O nível a que Vasco Pulido Valente desceu hoje, na sua crónica do Público, penso que põe um ponto final decisivo no caso Saramago. Se não começou bem - o anticlericalismo básico do escritor é coisa serôdia, ultrapassada - e continuou ainda pior - com todas as virgens ofendidas clamando por uma suspensão da liberdade de expressão, que costuma ser tão querida por toda a gente -, seria previsível um texto tão orgulhosamente rancoroso e mal-educado como o de VPV. Ao habitual desfile de amargura, maus fígados e snobismo, VPV juntou o insulto e a arrogância de privilegiado que, de resto, está sempre latente em cada alfinetada que dá. Vasco Pulido Valente é, no fundo, o retrato robô possível das elites a que temos direito: um estrangeirado pesporrento que julga que, só porque leu Eça e Ramalho Ortigão, pode criticar quem, por mérito próprio e contra a classe a que VPV pertence, combateu a imobilidade social que durante séculos dominou o país - esta luta é, sem qualquer dúvida, a mais importante herança do 25 de Abril. É contra gente como VPV que a revolução foi feita. Não sei como pode ser classificado o catálogo de imbecilidades por ele alinhavado: o insulto, o paternalismo, a raiva, são coisas que não podem ter desculpa. Prefiro mil Saramagos exaltados e oportunistas a um Vasco Pulido Valente de rei na barriga, importunado com o êxito de alguém que, do seu ponto de vista, é de outra classe social. Certamente que o país bem pode dispensar estas elites.
23/10/09
22/10/09
20/10/09
Extinção
Vamos falar de coisas sérias. Deixemos de parte as distracções que a literatura proporciona - é tão bom amar um autor, é tão bom odiar um autor, e esquecer a obra. Tenho pena que a editora Quasi tenha falido - ou perto disso. Já não deve haver quem duvide de que o aparecimento de grandes grupos editoriais seja prejudicial para o mercado. A Quasi foi importante porque dedicou-se anos a fio a publicar poesia inédita de autores portugueses*. E, contrariando a aura negativa que se foi formando em redor daquele projecto, acho que acertou muito mais do que errou, apenas por ir publicando. Jorge Reis-Sá criou vários anticorpos, mas um editor não precisa de ser unânime no trabalho produzido. O que ele tem para mostrar é um catálogo com dezenas de nomes revelados, alguns bons poetas, outros menos, dois ou três notáveis. Nenhuma editora portuguesa se pode orgulhar de tanto, nos últimos dez anos (e não falo do resto, as traduções e a boa ficção também paridas). A Assírio & Alvim praticamente deixou de publicar novos autores; a colecção Forma, da Presença, é uma memória vaga; a Caminho publicava aqui e ali algum poeta do PCP até ser comprada pela Leya, e desapareceu desta área da edição; a Relógio d'Água também, nitidamente, deixou de publicar poesia, mesmo autores traduzidos, que era uma das marcas da sua política editorial. O que temos, então? O aparecimento de fugazes editores que publicam meia dúzia de livros e desaparecem do mercado, certamente pela intrínseca inviabilidade comercial do género. E o surgimento de novos poetas em semi-edição de autor, como é o caso de Miguel-Manso, por exemplo. Muito pouco.
Vale a pena proteger esta espécie em vias de extinção, a poesia? Bem, esquecendo o facto de a literatura ocidental ter começado com um poema - a Ilíada... na verdade, a principal razão para proteger esta espécie é essa. Defender projectos editoriais que publiquem poesia deveria ser uma causa intocável. Os poetas talvez não precisem de editoras para escrever; haverá sempre alguém que resista à normalização dos costumes. Mas certamente que a poesia devia continuar existir para quem não escreve. A modernidade utilitarista dispensa o uso da inutilidade, e não há coisa mais inútil que um poema - não "distrai", não conta uma história, não ajuda a pessoa. Aceitamos então este avanço em direcção a um risonho futuro sem inutilidades, excrescências de um tempo cuja seta aponta apenas para o futuro? Pergunto novamente: vale a pena defender um ofício inútil contra as investidas da uniformização cultural? Se há pergunta que tem resposta incluída é esta; é lamentável que a poesia se vá tornando um resquício do tempo que passa.
