30/12/09

Álbuns 2000 #2

The Strokes - Is This It (2001)

O som desta década, tudo o que se seguiu, foi definido por este álbum, e isso seria o suficiente para estar na lista. O rock nunca mais foi o mesmo? Não vou tão longe, mas a verdade é que os Strokes, entre o revivalismo pós-punk e uma pose arty nova-iorquina, facção Velvet Underground, foram o cadinho onde foram buscar inspiração dezenas de bandas rock que se lhes seguiram. Então, o rock nunca mais terá sido igual. Bateria sincopada e minimal, baixo ritmado, guitarra ritmo ondulante e solos resgatados directamente aos anos 70 (Undertones, Wire) juntaram-se à voz de ressaca displicente de Julian Casablancas para criar uma obra que, sobretudo é uma magnífica colecção de singles (à maneira dos Smiths). Não há uma faixa deste álbum que não seja suficientemente pop - até New York City Cops, homenagem ao punk mais puro, é um hino. Podemos exigir mais aos Strokes? Mais rasgo, mais invenção? Não me parece que o rock precise sempre destes dois ingredientes. Inventar o som de uma década é mais do que suficiente. O rock de guitarras angulares e estilo negligente estudado dura o que durar, como sempre, mas a eles ninguém pode tirar isso.

(vídeo aqui)

Álbuns 2000 #3

Sigur Rós - Ágaetis Byrjun (2000)

E agora, para algo completamente diferente. Depois de Björk, a banda que aprendemos a identificar com a Islândia. Guitarra tocada como se fosse um violoncelo desafinado, sintetizadores etéreos, sons sinfónicos siderais, uma voz de sereia andrógina planando, uma língua inventada, indecifrável. Será tudo isto, mas a descrição é sempre insuficiente. A maior qualidade dos Sigur Rós é a capacidade de criação de ambientes - planícies geladas, fiordes descomunais, o mar revolto trazendo marinheiros a portos abandonados, histórias de amor entre humanos e seres quiméricos, o fogo arrefecido de antigos vulcões pulsando por baixo da terra. Esta música ancestral, que transmite mais sensações do que ideias, vai se infiltrando lentamente até se transformar numa vaga avassaladora, como um rio de magma arrastando rochas e detritos, lavando a terra das suas impurezas originais. Estamos num outro mundo, que transcende a música que o cria. Brilhante.

(vídeo aqui, excelente como todos desta banda)

29/12/09

Seberg/Belmondo

Álbuns 2000 #4

Queens of the Stone Age - Songs for the Deaf (2001)

O rock, rock a sério, nesta década, passa pelos descendentes do grunge Queens of the Stone Age, e seus companheiros e camaradas, Eagles of the Death Metal e a série de projectos paralelos, que culmina nos Them Crooked Vultures deste ano, super-grupo que inclui John Paul Jones, antigo baixista dos Led Zeppellin. O melhor álbum dos QOTSA é Songs for the Deaf; e é perfeito porque tem a colaboração do melhor baterista rock dos últimos vinte anos, Dave Grohl - e não se fala mais em Foo Fighters, que a vaidade nos génios é um defeito desculpável. E Mark Lannegan, ex-Screaming Trees, é também fundamental na definição do som - a voz que veio do grunge faz a ponte entre as duas décadas.
Música para ouvir num qualquer bar de motoqueiros perdido no Texas, riffs de bateria divinos, baixo hipervitaminado, guitarras rasgadinhas, letras politicamente incorrectas qb: é esta a receita para a perfeição.

(vídeo aqui)


20/12/09

Álbuns 2000 #5

Arcade Fire - Funeral (2004)

