Nunca se deve menosprezar o poder do assobio (esqueçamos os Scorpions) numa música pop, principalmente quando ela fala de praia, sol e miúdas. Os coros uma oitava acima e as harmonias vocais também costumam resultar - os Beach Boys deixaram uma lição valiosa. Junte-se a estes pressupostos a natureza passageira do Verão e já se pode ter uma boa canção. E se houver uma fixação pelos sons da new wave, versão anos 80, principalmente a facção Joy Division/New Order, sendo que aos primeiros pode-se ir buscar a bateria minimalista e a guitarra limitada de Bernard Sumner (os Cure também andam por aqui) e aos segundos a leveza vocal que estava ausente dos primeiros (a morte de Ian Curtis permitiu essa evolução), temos material mais do que suficiente para um feel good hit of the summer. Há uns anos foram os Peter, Bjorn and John (imediatamente seguidos de David Fonseca), agora há The Drums, com um álbum (Summertime! é o EP de 2009 que também inclui esta faixa) entre a nostalgia urbano-depressiva e a euforia do som de Brooklyn, versão Vampire Weekend e LCD Soundsystem, com passagem pela pop dos 80 (a minha década preferida), de Housemartins a Jesus and Mary Chain. E os Beach Boys sempre a espreitar. Combinação que primeiro se estranha, mas depois entranha-se, e bem. Durará o que durar esta estação. E já é muito.
08/08/10
06/08/10
05/08/10
04/08/10
03/08/10
02/08/10
Duas mulheres

Uma das principais preocupações do cinema português dos últimos quinze anos tem sido a reflexão sobre o estado de coisas em Portugal. Com o correr do tempo, seria natural que assim acontecesse; a revolução dos cravos parece ser um acontecimento que gera mais divisão do que união na sociedade, e chegou a altura de pensarmos na herança que ficou dos ideais de Abril e no país em que nos acabámos por transformar. João Botelho tem feito isso, João Canijo também, e, em certa medida, Fernando Lopes, na sua adaptação do romance de José Cardoso Pires, O Delfim, também o fez, continuando essa reflexão de forma mais evidente nas obras que se seguiram, Lá Fora e Os Sorrisos do Destino.
João Mário Grilo, que, além de realizador, tem sido um dos teóricos e críticos de cinema mais estimulantes em Portugal, também decidiu enveredar por esse caminho no seu mais recente filme, Duas Mulheres, tomo 1 de uma série que ele chama A Condição Humana. Curiosamente, lembrei-me da trilogia de Agustina Bessa-Luís, O Princípio da Incerteza, constituída pelos romances Os Espaços em Branco, A Alma dos Ricos (Espelho Mágico, de Manoel de Oliveira, é uma adaptação) e Jóia de Família, brilhante retrato de uma certa burguesia que se perdeu e da nova que surgiu no seu lugar. E não anda muito longe do universo de Agustina, este filme. O argumento do escritor Rui Cardoso Martins e de Tereza Coelho procura um instantâneo da actualidade, dominada pelas notícias de uma anunciada crise financeira e das repercussões que esta terá num Portugal depauperado e em perpétua indefinição de identidade. A seriedade do assunto não permite que o filme se aproxime da ironia desencantada de Bessa-Luís, apesar de uma ou outra sequência - o aniversário do comandante, o primeiro jantar dos accionistas da empresa - lembrar o humor corrosivo (mas distante da sátira) do João Botelho de Tráfico.
Temos assim apresentado o tom geral do filme. O material de partida, apesar de não ser uma novidade no cinema português, seria sempre interessante. João Mário Grilo consegue transformar a história de um casal burguês, Joana (a sempre fabulosa Beatriz Batarda) e Paulo (um certeiro Virgílio Castelo), na imagem, fria e cínica, de um país. A companhia de Paulo passa por um momento de definição provocado pela crise financeira. O casamento de Paulo com Joana, bem composto e aquilo que a sociedade espera que um casamento daqueles seja (o tratamento por "você", a pose nos jantares sociais, o acompanhamento da "carreira" de Paulo por parte da boa esposa), é tão frágil como a economia mundial. Joana, uma psiquiatra que ascendeu socialmente e "casou bem", sente-se fora do aquário e não sabe o que é a felicidade - a determinada altura, confessa a um amigo (João Perry) que é... "feliz... pelo menos sou casada e tenho um filho". Até que conhece Mónica (Débora Monteiro), call-girl em plena crise existencial que leva Joana a trair o marido.
