12/11/09

Lua

Uma boa ideia, não totalmente concretizada, mas que vale pelo ar rétro dos cenários e pela elegante direcção de Duncan Jones (filho de peixe sabe nadar, ainda que noutro mar). O filme precisava de risco no argumento, desenvolvimento, novidade. Fica-se pela ameaça de sobressalto.

11/11/09

Uma greguería

O escritor vê as palavras na folha em branco.

A namorada de Wittgenstein (visitem-na).

LXII. O tempo não voa

Desacerto, o tempo
não voa - trespassa,
acomete, traça,
rapina.

Nem esvoaça
ou plana,
volta e revolta
encadeado, omni-
parente.

António Osório, em A Luz Fraterna, ed. Assírio & Alvim

03/11/09

We Are Your Friends/Justice vs Simian



Um video cool para uma banda que tem tudo para ser cool: são franceses, da área da electrónica, e o seu grande êxito é uma remistura, neste caso do projecto inglês Simian. As batidas são retro qb, sintetizadores analógicos dançantes Daft Punk style e o respectivo refrão a martelar obsessivamente, ou não se produzisse assim um fenómeno das pistas de dança - e foi, em 2006. Mas o que interessa é esta curta, realizada pela dupla Rozan & Schmeltz - a definição de um videoclipe: a montagem acompanha o ritmo da música, arrastado e lento, e ilustra o que se vai cantando. No fundo, a eficácia resulta da coreografia dos actores e da sintonia entre os seus movimentos e o dos objectos que tendem para o caos. Nada a que qualquer grupo de amigos solteiros não esteja habituado, de resto. Um encanto sem grande teoria, como a boa música electrónica deve ser.

31/10/09

Arturo Bandini


O que me levou a comprar o livro de John Fante foi um engano. Claro que a capa e o elogio de Bukowski ajudaram, mas a primeira frase, genial, foi o gancho que me prendeu: "Eu era novo, passava fome, bebia e tentava ser escritor". Ah, se todos os livros que me passam pelas mãos começassem assim, de modo tão exacto e alusivo. O nome da editora, Ahab, é outra pista: algo que se reclama da sombra protectora de Melville merece mais do que respeito; reverência. Não tinha lido Bukowski com atenção até há uns meses, mas depois de duas soberbas narrativas (Mulheres e Correios, este publicado pela extinta - e saudosa - Canguru) e de quase toda a poesia - viva, apaixonada, tão longe da esterilidade de muito lirismo moderno - posso afirmar que já consigo detectar-lhe o estilo à primeira frase. E foi isso que apanhei ao ler aquele começo, as primeiras palavras de Fante. Deste eu apenas sabia que vivera em Los Angeles e que certamente se cruzara com Faulkner, e que fora leitura da geração beat, Kerouac, e principalmente Bukowski. Diabo, Bukowski teve de ir beber a alguma fonte, e este livro, agora quase terminado, prova-o. Li um pouco mais do primeiro capítulo, desfiz as dúvidas - referências a livros de escritores mortos em Bibliotecas Públicas, boémia e derivação, infortúnio, o que mais se pede a um escritor? Antes de sair, comprei o livro - fiz questão disso, não esperei que mo oferecessem - e comecei a lê-lo enquanto esperava pelo autocarro. Aquelas primeiras páginas contêm uma energia semelhante à que anima os livros de Bukowski, o mesmo desespero inábil e uma simplicidade técnica desarmante. Ao fim de cinco páginas, aquilo de que eu devia ter desconfiado: assinado, "Charles Bukowski, 5 de Junho de 1979". Sacana, as palavras eram mesmo dele. Distraído como sou, começara a ler o prefácio ao romance julgando ler já as palavras de Fante. Se parece ser Bukowski, é porque é; por vezes, é fácil diagnosticar a má literatura: quase sempre são maus copistas, plagiadores a soldo do esquecimento; o estilo de um bom escritor é inconfundível. Bom, sorri com o erro - e julgo que a senhora ao lado desconfiou daquele esgar meio louco. De seguida, primeiro capítulo. Mas o espanto não se esgota no prefácio, continua no (verdadeiro) primeiro parágrafo: "Uma noite estava sentado na cama do meu quarto de hotel em Bunker Hill, bem no meio de Los Angeles. Era uma noite importante na minha vida, pois tinha de tomar uma decisão sobre o hotel. Ou pagava, ou saía: era o que dizia o bilhete que a proprietária tinha metido debaixo da minha porta. Um problema bicudo, a exigir toda a minha atenção. Resolvi-o desligando a luz e metendo-me na cama." Não precisava de dizer mais nada para me convencer. John Fante tem tudo o que Bukowski tem, e um pouco mais: Arturo Bandini, alter-ego do escritor, é um Holden Caulfield real, a braços com um hesitante início de carreira e às voltas com uma mexicana, empregada numa tasca, que lhe dá água pela barba. É ingénuo, impulsivo, lírico, deprimido, desabrido, terno e violento, imprevisível. Passeia-se pela Los Angeles dos anos trinta cismando na futura glória literária, carregando o peso de uma educação católica, rogando a absolvição do pecado da luxúria em que incorre quando pensa na bela latina de cabelos pretos. E vou apenas a pouco mais de meio do livro.
Ainda bem que Bukowski me levou ao engano. O acaso é o alicerce que sustenta a vida.

