14/05/09

Qualidades (1)

O tema preferido do poeta é quase sempre ele próprio. Ou, se quisermos, o tema que mais se repete em toda a poesia é o poema em si, a razão de sua existência, o lugar no mundo, sobretudo o esplendor da sua importância. Em todo o livro de poesia publicado existe uma "arte poética"; o que isto quer dizer? Poderíamos pensar que este questionamento é compreensível, salutar; mas no fundo o que leva o poeta a reflectir sobre o que está a escrever - o acto da escrita, no presente, é um permanente ziguezague, e não consigo pensar em caminho mais ínvio do que o da auto-reflexividade - é a dúvida. A dúvida, mortal, sobre a validade do texto, sobre o domínio da técnica, sobre a coerência dos temas, sobre a qualidade, a "qualidade" que o poeta deve ter. O problema é que esta dúvida, intrinsecamente litarária, soma-se à maldita dúvida existencial. Já não bastava ao poema sofrer com o mundo, como ainda tem de sofrer com as inseguranças do poeta. É portanto avisado esquecermos aquela coisa romântica do carácter sublime da poesia, a forma literária mais perfeita; a poesia vive da fragilidade, da fraqueza; a pós-modernidade provou como ela é obsoleta. E o poeta, esse ser que recebe o sopro directamente de Deus, é uma espécie em vias de extinção. Por isso, pergunta, o que é isto que eu faço? Poesia é a anti-matéria por excelência, uma inutilidade num mundo marcado pela sItálicoupremacia do utilitarismo e da técnica. O poeta pode sempre escolher a via new-age: não podendo provar como é necessário ao mundo, mantém-se à margem dele, cultivando a distância e curtindo o ressentimento dos abnegados. Mas até esta margem é ilusória; o presente integrou as franjas da sociedade no seu corpo, não há lugar para poetas malditos. E os poetas que se dizem malditos podem dar-se ao luxo de fingir: os prazeres da burguesia são sempre uma boa desculpa para escrever poesia.

Mas alegremo-nos: as discussões sobre o vazio são sempre as que melhor nos conseguem esclarecer sobre a natureza humana. A "arte poética", brilhante e solipsista, é a prova da inutilidade da poesia. Mas como poderemos nós destruir o que é simplesmente belo?

12/05/09

Comboios

O tempo que demora uma viagem de comboio tem de servir exactamente para terminar o livro que andamos a ler; nem mais, nem menos. Deve-se por isso controlar o número de páginas antes, ler até ao ponto em que sabemos restar apenas o fim de história que irá preencher o tempo de duração da viagem - sesta incluida, cabeça encostada à janela luzindo de gordura, saliva ameaçando cair a qualquer momento.
Um cálculo errado pode arruinar o prazer; se lemos demasiado rápido, corremos o risco de o livro chegar ao fim duas estações antes. O horror! O que fazer até sairmos? Olhar pela janela, quando a noite acabou de cair? Espreitar os olhos da passageira fugidia que se sentou dois lugares à frente, só para poder observar de longe o observador? Nada parece certo; acabámos de sair de um território desconhecido, o aborrecimento do dia-a-dia não pode ser uma hipótese.
Mas pior é se, ao ser anunciada a estação em que devemos sair, ainda faltarem umas quantas páginas (demais) para acabar; a pressa, o pânico, a tentação de saltar linhas, parágrafos inteiros. Não vamos lá, e depois? Em casa? Teremos de esperar até que a calma doméstica permita algum tempo para retomar o que deixámos a meio, perto, muito perto da meta? Mas não será a mesma coisa. O intervalo é fatal; enquanto percorremos o caminho de casa, as personagens esvaem-se, em sangue, literal e figurativamente, desaparecem do nosso horizonte. E quando voltamos a pegar no livro, nem elas nem nós somos os mesmos. Imperdoável.
A duração, a flexibilidade da leitura, o movimento acampanhando o ritmo das palavras. Tudo se compõe no fim, no momento imediatamente anterior a uma voz soar: próxima estação...

