Alguém sabe o que é a Chiado editora? Que livros publicaram eles, que novidades trouxeram ao mercado editorial português, quem terão contratado para o seu catálogo, que prémios os seus autores terão recebido? Terão construído um nome, criado um público fiel, fidelizado os livreiros? Quantos livros venderam no último ano? É apenas isso que precisamos de saber, antes de comentar o fantástico (?) golpe publicitário que envolve a hipotética edição de um livro eventualmente ofensivo para a OLP, ou lá o que é. Fantástico, porque, para além de meia dúzia de blogues e alguns jornalistas contratados dos jornais nacionais, no one gives a flying fuck sobre a Chiado editora e o livro sobre Arafat escrito por André Ventura. Já entrámos na silly season, não foi? É isso, não é? Confessem!
26/07/09
23/07/09
O declínio da cultura francesa
Mais do que o declínio das letras francesas, o que se vê por cá, e neste caso o que cá se passa serve de falsa medida do mundo, é o progressivo desinteresse pela cultura e literatura de língua francesa. A língua inglesa é a língua franca do mundo actual, e um intelectual francófono uma espécie em vias de extinção. Esta verdade evidencia que esse declínio é, ou poderá ser, uma ilusão; porque o desinteresse é cada vez maior, cada vez menos se valoriza a literatura francesa. O Nobel de Le Clézio, o ano passado, foi recebido com alguma perplexidade um pouco por todo o lado, mas a realidade é que o desdém mostrado por cá não passou de um espelho do que passou nos E.U.A., o que reforça a ideia de um predomínio da cultura de língua inglesa.
Contudo, basta entrar numa livraria francesa para se perceber que a riqueza do panorama editorial é fulminante; a diversidade de edições, a aposta no livro de bolso, muito mais barato, a proliferação de traduções em todas as áreas das ciências sociais, e sobretudo a visível oferta de livros traduzidos da maior parte das língua existentes, feita sempre do original (é ponto de honra para os franceses, não há traduções em segunda mão, ao contrário do que acontece, tristemente, por cá), mostram que, de certo modo, o público francês está muito mais bem servido do que o inglês ou norte-americano. Não tendo acesso aos números reais, quer-me parecer que será muito mais fácil encontrar um poeta africano ou um romancista coreano numa livraria francesa do que numa inglesa. Não é uma questão de superioridade cultural, mas a verdade é que a abertura ao mundo é uma vantagem que se revela nesta característica do meio cultural francês. E bem podemos estar gratos que assim seja; é muito mais fácil encontrar um autor português traduzido em língua francesa do que em inglês. Muitas vezes com referências críticas nos suplementos culturais dos jornais ou em revistas especializadas, como aconteceu recentemente com Gonçalo M. Tavares e José Carlos Fernandes.
21/07/09
A República
O bairro onde fiquei, a dois passos da Place de la Repúblique, é uma saudável mistura de várias culturas. Há restaurantes italianos e tascas turcas, lojas de magrebinos e cabeleireiros ao estilo africano, um ou outro português e alguns brasileiros, uma lavandaria chinesa e uma esquina de rua que coincide com a saída do metro, o que quer dizer que funciona como ponto de encontro de toda a gente que por ali passa. No dia em que cheguei, tive de esperar quase uma hora pelo dono da casa onde fiquei alojado; a natureza transitória do lugar é evidente: de passagem, os franceses regressam a casa ao fim de um dia de trabalho, ou começam a noite. Vêem-se homens ainda de fato e adolescentes produzidas para a noite, homens africanos falando alto em frente ao supermercado; um deles assa maçarocas que vende clandestinamente aos outros. O controlo de higiene e qualidade da União Europeia continua a encontrar bolsas de resistência entre as comunidades de imigrantes, um sinal de uma possível resistência. Não encontrei cafés ou restaurantes onde fosse permitido fumar, mas as esplanadas estavam sempre cheias de fumadores, e certamente que o vício, por muito que custe aos legisladores higienistas, não está a caminho da extinção. Talvez esta liberdade absoluta dos estrangeiros seja o que verdadeiramente ameaça uma pátria; certamente que a polícia francesa é prova disso: em cinco dias vi três intervenções dos gendarmes no bairro, uma vez numa mercearia magrebina, outra numa operação stop que terminou com a prisão do condutor do veículo (pareceu-me) e a mais grave: uma rusga num restaurante, não sei por que motivo, que acabou com um sobrolho aberto de um polícia e uma aglomeração de colegas nervosos em socorro do ferido. Pensei nos motins nos bairros da periferia, e, de fora, julgo que o nervosismo dos polícias não será pacificador quando a tensão surge. Ao contrário do que acontece em Portugal, ao minímo desafio os agentes da autoridade parecem reagir em força (mas três vezes podem não servir de regra). Os malefícios da multiculturalidade passarão por aqui?