O medo, essa categoria maldita que José Gil associou à existência de um povo, é o que leva Mónica a encontrar Joana. O medo de Mónica, confessado, é tão real, contudo, como o medo de Joana, de voltar a uma existência marcada pela falta de ambição, a um regresso a essa "classe média baixa" de onde veio, pela qual ela mostra um profundo desprezo. Paulo tem medo do escândalo, da sociedade descobrir o pecado de Joana, e por isso prefere continuar a manter as aparências, num tempo em que a empresa precisa de "estabilidade" e "confiança do mercado". É este o Portugal de agora, e a câmara de João Mário Grilo filma tudo de forma precisa, cirúrgica. Não há sensacionalismo, nem caminhos fáceis, no cinema de João Mário Grilo. Poder-se-ia chamar cinema de tese, mas julgo que a classificação seria redutora. Existe, não duvidemos, uma ideia que o realizador tenta explicar ao longo do filme. Mas não há qualquer retórica no modo como o faz. Há, sim, uma qualidade técnica invulgar (estamos longe, muito longe, dos problemas com a captação de som e a dicção dos actores que o cinema português apresentava noutros tempos), servida por uma fotografia, montagem e direcção de actores impecáveis, e um modo certeiro de filmar um mundo em que as aparências dominam e em que os sentimentos e, sobretudo, a verdade, são conceitos estranhos, esquecidos. Excelente filme, um retrato amargo, sincero, sentido, de um país que se vai perdendo de si próprio.
20/07/10
No One Knows/Queens of the Stone Age
Muitas vezes, a música pop é feita de transições na vida de uma banda que incluem saída e entrada de músicos, acasos que redefinem o som e muitas vezes a própria história da música.
Em 2002, os Queens of the Stone Age já tinham dois bons álbuns publicados, Rated R e o primeiro, homónimo. Os Foo Fighters eram uma das grandes bandas rock de época. Certamente que o êxito não seria suficiente para David Grohl, vocalista e guitarrista do projecto que sempre foi mais dele do que dos outros músicos que foram aparecendo nos álbuns e nos concertos, a ponto de no primeiro álbum ter tocado todos os instrumentos. Por um destes acasos, Grohl interessou-se pelos QOTSA e juntou-se a Josh Homme (que já nos anos 90 tinha estado numa banda marcante, os Kyuss, e a Mark Lannegan, antigo membro de outro projecto dos anos 90 que definiu o som da época, os Screaming Trees. O resultado desta cadeia de acasos foi um dos mais poderosos álbuns rock da história, Songs for the Deaf.
Aos riffs ácidos da guitarra de Homme juntou-se o baixo speedado de Nick Oliveri (membro fundador da banda) e a guitarra melódica de Lannegan. Já seria muito bom, este line up, mas o ingrediente que elevou o álbum a níveis estratoféricos foi a bateria de Grohl. Há quem fale de John Bonham como eventual competidor de Grohl. Eu acrescentaria também Keith Moon e Reni (Stone Roses) e não deixaria de gostar bastante do minimalismo de Stephen Morris (nos Joy Division). Mas sem dúvida (e talvez por ter crescido a ouvir Grohl nos Nirvana) que o duvidoso frontman de uma banda que nada de novo trouxe à música rock (os Foo Fighters) está neste Olimpo por mérito próprio, e muito à conta do seu trabalho neste magnífico álbum dos Queens of the Stone Age. Os riffs são certeiros e deslumbrantes e os solos são estonteantes - e todos os outros instrumentos vão atrás do trabalho do baterista. É claro que as melodias vocais de Homme e Lannegan, contrastantes com o som cru das guitarras, procuram, sobretudo nos dois singles mais conhecidos (No One Knows e Go With the Flow), a perfeição pop e a consequente consagração das tabelas. Mas o segredo do álbum (que não voltou a ser repetido nos que se seguiram) é a secção rítmica liderada pelo génio de Grohl. Passávamos bem sem um Grohl vocalista e guitarrista, mas se são os Foo Fighters que temos de suportar para ouvirmos estas aventuras de vez em quando, menos mal.