05/05/09

Vasco Granja (1925-2009)



Cresci a ver os programas de animação apresentados por Vasco Granja; os Looney Tunes, os desenhos de leste (onde é que era a Checoslováquia? como poderia conhecer esse país que apenas existia porque um apresentador de um programa de televisão me falava dele?), o Bugs Bunny, claro, e o Beep-Beep e o Coiote, provavelmente o meu preferido; marcou-me tanto que, há uns anos, encontrei Vasco Granja por acaso no King e quase o abracei, em emocionado agradecimento (acabei por não o fazer).
Havia um desenho animado canadiano - ganhara um prémio qualquer que me é impossível de precisar - que me marcou bastante, ao ponto de 25 anos depois ainda me lembrar dele: uma fileira interminável de homens numa planície; todos iguais, andando um passo em frente de tanto em tanto tempo; todos iguais, excepto um, que tudo fazia para evitar dar esse passo em frente quando chegava a sua vez. Avanço até ao fim: à beira de um precipício, percebe-se que o passo em frente desemboca no vazio de uma queda. Quando chega a vez do homem, ele tudo faz para evitar cair. Mas cai.
Para sempre, Vasco Granja.


04/05/09

Distant Voices, Still Lives



Distant Voices, Still Lives é um daqueles filmes (um díptico, para sermos exactos) que parecem esperar pelo momento em que os descobrimos; uma surpresa, um deslumbramento imediato, levando-nos a pensar por que razão ainda não tinha chegado a nós. Ou então a série de acasos é ilusória - todo o bem que dizem desta obra simplesmente passara até agora despercebido.
Um filme sobre a memória - e não são todos? A imagem cinematográfica captura o presente, mas como recuperar um passado que nenhuma imagem guardou? A reinvenção é a única possibilidade. O filme é um longo sonho sobre uma vida que o realizador, Terence Davies, imagina ter vivido. Liverpoool nos anos 60, os lampejos de realismo britânico, a biografia que tece o fio narrativo - pretextos para uma tentativa de reconstrução de um mundo em perda; recuperar as ruínas. Um sonho, insisto, e quando a câmara, em lento travelling da direita para a esquerda, abandona o presente, não é apenas o espaço que fica vazio, também o tempo; o olhar de Davies foca-se numa ausência, num vazio, e no seu lugar apenas sombras restam. 
O cinema permite que o tempo se detenha na sua voracidade; a fragmentação da memória é como um conjunto de estilhaços disparado em várias direcções (a fabulosa cena do vidro a partir-se é essencial) e no final apenas podemos esperar que o tempo se reorganize respeitando uma ordem afectiva - a casa, a luz, as canções, as histórias, território repovoado, intervalos desordenadamente preenchidos.
Deve ser esta a imobilidade fulminante de que falava António Ramos Rosa.

25/04/09

Sempre

Kelly Reilly

Kelly Reilly deve ter um péssimo agente, julgando pelo trabalho que fez a seguir a Bonecas Russas, de Cédric Kaplish. Como tornar um filme mediano, uma produção tipicamente francesa, bem-comportada, em algo memorável? Convidar esta inglesa de 31 anos para o papel de mulher da vida de um homem - e entenda-se que, neste caso, a expressão se opõe a outra, a mulher dos sonhos de um homem. Reilly não é especialmente bela, não é essencialmente elegante, mas é uma actriz espantosa. De qualquer modo, nenhuma mulher desdenharia ser dona do azul daqueles olhos; e os lábios desenham no rosto qualquer coisa de essencial, inadiável. 
O mérito do filme vai todo para o director de casting que escolheu Reilly para ideal romântico (contrariado, oh ingratidão) de Romain Duris. O seu a seu dono.

Queremos Reilly em Hollywood, rapidamente e em força; Keira Knightley, quem é?