Artemesia Gentileschi
10/04/10
23/03/10
A fabulosa experiência do 3D digital
O novo mundo vem anunciando-se a cada filme que estreia. Primeiro, experimenta-se no cinema direccionado a um público mais novo - filmes de animação, Avatar -, mas é previsível que, progressivamente, tudo o que é produzido em Hollywood chegue às salas nesse novo formato do futuro. Não sou conservador porque isso não faria sentido nenhum em relação a uma arte que acaba por ser um prodígio de uma era da técnica; a sétima Arte, a mais recente, desde o seu aparecimento - relembre-se, com o filme dos irmãos Lumiére que captava trabalhadores à saída de uma fábrica - tem-se caracterizado por espantosos avanços tecnológicos - da invenção da montagem, do som, da cor até ao recente uso da câmara digital e a criação de espantosos mundos virtuais. A experiência cinematográfica, pessoal e subjectiva, tem dependido, desde o início, da técnica que a suporta. Mas, chegados aqui, o que temos: a fabulosa experiência do 3D, que esvazia, em grande parte, a sensação de ausência que o cinema proporciona. Depois de dois desconfortáveis - os óculos reutilizáveis com gordurosas lentes que escurecem os tons do filme, por cima dos meus óculos do dia-a-dia - visionamentos, dificilmente me apanharão a passar pelo mesmo. Não é exagero; Alice no País das Maravilhas, de Tim Burton, sem estas incómodas distracções, teria sido uma grande trip psicadélica - assim, assemelhou-se a olhar para um ecrã de computador em espera, com aquele efeito da viagem pelo espaço sideral. Não preciso que o filme salte para fora do ecrã, em várias direcções; as duas dimensões são suficientes para entrar noutro mundo. De certo modo, o 3D anula a artificialidade tradicional do cinema, aquilo que nos permite entrar dentro do filme: a profundidade de campo, o grande plano, o close-up, a montagem. A eficácia de um efeito especial mede-se pelo impacto que tem no espectador: emocionamo-nos quando um plano de pormenor mostra-nos as mãos dos amantes a afastar-se, sentimos medo quando a rápida montagem intercala o rosto aterrorizado da actriz com a mão do assassino segurando a faca, revela-se o esplendor de um cenário quando a câmara se afasta e capta as várias camadas que o compõem. Com o 3D, a cada momento o olhar salta para o que é supérfluo, perdendo o essencial, sem remédio. Não sei se o tempo trará melhorias à técnica; a verdade é que o 3D já tinha sido tentado antes e agora é apenas uma memória de infância - quem não se lembra do Monstro da Lagoa Negra e dos óculos com uma lente verde e outra vermelha? Sei que, agora, não gosto. Se quero três dimensões num filme, vejo o Quarto Mandamento, de Orson Welles. A modernidade, no presente, dispenso.
22/03/10
Alice

Não sei por que razão, até à estreia do filme de Tim Burton achava que Alice devia ter o cabelo preto, asa de corvo, liso. Não sei, mas sei, disse que não sabia porque começar uma frase por um "não" deve ir contra várias regras da escrita; sei, portanto, e a razão é Alice Liddel, a adorável menina retratada por Carroll, e que aparece no livro da Assírio & Alvim cujo título é, está bom de ver, Meninas. Não vale a pena alongar-me sobre as suspeitas que pairam sobre a vida do diácono Charles Lutwidge Dodgson, porque apenas me interessa o génio de Lewis Carroll. Para além do mais, foram já escritas milhares de páginas sobre o assunto, sem se ter chegado a conclusão razoável. Por mim, mantenha-se a dúvida - castigar o passado com a malícia do presente parece-me um pecado que Carroll não deveria suportar. Pensando no cabelo asa de corvo de Alice, e certamente convencido de que até uma série alemã que eu vi há mais de muito tempo me mostrara tal tom capilar, fui ver o filme de Burton em espampanante 3D e gostaria de não ter ido e ter esperado apanhar o filme nas suas banais duas dimensões no sítio do costume, o covil dos piratas virtuais. Bocejo, bocejo, mas enquanto me remexia na cadeira, ajeitando os óculos para aqui e para ali, comparando a imagem que era projectada no ecrã com aquela que pulava em meu redor, irritante como uma melga estival, bem suspirei pela morte das três dimensões, essa eventualidade que me obriga a descartar a imaginação durante algum tempo. É simples: cinema são duas dimensões, a terceira é da ordem da consciência, ou como afirma uma frase que é título de um livro sobre cinema, "The mind is the screen". Concluindo, nem Alice cabelo asa de corvo nem experiência cinematográfica, um quase vazio frustrante que desmerece o génio de Carroll e de Burton - por baixo do fogo-de-artifício, entrevia-se a verdade manchada pela criminosa tecnologia - é desta que vou reler os livros.
