Esta é a capa do livro que reúne textos sobre a obra de Pedro Costa. Um belo objecto gráfico, sem dúvida, mas um conselho: não seria sensato pôr o nome do realizador na capa, um fotograma de um filme, qualquer coisa que fornecesse ao potencial leitor alguma informação sobre o conteúdo do livro? Ou achará o editor que todos os cinéfilos lêem suplementos literários, o mais provável meio de divulgação? Achará ele que o vil comércio conspurca qualquer obra de arte? 13/10/09
Como não vender um livro
Esta é a capa do livro que reúne textos sobre a obra de Pedro Costa. Um belo objecto gráfico, sem dúvida, mas um conselho: não seria sensato pôr o nome do realizador na capa, um fotograma de um filme, qualquer coisa que fornecesse ao potencial leitor alguma informação sobre o conteúdo do livro? Ou achará o editor que todos os cinéfilos lêem suplementos literários, o mais provável meio de divulgação? Achará ele que o vil comércio conspurca qualquer obra de arte? 03/10/09
01/10/09
Bartleby Cavaco (reposição)
Cheguei a escrever em tempos um texto no qual chamava à colação Bartleby a propósito de Cavaco Silva; fazia, continua a fazer, todo o sentido: "eu poderia fazer, mas não o fiz; prefiro não o fazer; prefiro o silêncio ao erro". Mas os últimos desenvolvimentos da farsa nacional transformaram Cavaco num triste clown de Beckett, trágico, perdido, o derradeiro romântico. Por todo o lado vê inimigos e foge, dança, faz malabarismos, não deixa descansar o país, que deve estar em pulgas (deve, deve) para saber o que verdadeiramente o apoquenta (os esclarecimentos de ontem ainda sujaram mais as águas em que este caso foi navegando).
Mas, não será doutor Cavaco tudo o que aparenta ser? A trupe socratista alegremente canta a senilidade precoce do nosso presidente, talvez para esconder o receio que deve sentir perante o menear de ancas exótico que ele executa com mestria. O que se estará a passar na cabeça do presidente? Escutas, apenas são uma boa ideia enquanto forem tema de uma vaga suspeita; fragilidade do sistema informático, um pretexto para não se falar da suspeita; finalmente, lançar as culpas dos atritos para o PS, uma cortina de fumo para cobrir as verdadeiras intenções do Bartleby de Boliqueime. O Maquiavel da Marmeleira, Pacheco Pereira, já se atreve a sussurrar o que aí pode vir, mas estamos apenas no reino do faz-de-conta, com palminhas e tudo à mistura - preparar-se-à um mini golpe de estado? Haverá reais hipóteses do presidente não pedir ao líder do partido mais votado para formar governo? Dê por onde der, o rastilho para a instabilidade permanente até à queda de um governo minoritário já foi aceso. Será que ainda nos podemos dar ao luxo de pensar que o clown não sabe muito bem o que está a fazer?
(Ah, o texto que publiquei em 2006 é tão premonitório que tenho de o republicar aqui:
Talvez seja um equívoco, mas a meu favor joga o facto de qualquer opinião sofrer do defeito a que se pode chamar de sub-evidência: o que o futuro esconde nem sempre compensa a clarividência em relação ao passado. Mas a julgar pelo que temos visto nestes primeiros dois meses de presidência - Cavaco presidente, Cavaco presidente, habitua-te! - há uma coisa que não vai mudar na figura: o estilo Bartleby. O de Melville, o escrivão que, a certa altura, decide enveredar pelo estranho caminho do desvanecimento. A resposta de Bartleby, plena de um desarmante non-sense, não exige uma réplica ou uma arguência. É assim, subsiste por ela própria. "Preferia não o fazer." Em vão o chefe se esforça para convencer Bartleby da bondade dos seus pedidos, da justeza da sua autoridade, da imoralidade do procedimento do escrivão. A tudo, Bartleby prefere não fazer. Esconde-se a um canto do escritório, alimenta o rancor dos colegas e a ira do patrão, acaba por desaparecer, literalmente, vive no escritório e ninguém - a não ser o advogado que o contratou - dá pela sua presença. Cavaco, desde o "Tabu", cultiva o estilo Bartleby. "Vai recandidatar-se?" "Preferia não responder." "Candidata-se a presidente?" "Preferia não responder." "O aborto, que tal?" "Preferia não falar disso agora." "Poderes do presidente?" "Preferia não emitir uma opinião neste momento." "Lei da nacionalidade?" "Preferia não levantar ondas." "Aprova a política do governo para a saúde?" "Preferia abster-me de emitir uma opinião sobre o assunto." E assim estamos. Mutismo e respostas evasivas. Quem temia - ou desejava - uma vigência de Cavaco agressiva e conflituosa pode ir tirando o cavalinho da chuva. Esta vai ser a presidência Bartleby. Foi assim que ele conseguiu ganhar - à segunda, não esquecer - o voto dos portugueses, será assim que ele irá conquistar o coração de um povo. Combate de uma vida. Como em Melville, as respostas de Cavaco nada dizem porque nada pretendem dizer. Não ouvimos da sua boca a negativa peremptória ou a retumbante positiva, tudo é sim, mas se, talvez. "Preferia não o fazer, que maçada. Pensar, preocupar-me, levantar ondas, que sentido há nisto tudo?" Bartleby, o escrivão, acaba como uma personagem de Beckett - ah, bendito diacronismo! - prostrado contra o solo sob o peso da existência. Não se recusa a ser. Apenas preferia não o ser. Diferença fundamental, também em questões de retórica. Passando despercebido por entre as gotas de chuva.)
