24/09/09

Tarantinesco (2)


O pathos, obrigatória conclusão de qualquer grande tragédia, em Sacanas sem Lei, aparece numa cena cómica, e isso diz tudo acerca das intenções de Tarantino. Existe um esvaziar de tensão na cena da conversa entre Landa e os basterds americanos, e o cómico da situação (há muito que não me ria tanto num filme) vem não tanto da piada em si - a total falta de aptidão dos americanos para as línguas estrangeiras é um tema abundantemente glosado - mas do modo como Tarantino gere a tensão interna da obra: no momento em que o plano pode ser descoberto, e tudo tem de funcionar na perfeição, percebemos como não há a mínima hipótese de o grupo de sabotadores conseguir ter êxito.
Ora, é evidente que, ao longo de toda a obra de Tarantino, as imagens nascem das palavras; são os diálogos que sustentam a narrativa e a punchline certa é o maná que o realizador procura a cada momento. Como numa comédia, mesmo que exista uma forçada necessidade de gravidade, talvez porque a crítica não se tem cansado de repetir, desde Cães Danados, que o génio de Tarantino precisa de um filme sério para se tornar imortal (como se, por exemplo, Some Like it Hot não fosse um filme sério).
O que resta, então? Algumas sequências que emulam os clássicos, discretamente dissimuladas por entre camadas de auto-ironia e diálogos delirantes: a cena, em Jackie Brown, da execução por Samuel L. Jackson do traficante (Chris Tucker) é uma homenagem ao Orson Welles da abertura de Touch of Evil, e em Basterds há a tal porta aberta para o horizonte que sinaliza a aproximação a John Ford, um pastiche quase vergonhoso (como se fosse um spoof) ao mestre do western.
Entre esta pressão de gravidade que alguma crítica impõe e o assumir do cómico como género preferencial, o indesmentível génio de Tarantino vai-se emaranhando. Talvez ele nem se importe com isto -mas parece que ficou aborrecido por não ter recebido a segunda Palma de Ouro. O primeiro prémio em Cannes, recebido por Pulp Fiction, é sinal da alguma coisa: o maníaco descontrolo metaficcional e xunga é o território onde o cineasta se sente mais à vontade. Chega de querer fazer uma obra-prima. O mais provável é já ter conseguido o feito.

18/09/09

Tarantinesco

Se algum defeito se pode encontrar nos filmes de Tarantino é o de padecerem de um défice de emoção. Desde Cães Danados que o realizador vem fabricando perfeitos exercícios formais, ensaios pós-modernos, bulímicos e auto-irónicos, festins virtuosos e exibicionistas para cinéfilos mais ou menos reticentes. A verdade é que, ao sucesso crítico mais ou menos unânime, Tarantino tem juntado a aclamação do grande público. Todos os ingredientes que agradam ao gosto geral estão lá: a violência gráfica caricatural, as citações pop, a recuperação de actores que foram de alguma maneira ícones xunga recentes. À superfície, os filmes de Tarantino são bombons comerciais para serem degustados por toda a gente - e têm-no sido, com a surpreendente excepção de À Prova de Morte, que talvez não tenha tido o mesmo êxito por ter um sabor ainda mais exótico do que as restantes obras; mas as segundas e terceiras leituras que os filmes podem ter levam a que o resto do público (aquele que tem, ou julga ter, as armas certas para a descodificação de um cinema mais exigente) se renda. É claro que o snobismo destes cinéfilos desconfia da popularidade do realizador; mas a frieza cerebral, o modo como Tarantino gere as remissões para outras obras e a destreza técnica insuperável que demonstra em cada plano de cada filme (no fundo, ele é comprovadamente um génio), acaba por desarmar as eventuais perplexidades críticas deste grupo. E o pleno é quase conseguido. Mas... a verdade é que tanto fogo-de-artifício, tanta exuberância formal, acaba por esvaziar os filmes daquilo que, julgo, é a essência do cinema: a emoção. Como Brian de Palma e Copolla, Sergio Leone e John Ford, Tarantino acaba por perder o combate com o outro grande realizador da actualidade, David Lynch. E porquê?