19/03/10
Fome




A morte de Zapata Tamayo, ao fim de 85 dias de greve de fome, trouxe à colação o filme de Steve McQueen, Fome, retrato da greve que vitimou Bobby Sands, membro do IRA, em 1981. Ao contrário de outros filmes sobre o IRA (Jogo de Lágrimas, Em nome do Pai ou Michael Collins), não existe uma vontade clara de McQueen em tornar Sands um simples herói da resistência republicana. As suas preocupações são essencialmente de ordem estética. Cada plano tenta capturar a essência do sofrimento humano, mas o caminho que McQueen escolhe não é retórico e muito menos redutor; ele escolhe a via da beleza, citando pintores clássicos - Caravaggio, a pintura religiosa da Idade Média -, encenando quadros e procurando o ínfimo clarão que pode romper o domínio da violência e do horror. Os prisioneiros mergulhados na sombra da cela, no meio dos próprios dejectos, são mais do que um instrumento de uma denúncia política; transformam-se em arquétipo da submissão e ao mesmo tempo da revolta. Sands e o companheiro de cela são espancados pelos carcereiros, são submetidos às regras da prisão sem hipótese de resposta mas acabam por resistir da única forma que lhes resta: o martírio, a entrega do seu próprio corpo, como Cristo - os corpos esquálidos, as barbas longas, as chagas na carne. O que é extraordinário em Fome é o modo como subtilmente passamos da estética para a ética. Não há uma denúncia clara do estado inglês (apesar da imediatamente reconhecível voz de Margareth Thatcher servir de pontuação nas cenas de maior brutalidade), seria demasiado evidente, mas ao espectador é oferecido um ponto de vista, uma escapatória para os seus preconceitos, na longa cena da conversa entre Sands e um padre irlandês, quando este tenta dissuadir o prisioneiro de avançar com a greve de fome. Absolutamente admirável, o diálogo, e marcante sobretudo porque é a excepção num filme de silêncio entrecortado de ruídos que indiciam a violência (urros, gritos, o matraquear dos cassetetes, os ossos quebrando-se contra as paredes). Na troca de argumentos contra e a favor, é difícil tomar partido, mas acabamos por compreender a posição do prisioneiro, a sua absoluta determinação e, em última análise, a intuição de que a derradeira liberdade - a de poder dispor do próprio corpo (como um body artist) - servirá para derrotar o carcereiro, neste caso o estado inglês. Os nove mortos que se seguiram a Sands - a resistência colectiva - acabaram por provar que o martírio terá sido em vão: nenhuma das exigências foi aceite de imediato. Mas o gesto acabou por fazer a diferença, eventualmente. Toda a Arte pode - e deve - ser política.
(Ver aqui a cena da conversa entre Sands e o padre).
07/03/10
Óscar

Bem, parece que é hoje, a grande festa do cinema - pode-se achar que Hollywood não é bem cinema, é outra coisa, mas digamos que os filmes não chegariam até nós sem a indústria americana. A História diz-nos que muitas vezes os bons filmes foram feitos contra a pressão dos produtores e são o resultado de lutas gloriosas dos realizadores para concretizarem a sua visão, e é uma pena que tantos esforços tenham acontecido em vão - obras inacabadas, amputadas - tantas vezes. O dinheiro que circula e alimenta a indústria tanto pode servir a anónimos tarefeiros como a génios que trabalham dentro do sistema. Olhando para os nomeados deste ano, temos James Cameron, que em meados dos anos 90 deixou-se de tretas (isto é, de realizar bons filmes de acção) e abraçou o demónio, cozinhando um bolo indigesto chamado Titanic que acabou por lhe trazer o Óscar - e agora prepara-se para repetir a dose, com alguma astúcia e muito desplante; mas também há Quentin Tarantino, o cinéfilo clubista, bulímico que se diverte à grande vasculhando no caixote de lixo da História do cinema, da série Z aos filmes de artes marciais, passando pelos peplums e o gore italianos; filmes de estreantes (Neil Blomkamp, Lee Daniels); filmes de filhos da indústria (Jason Reitman), de estilistas reconvertidos (Tom Ford); os geeks judeus do costume (os irmãos Cohen) e a primeira mulher a ter verdadeiras hipóteses de ganhar um Óscar de melhor realizador, Kathryn Bigelow. Há de tudo, para todos os gostos, num ano em que são dez, os nomeados para melhor filme (não acontecia desde os anos 40); e é bem provável que não ganhe o melhor dos nomeados - mas que interessa? Hitchcock nunca ganhou, Orson Welles também não, John Ford só teve quatro Óscares e David Lynch teve três nomeações e nunca levou o prémio para casa - no ano de Mulholland Drive, por exemplo, ganhou (gargalhada geral) Ron Howard por esse "belo" filme, Uma Mente Brilhante.
