14/12/09

Noël Carroll, hoje na FCSH

Noël Carroll é Distinguished Professor de Filosofia no Graduate Center da City University of New York e um dos mais importantes filósofos mundiais no campo da arte e da estética, particularmente na área da filosofia do cinema.

(ver aqui)

13/12/09

Álbuns 2000 #8

Radiohead - Amnesiac (2001)

O segundo melhor álbum dos Radiohead nesta década é também a segunda parte de Kid A, menos experimental e mais próximo do formato tradicional de um conjunto de canções pop. O regresso aos singles com video é também exemplo desta reaproximação ao mainstream. Mas a paranóia moderna está toda lá, o experimentalismo também, com passagens pela electrónica (Morning Bell), pelo rock de guitarras bluesy (I Might be Wrong), e pela típica canção radioheadiana, de início calmo e final furioso (You and Whose Army?). Tem uma das melhores canções da banda, o single Knives Out - a guitarra cristalina vai construindo a música de acorde em acorde, e Thom Yorke limita-se a ir atrás, subindo e baixando de tom na linha quase desafinada que a sua voz orgulhosamente exibe. A mais importante banda dos últimos quinze anos (os Beatles da pós-modernidade pop) num ensaio quase perfeito.

(video aqui, de uma versão ao vivo, não está disponível o vídeo original)

11/12/09

Álbuns 2000 #9

MGMT - Oracular Spectacular (2008)

No ano em que Brooklyn se tornou o centro da música pop (Santogold e Vampire Weekend incluídos), a banda que criou o melhor álbum psicadélico desta década. Recorrendo mais a sintetizadores analógicos do que a guitarras, contaram com a ajuda do produtor dos Flaming Lips e antigo baixista e baterista dos Mercury Rev, Dave Friedman, para dar coesão a um punhado de canções com as letras mais estimulantes dos últimos anos. Um sonho juvenil de adolescentes a caminho da idade adulta, no qual cada canção é como uma imagem que recupera ilusões perdidas e desilusões perenes, o álbum é também um caleidoscópio de sons que tanto podem citar os referidos Mercury Rev como os abomináveis Bee Gees ou Michael Jackson, sem nunca perder a coerência. E, sobretudo, é um daqueles trabalhos que se vai sedimentando lentamente em nós - a cada audição descobre-se coisas novas, breves associações, ruídos de infância, uma referência a algo que julgávamos ter esquecido. Tenho a certeza de que vou ouvir estas músicas durante muito tempo, e mal posso esperar pelo próximo álbum. Como amostra, o grande primeiro single, um hino lúcido e irónico ao que é a vida das estrelas pop, Time to Pretend.

(video aqui)

Álbuns 2000 #10

M.I.A. - Kala (2007)

Os Tigres Tamil podem ter sido derrotados, mas M.I.A., dois anos antes, quase conquistou o mundo. Sem exagerar (mas exagero, quem sabe quem ela é?), o álbum Kala, entre a vanguarda musical londrina (grime, hip-hop) e o trash da música de Bollywood e um outro namoro a linguagens world (kuduro incluído), é uma montanha-russa de batidas que obriga a mexer o corpo, mesmo quem, como eu, tem uma vida mais sedentária do que devia. Do Sri Lanka para o mundo, a M.I.A. apenas devemos desculpar ter participado na banda-sonora de Quem Quer ser Bilionário (apesar do reconhecido bom gosto de Danny Boyle). Mas Kala é anterior a isso. E a denominação música de guerrilha nunca foi tão apropriada - a violência das letras contrasta com o ambiente geral de diversão que transparece do álbum. E é raro vermos alguém utilizar os samples de modo tão certeiro; exemplo disto é a fabulosa Paper Planes, os Clash a dar uma mãozinha e os Beastie Boys en passant, a apadrinhar a coisa. Brilhante e censurado, como deve ser.