Um álbum que é uma celebração dos queridos mortos - dificilmente uma banda poderia arranjar melhor assunto para primeiro trabalho. E transformar o que seria uma elegia fúnebre, negra, numa festa em palco, eis o grande feito dos Arcade Fire. Mas, para além dos épicos desempenhos ao vivo, há a música, algures entre David Bowie e a folk, com uma ou outra passagem pelos New Order e os Pixies, num álbum que evoca os gloriosos anos 90, e que apenas poderia dizer algo a quem passou por lá, oscilando entre a melancolia e a euforia, entre Radiohead e Smashing Pumpkins (há muito do desequilíbrio deles em Funeral), entre o fim de qualquer coisa e o princípio de algo que rapidamente passou - o grunge, claro. Se nos limitarmos às pequenas coisas que os Arcade Fire também têm - as histórias de infância, as zangas entre irmãos, as brincadeiras que queríamos prolongar até ao infinito, todos os sons que ilustram a sensação de perda - teremos o suficiente. O hype da década, que nos desiludiu ao segundo ensaio, prolongou-se para lá da estação em que nasceu. Um grande álbum, imperfeito e belo como também podem ser os grandes álbuns.

(vídeo aqui)

18/12/09

O silêncio continua a ser de ouro

Ora, portanto, bingo, José Mário, estou contigo. Eu ainda tive paciência para lhe aturar os humores, enquanto achei que a verve e o estilo lhes eram superiores. Mas há um limite, e Vasco Pulido Valente bem se esforça para chegar lá, abnegadamente. É claro que ele não tem razão neste caso, e mais, raramente tem razão, e pior, quando tem razão, tem a razão de um qualquer taxista, que acerta apenas no mal que toda a gente conhece, não sugere nada que acabe com esse mal e tem-se sempre em grande conta, achando-se único num mundo que não o compreende - recorrendo sempre ao "que se faz lá fora". O que nos resta agora é assistir à agonia do homem, todas as semanas, se para isso alguém tiver pachorra. Haja quem, que é triste a decadência.

Álbuns 2000 #6

The National - Boxer (2007)

Repara-se primeiro na maravilhosa percussão das músicas, a bateria, maquinal, repetitiva, depois o baixo, e sobre o ritmo assentam as palavras de Matt Berninger, melancolia e desilusão amorosa, numa destilação pura, vintage e grave, perfeita. Se os Joy Division são a banda para a adolescência tardia, os National devem ser a cura para o arrependimento, a banda-sonora ideal para o desencanto da idade adulta. As manhãs de ressaca cada vez piores, os fins de relação cada vez mais penosos, os inícios cada vez mais cínicos. O estado de espírito de uma geração na década dos 30 em forma de álbum, e lá se confirma a ideia da música ser uma abstracção concreta, e não algo de indefinível. Recontextualizemos: não quero que todos os que são desta geração gostem da música dos National; quero apenas que aqueles que eu entendo a entendam. Somos muitos, ou poucos, não interessa, somos os suficientes. E mesmo sem as letras de Berninger, seria sempre um grande álbum.

(vídeo aqui)

