18/07/10

A cultura dos outros

Sabemos como funciona: uma mentira, de tanto ser matraqueada, acaba por se tornar verdade, o público passa a acreditar nela. De cada vez que se fala em Cultura - essa entidade difusa - lá vem o regimento do costume protestar contra a subsidiodependência e chamar de parasita para baixo aos "artistas". Sabemos quem são, mas, dependendo do partido que está no poder, acabam por aparecer novos indignados com a "pouca vergonha" que é a existência de artistas "independentes", que no fundo são dependentes do Estado e que, por isso, não conseguem criar de forma verdadeiramente independente - bela tautologia. A frase (apócrifa?) de Goebbels - "quando me falam em Cultura saco logo da arma" - é um brinquedo nas mãos destes privilegiados que, aposto (?), nunca terão beneficiado desta política despesista que subsidia a criação. Se lhes perguntarem, eles negarão que alguma vez tenham ido ao teatro, nunca entraram numa sala de cinema para ver um filme português (o sociólogo Gonçalves orgulhava-se, numa crónica, de associar sempre o cinema português a uma sessão de tortura), não visitam museus nem fundações e não compram livros editados em Portugal. Se forem coerentes, também não gostam de futebol nem põem os pés nos estádios construídos para o Euro 2004 - afinal a bola é cultura (do povo) e não há memória de subsídio mais oneroso para o Estado do que a organização desse campeonato. Pensando bem, esta gente que sente repulsa da subsidiodependência deve viver num planeta qualquer e apenas sabe do que se passa em Portugal pelos jornais, reagindo pavloveanamente - e, lá está, de arma em riste - de cada vez que o assunto "Cultura" vem à baila.
Talvez não adiante muito ler textos como o de Manoel de Oliveira, no outro dia no Público, no qual ele explicava como se processa a produção de cinema em Portugal. O final da crónica é essencial para percebermos as dificuldades de quem trabalha na indústria cinematográfica em Portugal. "Fazer filmes até morrer". É isso que Manoel de Oliveira deseja, mas não se pense que o quer fazer por amor à Arte. Ele, o nosso maior embaixador nesta área, apenas o faz porque a isso é obrigado - é assim a precariedade absoluta de quem precisa de novo financiamento para fazer o filme seguinte. E assim sucessivamente. Eu sei que quem vive nesse planeta bem pode dispensar o próximo filme de Manoel de Oliveira, ou o próximo de Pedro Costa, ou de João Canijo. O tal argumento repetido até à náusea de que apenas quem quer ver deve financiar esta Arte. Se não se auto-financia, azar, que se acabe com ela. O liberalismo económico é assim que deve funcionar, e enquanto não se estender este princípio a outras áreas da economia, como a Saúde ou a Educação, estes extraterrestres não estarão satisfeitos.
Claro que nenhum país se aproxima desta utopia liberal. Subsídios estatais à produção é prática comum no Ocidente, mesmo nos E.U.A., onde, pela dimensão, existem condições para haver uma indústria cinematográfica, um circuito de museus privados (mas, hélas, sempre com o apoio de dinheiros públicos), e uma oferta teatral que vai desde a Broadway até à off-off Broadway, os pequenos teatros independentes que, imagine-se, também obtêm fundos estatais para continuarem a sua actividade. Na Grã-Bretanha existe uma indústria cinematográfica mas, azar dos azares, também há apoio à produção de art films, através do British Film Institut; o Teatro tem também bastantes apoios do Estado; e os museus, esses que não foram visitados pelos nossos intelectuais de direita que abominam a subsidiodependência, são alimentados por mecenas, entre os quais, vá lá saber-se porquê, está o Estado, quase sempre o parceiro que tem mais peso no orçamento destas instituições. E não é tão bom não pagar entrada na Tate, no British Museum, na National Galery?
Podem vir dizer que estes são países de tradição liberal e... ah, mas não é nos países de tradição liberal que existe menos subsidiodependência? Não é aqui que o Estado não se mete em assuntos de criação e deixa os artistas serem verdadeiramente "independentes"? Pois é, uma chatice quando os factos contradizem os delírios liberais destes intelectuais. Curiosamente, é neste países liberais que os cidadãos menos se apoquentam com os subsídios à criação. A intervenção estatal nas áreas criativas apenas é um problema em países de tradição francófona ou, pura e simplesmente, de tradição tacanha e anti-intelectual, como é o nosso caso.
A mentira repetida - a de que a Cultura é um peso para um país e não deve ser financiada pelo Estado - acaba por ganhar adeptos em tempos de crise, confirmando uma ideia antiga: as elites são as principais culpadas do atraso endémico do país. O que é mais perverso nesta situação é saber que quem produz este tipo de opinião é quem tem - e terá - mais acesso à Cultura. Os outros, as populações fora dos grandes centros urbanos que vão tendo acesso ocasional à produção cultural - companhias de teatro regionais, cineclubes, museus regionais - serão os primeiros a sofrer se existirem verdadeiros cortes nesta área. Mas não se espere qualquer comoção vinda destes atiradores precoces - uma opinião politicamente incorrecta (a panaceia da direitinha liberal e da pseudo-esquerda iletrada que vive na sombra deste Governo) dispensa sempre a verdade e o mínimo de decência.