(continua)

11/09/09

Sinédoque, Nova Iorque (2)

Tanta ambição de Charlie Kaufman acaba por ser submetida ao espartilho da sua inexperiência. E o principal problema do filme é mesmo o facto de Kaufman não ter sabido encontrar um imaginário visual que espelhasse na perfeição o delírio do argumento. A ideia de um teatro onde é encenada uma vida (ou várias), não sendo nova, poderia sempre ser desenvolvida de um modo original (parece-me); mas os caminhos que o argumento segue - são sempre as palavras a escolher as imagens e não o contrário - perdem-se num horizonte confuso e estéril. O cenário gigantesco escolhido pelo encenador para pôr em andamento a representação do tempo da sua existência (a substituição do todo pela parte, a sinédoque do título), comparado por exemplo com aquele montado num filme com algumas parecenças com este, The Truman Show, é de uma eficácia reduzida. Os espelhos que se multiplicam - como num quadro de Magritte - vão perdendo o brilho e a capacidade de reflectir a realidade; à medida que o filme vai avançando - e o tempo vai passando, no ecrã e cá fora - vamos perdendo de vista as personagens. E seria este o objectivo de Kaufman. Mas o esforço intelectual do realizador deixa de parte algum risco, instinto. A loucura é controlada, e não chega a ser dado o salto, o golpe de asa, para que o filme seja grande. Talvez o objectivo de Kaufman seja reproduzir em filme a sensação de opacidade baça que cobre o quotidiano, a passagem dos dias. O problema é que o cinema depende do movimento, da mudança, do drama. Caso contrário, é apenas um longo e culpado bocejo.

08/09/09

Poppy

O Pedro Mexia também serve para estas coisas: lembrar as melhores linhas do filme mais subvalorizado do ano passado. Obrigado pelo regresso.

HELEN: But you want a baby, though, don’t you, Poppy? (…)
POPPY: Maybe. Who knows?
HELEN: At thirty-five, you’re considered a high-risk mum.
POPPY: Oh, give me a chance - I’ve just turned thirty!
HELEN: It’s only five years away. You’ve got to make plans.
POPPY: What, Five-Year Plan? Like Stalin?

(Se fosse preciso escolher o nome mais adequado a uma personagem da história do cinema, Poppy levaria sempre o meu voto.)

03/09/09

Sinédoque, Nova Iorque

Os argumentos de Charlie Kaufman e a sua ostensiva genialidade têm tido, até agora, justas transposições para o grande ecrã, com maior ou menor originalidade. À simplicidade visual de Spike Jonze, quase naturalista, opôs-se o delírio cromático de Michel Gondry. Mas a eficácia destes dois realizadores tem sido notória. E é verdade que Gondry sem as palavras de Kaufman é vazio e desarticulado: basta comparar a energia romântica que anima Eternal Sunshine of the Spotless Mind com as peças soltas de que é feito A Ciência dos Sonhos; há uma ausência notória de continuidade no fio narrativo.
Sinédoque, Nova Iorque consegue mostrar de que modo se articula a relação entre palavras e imagens nos filmes idealizados por Kaufman. A sua primeira realização mostra todas as virtudes que lhe conhecíamos: a estilização de um quotidiano delirante, a criação de personagens bizarras presas numa normalidade sufocante, o labor certeiro na criação de um mundo que é apenas uma consequência da vontade das personagens, a representação de uma ideia. O exterior é o cenário de um sonho: a cabeça de John Malkovich, a esquizofrenia de Kaufman, ele próprio, em Inadaptado, a memória perdida e reencontrada de Joel e Clementine em Eternal Sunshine. Sinédoque, Nova Iorque vai mais longe na fórmula: a realidade sonhada não é apenas alternativa à realidade real, torna-se ela própria realidade: a peça encenada por Caden (Philipp Seymour Hoffman estranhamente adormecido) vai tomando conta da vida até ser a própria vida, como é escrito por Shakespeare, em As You Like It:

All the world's a stage,
And all the men and women merely players;
They have their exits and their entrances;
And one man in his time plays many parts,
His acts being seven ages. At first the infant,
Mewling and puking in the nurse's arms;
And then the whining school-boy, with his satchel
And shining morning face, creeping like snail
Unwillingly to school. And then the lover,
Sighing like furnace, with a woeful ballad
Made to his mistress' brow. Then a soldier,
Full of strange oaths, and bearded like the pard,
Jealous in honour, sudden and quick in quarrel,
Seeking the bubble reputation
Even in the cannon's mouth. And then the justice,
In fair round belly with good capon lin'd,
With eyes severe and beard of formal cut,
Full of wise saws and modern instances;
And so he plays his part. The sixth age shifts
Into the lean and slipper'd pantaloon,
With spectacles on nose and pouch on side;
His youthful hose, well sav'd, a world too wide
For his shrunk shank; and his big manly voice,
Turning again toward childish treble, pipes
And whistles in his sound. Last scene of all,
That ends this strange eventful history,
Is second childishness and mere oblivion;
Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything.