(Video aqui)

Listas

Ah, a década que a música dos Pulp inventou, e já passou. Disco 2000, mas tal como chegámos ao presente sem que o presente se aproxime sequer do que era o futuro em Buck Rogers - e ainda bem -, passámos o presente e chegámos a uma conclusão: a década passada foi mais cool do que se pensava, a década em que o alternativo se tornou mainstream (Arcade Fire, The Strokes), a década em que a música pop pode ser sofisticada (Justin Timberlake, Kanye West), a década que concilia a mais popular javardice (futebol e Ená Pá 2000) com as vítimas da moda e dos restaurantes trendy, dos hambúrgueres gourmet e do gourmet popular, a década da continuação da crise perpétua, dos falhanços futebolísticos, da ripanço e do sacanço internético, a década em que praticamente deixei de comprar música sem a deixar de ouvir, a década que nada decidiu, como todas as décadas. Fiz as minhas listas, e vou-me lembrar do que deixei de fora, inevitavelmente.
E esta foi também a década em que comecei a blogar. O presente passou.

10/12/09

Um tornado lento

Helena Matos, num curto texto hoje no Público, ensaia um curioso exercício de auto-crítica, não sei se irónica ou não, depois de um longo texto no qual reafirma a sua descrença no aquecimento global e em tudo o que os perigosos ecologistas de esquerda fazem para salvar, vá lá, o planeta. O método é banal: falar do passado para descrever o presente, esquecendo-se de que os ciclos acontecem, é um facto, mas a cada regresso alguma coisa mudou. Certamente só alguém muito confiante no futuro - e portanto, possuindo dons proféticos que Gabriel Malagrida certamente não desdenharia ter - pode achar que a subida de alguns graus na temperatura média do planeta e a série de consequências que o acontecimento tem provocado é uma grande coincidência, a Natureza a seguir o curso normal das coisas. Sacanas dos cientistas, que no fundo querem é organizar lobbies anti-petrolíferas e pró-empresas que desenvolvem tecnologia para o aproveitamento de fontes de energia alternativas. Não sabemos que resultado pode surgir deste combate de profetas, mas temos a certeza de que a sensatez ficará a perder.
Até porque é o curto segundo texto que confirma o que é evidente já no primeiro: Helena Matos começa a falar sobre a nomeação de Maria João Seixas para directora da Cinemateca ironizando com a chusma de cinéfilos que saltou da toca a propósito deste assunto, completando o que diz ao afirmar que não frequenta a sala da Barata Salgueiro, e continua criticando a localização de um organismo (Arquivo Nacional das Imagens em Movimento) que, dependendo da Cinemateca, se encontra demasiado longe desta, em Bucelas. Nada mal para quem não visita o espaço, e para quem acha mal que tantos tenham uma opinião sobre a nomeação de Maria João Seixas. Eu, que passei muitas horas formando o meu gosto cinematográfico ali, apenas posso ter uma opinião sobre a opinião de Helena Matos - não é para isso que aqui estamos, escrevendo num blogue? E fico a matutar naquela ideia da direita matarruana no que toca a assuntos de cultura. Se não fosse o Pedro Mexia e outros a contradizer o preconceito...
E Maria João Seixas? Uma nomeação política, é certo; ligada ao PS, ocupou vários cargos sempre nomeada directa ou indirectamente por este partido, mas a verdade é que quase todas as nomeações para cargos públicos são o fruto de um sistema político que liga mais à cor do que ao mérito; Bénard da Costa também lá chegou apontado por Vasco Pulido Valente e acabou por realizar um trabalho exemplar na instituição. É esperar para ver, e ela parece ter crédito suficiente junto do meio para usufruir do benefício da dúvida.
Será que sou suficientemente cinéfilo para ter uma opinião sobre o assunto?

08/12/09

Não sei se já disse que gosto mais de Zurlini do que de Fellini

Tempo de balanços

Este ano vou fazer três listas: os melhores livros que não terminei; os melhores discos dos quais conheço apenas algumas músicas; e os melhores filmes com soneca incluída. Não sei se isto é uma promessa.
(E acaba a década, mais uma década, a década decisiva que acabou por nada decidir).