(Texto publicado inicialmente no Arrastão).

15/07/10

Duas mulheres

She Bangs the Drums/The Stone Roses



Os Stone Roses levaram anos a criar a obra-prima; e demoraram alguns mais a produzir uns dos segundos álbuns mais aguardados de sempre - ou assim me parecia, julgando pela histeria da imprensa inglesa que eu na altura lia, as manchetes do New Musical Express e do Melody Maker em pleno período de euforia britpop. O segundo álbum, Second Coming, deu cabo da reputação da banda e esta acabaria por se separar pouco tempo depois deste ser publicado (1994), em 1996, em consequência da saída do guitarrista John Squire e do baterista Reni. Pelo meio, Slash ofereceu-se para substituir Squire mas Ian Brown recusou - e continuo a imaginar o que poderia ser o som Stone Roses cortado com a guitarra hard-rock dos ex-guitarrista dos Guns'n'Roses.
De um som inspirado nos Who e nos Jam ao groove do primeiro álbum, homónimo, - o resultado desses anos passados. O sussurro de Brown para disfarçar a fragilidade da voz, uma secção rítmica do outro mundo (Reni e Mani), a guitarra entre o blues e o swing de John Squire. E um talento invulgar da banda para tornar cada música num épico, com mudanças de ritmo, crescendos emocionais, variações melódicas e apontamentos psicadélicos de guitarra resgatados à década de 60.
She Bangs the Drums é a perfeita música pop, uma de muitas naquele que é um dos melhores primeiros álbuns de sempre. Como dura apenas três minutos e quarenta e três segundos, só nos resta ouvir em repeat. E é sempre perfeita.

Álbum: The Stone Roses, Silvertone, 1989, produzido por John Leckie.

(Publicado inicialmente no Arrastão)

21/06/10

José Saramago (1922-2010)


A alegoria evidente de Ensaio Sobre a Cegueira - cegos que dirigem cegos no meio da escuridão branca - poder-se-ia evocar a propósito do seu desaparecimento e das reacções - previsíveis, de resto - que muitos exibirão com orgulho besta. Na morte de um grande escritor, sabendo que a obra ficará, lembram-se daquilo que nada tem que ver com a literatura: política. A mim nada interessa a "controversa figura pública", essa indigente invenção do poder mediático que transforma artistas em imagens vazias que servem para o povo amar ou odiar. Aceito que Saramago vezes de mais se tenha entregue a esse limitado papel de ressentido da corte, mas esta verdade apenas confirma a ideia de que a personalidade do artista devia ser a última coisa a permanecer na memória.
Talvez de pouco adiante vociferar contra o estado de coisas que nos mostra um jornalista (no bloco noticioso das duas na SIC Notícias) mais interessado em arrancar das personalidades a quem telefonaram para obter uma reacção à morte do escritor (João Rodrigues, Fernando Dacosta) uma afirmação polémica, um comentário negativo, qualquer coisa que anime a turba, do que num sincero elogio do defunto. A morte é uma chatice, porque calhou mesmo a meio de um acontecimento simbólico do patriotismo balofo, o Mundial. Só assim se entende porque razão o jornalista insistiu tanto em saber se Saramago se sentia "amargo" em relação ao país onde nasceu. É difícil não dar razão aos pessimistas quando se confunde patriotismo com futebolismo e ataca-se postumamente alguém que (não gosto da expressão, mas neste caso aplica-se) tanto deu ao país - e não falo do Nobel, os prémios pouco ou nada valem, mas sim da obra que escreveu - por ter ido viver para uma ilha espanhola por razões que nunca deveriam ser questionadas: amor.
Este patriotismo - dizer mal de um escritor que tratou a língua portuguesa como muito poucos - será o mesmo que fatuamente deflagra quando joga a selecção nacional, e que alegremente se passeia pelas televisões doutrinando o povo. Não é muito diferente daquele que passa trezentos e sessenta e cinco dias por ano a lamentar o país sem se mexer do lugar, sem fazer nada para mudar o estado de coisas. O reformismo situacionista que se preocupa mais com o acessório - a vida de um escritor - do que com o essencial - a sua obra. Estão bem uns para os outros, mas por favor deixem em paz a memória daqueles que nos superlativam. Quanto ao lixo onde gostam de remexer, bom proveito vos traga; a memória não será manchada.