*Não costumo alterar textos publicados no blogue, como é evidente, mas tive de o fazer porque esta frase saiu diferente do que tinha escrito no rascunho inicial. É claro que a Quasi não foi a única editora a publicar novos poetas. Foi a mais importante, sem dúvida. O Dr. Henrique Fialho e o Sr. Fortinbras objectaram esta passagem do texto, por isso corrigi o que estava errado. Quanto ao resto, ficará para outras núpcias.
13/10/09
Humor de risco

Outro exemplo de uma opção editorial esteticamente irrepreensível mas que, do ponto de vista prático, acaba por ser um desastre, é a nova colecção de literatura de humor dirigida por Ricardo Araújo Pereira para a editora Tinta-da-China. Neste momento, esta editora é, de longe, a referência para o sector na área gráfica. O trabalho de Vera Tavares tem sido fantástico, conseguindo estabelecer uma linha gráfica que associamos de imediato à editora, mantendo a individualidade de cada uma das colecções. Os dois títulos agora saídos, Os Cadernos de Pickwick, de Charles Dickens, e Jacques, o Fatalista, de Diderot, são exemplo de um arrojo estético assinalável. Mas ao estilo retro procurado pela designer poder-se-ia ter juntado um mínimo sentido prático, sem perder o ar chique que os livros sem dúvida exibem. O aspecto de livro antigo, sem lombada a proteger os cadernos, que ainda por cima estão unidos por costuras excessivamente frágeis, é um risco. E também não ajuda o facto de capa e contracapa não terem uma película a proteger o cartão de que são feitas. Ao fim de poucos dias na livraria, o papel que cobre esse cartão começou naturalmente a descolar. Dá que pensar na balança entre ganhos e prejuízos, quando os livreiros devolverem o que não se vende. Quantos exemplares estarão, nessa altura, irremediavelmente danificados?
Como não vender um livro
Esta é a capa do livro que reúne textos sobre a obra de Pedro Costa. Um belo objecto gráfico, sem dúvida, mas um conselho: não seria sensato pôr o nome do realizador na capa, um fotograma de um filme, qualquer coisa que fornecesse ao potencial leitor alguma informação sobre o conteúdo do livro? Ou achará o editor que todos os cinéfilos lêem suplementos literários, o mais provável meio de divulgação? Achará ele que o vil comércio conspurca qualquer obra de arte? 03/10/09
01/10/09
Bartleby Cavaco (reposição)
Cheguei a escrever em tempos um texto no qual chamava à colação Bartleby a propósito de Cavaco Silva; fazia, continua a fazer, todo o sentido: "eu poderia fazer, mas não o fiz; prefiro não o fazer; prefiro o silêncio ao erro". Mas os últimos desenvolvimentos da farsa nacional transformaram Cavaco num triste clown de Beckett, trágico, perdido, o derradeiro romântico. Por todo o lado vê inimigos e foge, dança, faz malabarismos, não deixa descansar o país, que deve estar em pulgas (deve, deve) para saber o que verdadeiramente o apoquenta (os esclarecimentos de ontem ainda sujaram mais as águas em que este caso foi navegando).
Mas, não será doutor Cavaco tudo o que aparenta ser? A trupe socratista alegremente canta a senilidade precoce do nosso presidente, talvez para esconder o receio que deve sentir perante o menear de ancas exótico que ele executa com mestria. O que se estará a passar na cabeça do presidente? Escutas, apenas são uma boa ideia enquanto forem tema de uma vaga suspeita; fragilidade do sistema informático, um pretexto para não se falar da suspeita; finalmente, lançar as culpas dos atritos para o PS, uma cortina de fumo para cobrir as verdadeiras intenções do Bartleby de Boliqueime. O Maquiavel da Marmeleira, Pacheco Pereira, já se atreve a sussurrar o que aí pode vir, mas estamos apenas no reino do faz-de-conta, com palminhas e tudo à mistura - preparar-se-à um mini golpe de estado? Haverá reais hipóteses do presidente não pedir ao líder do partido mais votado para formar governo? Dê por onde der, o rastilho para a instabilidade permanente até à queda de um governo minoritário já foi aceso. Será que ainda nos podemos dar ao luxo de pensar que o clown não sabe muito bem o que está a fazer?