20/07/09
Pont-Neuf
A perfeição não é apenas a simples geometria regular das ruas e a certeza dos acontecimentos. O caos francês talvez seja mais apaixonante do que o rigor alemão - e quem sabe, de entre as cidades que eu não vi, qual conseguirá conciliar estes dois extremos?
O longo passeio do primeiro dia, da ilha de Notre Dâme até à torre Eiffel, mostrou-me um postal vivo, aquilo que todos conhecem. A margem esquerda, alguns vendedores que começavam a montar banca - era cedo - os edifícios do outro lado e a estrada rente ao rio, serpenteando cima abaixo, a sucessão de pontes, construídas em momentos diferentes, e as rampas que descem da rua principal e acompanham a água a intervalos regulares, a margem esquerda culminando na visita a Orsay, a antiga estação transformada no museu com um imbatível espólio de impressionistas. Mas logo nessa primeira caminhada cunhei essa impressão de desequilíbrio: por baixo de Pont-Neuf, lá estavam eles, como se tivessem surgido do filme de Leos Carax, os vagabundos dormindo por entre os pilares, espreitando os turistas que passam. Até a miséria - fatalmente - pode ser romântica; e a associação aos amantes da ponte, Juliette Binoche e Denis Lavant, inescapável para quem conhece (ou apenas ouviu falar de) o filme embeleza o que não pode ter beleza. A estética compromete a ética.
19/07/09
A Liberdade conduzindo o Povo

Em Paris, o lugar que mais senti como meu foi uma livraria inglesa - a Shakespeare & Co, claro -, o que, para além de dizer algo sobre o que é aquela cidade, diz bastante sobre aquilo que sou. Aquela conversa sobre viajar para reencontrarmos aquilo que deixámos, apesar de eu não ter certeza que se possa aplicar a um simples interlúdio turístico, e esquecendo a vulgaridade da ideia, terá alguma razão de ser. Os passos de séculos de um romantismo excessivo pesaram nos meus próprios passos. As expectativas elevadas podem fazer declinar uma sombra sobre o acontecimento - e eu já devia saber isso. O desfile dos lugares familiares - de uma cultura global que já me ofereceu a Mona Lisa antes de a observar, por exemplo - foi-se fazendo na esperança de uma descoberta - como Berlim, que me surpreendeu a cada momento -, e sem essa descoberta o sentido torna-se nebuloso. Mas a verdade é que o espírito do lugar reapareceu - apenas depois de voltar a casa. À organização anglo-saxónica (extremada pelos germânicos) contrapõe-se o desleixo decadente de uma sociedade que parece não saber conciliar os valores da Revolução com as mudanças que foi sofrendo; mais, a História francesa mostra que a traição a esses valores - Igualdade, Fraternidade, Liberdade - foi uma questão de tempo, quando não de forma, guilhotina e Napoleão incluídos, o que apenas acentua o labirinto em que o país se foi embrenhando.
Uma mãe a explicar a duas crianças o significado do quadro "A Liberdade conduzindo o Povo", de Delacroix, é uma tarefa espinhosa. A mulher falava dos tais valores, pondo do lado de cá a República e do lado de lá a Monarquia. O tal paradoxo de um país que deve viver a sua História - Versalhes e a Bastilha destruída - entre a vergonha e o orgulho. Mas não são assim, todas as Nações?
14/06/09
A revelação
Andar em contraciclo e contra as modas obriga a uma férrea disciplina, e por isso leio Budapeste, de um Chico Buarque que nunca, nem como músico, me interessou por aí além. Agora que saiu Leite Derramado
, descubro o tal assombro de que falam. Ah, mas músico sabe escrever? Mas celebridade pode escrever, se expressar em mais de um meio, e sempre de forma excelente? Parece que Chico Buarque pode, e Budapeste está a ser uma revelação que possivelmente vai fazer com que a férrea disciplina seja quebrada. Agora, não me peçam para ler Montanha Mágica, nesta nova tradução e tal e tal. Haja paciência. Espero encontrar Hans Castorp num futuro mais ou menos longínquo. Talvez quando finalmente traduzirem Finnegan's Wake, a impossibilidade em letra de forma.