Avulsos


Há várias razões para acreditar que Luís Miguel Queirós é o melhor jornalista literário a escrever em jornais portugueses; a mais recente foi o texto que saiu há uns dias no P2 sobre Nabokov e o romance póstumo agora publicado, literatura em peças para montar, frases e parágrafos aos pedaços.
The Original of Laura é um conjunto de fragmentos que muito dificilmente se poderia chamar de romance, mas ainda assim é melhor do que se não houvesse nada; para o diabo com a vontade do escritor morto. Se respeitássemos os mortos não teríamos Kafka e Pessoa, e isso, mais do que à humanidade como um todo, iria deixar-me bastante aborrecido, isto se eu pudesse ter conhecimento de que tinha sido escrito algo que poderia fazer-me acreditar que a minha vida iria mudar com tal leitura. Falamos de hipóteses, claro; a mudança é uma questão de perspectiva, e parece que na realidade não existe - já repararam como Obama passou de Messias a traidor em menos de um ano ou o Benfica regrediu de "temível adversário" a uma equipa que qualquer um que não seja designado sucessor de Mourinho consegue ultrapassar se jogar com pelo menos três trincos (a cacofonia é propositada) e um guarda-redes em fase de hiper-ventilação vitaminada? Muda-se apenas para que se possa voltar à forma inicial - a frase truncada e retirada de uma obra literária mais citada dos últimos tempos, ou então eu ando a ler as coisas erradas.
Lamento dizer, mas ainda não comecei a ler 2666, que estava para ser escrito "&&&. Conheço várias vítimas de tijolos literários - qual a percentagem de pessoas que comprou a Ilíada, e a Odisseia e o D. Quixote, que realmente terá chegado ao fim da leitura? Mas quem poderá duvidar de que o uso dado a estes livros - elegante decoração das estantes Billy do quarto e da sala - concorre menos para a felicidade mundial do que efectivamente terem sido lidos? Como tal, não me atrevo. Já fui derrotado uma vez pelo Ulisses, duas pelo Proust e três pela Montanha Mágica - e confesso que, apesar do empolgamento sentido ao ler Moby Dick, prefiro de Melville o fabuloso Bartleby, mais do que herói literário, exemplo que deveria seguir com mais persistência.
Desse modo, e querendo preencher a minha quota parte de livros da Quetzal, a editora renascida das cinzas pela mão de Francisco José Viegas, peguei num livro da extinta editora Escritor - Ernestina, de Rentes de Carvalho (é claro que o livro foi agora reeditado pela Quetzal), e é difícil perceber como o público leitor português ainda não descobriu este escritor de estalo. O exílio leva ao esquecimento, uma lástima - ele é mais lido na Holanda do que por cá, mas o Lobo Antunes é mais lido por cá do que na Holanda e, como toda a gente sabe, os holandeses são muito mais cultos, educados e estudados do que nós - para bom entendedor...
Um relato autobiográfico que regressa a uma infância passada entre uma aldeia de Trás-os-Montes e o Porto, nas primeiras décadas do século passado - é este o resumo do livro, mas não mostra nada; o que vale a pena, em Rentes de Carvalho, é a cadência da frase, a riqueza do léxico, o vivo ritmo narrativo que nos transporta a um tempo irrecuperável.
Sabemos que nada dura para sempre - Nabokov não podia fazer nada com os papéis deixados para serem usados como peças de um puzzle (pelo menos o livro, editado pela Alfred Knopf, é um objecto fascinante, um achado em termos de grafismo) - e a glória é transitória, mas por vezes seria justo reconhecer a competência dos competentes em vez de se comprar (e comprar, e comprar) o produto da incompetência dos incompetentes. O ideal seria que o tempo trouxesse justiça ao escritor, e não à obra; como escreveu Woody Allen... ah, ah, não é desta que me apanham a citar alguém a trouxe-mouxe; o que ele terá escrito foi: "para o diabo com a posteridade da obra, eu queria era viver para sempre!". O que, convenhamos, poderá ser, objectivamente, entediante.