(Ah, o texto que publiquei em 2006 é tão premonitório que tenho de o republicar aqui:
Talvez seja um equívoco, mas a meu favor joga o facto de qualquer opinião sofrer do defeito a que se pode chamar de sub-evidência: o que o futuro esconde nem sempre compensa a clarividência em relação ao passado. Mas a julgar pelo que temos visto nestes primeiros dois meses de presidência - Cavaco presidente, Cavaco presidente, habitua-te! - há uma coisa que não vai mudar na figura: o estilo Bartleby. O de Melville, o escrivão que, a certa altura, decide enveredar pelo estranho caminho do desvanecimento. A resposta de Bartleby, plena de um desarmante non-sense, não exige uma réplica ou uma arguência. É assim, subsiste por ela própria. "Preferia não o fazer." Em vão o chefe se esforça para convencer Bartleby da bondade dos seus pedidos, da justeza da sua autoridade, da imoralidade do procedimento do escrivão. A tudo, Bartleby prefere não fazer. Esconde-se a um canto do escritório, alimenta o rancor dos colegas e a ira do patrão, acaba por desaparecer, literalmente, vive no escritório e ninguém - a não ser o advogado que o contratou - dá pela sua presença. Cavaco, desde o "Tabu", cultiva o estilo Bartleby. "Vai recandidatar-se?" "Preferia não responder." "Candidata-se a presidente?" "Preferia não responder." "O aborto, que tal?" "Preferia não falar disso agora." "Poderes do presidente?" "Preferia não emitir uma opinião neste momento." "Lei da nacionalidade?" "Preferia não levantar ondas." "Aprova a política do governo para a saúde?" "Preferia abster-me de emitir uma opinião sobre o assunto." E assim estamos. Mutismo e respostas evasivas. Quem temia - ou desejava - uma vigência de Cavaco agressiva e conflituosa pode ir tirando o cavalinho da chuva. Esta vai ser a presidência Bartleby. Foi assim que ele conseguiu ganhar - à segunda, não esquecer - o voto dos portugueses, será assim que ele irá conquistar o coração de um povo. Combate de uma vida. Como em Melville, as respostas de Cavaco nada dizem porque nada pretendem dizer. Não ouvimos da sua boca a negativa peremptória ou a retumbante positiva, tudo é sim, mas se, talvez. "Preferia não o fazer, que maçada. Pensar, preocupar-me, levantar ondas, que sentido há nisto tudo?" Bartleby, o escrivão, acaba como uma personagem de Beckett - ah, bendito diacronismo! - prostrado contra o solo sob o peso da existência. Não se recusa a ser. Apenas preferia não o ser. Diferença fundamental, também em questões de retórica. Passando despercebido por entre as gotas de chuva.)
28/09/09
Em frente é o caminho
Vamos lá fingir que isto é a sério; houve uma eleição, o povo votou (60% dele, 60) e deu mais algum tempo ao político com o discurso mais vazio da política portuguesa. Sócrates não sabe o que é ideologia, não tem uma estratégia a longo prazo, vive para ser amado. Mas o povo gosta de McDonalds e de Sócrates e de Santana Lopes, e sempre gostou de Portas, quando ele andava pelas feiras ou a comprar submarinos, mais agora que decidiu eleger como principal bandeira do CDS o combate ao rendimento social de inserção. O povo gosta dele porque o povo não é parvo? Não, o povo é preconceituoso, diz mal do cigano que recebe do estado e do vizinho que está há um ano em casa; o povo tem pouco e quer que os outros tenham ainda menos. Por isso, votou Portas. A onda será breve, acredito, porque o centrão não gosta do populismo, venha ele de onde vier. Durará o tempo que durar o governo de coligação com Sócrates. Escrevo Sócrates porque o PS neste momento é Sócrates - Alegre espera que o apoiem na missão presidencial e vai-se calar bem caladinho se a coligação for para a frente. Seguindo em frente então, que Cavaco amanhã dirá se foi ou não escutado, e decidirá se há governo ou não, e de certeza que Sócrates já tem preparada a pele de cordeiro que irá usar durante os próximos tempos; não quatro anos, nunca, até às próximas eleições e ao regresso de um Messias qualquer que salve o PSD da obsolescência.
Mas se não fosse a sério, pensaríamos: coisa estranha que aconteceu aos líderes dos partidos no momento do discurso da vitória; eles, que se apressam sempre a lamentar os números da abstenção e o desinteresse geral dos portugueses, esqueceram-se de referir a ausência de 4 milhões. Ausência ou presença absoluta? O regime que nos tem governado faz por esquecer estes descontentes, mas, mais tarde ou mais cedo, o seu peso será insustentável.
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