, descubro o tal assombro de que falam. Ah, mas músico sabe escrever? Mas celebridade pode escrever, se expressar em mais de um meio, e sempre de forma excelente? Parece que Chico Buarque pode, e Budapeste está a ser uma revelação que possivelmente vai fazer com que a férrea disciplina seja quebrada. Agora, não me peçam para ler Montanha Mágica, nesta nova tradução e tal e tal. Haja paciência. Espero encontrar Hans Castorp num futuro mais ou menos longínquo. Talvez quando finalmente traduzirem Finnegan's Wake, a impossibilidade em letra de forma.08/06/09
O espectáculo das eleições

A impossibilidade de olharmos para qualquer acontecimento exterior de modo inocente torna inevitável a construção de uma narrativa. Mas quando entre nós e o mundo se interpõe uma barreira, o conhecimento passa a ser ilusório, puro engano dos sentidos. Se essa barreira, mais do que ser opaca, é um espelho que distorce a realidade, quanto daquilo que vemos é passível de ser real?
O problema não é aceitarmos a inevitabilidade desta verdade, mas saber até que ponto é mais útil não saber nada do que se passa fora dos limites daquilo que não controlamos.
Olhando para a cobertura mediática da noite eleitoral, apercebemo-nos das narrativas que as televisões vão construindo. Da expectativa anterior às primeiras sondagens à boca da urna, prevendo um resultado num determinado sentido, até aos resultados definitivos, um longo caminho foi percorrido. Os comentadores, analistas, comendadores de serviço, debitaram quilómetros de opiniões, especulações, num festivo bombardeamento dos sentidos. Cada nova informação contribuía para que o espectador se afastasse mais da realidade. Dos erros das sondagens à surpresa da derrota, tudo parece ter sido preparado para que um grande espectáculo fosse assistido pelo maior número possível de pessoas. As marcas de uma obra de ficção estão à vista de todos: o suspense do fecho das urnas, os primeiros resultados, a expectativa sobre uma sondagem para as legislativas, os numerosos directos das sedes dos partidos com jornalistas ampliando os minutos de espera dos derrotados em marcação cerrada e mantendo a emissão numa euforia expectante enquanto os vencedores não entram. O mistério - políticos que abandonam as sedes partidárias -; o melodrama - políticos que choram no enfrentar das adversidades; a comédia - juventudes partidárias em encenadas celebrações; os diversos climaxes - o discurso de vitória, dedos no ar e punhos em riste, as pausas para que o público se manifeste. Indícios de um grande espectáculo, do outro lado do ecrã, para uma audiência de milhões. As narrativas que daqui saem mostram as sedes dos partidos vencedores cheias e eufóricas e as salas vazias dos vencidos depois do esvaziar da festa.
Depois de tudo ter terminado, resta aos jornalistas mais uma previsão, o preparar do terreno para a próxima perfomance do grande circo da política. Análises balofas, adivinhações, truques de ilusionismo que escondem derrotas, sobrevalorizações de resultados esperando mais vitórias.
E nós, do lado de cá do espelho, o que poderemos fazer para além de aceitar a realidade que nos oferecem?
05/06/09
Siri Hustvedt

No outro dia sonhei encontrar Siri Hustvedt e Paul Auster. Não era realidade, e eu sabia (no sonho). Eu sabia que sonhava pertencer a um livro e os encontrava a meio de um enredo austeriano. Auster regressara da Noruega e trouxera com ele aquela mulher belíssima, provocando a admiração de todos os homens. Contudo, a confiança que uma mulher deslumbrante poderia trazer era estranha a Auster. Ele olhava em redor, procurando o espanto alheio ou a até mesmo a inveja, como se fosse possível a um homem invejar outro por uma conquista amorosa, por mais bonita que seja a mulher. Seria um homem crente de que uma mulher bonita é mais caprichosa, e portanto disposta a ser levada por um vento diferente de modo mais fácil? Ou era ele apenas um fraco representante da raça masculina, incapaz de reunir poder a partir de uma conquista? Eu queria acreditar na segunda hipótese, e por isso fui-me aproximando dos dois provido de uma fé desrespeitosa. Pensava seduzir aquela beldade pálida e imaginar-me num filme de Hitchcock. Nem a diferença de alturas iria deter os meus avanços. Auster fraquejava e afastava-se, acudia a uma solicitação de outro leitor ou fugia de mim, deixava-me avançar no terreno de batalha. Ainda faltava saber que táctica utilizaria na aproximação. Inclinava-me para uma aproximação directa - não sabia se a devoção seria suficiente para o interesse de alguém inacessível. Pensei em frases de engate, fracas, inertes - o amante dela era escritor. Pensei em usar a franqueza de um bruto - mas ela era demasiado inteligente para tal coisa. Seria então a inteligência a arma que me serviria. Aproximava-me, e Auster era apenas uma miragem, um vulto entre uma multidão de leitores que faziam o meu trabalho sujo, distraiam-no o suficiente para que eu pudesse dar a estocada final. Ela estava sentada e sentei-me ao lado. Sussurrei a minha deixa ao ouvido; foi a última coisa que fiz, antes de acordar.
