05/05/09

Vasco Granja (1925-2009)



Cresci a ver os programas de animação apresentados por Vasco Granja; os Looney Tunes, os desenhos de leste (onde é que era a Checoslováquia? como poderia conhecer esse país que apenas existia porque um apresentador de um programa de televisão me falava dele?), o Bugs Bunny, claro, e o Beep-Beep e o Coiote, provavelmente o meu preferido; marcou-me tanto que, há uns anos, encontrei Vasco Granja por acaso no King e quase o abracei, em emocionado agradecimento (acabei por não o fazer).
Havia um desenho animado canadiano - ganhara um prémio qualquer que me é impossível de precisar - que me marcou bastante, ao ponto de 25 anos depois ainda me lembrar dele: uma fileira interminável de homens numa planície; todos iguais, andando um passo em frente de tanto em tanto tempo; todos iguais, excepto um, que tudo fazia para evitar dar esse passo em frente quando chegava a sua vez. Avanço até ao fim: à beira de um precipício, percebe-se que o passo em frente desemboca no vazio de uma queda. Quando chega a vez do homem, ele tudo faz para evitar cair. Mas cai.
Para sempre, Vasco Granja.


04/05/09

Distant Voices, Still Lives



Distant Voices, Still Lives é um daqueles filmes (um díptico, para sermos exactos) que parecem esperar pelo momento em que os descobrimos; uma surpresa, um deslumbramento imediato, levando-nos a pensar por que razão ainda não tinha chegado a nós. Ou então a série de acasos é ilusória - todo o bem que dizem desta obra simplesmente passara até agora despercebido.
Um filme sobre a memória - e não são todos? A imagem cinematográfica captura o presente, mas como recuperar um passado que nenhuma imagem guardou? A reinvenção é a única possibilidade. O filme é um longo sonho sobre uma vida que o realizador, Terence Davies, imagina ter vivido. Liverpoool nos anos 60, os lampejos de realismo britânico, a biografia que tece o fio narrativo - pretextos para uma tentativa de reconstrução de um mundo em perda; recuperar as ruínas. Um sonho, insisto, e quando a câmara, em lento travelling da direita para a esquerda, abandona o presente, não é apenas o espaço que fica vazio, também o tempo; o olhar de Davies foca-se numa ausência, num vazio, e no seu lugar apenas sombras restam. 
O cinema permite que o tempo se detenha na sua voracidade; a fragmentação da memória é como um conjunto de estilhaços disparado em várias direcções (a fabulosa cena do vidro a partir-se é essencial) e no final apenas podemos esperar que o tempo se reorganize respeitando uma ordem afectiva - a casa, a luz, as canções, as histórias, território repovoado, intervalos desordenadamente preenchidos.
Deve ser esta a imobilidade fulminante de que falava António Ramos Rosa.

25/04/09

Sempre

Kelly Reilly

Kelly Reilly deve ter um péssimo agente, julgando pelo trabalho que fez a seguir a Bonecas Russas, de Cédric Kaplish. Como tornar um filme mediano, uma produção tipicamente francesa, bem-comportada, em algo memorável? Convidar esta inglesa de 31 anos para o papel de mulher da vida de um homem - e entenda-se que, neste caso, a expressão se opõe a outra, a mulher dos sonhos de um homem. Reilly não é especialmente bela, não é essencialmente elegante, mas é uma actriz espantosa. De qualquer modo, nenhuma mulher desdenharia ser dona do azul daqueles olhos; e os lábios desenham no rosto qualquer coisa de essencial, inadiável. 
O mérito do filme vai todo para o director de casting que escolheu Reilly para ideal romântico (contrariado, oh ingratidão) de Romain Duris. O seu a seu dono.

Queremos Reilly em Hollywood, rapidamente e em força; Keira Knightley, quem é?


21/04/09

Ballard



O fascínio da criança presa no campo de prisioneiros, durante a Segunda Guerra Mundial, não é muito distinto do desejo de James Ballard quando colocado perante os limites da sua Humanidade. Os dois filmes que adaptaram romances de Ballard, O Império do Sol e Crash (há uma longa-metragem realizada por Solveig Nordlund a partir de um fabuloso conto, Aparelho Voador a Baixa Altitude), evidenciam as semelhanças temáticas da fonte onde bebem e as diferenças que se relacionam com o universo de Spielberg e Cronenberg. A infância como período de descoberta e provação de Spielberg e a idade adulta enquanto tempo de transgressão e derrota; os aviões dos Kamikazes japoneses (a violência espreita) que sobrevoam o miúdo (Christian Bale), prodígio da modernidade, são imagem de uma idade de ouro da tecnologia, quando esta serve o Homem e o deslumbra, produto de uma superior inteligência; por outro lado, as viaturas que espelham o desejo de uma transcendência dos limites do corpo, os carros dançando entre si, chocando, em ambiente urbano, representam o fascínio infantil levado a um extremo hiperrealista. A prótese de Rosanna Arquette, objecto fétiche do olhar extremista de Holly Hunter, é uma hipótese de um ser que ultrapassa os limites do humano; a criança que sonha ver as brilhantes máquinas voadoras (a infância será sempre um sonho, ainda que seja na realidade um duro pesadelo) torna-se um cínico descrente, preso de um desejo que perdeu a sua pureza: a passagem para a idade adulta não será muito mais que isto.

18/04/09

À prova de morte

Contrario Steiner - a ver se acordo o Francisco - e afirmo: temos sempre novos começos. Parece que este blogue entrou em pousio. Que assim seja; apenas lhe dou o que ele pede, e nunca me deixou mal.

(Não sei por que razão agora falo com o blogue; talvez seja por, dizem, ser um diário, ou lá o que é)

Foram-se os links, e o ar continua a ser respirável; dá vontade de colar aqui um vídeo:



Boa noite a todas.