Um ano mais, portanto, em que o melhor filme, O Laço Branco, de Michael Haneke, apenas aparece na corrida para melhor filme estrangeiro - quantas vezes isto já aconteceu aos grandes realizadores europeus? Ainda assim, a festa tem de continuar, e de entre os nomeados, aqui vão aqueles que eu acho que deveriam ganhar - certamente, não os que a Academia vai escolher:
Melhor filme: Sacanas sem Lei. Mas muito perto, Nas Nuvens.
Melhor realizador: Quentin Tarantino.
Melhor actor: George Clooney (mas não vi nem Jeff Bridges nem Colin Firth).
Melhor actriz: que não seja nem Helen Mirren (não gosto do sobrevalorizado overacting, passe a redundância) nem Meryl Streep (humm... quem é esta?).
Melhor actor secundário: Cristoph Waltz (se não ganhar, enfim...).
Melhor actriz secundária: Anna Kendrick, ou Vera Farmiga, ou Anna Kendrick.
Isto e mais o prémio de melhor fotografia para Christian Berger (Laço Branco).
Sou capaz de ver a cerimónia, depois de muitos anos a achar que não valia a pena; cinema, amanhã talvez.
(Publicado em simultâneo no Arrastão)
05/03/10
26/02/10
O povo Kon'dh

Sobre a maravilha técnica chamada Avatar muito se tem escrito, mas o que James Cameron mais queria - um blockbuster que apelasse ao coração dos membros da Academia - acabou por se concretizar na perfeição. Eu até nem posso dizer mal de Cameron, confesso; gosto do segundo Alien, o mais musculado, gosto do Exterminador Implacável e ninguém pode duvidar de que o homem sabe filmar cenas de acção como poucos. Mas quando, em meados dos anos 90, se separou de Kathryn Bigelow e teve um sonho - ganhar Óscares - o que saiu foi... Titanic, e quem não sinta suores frios só de pensar na voz de Celine Dion que atire a primeira pedra. Muitos anos depois, o regresso teria de se fazer em grande, e no mesmo comprimento de onda. Avatar é na verdade um prodígio em 3D e Cameron quase que consegue criar um Universo próprio - e, diga-se, as batalhas estão bem encenadas, de cortar o fôlego. Lamentavelmente, esse tal Universo é mais apelativo a audiências infantis ou adolescentes - o meu filho vibrou com o final, quando os Na'vi contra-atacam.
A melhor análise ao filme foi escrita por Slavoj Zizek, o que não surpreende, e foi publicada no Russian Journal - infelizmente, o site apenas está disponível em russo, e somente através de assinatura se consegue obter a versão inglesa em PDF. De Lacan a Arundathy Roy, passando pela filosofia chinesa, Zizek consegue evidenciar a plasticidade da crítica anti-capitalista ensaiada por Cameron. O grande público, na cabeça do realizador, deve ser reduzido ao mínimo denominador comum, uma criança: os militares são maus - o coronel é uma caricatura -, com a excepção do herói, humano que apenas deserta quando posto entre a espada e a parede; os Na'vi são bons, criaturas fofas que, vá-se lá saber porquê, apenas podem ser salvas por um colono - e, ainda por cima, incapacitado. Os paralelismos com a atitude beligerante americana são tão evidentes que perdem toda a força. A força rebelde ganha legitimidade apenas porque há alguns humanos que a apoiam. Zizek passa desta realidade - duplamente virtual - para os nossos dias, falando da rebelião que neste momento está a ter lugar no estado indiano de Orissa (artigo de Arundhati Roy aqui), uma reacção contra a planeada exploração dos recursos minerais (no caso, bauxite) da região por empresas de exploração mineira. O grupo rebelde é considerado uma organização terrorista (essa bela capa usada a torto e a direito nos dias de hoje) pelo Governo indiano, apesar dos seus poucos recursos e quase nenhum dano infligido no inimigo que combate.
O cinema tem o poder de manipular as emoções do espectador, e a maior parte das vezes isso pode ser libertador. Mas à emoção, imediata, instintiva, deve suceder sempre a razão; dos milhões de espectadores que viram Avatar, quantos sentiriam simpatia pela tribo dos Kondh, que neste preciso momento passa por uma situação semelhante ao povo Na'vi? Em que momento é que a ficção ganha mais peso do que a realidade?