28/09/09
Em frente é o caminho
Vamos lá fingir que isto é a sério; houve uma eleição, o povo votou (60% dele, 60) e deu mais algum tempo ao político com o discurso mais vazio da política portuguesa. Sócrates não sabe o que é ideologia, não tem uma estratégia a longo prazo, vive para ser amado. Mas o povo gosta de McDonalds e de Sócrates e de Santana Lopes, e sempre gostou de Portas, quando ele andava pelas feiras ou a comprar submarinos, mais agora que decidiu eleger como principal bandeira do CDS o combate ao rendimento social de inserção. O povo gosta dele porque o povo não é parvo? Não, o povo é preconceituoso, diz mal do cigano que recebe do estado e do vizinho que está há um ano em casa; o povo tem pouco e quer que os outros tenham ainda menos. Por isso, votou Portas. A onda será breve, acredito, porque o centrão não gosta do populismo, venha ele de onde vier. Durará o tempo que durar o governo de coligação com Sócrates. Escrevo Sócrates porque o PS neste momento é Sócrates - Alegre espera que o apoiem na missão presidencial e vai-se calar bem caladinho se a coligação for para a frente. Seguindo em frente então, que Cavaco amanhã dirá se foi ou não escutado, e decidirá se há governo ou não, e de certeza que Sócrates já tem preparada a pele de cordeiro que irá usar durante os próximos tempos; não quatro anos, nunca, até às próximas eleições e ao regresso de um Messias qualquer que salve o PSD da obsolescência.
Mas se não fosse a sério, pensaríamos: coisa estranha que aconteceu aos líderes dos partidos no momento do discurso da vitória; eles, que se apressam sempre a lamentar os números da abstenção e o desinteresse geral dos portugueses, esqueceram-se de referir a ausência de 4 milhões. Ausência ou presença absoluta? O regime que nos tem governado faz por esquecer estes descontentes, mas, mais tarde ou mais cedo, o seu peso será insustentável.
25/09/09
O poder e o povo

Fuck! (Com ponto de exclamação e tudo.) Mais quatro anos de Sócrates em desmando total. Que porra de país é este que gosta tanto de chafurdar na lama. Merecemos todo o mal que temos e mais algum que venha. Conspirações, corrupção, controlo dos media, difamação, promessas vãs, dirigismo, agências de comunicação, incompetência, muita incompetência, políticos vazios e oportunistas à espera da próxima grande empresa pública, mais incompetência, arrogância, prepotência, falsidade, ainda mais incompetência e todos os países da União Europeia que ainda estão atrás de Portugal a passarem-nos à velocidade de um TGV, obrigado portugueses por me terem dado 8 anos (e mais 8) de Cavaco absolutista e agora a mesma receita de Sócrates. Merecem todo o meu asco e o desejo de que o pior vos aconteça - porque aos políticos nada acontecerá, nem que o país se afunde num buraco negro.
24/09/09
Tarantinesco (2)
O pathos, obrigatória conclusão de qualquer grande tragédia, em Sacanas sem Lei, aparece numa cena cómica, e isso diz tudo acerca das intenções de Tarantino. Existe um esvaziar de tensão na cena da conversa entre Landa e os basterds americanos, e o cómico da situação (há muito que não me ria tanto num filme) vem não tanto da piada em si - a total falta de aptidão dos americanos para as línguas estrangeiras é um tema abundantemente glosado - mas do modo como Tarantino gere a tensão interna da obra: no momento em que o plano pode ser descoberto, e tudo tem de funcionar na perfeição, percebemos como não há a mínima hipótese de o grupo de sabotadores conseguir ter êxito.
Ora, é evidente que, ao longo de toda a obra de Tarantino, as imagens nascem das palavras; são os diálogos que sustentam a narrativa e a punchline certa é o maná que o realizador procura a cada momento. Como numa comédia, mesmo que exista uma forçada necessidade de gravidade, talvez porque a crítica não se tem cansado de repetir, desde Cães Danados, que o génio de Tarantino precisa de um filme sério para se tornar imortal (como se, por exemplo, Some Like it Hot não fosse um filme sério).