Ahab edições


Passados dez anos como livreiro, é difícil ser surpreendido - positivamente, pelo menos, já que a imaginação das editoras no que diz respeito ao mau gosto é inesgotável; desde livros com fitinhas, livros vendidos dentro de recipientes de fruta, livros com outros livros, livros com máscaras anti-epidémicas, de tudo um pouco tenho visto. Há casos em que parece que o produto vendido não é o livro, mas a sua oferta. Se a isto juntarmos os verdadeiros crimes cometidos contra bons autores - a título de exemplo, lembro a recente reedição de Ulisses e Retrato do Artista Quando Jovem, pela Difel, ou a nova linha gráfica da Teorema para Italo Calvino - compreende-se o desencanto sentido, que se nota mais nos últimos anos - a concentração editorial empobreceu a diversidade, e a sobrevivência dos projectos que interessam, mantidos por verdadeiros editores e não por burocratas vindos dos cursos de marketing, é bastante precária. Por isso, tenho de ficar contente quando aparecem no mercado estas excepções à mediocridade.
A Ahab edições começa por ter um lema admirável - à semelhança do que acontecia com a Cavalo de Ferro, outra editora arrastada para a lama por razões de pura trafulhice, por alguém que não merece outro epíteto que não seja o de canalha - mas isso é outra triste história. "There are some enterprises in which a careful disorderliness is true method". Fantástica frase, retirada de Moby Dick, e uma escolha de risco para bandeira do projecto. Mas começam muito bem - os primeiros livros publicados são objectos belíssimos, dão vontade de folhear e ler: Pudor e Dignidade, de Dag Solstad, A Ilha, de Giani Stuparich, Pergunta ao Pó, de John Fante. Boas traduções, e no caso de Solstad, isso é óptimo, até para contradizer a história recente - Solstad é noruegês, e pelos vistos há tradutores em Portugal das línguas escandinavas, ao contrário do que indiciava a opção da Oceanos, ao traduzir Stieg Larsson do francês. A tradutora de Stuparich é Margarida Periquito, com trabalho mostrado na Cavalo de Ferro, e Fante é traduzido pelo poeta Rui Pires Cabral, que é também um excelente tradutor - dele li em português Kazuo Ishiguro. Elogie-se o que merece ser elogiado - se aparecessem mais ilhas como esta no meio da corrente de maus livros que diariamente inunda a livraria, o meu trabalho seria um mar de rosas. Para descansar de todos os gatos que passam por lebre.

23/10/09

Saramago vs Deus (2)

O nível a que Vasco Pulido Valente desceu hoje, na sua crónica do Público, penso que põe um ponto final decisivo no caso Saramago. Se não começou bem - o anticlericalismo básico do escritor é coisa serôdia, ultrapassada - e continuou ainda pior - com todas as virgens ofendidas clamando por uma suspensão da liberdade de expressão, que costuma ser tão querida por toda a gente -, seria previsível um texto tão orgulhosamente rancoroso e mal-educado como o de VPV. Ao habitual desfile de amargura, maus fígados e snobismo, VPV juntou o insulto e a arrogância de privilegiado que, de resto, está sempre latente em cada alfinetada que dá. Vasco Pulido Valente é, no fundo, o retrato robô possível das elites a que temos direito: um estrangeirado pesporrento que julga que, só porque leu Eça e Ramalho Ortigão, pode criticar quem, por mérito próprio e contra a classe a que VPV pertence, combateu a imobilidade social que durante séculos dominou o país - esta luta é, sem qualquer dúvida, a mais importante herança do 25 de Abril. É contra gente como VPV que a revolução foi feita. Não sei como pode ser classificado o catálogo de imbecilidades por ele alinhavado: o insulto, o paternalismo, a raiva, são coisas que não podem ter desculpa. Prefiro mil Saramagos exaltados e oportunistas a um Vasco Pulido Valente de rei na barriga, importunado com o êxito de alguém que, do seu ponto de vista, é de outra classe social. Certamente que o país bem pode dispensar estas elites.