(Publicado no Arrastão)

27/05/10

Possibilidades

Flashforward chega ao fim, por não ter cumprido as expectativas de audiência, mas a desilusão em que a série se transformou não apaga algumas boas ideias mal aproveitadas. A ideia das linhas temporais possíveis, paralelas, a partir de um momento, citando explicitamente o jardim dos caminhos que se bifurcam, de Borges, precisava de ter sido desenvolvida por argumentistas com mais liberdade -a série é da CBS - ou talvez mais criatividade. O segredo seria ocultar do espectador o truque. O grande exemplo desta técnica é Twin Peaks (apesar de ter perdido o rumo a partir de certa altura) ou a maior parte dos filmes de David Lynch. O realizador não oferece a chave de leitura ao espectador, criando um efeito de suspensão da descrença que vai mais longe do que o habitual. O enigma é como um fio de Ariadne que leva a lado nenhum, mas que atrai sempre quem não se satisfaz com o comodismo das soluções ficcionais tradicionais. Mais do que realista, esta ficção é naturalista, no sentido em que imita a vida no seu livre-arbítrio - e Flashforward também aflora a questão. Não há solução, não conheceremos o tempo antes do tempo chegar. A sucessão de momentos é um mecanismo de esgotamento de possibilidades, de vias que são abandonadas. O escritor de ficção, por muitos mundos que crie, acaba sempre por se aproximar deste mecanismo. As suas decisões limitam, apagam, criam e destroem, abrem e fecham esse campo de possibilidades. Mas sempre fora da realidade material, o maior assombro.

20/05/10

Lie to me

Johnny: How many men have you forgotten?
Vienna: As many women as you've remembered.
Johnny: Don't go away.
Vienna: I haven't moved.
Johnny: Tell me something nice.
Vienna: Sure, what do you want to hear?
Johnny: Lie to me. Tell me all these years you've waited. Tell me.
Vienna: All those years I've waited.
Johnny: Tell me you'd a-died if I hadn't come back.
Vienna: I woulda died if you hadn't come back.
Johnny: Tell me you still love me like I love you.
Vienna: I still love you like you love me.
Johnny: Thanks. Thanks a lot.

14/05/10

Palpatine

Um verdadeiro fã da Guerras das Estrelas não se interessa apenas pelo que está à superfície: aventura, efeitos especiais e criaturas criadas por geeks para geeks em ambiente pré-púbere. A invenção de George Lucas ultrapassa em muito este âmbito; desde a primeira trilogia que a ambição do realizador seria encenar uma space-opera em tons de tragédia grega. De Kubrick a Lucas vai um passo: esqueça-se a solenidade existencial de 2001, Odisseia no Espaço, acrescente-se um conflito edipiano - Luke vs Darth Vader em versão hollywoodesca - e tem-se a receita para um gigantesco êxito de público que também não deixa de seduzir grande parte da crítica. O segredo talvez seja essa capacidade de apresentar os grandes temas de um modo simplificado. Ninguém pode acusar seriamente Lucas de produzir entretenimento vazio, apesar dos milhares de crianças que acompanharam a saga dos guerreiros Jedi não serem, à partida, o público mais exigente.

Pense-se, por exemplo, na personagem do Imperador, que conhecemos na trilogia original como o governante máximo do Império e a mão que tudo controla, incluindo o lacaio Darth Vader. A prequela de Star Wars mostra-nos, ao longo de três partes, como ele se tornou Imperador, e é um tratado de política exemplar, Maquiavel em forma de cinema pipoqueiro. Começamos por conhecê-lo como senador Palpatine, influente no seio da República, primeiro apoiante das decisões democráticas que esta toma, mas simultaneamente preocupado com ameaças difusas, de rebeldes que actuam na periferia do conglomerado de planetas. A crescente ameaça leva a que a maioria do Senado decida, progressivamente, depositar nas mãos do Senador o poder que deveria ser democrático. Ele torna-se o guardião da instituição, dos seus valores, e simultaneamente opera nas sombras para chegar ao lugar máximo a que pode aspirar. Lentamente vamos percebendo que ele é Darth Sidious, a origem da ameaça difusa ao Império: a criação de um clima de perigo iminente e a sedução dos outros senadores acaba por culminar no inevitável, depois do golpe fatal: Palpatine torna-se Imperador, o senhor que domina o lado negro da Força, e o que antes era urdido na sombra surge claramente; a República transforma-se em Império e a democracia esboroa-se, desaparece. É a grande arte popular do século XX - o cinema - a reflectir sobre os mecanismos do poder e sobre o processo de degradação de uma democracia, o lento declínio em direcção à insidiosa tirania.

(Texto inicialmente publicado no Arrastão)