(continua)

02/09/09

Jean

Andei de rua em rua, à procura. Tinha decorado os lugares no mapa, mas acabo por nunca decorar realmente nada. No cemitério de Montparnasse, mais um dia de turismo necrológico - Paris parece servir também para isso. Sartre muito bem composto ao lado de Simone, alguns (poucos) papéis com dedicatórias e beijos, Gainsbourg deitado em eterno repouso, campa coberta de flores, cigarros, alguns charros, poemas amarrotados e lábios de batôn desenhados no mármore frio, Gainsbourg destacando-se dos restantes mortos.
Por acaso, deparo no mapa com um nome, primeiro: Paul Belmondo. Paul Belmondo? Não, não, o actor está bem vivo, é o pai, escultor. Certo. E Jean Seberg, a americana exilada, a americana em Paris que tem feito sonhar gerações de cinéfilos. A americana paranóica, descobri numa notícia recente, que acreditava ser perseguida pela CIA. A mulher de Romain Gary, a Joana d'Arc esquecida de Preminger. Apesar de ter trabalhado com Godard apenas em O Acossado, ela é, mais do que Anna Karina, o rosto da Nouvelle Vague. A estudante americana que vende jornais nos Champs-Élysées, naquela rua. Passei pelo número indicado e não a vi, avancei, retrocedi e, absolutamente discreta, lá estava ela. Pedra nua, despojada, sem oferendas ou cartas de amor. Nem flores; algumas pedrinhas apenas sublinhavam um qualquer legado transcendente para quem não soubesse quem foi Jean Seberg.
Morreu a 30 de Agosto de 1979, em Paris.
Mas eu não a encontrei lá.

29/07/09

Será humano ou dançarino?

Em todo este miserável caso do crítico censurado em público por uma das suas chefias, o que me deixou verdadeiramente surpreendido - não me surpreenderam os 200 comentários indignados nem a carta da direcção do Belenenses, porque a ignorância exige sempre os seus direitos, neste caso o direito a existir - foi o sub-director que decidiu escrever em editorial contra um dos seus, por uma questão de pormenor, ou pior, de estilo. João Bonifácio é, actualmente, e assumo a subjectividade desta afirmação, o melhor crítico musical (na área do pop-rock) a escrever em jornais nacionais (esquecendo João Lisboa); tem um estilo original, e assume essa originalidade sem preconceitos, e isto por cá é raríssimo (o principal problema) - mas ele lê, e bem, o que os críticos estrangeiros fazem, e decidiu seguir o bom exemplo. Já não é a primeira vez que esta originalidade provoca polémica - da primeira, não passou dos blogues, mas ele lá teve de vir explicar, falar daquele lugar-comum de que escrever sobre música é como dançar sobre a arquitectura. A partir deste ponto de subjectividade absoluta, tudo deveria ser permitido, e não me parece que não vivamos numa sociedade que defenda a liberdade de expressão. Mas Nuno Pacheco, contrariando a ideia que eu tinha dele - como sendo o sub-director mais lúcido do Público - cede à chantagem de um clube de futebol e, vamos lá ver qual é o termo técnico, baixa as calcinhas pedindo perdão ao Belenenses e às centenas (???) de leitores indignados com o bruto do crítico. Um texto crítico, de opinião, que me fez rir logo na abertura, com a aquela referência ao deserto que é o estádio do Restelo - e se querem verdade e dignidade, o estádio do Restelo é mesmo um deserto em dias de bola, uma tristeza de espectáculo que deveria envergonhar os dirigentes do clube - um texto bem escrito que mereceu a censura sem ter sido sequer referido - falta de educação - o nome do crítico em questão - Nuno Pacheco fala apenas de um colega. Como muito bem escreve o Luís Miguel Oliveira, "ofender muçulmanos está bem, ofender o Belenenses é que não?" Palavras para quê, é um artista português.
Sou bem capaz de começar a comprar apenas o I. E isto não é uma ameaça.