21/02/10
17/02/10
Nas nuvens
Aquilo que terá levado Nas Nuvens até às nomeações para os Óscares - a consciência social, o interesse pelo espírito do tempo, no caso a crise económica - será o menos interessante no filme, principalmente porque Jason Reitman mostra pouca vontade de intervir na sociedade. O que terá convencido os membros da Academia de Hollywood foi antes a riqueza das personagens, o desempenho dos três actores nomeados para os Óscares (George Clooney, belíssima Vera Farmiga, excelente Anna Kendrick) e a inegável sagacidade que o realizador mostra na direcção de actores - confirmação do que foi mostrado em Juno - e ainda bem. Mas o filme vai um pouco mais longe, no modo como mostra os espaços vazios da modernidade, os não-lugares de que Marc Augé fala, pontos de passagem entre lugares - os aeroportos, os hotéis, os aviões. E, sobretudo, as empresas que dispensam funcionários e se vão esvaziando de vida, esses novos não-lugares criados pelo rebentamento das sucessivas bolhas de optimismo que o crescimento económico foi produzindo - a carga política do filme que realmente interessa. Neste ponto, há cenas exemplares - a sala com cadeiras vazias empilhadas onde Natalie espera, o escritório onde apenas resistem três ou quatro secretárias, e sobretudo a sequência do primeiro despedimento real remoto, que tem lugar, para cúmulo, em Detroit, uma das cidades americanas onde se sente mais intensamente o efeito da recessão americana. A montagem paralela, que vai mostrando o rosto de Ryan Bingham, Natalie e do homem que está a ser despedido, no ecrã e fora dele, e que acaba por estar na sala ao lado, a olhar para o monitor, é brilhante. A desumanização do capitalismo nunca terá sido tão bem filmada, e já se fizeram muitas obras panfletárias que podem comprovar a minha afirmação, podemos ter a certeza disso. Vale mais aquele plano, do desempregado a chorar no monitor que é espreitado por quem acabou de despedir do que qualquer manifesto de Michael Moore, por exemplo. O cinema como transcendência da realidade representada.
15/02/10
Invictus
John Carlin, autor do livro a partir do qual foi feito Invictus, afirmou numa entrevista que a melhor época e lugar para um jornalista trabalhar foram os anos 90, na África do Sul. Quando regressou a Washington, apanhou com o escândalo Clinton/Monica Lewinski, depois de ter testemunhado o fim do apartheid e a reconciliação nacional encetada por Nelson Mandela. Numa época de descrédito geral dos políticos, Mandela continua a ser um exemplo certamente digno de inveja por parte de quem tem boas intenções e de vergonha por parte dos outros.
Clint Eastwood viu em Mandela mais um dos seus heróis solitários, de ideias fixas, casmurros que acabam por provar estar certos no fim. O filme , apesar de resvalar aqui e ali para o mau gosto - as câmaras lentas, a banda-sonora discutível, as panorâmicas sobre os bairros de lata de Joanesburgo - é um hino ao extraordinário percurso do político mais marcante da segunda metade do século XX, uma figura maior que a vida que pedia nada menos que a hagiografia que o realizador lhe dedica. Mas é também a história pessoal da relação do político com o outro herói do filme, o capitão dos Springboks, François Pienaar (Matt Damon), que no final do jogo acaba por ter uma daquelas frases grandiosas que julgamos serem exclusivas da ficção - "não eram 65000, mas sim 43 milhões de sul-africanos a apoiar-nos".
A unidade temporal - um ano apenas - que acaba por concentrar toda as circunstâncias de uma vida, é o segredo do filme: o encarceramento de trinta anos, a libertação, a vitória nas eleições, o respeito da minoria branca, antigos opressores aceites na nova África do Sul, país do arco-íris. O desporto, em especial os grandes acontecimentos desportivos, ultrapassa em muito o seu universo; várias vezes Mandela (grande Morgan Freeman) repete que o interesse mostrado pelo acontecimento é político. Quando chegamos aos derradeiros jogos, o torneio transforma-se em batalha - a vontade dos guerreiros, o suor, o sangue, a superação. Os planos aproximados captando as formações no campo de rugby descrevem em tons heróicos o esforço dos jogadores, e por momentos estamos num filme de guerra, em pleno combate.
Luta contra a adversidade, superação: o território preferido de Clint Eastwood, a sua linguagem. O filme não é perfeito - é melhor do que outro qualquer faria com a mesma história.
(Texto publicado, originalmente, no Arrastão)
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