O que resta, então? Algumas sequências que emulam os clássicos, discretamente dissimuladas por entre camadas de auto-ironia e diálogos delirantes: a cena, em Jackie Brown, da execução por Samuel L. Jackson do traficante (Chris Tucker) é uma homenagem ao Orson Welles da abertura de Touch of Evil, e em Basterds há a tal porta aberta para o horizonte que sinaliza a aproximação a John Ford, um pastiche quase vergonhoso (como se fosse um spoof) ao mestre do western.
Entre esta pressão de gravidade que alguma crítica impõe e o assumir do cómico como género preferencial, o indesmentível génio de Tarantino vai-se emaranhando. Talvez ele nem se importe com isto -mas parece que ficou aborrecido por não ter recebido a segunda Palma de Ouro. O primeiro prémio em Cannes, recebido por Pulp Fiction, é sinal da alguma coisa: o maníaco descontrolo metaficcional e xunga é o território onde o cineasta se sente mais à vontade. Chega de querer fazer uma obra-prima. O mais provável é já ter conseguido o feito.
18/09/09
Tarantinesco
Se algum defeito se pode encontrar nos filmes de Tarantino é o de padecerem de um défice de emoção. Desde Cães Danados que o realizador vem fabricando perfeitos exercícios formais, ensaios pós-modernos, bulímicos e auto-irónicos, festins virtuosos e exibicionistas para cinéfilos mais ou menos reticentes. A verdade é que, ao sucesso crítico mais ou menos unânime, Tarantino tem juntado a aclamação do grande público. Todos os ingredientes que agradam ao gosto geral estão lá: a violência gráfica caricatural, as citações pop, a recuperação de actores que foram de alguma maneira ícones xunga recentes. À superfície, os filmes de Tarantino são bombons comerciais para serem degustados por toda a gente - e têm-no sido, com a surpreendente excepção de À Prova de Morte, que talvez não tenha tido o mesmo êxito por ter um sabor ainda mais exótico do que as restantes obras; mas as segundas e terceiras leituras que os filmes podem ter levam a que o resto do público (aquele que tem, ou julga ter, as armas certas para a descodificação de um cinema mais exigente) se renda. É claro que o snobismo destes cinéfilos desconfia da popularidade do realizador; mas a frieza cerebral, o modo como Tarantino gere as remissões para outras obras e a destreza técnica insuperável que demonstra em cada plano de cada filme (no fundo, ele é comprovadamente um génio), acaba por desarmar as eventuais perplexidades críticas deste grupo. E o pleno é quase conseguido. Mas... a verdade é que tanto fogo-de-artifício, tanta exuberância formal, acaba por esvaziar os filmes daquilo que, julgo, é a essência do cinema: a emoção. Como Brian de Palma e Copolla, Sergio Leone e John Ford, Tarantino acaba por perder o combate com o outro grande realizador da actualidade, David Lynch. E porquê?
(continua)
11/09/09
Sinédoque, Nova Iorque (2)

Tanta ambição de Charlie Kaufman acaba por ser submetida ao espartilho da sua inexperiência. E o principal problema do filme é mesmo o facto de Kaufman não ter sabido encontrar um imaginário visual que espelhasse na perfeição o delírio do argumento. A ideia de um teatro onde é encenada uma vida (ou várias), não sendo nova, poderia sempre ser desenvolvida de um modo original (parece-me); mas os caminhos que o argumento segue - são sempre as palavras a escolher as imagens e não o contrário - perdem-se num horizonte confuso e estéril. O cenário gigantesco escolhido pelo encenador para pôr em andamento a representação do tempo da sua existência (a substituição do todo pela parte, a sinédoque do título), comparado por exemplo com aquele montado num filme com algumas parecenças com este, The Truman Show, é de uma eficácia reduzida. Os espelhos que se multiplicam - como num quadro de Magritte - vão perdendo o brilho e a capacidade de reflectir a realidade; à medida que o filme vai avançando - e o tempo vai passando, no ecrã e cá fora - vamos perdendo de vista as personagens. E seria este o objectivo de Kaufman. Mas o esforço intelectual do realizador deixa de parte algum risco, instinto. A loucura é controlada, e não chega a ser dado o salto, o golpe de asa, para que o filme seja grande. Talvez o objectivo de Kaufman seja reproduzir em filme a sensação de opacidade baça que cobre o quotidiano, a passagem dos dias. O problema é que o cinema depende do movimento, da mudança, do drama. Caso contrário, é apenas um longo e culpado bocejo.
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