27/07/09

Estrada perdida

Vi sobre o fumo uma sombra, subindo desde a estrada. Aproximei-me. Mais perto o limite da sombra, e descobri que quanto mais focava o olhar mais a imagem se desfocava. Aproximei-me um pouco. Corria sobre o motor do carro um vento quente, pareceu-me por momentos percorrer alguma estrada do deserto onde em tempos me perdera. Nessa jornada aprendi muita coisa. A mais importante terá sido como descobrir através da memória das mãos que lhe tocaram a geografia das linhas que se encurvam para dentro com o passar do tempo. Entretanto, o carro arrancava envolto em pó. Pensei no homem que ao volante fingia conduzir. Julguei detectar um sorriso no centro do rosto marcado pelas rugas. Enganei-me. Quando mais tarde entrei em casa e vi uma vez mais o rosto dela, preso de uma luz gritando entranhas! preso de uma sombra onde se reflectia, com uma nitidez dolorosa, o fumo que ascendia do cadáver de metal ardendo na praia, jurei desvendar, a quem estivesse disposto a ouvir, o segredo que permitia que o tempo se encurvasse tanto (como as linhas dela) ao ponto de tocar no extremo um outro presente que entretanto recomeça o seu cadenciado avanço, onde eu reentro em casa, mão no metal, e sou por ela surpreendido, estendida contra a vaga de fumo ardendo de dentro do tempo. Abrindo os braços, caindo no corpo que sussurra entranhas... escorrendo para o território de sombra, o passado.

(Reconstrução de um texto antigo do Arquivo Fantasma)

26/07/09

O pseudo choque das civilizações

Alguém sabe o que é a Chiado editora? Que livros publicaram eles, que novidades trouxeram ao mercado editorial português, quem terão contratado para o seu catálogo, que prémios os seus autores terão recebido? Terão construído um nome, criado um público fiel, fidelizado os livreiros? Quantos livros venderam no último ano? É apenas isso que precisamos de saber, antes de comentar o fantástico (?) golpe publicitário que envolve a hipotética edição de um livro eventualmente ofensivo para a OLP, ou lá o que é. Fantástico, porque, para além de meia dúzia de blogues e alguns jornalistas contratados dos jornais nacionais, no one gives a flying fuck sobre a Chiado editora e o livro sobre Arafat escrito por André Ventura. Já entrámos na silly season, não foi? É isso, não é? Confessem!

23/07/09

O declínio da cultura francesa

Mais do que o declínio das letras francesas, o que se vê por cá, e neste caso o que cá se passa serve de falsa medida do mundo, é o progressivo desinteresse pela cultura e literatura de língua francesa. A língua inglesa é a língua franca do mundo actual, e um intelectual francófono uma espécie em vias de extinção. Esta verdade evidencia que esse declínio é, ou poderá ser, uma ilusão; porque o desinteresse é cada vez maior, cada vez menos se valoriza a literatura francesa. O Nobel de Le Clézio, o ano passado, foi recebido com alguma perplexidade um pouco por todo o lado, mas a realidade é que o desdém mostrado por cá não passou de um espelho do que passou nos E.U.A., o que reforça a ideia de um predomínio da cultura de língua inglesa.
Contudo, basta entrar numa livraria francesa para se perceber que a riqueza do panorama editorial é fulminante; a diversidade de edições, a aposta no livro de bolso, muito mais barato, a proliferação de traduções em todas as áreas das ciências sociais, e sobretudo a visível oferta de livros traduzidos da maior parte das língua existentes, feita sempre do original (é ponto de honra para os franceses, não há traduções em segunda mão, ao contrário do que acontece, tristemente, por cá), mostram que, de certo modo, o público francês está muito mais bem servido do que o inglês ou norte-americano. Não tendo acesso aos números reais, quer-me parecer que será muito mais fácil encontrar um poeta africano ou um romancista coreano numa livraria francesa do que numa inglesa. Não é uma questão de superioridade cultural, mas a verdade é que a abertura ao mundo é uma vantagem que se revela nesta característica do meio cultural francês. E bem podemos estar gratos que assim seja; é muito mais fácil encontrar um autor português traduzido em língua francesa do que em inglês. Muitas vezes com referências críticas nos suplementos culturais dos jornais ou em revistas especializadas, como aconteceu recentemente com Gonçalo M. Tavares e José Carlos Fernandes.