casada e tenho um filho". Até que conhece Mónica (Débora Monteiro), call-girl em plena crise existencial que leva Joana a trair o marido.
O medo, essa categoria maldita que José Gil associou à existência de um povo, é o que leva Mónica a encontrar Joana. O medo de Mónica, confessado, é tão real, contudo, como o medo de Joana, de voltar a uma existência marcada pela falta de ambição, a um regresso a essa "classe média baixa" de onde veio, pela qual ela mostra um profundo desprezo. Paulo tem medo do escândalo, da sociedade descobrir o pecado de Joana, e por isso prefere continuar a manter as aparências, num tempo em que a empresa precisa de "estabilidade" e "confiança do mercado". É este o Portugal de agora, e a câmara de João Mário Grilo filma tudo de forma precisa, cirúrgica. Não há sensacionalismo, nem caminhos fáceis, no cinema de João Mário Grilo. Poder-se-ia chamar cinema de tese, mas julgo que a classificação seria redutora. Existe, não duvidemos, uma ideia que o realizador tenta explicar ao longo do filme. Mas não há qualquer retórica no modo como o faz. Há, sim, uma qualidade técnica invulgar (estamos longe, muito longe, dos problemas com a captação de som e a dicção dos actores que o cinema português apresentava noutros tempos), servida por uma fotografia, montagem e direcção de actores impecáveis, e um modo certeiro de filmar um mundo em que as aparências dominam e em que os sentimentos e, sobretudo, a verdade, são conceitos estranhos, esquecidos. Excelente filme, um retrato amargo, sincero, sentido, de um país que se vai perdendo de si próprio.

20/07/10

No One Knows/Queens of the Stone Age



Muitas vezes, a música pop é feita de transições na vida de uma banda que incluem saída e entrada de músicos, acasos que redefinem o som e muitas vezes a própria história da música.
Em 2002, os Queens of the Stone Age já tinham dois bons álbuns publicados, Rated R e o primeiro, homónimo. Os Foo Fighters eram uma das grandes bandas rock de época. Certamente que o êxito não seria suficiente para David Grohl, vocalista e guitarrista do projecto que sempre foi mais dele do que dos outros músicos que foram aparecendo nos álbuns e nos concertos, a ponto de no primeiro álbum ter tocado todos os instrumentos. Por um destes acasos, Grohl interessou-se pelos QOTSA e juntou-se a Josh Homme (que já nos anos 90 tinha estado numa banda marcante, os Kyuss, e a Mark Lannegan, antigo membro de outro projecto dos anos 90 que definiu o som da época, os Screaming Trees. O resultado desta cadeia de acasos foi um dos mais poderosos álbuns rock da história, Songs for the Deaf.
Aos riffs ácidos da guitarra de Homme juntou-se o baixo speedado de Nick Oliveri (membro fundador da banda) e a guitarra melódica de Lannegan. Já seria muito bom, este line up, mas o ingrediente que elevou o álbum a níveis estratoféricos foi a bateria de Grohl. Há quem fale de John Bonham como eventual competidor de Grohl. Eu acrescentaria também Keith Moon e Reni (Stone Roses) e não deixaria de gostar bastante do minimalismo de Stephen Morris (nos Joy Division). Mas sem dúvida (e talvez por ter crescido a ouvir Grohl nos Nirvana) que o duvidoso frontman de uma banda que nada de novo trouxe à música rock (os Foo Fighters) está neste Olimpo por mérito próprio, e muito à conta do seu trabalho neste magnífico álbum dos Queens of the Stone Age. Os riffs são certeiros e deslumbrantes e os solos são estonteantes - e todos os outros instrumentos vão atrás do trabalho do baterista. É claro que as melodias vocais de Homme e Lannegan, contrastantes com o som cru das guitarras, procuram, sobretudo nos dois singles mais conhecidos (No One Knows e Go With the Flow), a perfeição pop e a consequente consagração das tabelas. Mas o segredo do álbum (que não voltou a ser repetido nos que se seguiram) é a secção rítmica liderada pelo génio de Grohl. Passávamos bem sem um Grohl vocalista e guitarrista, mas se são os Foo Fighters que temos de suportar para ouvirmos estas aventuras de vez em quando, menos mal.

(Texto publicado inicialmente no Arrastão).