03/01/10

O começo de um livro é precioso

À aldeia chamam-lhe Azinhaga, está naquele lugar por assim dizer desde os alvores da nacionalidade (já tinha foral no século décimo terceiro), mas dessa estupenda veterania nada ficou, salvo o rio que lhe passa mesmo ao lado (imagino que desde a criação do mundo), e que, até onde alcançam as minhas poucas luzes, nunca mudou de rumo, embora das suas margens tenha saído um número infinito de vezes. A menos de um quilómetro das últimas casas, para o sul, encontra-se com o Tejo, ao qual (ou a quem, se a licença me é permitida), ajudava, em tempos idos, na medida dos seus limitados caudais, a alagar a lezíria quando as nuvens despejavam cá para baixo as chuvas torrenciais do Inverno e as barragens a montante, pletóricas, congestionadas, eram obrigadas a descarregar o excesso de água acumulada.

José Saramago, em As Pequenas Memórias

A seguir

A lista de filmes da década passada - e quem não acha que a década já passou, faça bem as contas aos dias que contámos - avança pouco. É muito mais difícil decidir sobre isto do que foi sobre a música. O mês de Janeiro vai ser assim um arquivo para a minha memória, cumprindo-se deste modo a primeira função de um blogue. A passo lento.

31/12/09

Álbuns 2000 #1

Radiohead - Kid A (2000)

Passados quase dez anos sobre a saída de Kid A, continua a ser impossível encontrar outro disco que defina tão bem esta época. O lado B da euforia mainstream, o anti-pop que vende milhões, a música que antecipa a paranóia e o medo pós-milénio que vivemos. Os Radiohead deixaram de querer canções e conseguiram encontrar estados de espírito - a electrónica sublinha tensões, os ritmos estimulam a disforia, as peças que compõem cada puzzle encaixam mal, mas fazem todo o sentido.
Tudo no seu lugar, como Thom Yorke ensaia na primeira música, um sossego desinquieto, uma espécie de aviso para o que se segue: o robô infantil de Kid A, cantando como se fosse um flautista mecânico de Hamelin, a quem seguimos cegamente; o pseudo-hino insuflado de sopros desconchavados de National Anthem ("what's going on?"); a maravilhosa balada ensimesmada, Everything in its Right Place, um lamento sobre a transparência existencial e a possibilidade de fuga, "isto não está a acontecer", os violinos a sublinhar o desespero; e depois Treefingers, o perturbador interlúdio instrumental que tanto pode ser usado como acompanhamento para meditação como modo de evidenciar a alienação que o resto do álbum provoca, três minutos vindos directamente de 2001, Odisseia no Espaço; o silêncio precede o optimismo, como o DSM-IV avisa, e em Optimistic o ritmo rock acompanha uma letra sobre a distância, no fundo a melhor maneira de esquecer "os abutres que sobrevoam os mortos" e "os peixes maiores que comem os mais pequenos"; mas a bonança dura pouco, o caos regressa em In Limbo, armadilhas a cada passo, o afastamento, o isolamento e a lucidez que ele traz, "i've lost my way"; Idioteque é simultaneamente uma crítica ao vazio (que convoca e critica Discothéque, dos U2) e um princípio de entrega à loucura, quando não resta outra saída que não seja a retirada para um bunker, "here i'm alive/everything all the time". Depois, Morning Bell acentua o desfasamento da realidade - frases deixadas a meio, ideias vagas, e o cândido ritmo da voz de Yorke contrastando com a violência da letra: "Cut the Kids in Half/Cut the Kids in Half" - talvez a melhor música do álbum, perfeita. Para terminar, um som de acordeão transporta-nos finalmente a um porto seguro, e percebemos que apenas a banalidade do quotidiano - "cheap sex and sad films" - nos pode trazer algum conforto - e um simulacro de amor, antes do fim chegar - "I Will See You in the Next Life".
Ouvi este disco dezenas, centenas de vezes, e ainda consigo encontrar coisas em que não reparei antes: os versos têm outro significado, os vários trechos musicais combinam de forma diferente, a sequência em que ouço as diversas faixas muda, e o sentido também. Enquanto uma boa canção pop está ligada quase sempre à repetição, ao passado - de cada vez que a ouvimos, a sensação é quase a mesma - as músicas dos Radiohead questionam - o presente, as ideias sobre o mundo, os clichés musicais que se repetem. A música existencial para principiantes. Para todos.