17/12/09

A cultura da Direita

Caro Rui,

não querendo acrescentar muito mais ao que escrevi, e relembro o que escrevi: "e fico a matutar naquela ideia da direita matarruana no que toca a assuntos de cultura. Se não fosse o Pedro Mexia e outros a contradizer o preconceito...", penso que devias ler hoje no Público - se não o fizeste já - o texto (indisponível para não assinantes) escrito em conjunto por Rui Machado, director do ANIM, e Luís Miguel Oliveira, director do Departamento de Exposição Permanente da Cinemateca, no qual esclarecem a razão do referido arquivo se situar em Bucelas e não no centro de Lisboa. Confesso que não conhecia essa razão, mas ainda fiquei mais elucidado sobre a atitude de Helena Matos; ela escreveu sobre aquilo que não conhecia a fundo, motivada por razões exclusivamente ideológicas. "Se a Cinemateca é um organismo público e se dela depende o ANIM, então deve funcionar mal, de certeza", terá pensado. Parece-me claro. Enquanto eu questiono o meu preconceito em relação à atitude da direita no que diz respeito a questões de cultura, Helena Matos atira-se de cabeça e critica sem saber minimamente do que fala. Quanto a isto, estamos conversados.
Quanto ao resto, julgo que já tivemos esta conversa antes. A minha posição é clara: não faz qualquer sentido não haver em Portugal uma Cinemateca (ou duas, ou as que forem necessárias) e as instituições que dela estão dependentes. O cinema é uma manifestação cultural essencial, e é essencial que os filmes que não tenham distribuição comercial regular estejam disponíveis ao público. E em sala, não em DVD, quem gosta de cinema sabe qual é a diferença. Mas esta é apenas a função primária da Cinemateca - o arquivo de imagens que lhe está associado é a verdadeira razão de existência da instituição; os filmes produzidos em Portugal desde os anos 20 são, como deves imaginar, de uma importância extrema para a compreensão do tempo em que foram feitos, são a memória viva dos acontecimentos que registam, das impressões que deixam, de um sentir das sociedades que neles são retratadas. Alguém que não compreenda isto não me merece consideração. Mas, de que modo é que esta divulgação e conservação deverá ser feita? Será que acreditas na bondade do mercado perante algo que é, manifestamente, pouco ou nada lucrativo? Todos os países que têm Cinematecas, incluindo os de modelo mais liberal, financiam estas instituições - é assim em Espanha, em França, e, pasme-se, Inglaterra (o British Film Institut depende do mecenato e de subsídios). Não faz sentido nenhum entregar o governo destes bens a privados porque, primeiro, ninguém se interessaria, e segundo, seria um risco, tendo em conta as leis do mercado, que visam o maior lucro com o menor custo possível. Nós pagamos a manutenção da Cinemateca porque ela faz parte do património cultural do país, ponto final. Quanto à crítica tantas vezes repetida de que deve ser quem consome os produtos culturais a pagar, devo dizer-te que, para se ir ver um filme à Cinemateca, paga-se entrada, assim como no Teatro subsidiado, nas Óperas subsidiadas (e não é pouco) ou nos museus. Aliás, os museus são um verdadeiro caso de estudo em Portugal, principalmente se comparado com a Inglaterra, onde se pode entrar sem pagar em muitos (financiados pelo Estado e por mecenas) ou mesmo com a França ou a Alemanha, onde, proporcionalmente, os preços são muito mais baixos. Portanto, "as classes médias elitistas e aculturadas" pagam a cultura do seu bolso, mas apenas isso não é suficiente para a cultura existir; e a alternativa é não existir de todo, o que penso não ser aquilo que desejas.
Já agora, de entre tudo aquilo de que gostas, música, cinema, livros, etc, tens a certeza de que, em algum ponto do percurso até chegar a ti, esse produto não foi patrocinado pelo Estado, seja através de subsídios à criação, bolsas académicas ou subsídios à produção? Não farás tu parte dessa horrorosa "classe média elitista e aculturada"?

(na imagem vê-se António Reis filmando Trás-os-Montes)

14/12/09

Álbuns 2000 #7


LCD Soundsystem - Sound of Silver (2007)

E pensar que há 15 anos dizia o pior que se possa pensar de toda a música electrónica; é verdade que os LCD não são propriamente uma banda electrónica - a estrutura das canções é pop-rock, e estão lá todos os instrumentos tradicionais do rock - guitarra, baixo, bateria. Mas o uso de sintetizadores resgatados aos anos 80, Daft Punk pelo meio (os mestres do electro-indie), e a influência distante dos avós Kraftwerk, faz deste projecto de James Murphy um dos mais, vá (será que uso a palavra?), trepidantes da última década. Quando ouço LCD Soundsystem penso em discotecas nova-iorquinas em finais dos anos 70, mas depois lembro-me que nessa época ou era-se disco, e era horrível, ou punk e pós-punk, e era-se hip. Curioso que os LCD não andem assim tão distantes dos ritmos dançantes do disco, e continuem a ser respeitados por quem dita o bom-gosto.
Exemplificando esta mistura, temos a música All My Friends, que começa com uma vaga evocação do piano de Keith Jarrett e termina em eufórica festa, celebração das saídas à noite com os amigos, um hino à inconsequência prática; não admira que os Franz Ferdinand tenham feito uma versão - a energia rock está toda lá.

(video aqui)

(versão dos Franz Ferdinand)

Noël Carroll, hoje na FCSH

Noël Carroll é Distinguished Professor de Filosofia no Graduate Center da City University of New York e um dos mais importantes filósofos mundiais no campo da arte e da estética, particularmente na área da filosofia do cinema.

(ver aqui)