Kung Fu (David Carradine 1936-2009)

Há actores que valem mais pela presença do que pela técnica, pela adequação a uma personagem, ou pela composição de várias personagens próximas, construindo uma imagem que associamos de imediato a um corpo. Actores que não ganham Oscares (o pai dele, John, conseguiu um em Vinhas da Ira, de Ford) - mas deixam uma marca para a eternidade. É claro que David Carradine é um mito da minha infância. Na série Kung Fu, o herói que vagueia pelo Oeste não cavalga nem usa um revólver - caminha e usa as mãos e os pés enquanto medita. O zen cool deverá ter sido a razão pela qual Tarantino escolheu Carradine para o papel de Bill; o corpo envelhecido, a crueldade controlada, a piedade; sobretudo, a voz, pausada, cava, uma dicção extraordinária. A presença é essa tranquilidade que o transporta na tela. Restará isso.
03/06/09
A obscenidade dos comboios
Aquela última sequência da Intriga Internacional, de Hitchcock, quando vemos um comboio a entrar num túnel, imediatamente a seguir ao beijo de Cary Grant e Eva Marie Saint.
Não mostrar dizendo tudo. É assim que funcionam os sonhos: sublimam a realidade e substituem-na por símbolos. Freud teria razão. Sonhar com comboios apenas pode ser o óbvio.
Não mostrar dizendo tudo. É assim que funcionam os sonhos: sublimam a realidade e substituem-na por símbolos. Freud teria razão. Sonhar com comboios apenas pode ser o óbvio. Limitemo-nos à vida acordada. O prazer de viajar de comboio associa-se aos mistérios de infância. Recordo que vivia a poucos quilómetros de distância da linha do Oeste, e havia certas noites, quando o silêncio dominava, em que o ruído dos comboios nocturnos se podia ouvir, longe. Convenhamos que, para um adolescente assombrado pela insónia, aquele som vago, de origem incerta, podia ser aterrador. Não acreditava que os comboios pudessem circular à noite. Era tão simples como isso. Mas assustava-me a sério. E punha em andamento a máquina da imaginação criando sonhos inquietos.
Agora, o comboio é um utilitário. Usado diariamente, perde o halo misterioso que tinha. As viagens de longa distância, no entanto, continuam
a associar-se ao prazer, mas de outras coisas. Ler um livro numa viagem de Lisboa ao Porto, olhar a paisagem do Oeste, lembrar outros livros, como O Crime no Expresso do Oriente, passados em comboios. A razão do prazer: é como se fosse uma casa em movimento. Nós estamos lá parados, e já nos movemos. Sem darmos por isso, vamos de um ponto ao outro em pouco tempo. Paradoxos da relatividade. (Não nos podemos esquecer que o exemplo habitualmente utilizado para demonstrar a teoria da relatividade restrita tem a ver com andar de comboio. Porquê: a suspensão do tempo num comboio é quase palpável).
a associar-se ao prazer, mas de outras coisas. Ler um livro numa viagem de Lisboa ao Porto, olhar a paisagem do Oeste, lembrar outros livros, como O Crime no Expresso do Oriente, passados em comboios. A razão do prazer: é como se fosse uma casa em movimento. Nós estamos lá parados, e já nos movemos. Sem darmos por isso, vamos de um ponto ao outro em pouco tempo. Paradoxos da relatividade. (Não nos podemos esquecer que o exemplo habitualmente utilizado para demonstrar a teoria da relatividade restrita tem a ver com andar de comboio. Porquê: a suspensão do tempo num comboio é quase palpável).Lamento não ter feito o inter-rail, principalmente depois de ver o filme Antes do Amanhecer e o rosto absolutamente belo de Julie Delpy.
Mas uma obra de arte é sempre uma possibilidade remota, e não há romantismo que possa salvar dessa miragem estatística que é conhecer alguém como Delpy numa viagem de comboio.
Entre lamentações e declínios, talvez já não acredite em interpretações psicológicas; em comboios e em tudo o resto. Mas o prazer continua a existir. Sublimado ou não.
(Versão melhorada de um texto publicado no Arquivo Fantasma)
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