18/07/10
A cultura dos outros

Sabemos como funciona: uma mentira, de tanto ser matraqueada, acaba por se tornar verdade, o público passa a acreditar nela. De cada vez que se fala em Cultura - essa entidade difusa - lá vem o regimento do costume protestar contra a subsidiodependência e chamar de parasita para baixo aos "artistas". Sabemos quem são, mas, dependendo do partido que está no poder, acabam por aparecer novos indignados com a "pouca vergonha" que é a existência de artistas "independentes", que no fundo são dependentes do Estado e que, por isso, não conseguem criar de forma verdadeiramente independente - bela tautologia. A frase (apócrifa?) de Goebbels - "quando me falam em Cultura saco logo da arma" - é um brinquedo nas mãos destes privilegiados que, aposto (?), nunca terão beneficiado desta política despesista que subsidia a criação. Se lhes perguntarem, eles negarão que alguma vez tenham ido ao teatro, nunca entraram numa sala de cinema para ver um filme português (o sociólogo Gonçalves orgulhava-se, numa crónica, de associar sempre o cinema português a uma sessão de tortura), não visitam museus nem fundações e não compram livros editados em Portugal. Se forem coerentes, também não gostam de futebol nem põem os pés nos estádios construídos para o Euro 2004 - afinal a bola é cultura (do povo) e não há memória de subsídio mais oneroso para o Estado do que a organização desse campeonato. Pensando bem, esta gente que sente repulsa da subsidiodependência deve viver num planeta qualquer e apenas sabe do que se passa em Portugal pelos jornais, reagindo pavloveanamente - e, lá está, de arma em riste - de cada vez que o assunto "Cultura" vem à baila.
Talvez não adiante muito ler textos como o de Manoel de Oliveira, no outro dia no Público, no qual ele explicava como se processa a produção de cinema em Portugal. O final da crónica é essencial para percebermos as dificuldades de quem trabalha na indústria cinematográfica em Portugal. "Fazer filmes até morrer". É isso que Manoel de Oliveira deseja, mas não se pense que o quer fazer por amor à Arte. Ele, o nosso maior embaixador nesta área, apenas o faz porque a isso é obrigado - é assim a precariedade absoluta de quem precisa de novo financiamento para fazer o filme seguinte. E assim sucessivamente. Eu sei que quem vive nesse planeta bem pode dispensar o próximo filme de Manoel de Oliveira, ou o próximo de Pedro Costa, ou de João Canijo. O tal argumento repetido até à náusea de que apenas quem quer ver deve financiar esta Arte. Se não se auto-financia, azar, que se acabe com ela. O liberalismo económico é assim que deve funcionar, e enquanto não se estender este princípio a outras áreas da economia, como a Saúde ou a Educação, estes extraterrestres não estarão satisfeitos.
Claro que nenhum país se aproxima desta utopia liberal. Subsídios estatais à produção é prática comum no Ocidente, mesmo nos E.U.A., onde, pela dimensão, existem condições para haver uma indústria cinematográfica, um circuito de museus privados (mas, hélas, sempre com o apoio de dinheiros públicos), e uma oferta teatral que vai desde a Broadway até à off-off Broadway, os pequenos teatros independentes que, imagine-se, também obtêm fundos estatais para continuarem a sua actividade. Na Grã-Bretanha existe uma indústria cinematográfica mas, azar dos azares, também há apoio à produção de art films, através do British Film Institut; o Teatro tem também bastantes apoios do Estado; e os museus, esses que não foram visitados pelos nossos intelectuais de direita que abominam a subsidiodependência, são alimentados por mecenas, entre os quais, vá lá saber-se porquê, está o Estado, quase sempre o parceiro que tem mais peso no orçamento destas instituições. E não é tão bom não pagar entrada na Tate, no British Museum, na National Galery?
Podem vir dizer que estes são países de tradição liberal e... ah, mas não é nos países de tradição liberal que existe menos subsidiodependência? Não é aqui que o Estado não se mete em assuntos de criação e deixa os artistas serem verdadeiramente "independentes"? Pois é, uma chatice quando os factos contradizem os delírios liberais destes intelectuais. Curiosamente, é neste países liberais que os cidadãos menos se apoquentam com os subsídios à criação. A intervenção estatal nas áreas criativas apenas é um problema em países de tradição francófona ou, pura e simplesmente, de tradição tacanha e anti-intelectual, como é o nosso caso.
A mentira repetida - a de que a Cultura é um peso para um país e não deve ser financiada pelo Estado - acaba por ganhar adeptos em tempos de crise, confirmando uma ideia antiga: as elites são as principais culpadas do atraso endémico do país. O que é mais perverso nesta situação é saber que quem produz este tipo de opinião é quem tem - e terá - mais acesso à Cultura. Os outros, as populações fora dos grandes centros urbanos que vão tendo acesso ocasional à produção cultural - companhias de teatro regionais, cineclubes, museus regionais - serão os primeiros a sofrer se existirem verdadeiros cortes nesta área. Mas não se espere qualquer comoção vinda destes atiradores precoces - uma opinião politicamente incorrecta (a panaceia da direitinha liberal e da pseudo-esquerda iletrada que vive na sombra deste Governo) dispensa sempre a verdade e o mínimo de decência.
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