(vídeo aqui, ao vivo e epiléptico)

30/12/09

Álbuns 2000 #2

The Strokes - Is This It (2001)

O som desta década, tudo o que se seguiu, foi definido por este álbum, e isso seria o suficiente para estar na lista. O rock nunca mais foi o mesmo? Não vou tão longe, mas a verdade é que os Strokes, entre o revivalismo pós-punk e uma pose arty nova-iorquina, facção Velvet Underground, foram o cadinho onde foram buscar inspiração dezenas de bandas rock que se lhes seguiram. Então, o rock nunca mais terá sido igual. Bateria sincopada e minimal, baixo ritmado, guitarra ritmo ondulante e solos resgatados directamente aos anos 70 (Undertones, Wire) juntaram-se à voz de ressaca displicente de Julian Casablancas para criar uma obra que, sobretudo é uma magnífica colecção de singles (à maneira dos Smiths). Não há uma faixa deste álbum que não seja suficientemente pop - até New York City Cops, homenagem ao punk mais puro, é um hino. Podemos exigir mais aos Strokes? Mais rasgo, mais invenção? Não me parece que o rock precise sempre destes dois ingredientes. Inventar o som de uma década é mais do que suficiente. O rock de guitarras angulares e estilo negligente estudado dura o que durar, como sempre, mas a eles ninguém pode tirar isso.

(vídeo aqui)

Álbuns 2000 #3

Sigur Rós - Ágaetis Byrjun (2000)

E agora, para algo completamente diferente. Depois de Björk, a banda que aprendemos a identificar com a Islândia. Guitarra tocada como se fosse um violoncelo desafinado, sintetizadores etéreos, sons sinfónicos siderais, uma voz de sereia andrógina planando, uma língua inventada, indecifrável. Será tudo isto, mas a descrição é sempre insuficiente. A maior qualidade dos Sigur Rós é a capacidade de criação de ambientes - planícies geladas, fiordes descomunais, o mar revolto trazendo marinheiros a portos abandonados, histórias de amor entre humanos e seres quiméricos, o fogo arrefecido de antigos vulcões pulsando por baixo da terra. Esta música ancestral, que transmite mais sensações do que ideias, vai se infiltrando lentamente até se transformar numa vaga avassaladora, como um rio de magma arrastando rochas e detritos, lavando a terra das suas impurezas originais. Estamos num outro mundo, que transcende a música que o cria. Brilhante.

(vídeo aqui, excelente como todos desta banda)

29/12/09

Seberg/Belmondo

Álbuns 2000 #4

Queens of the Stone Age - Songs for the Deaf (2001)

O rock, rock a sério, nesta década, passa pelos descendentes do grunge Queens of the Stone Age, e seus companheiros e camaradas, Eagles of the Death Metal e a série de projectos paralelos, que culmina nos Them Crooked Vultures deste ano, super-grupo que inclui John Paul Jones, antigo baixista dos Led Zeppellin. O melhor álbum dos QOTSA é Songs for the Deaf; e é perfeito porque tem a colaboração do melhor baterista rock dos últimos vinte anos, Dave Grohl - e não se fala mais em Foo Fighters, que a vaidade nos génios é um defeito desculpável. E Mark Lannegan, ex-Screaming Trees, é também fundamental na definição do som - a voz que veio do grunge faz a ponte entre as duas décadas.
Música para ouvir num qualquer bar de motoqueiros perdido no Texas, riffs de bateria divinos, baixo hipervitaminado, guitarras rasgadinhas, letras politicamente incorrectas qb: é esta a receita para a perfeição.

(vídeo aqui)